quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

História Eclesiástica - Livro 1 - Capítulos 11 a 13

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro I – Capítulos 11 a 13

XI - Testemunhos sobre João Batista e Cristo
XII - Dos discípulos de nosso Salvador
XIII - Relato sobre o rei de Edessa

13 de dezembro de 2014.



XI - Testemunhos sobre João Batista e Cristo
1. Não muito depois, Herodes o Jovem mandou decapitar João o Batista. O texto sagrado do Evangelho também o menciona[1] e Josefo o confirma, ao menos quando faz referência a Herodias e de como Herodes se casou com ela, apesar de ser mulher de seu irmão, depois de repudiar sua pri­meira e legítima esposa (filha de Aretas, rei de Petra) e de separar Hero­dias de seu marido, que ainda vivia; menciona também que por causa dela deu morte a João e promoveu uma guerra contra Aretas, cuja filha tinha desonrado.
2.             E diz ainda que nesta guerra, durante a batalha, o exército de Herodes foi desbaratado por inteiro, e que tudo isso aconteceu por ter atentado contra João.
3.             O mesmo Josefo confessa que João era um homem extremamente justo e que batizava, confirmando assim o que está escrito sobre ele no texto dos evangelhos. Menciona ainda que Herodes foi destronado por culpa da mesma Herodias, e com ela foi desterrado, condenado a habitar na cidade de Viena, na Gália[2].
4.      Isto é o que narra no mesmo livro XVIII das Antigüidades, onde escreve sobre João o que segue textualmente:
"Para alguns judeus parece que foi Deus que desbaratou o exército de Herodes, fazendo-o pagar muito justamente pelo que fez a João, chamado o Batista.
5.      Porque Herodes havia-lhe dado morte. Era um homem bom e que exortava os judeus ao exercício da virtude, a usar da justiça no trato de uns com os outros e da piedade para com Deus, e a aceitar o batismo. Porque desta maneira também o batismo lhe parecia aceitável, não como instrumento de perdão para alguns pecados, mas para a purificação do corpo, desde que a justiça já de antemão houvesse purificado a alma.
6.             E como outros se fossem aglomerando em torno de João (pois ficavam suspensos escutando suas palavras), Herodes, temeroso de que uma tal força de persuasão sobre os homens conduzisse a alguma revolta (já que em tudo pareciam proceder segundo os conselhos de João), pensou que o melhor era antecipar-se e fazê-lo matar antes que armasse uma revolução, em vez de ver-se envolto em dificuldades por uma mudança de situação e ter que se arrepender mais tarde. E João, devido à suspeita de Herodes, foi mandado prisioneiro a Maqueronte, a célebre fortaleza mais acima, e ali foi executado."
7.   Depois de explicar tudo isto a respeito de João, na mesma obra histórica menciona também nosso Salvador nos seguintes termos:
"Por este mesmo tempo viveu Jesus, homem muito sábio se é que de homem devemos chamá-lo, porque realizava obras portentosas, era mestre dos homens que recebiam com prazer a verdade e atraiu não somente muitos judeus, mas também muitos gregos.
8.    Este era o Cristo. Havendo-lhe infligido Pilatos o suplício da cruz, instigado por nossos líderes, os que primeiro o haviam amado não cessaram de amá-lo, pois ao fim de três dias novamente apareceu-lhes vivo. Os profetas de Deus tinham dito estas mesmas coisas e outras incontáveis maravilhas sobre ele. A tribo dos Cristãos, que dele tomou o nome, ainda não desapareceu até hoje."
9.  Quando um escritor saído dentre os próprios judeus transmite desde o começo em suas próprias obras estas coisas referentes a João Batista e a nosso Salvador, que subterfúgio resta aos que tramaram contra eles as Memórias, sem que fique evidente seu descaramento? Mas seja bastante o que foi dito.

XII - Dos discípulos de nosso Salvador
1.            Dos apóstolos do Salvador, pelo menos os nomes aparecem claramente em todos os evangelhos[3]. Dos setenta discípulos por outro lado, em nenhum lugar se encontra lista alguma; mesmo assim, sabe-se ao menos que Barnabé era um deles; dele fazem menção especial os Atos dos Apóstolos[4], igual­mente Paulo quando escreve aos Gálatas[5]. Dizem ainda que também Sóstenes, um dos que escrevem com Paulo aos Coríntios, era um deles[6].
2.            A referência se encontra em Clemente, no livro V das Hypotyposeis, onde afirma que também Cefas - de quem Paulo diz: Mas quando Cefas veio a Antioquia, enfrentei-me com ele[7]-, era um dos setenta discípulos e que sua homonímia com o apóstolo Pedro era casual.
3.            E um documento[8] ensina também que Matias - o que foi juntado à lista dos apóstolos em substituição a Judas - e o outro que com ele teve a honra de disputar a sorte foram dignos de serem dos setenta[9]. Diz-se ainda[10] que também Tadeu era um deles, sobre este chega a nós um relato que exporei em seguida[11].
4.     Mas observando bem, encontraremos que os discípulos do Salvador eram muito mais do que os setenta, aceitando o testemunho de Paulo, que diz que depois de sua ressurreição dentre os mortos apareceu primeiro a Cefas, depois aos doze, e depois destes a mais de quinhentos irmãos juntos, sobre os quais afirmava que alguns já tinham morrido, mas que a maior parte ainda vivia no tempo em que ele escrevia estas coisas[12].
5.     Depois diz que apareceu a Tiago. Pois bem, este era também um dos men­cionados irmãos do Salvador. Portanto, de qualquer forma, os apóstolos à imagem dos doze eram muitos mais - o próprio Paulo o era -, prossegue dizendo: depois apareceu a todos os apóstolos. Sobre este tema, baste o que foi dito.

XIII - Relato sobre o rei de Edessa
1.             O relato acerca de Tadeu[13] é como segue. A fama da divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, devido ao seu poder milagroso, alcançou a todos os homens, e com a esperança de cura de suas enfermidades e moléstias de toda espécie, atraía a inumeráveis pessoas que habitavam inclusive no estrangeiro, muito longe da Judéia.
2.             Nestas condições se achava o rei Abgaro, que reinava excelentemente sobre os povos do outro lado do Eufrates e tinha seu corpo destroçado por uma doença terrível e incurável para o poder humano. Assim que chegaram a ele notícias recorrentes sobre o nome de Jesus e os milagres unanimemente testemunhados por todos, converteu-se em seu suplicante, enviando um mensageiro com uma carta na qual pedia para ver-se livre da enfermidade.
3.      Mas Jesus não atendeu de imediato a seu chamamento. Mesmo assim, fez-lhe a honra de uma carta de próprio punho e letra na qual prometia enviar-lhe um de seus discípulos que o curaria da enfermidade e ao mesmo tempo levaria a salvação para ele e para os seus.
4.      Não passou muito tempo sem que Jesus cumprisse sua promessa. Depois de sua ressurreição de entre os mortos e de sua ascensão aos céus, Tomás, um dos doze apóstolos, movido por Deus, enviou à região de Edessa Tadeu -que também era um dos setenta discípulos de Cristo - como arauto e evangelista da doutrina de Cristo, e por meio dele se cumpriu o que o Sal­vador havia prometido.
5.      Temos de tudo isto testemunho escrito, tirado dos arquivos de Edessa, que naquele tempo era a corte. Nos documentos públicos que neles se guardam e que contém os feitos antigos e dos tempos de Abgaro, encontra-se também o referido testemunho, conservado deste então e até hoje. Mas nada melhor do que ouvir as próprias cartas que tiramos dos arquivos e que, traduzidas do siríaco[14], dizem textualmente como segue:
      Cópia da carta escrita por Abgaro, toparca, a Jesus e enviada a Jerusalém pelo mensageiro Ananías.
6.      "Abgaro Ucama[15], toparca, a Jesus, o bom salvador que surgiu na região de Jerusalém, saudações: Tem chegado a meus ouvidos notícias acerca de tua pessoa e de tuas curas, que, ao que parece, realizas sem empregar remédios ou ervas, pois pelo que se conta, fazes com que os cegos recobrem a visão e que os coxos andem; limpas os leprosos e retiras espíritos impuros e demô­nios; curas os que estão atormentados por longa enfermidade e ressuscitas mortos.
7.      E eu, ao ouvir tudo isto de ti, pus-me a pensar que, de duas possibilidades uma: ou és Deus, que descendo pessoalmente do céu realizas estas mara­vilhas, ou és filho de Deus, já que fazes tais obras.
8.      Este é, pois, o motivo para escrever-te rogando-te que te apresses a vir a mim e curar-me do mal que me aflige. Porque também tenho ouvido que os judeus andam murmurando contra ti e querem fazer-te mal. Muito pequena é minha cidade, mas digna, e bastará para os dois[16]."
9.      Esta é a carta que Abgaro escreveu, iluminado então por um pouco de luz divina. Mas será bom que escutemos a carta que Jesus enviou a ele pelo mesmo correio, carta de poucas linhas, mas de muita força, cujo teor é o que segue:
Resposta de Jesus a Abgaro, toparca, por meio do mensageiro Ananías.
10. "Bem-aventurado tu, que creste em mim sem ter me visto. Porque de mim está escrito que os que me viram não crerão em mim, e que aqueles que não me viram crerão e terão a vida. Mas, acerca do que me escreves de ir para junto de ti, é necessário que eu cumpra aqui por inteiro minha missão e que, depois de havê-la consumado, suba novamente ao que me enviou[17]. Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença
e trará a vida a ti e aos teus."
11. A estas cartas estava anexado ainda, em siríaco, o seguinte:
"Depois da ascensão de Jesus, Judas, chamado também Tomás, enviou-lhe como apóstolo a Tadeu, um dos setenta, o qual chegou e se hospedou na casa de Tobías, filho de Tobías. Quando se espalhou a notícia sobre ele, avisaram a Abgaro que havia chegado ali um apóstolo de Jesus, como tinha sido descrito na carta.
12. Começou pois Tadeu, com o poder de Deus[18], a curar toda enfermidade e fraqueza, ao ponto de todos se admirarem. Mas, quando Abgaro ouviu falar dos prodígios e maravilhas que operava e de que também curava, veio-lhe a suspeita de se seria o mesmo do qual Jesus falava na carta, ali onde dizia: Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença.
13.     Fez pois chamar a Tobías, em cuja casa se hospedava, e lhe disse: Tenho ouvido dizer que veio certo homem poderoso e que se aloja em tua casa. Traga-o a mim. Foi-se Tobías para junto de Tadeu e lhe disse: O toparca Abgaro mandou chamar-me e me ordenou que te levasse até ele para que o cures; e Tadeu respondeu-lhe: Subirei, posto que fui enviado a ele com poder."
14.     "No dia seguinte Tobías madrugou, e tomando consigo a Tadeu, foi até Abgaro. Entrou Tadeu, estando ali presentes de pé os nobres do rei, e no momento de fazer sua entrada, uma grande visão apareceu a Abgaro no rosto do apóstolo Tadeu. Ao vê-la, Abgaro se prosternou ante Tadeu, deixan­do em suspenso todos os que o rodeavam, pois eles não haviam contemplado a visão, que só se mostrou a Abgaro.
15.     Este perguntou a Tadeu: És tu em verdade discípulo de Jesus, o filho de Deus, o que me disse: te mandarei algum de meus discípulos que te curará e te dará vida? E Tadeu respondeu: Porque é muito grande a tua fé naquele que me enviou, por isso fui enviado a ti. E se ainda crês nele, segundo a fé que tenhas, assim verás cumpridas as súplicas de teu coração.
16.     E Abgaro respondeu-lhe: de tal maneira cri nele, que quis tomar um exército e aniquilar os judeus que o crucificaram, se não me tivesse feito desistir o medo ao Império romano. E Tadeu lhe disse: Nosso Senhor cumpriu a vontade do Pai, e uma vez cumprida, subiu ao Pai.
17.     Disse-lhe Abgaro: Também cri nele e em seu Pai, e Tadeu disse: Por isto vou pôr minha mão sobre ti em seu nome. E assim que o fez, no mesmo instante curou-se o rei de sua enfermidade e das dores que tinha.
18.     E Abgaro se maravilhou, porque tal como tinha ouvido dizer sobre Jesus, assim acabava de experimentar de fato por obra de seu discípulo Tadeu, que o tinha curado sem remédios nem ervas. E não somente a ele, mas também a Abdon, filho de Abdon, que sofria de gota e que, aproximando-se também de Tadeu, caiu a seus pés, suplicou com suas mãos e foi curado. E muitos outros concidadãos curou Tadeu, operando maravilhas e proclamando a palavra de Deus.

19.      Depois disso disse Abgaro: Tadeu, tu fazes estes milagres com o poder de Deus, e nós ficamos maravilhados. Mas eu te rogo que também nos dês alguma explicação sobre a vinda de Jesus, como foi, e também sobre seu poder: em virtude de que poder operava ele os prodígios de que ouvi falar.
20.  E Tadeu respondeu: Agora guardarei silêncio. Mas amanhã, já que fui enviado para pregar a palavra, convoca em assembléia todos teus concidadãos, e eu pregarei diante deles, e neles semearei a palavra da vida: sobre a vinda de Jesus: como foi; e sobre sua missão: por que o Pai o enviou; e sobre seu poder, suas obras e os mistérios de que falou no mundo: em virtude de que poder realizava isto; e sobre a novidade de sua mensagem, de sua humildade e humilhação: como se humilhou a si mesmo depondo e reduzindo sua divindade, e como foi crucificado e desceu ao Hades, e fez saltar o ferrolho que desde sempre prevalecia e ressuscitou mortos, e como, tendo descido só, subiu a seu Pai com uma grande multidão.
21. Mandou pois Abgaro que ao amanhecer se reunissem todos seus cidadãos e que escutassem a pregação de Tadeu, e ordenou que lhe dessem ouro e prata sem poupar. Mas ele não o aceitou e disse: Se deixamos o nosso, como poderíamos tomar o alheio?
Corria o ano de 340.[19]
22. Baste para o momento este relato, que não será inútil, traduzido literalmente da língua Siríaca.


O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?











[1] Mt 14:1; Mc 6:14-29; Lc 3:19-20; 9:7-9.
[2] Engana-se o autor. Quem foi desterrado para Viena foi Arquelau; Herodes o Jovem foi desterrado para Lion (Lugdunum).
[3] Mt 10:2-4; Mc 3:16-19; Lc 6:14-16.
[4] At 4:36; 9:27; 11:22-30; 12:25; 13:15.
[5] Gl 2:1, 9, 13.
[6] 1 Co 1:1.
[7] Gl 2:11.
[8] Significando tradição passada por escrito.
[9] At 1:23-26.
[10] Tradição oral, sem registro escrito.
[11] Para Mt 10:3 e Mc 3:14, 18. Tadeu era um dos doze, mas em Lucas ele não aparece.
[12] 1 Co 15:5-7.
[13] Cf. 12:3.
[14] Eusébio provavelmente copiou os documentos já traduzidos anteriormente.
[15] Abgaro o Negro.
[16] Gn 19:20.
[17] At l:2-ss.;Jo 16:5.
[18] Mt 10:1.
[19] Isto seria os anos 28-29 d.C; o texto segue a Era Selêucida, iniciada em 1º de outubro de 312a.C.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

12 - História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia Livro I – Capítulos 8 a 10

11
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro I – Capítulos 8 a 10

VIII - Do infanticídio cometido por Herodes e o final catastrófico de sua vida.
IX - Dos tempos de Pilatos.
X - Dos sumos sacerdotes dos judeus sob os quais Cristo ensinou.

 
06 de dezembro de 2014

VIII - Do infanticídio cometido por Herodes e o final catastrófico de sua vida

1.            Nascido Cristo em Belém de Judá, conforme as profecias[1] no tempo men­cionado, Herodes, ante a pergunta dos magos vindos do Oriente que queriam saber onde se achava o nascido rei dos judeus - porque tinham visto sua estrela, e o motivo de sua viagem tão longa era seu empenho em adorar como Deus ao recém-nascido -, bastante perturbado pelo assunto, como se estivesse em perigo sua soberania - ao menos era o que ele realmente pensava -, depois de informar-se com os doutores da lei dentre o povo onde esperavam que haveria de nascer o Cristo, assim que soube que a profecia de Miquéias indicava Belém, ordenou mediante um edito matar os meninos de peito de Belém e redondezas, de dois anos para baixo, segundo o tempo exato indicado pelos magos, pensando que também Jesus, como era natu­ral, teria certamente a mesma sorte que os outros meninos de sua idade.
2.            Mas o menino, levado para o Egito, adiantou-se ao plano: um anjo apareceu a seus pais indicando-lhes de antemão o que iria acontecer. Isto é o que nos ensina a Sagrada Escritura do Evangelho[2].
3.            Mas, além disso, é conveniente dar uma olhada na resposta pelo atrevimento de Herodes contra Cristo e os meninos de sua idade. Imediatamente depois, sem a menor demora, a justiça divina o perseguiu quando ainda transbordava de vida e lhe mostrou o prelúdio do que o aguardava para depois de sua saída desta vida.
4.            Não é possível resumir agora as sucessivas calamidades domésticas com que se enevoou a suposta prosperidade de seu reino: os assassinatos de sua mulher, de seus filhos e de outras pessoas muito próximas a sua família por parentesco e por amizade. O que se pode supor a respeito disso deixa à sombra qualquer representação trágica. Josefo o explica extensamente em seus relatos históricos.
5.            Mas sobre como um flagelo divino o arrebatou e ele começou a morrer já desde o momento em que conspirou contra nosso Salvador e contra os demais meninos, será bom escutar as palavras do próprio escritor, que no livro XVII de suas Antigüidades judaicas descreveu o final catastrófico da vida de Herodes como segue:
"A doença de Herodes fazia-se mais e mais virulenta. Deus vingava seus crimes.
6.            Com efeito, era um fogo suave que não denunciava ao tato dos que o apal­pavam um abrasamento como o que por dentro aumentava sua destruição; e logo uma vontade terrível de comer algo, sem que nada lhe servisse, ulcerações e dores atrozes nos intestinos, e sobretudo no ventre, com inchaço úmido e reluzente nos pés.
7.     Em torno do baixo-ventre tinha uma infecção parecida; mais ainda, suas partes pudendas estavam podres e criavam vermes. Sua respiração era de uma rigidez aguda e extremamente desagradável pela carga de supuração e por sua forte asma; em todos os membros sofria espasmos de uma força insuportável.
8.      O certo é que os adivinhos e os que têm sabedoria para predizer estas coisas diziam que Deus estava fazendo-se pagar pelas muitas impiedades do rei." Isto é o que o autor citado anota na mencionada obra.
9.      E no livro segundo de seus relatos históricos nos dá uma tradição parecida acerca do mesmo assunto, escrevendo assim:
"Então a enfermidade se apoderou de todo o seu corpo e foi destroçando-o com variados sofrimentos. A febre na verdade era fraca, mas era insuportável a comichão em toda a superfície do corpo, as dores contínuas do ventre, os edemas dos pés, como de um hidrópico, a inflamação do baixo-ventre e a podridão verminosa de suas partes pudendas, ao que se deve acrescentar a asma, a dispnéia e espasmos em todos seus membros, ao ponto de os adivinhos dizerem que estes sofrimentos eram um castigo.
10. Mas ele, mesmo lutando com tais padecimentos, ainda se aferrava à vida, e
esperando salvar-se imaginava curas. Atravessou o Jordão e utilizou as águas termais de Calirroe. Estas vão desaguar no mar do Asfalto[3], e como são doces são também potáveis.
11.     Ali os médicos decidiram aquecer com azeite quente todo seu purulento corpo em uma banheira cheia de azeite; desmaiou e revirou os olhos, como se estivesse acabado. Armou-se grande alvoroço entre os criados, e com o ruído voltou a si. Renunciando desde então à cura, mandou distribuir a cada soldado 50 dracmas e muito dinheiro aos chefes e a seus amigos.
12.     Regressou então e chegou a Jericó, já vítima da melancolia e ameaçado pela morte. Pôs-se a tramar uma ação criminosa. De fato, fez reunir os notáveis de cada aldeia de toda a Judéia e mandou encerrá-los no chamado hipódromo.
13.     Chamando depois sua irmã Salomé e seu marido Alexandre, disse: Sei que os judeus festejarão minha morte, mas posso ainda ser pranteado por outros e ter uns funerais esplêndidos se vocês atenderem minhas ordens. Assim que eu expirar, fazei com que cada um dos homens aqui detidos seja imediatamente cercado por soldados e fazei com que os matem, para que a Judéia inteira e cada casa, ainda que à força, chore por mim."
14.     E um pouco mais adiante diz:
"Depois, torturado também pela falta de alimento e por uma tosse espasmódica e abatido pelas dores, tramava antecipar a hora fatal. Pegou uma maçã e pediu uma faca, pois tinha o costume de cortá-la para comê-la. Depois, olhando em volta por medo de que houvesse alguém para impedi-lo, levantou sua mão direita com a intenção de ferir-se."
15.     Além destes detalhes, o mesmo escritor refere que, antes de morrer de todo, mandou que matassem outro de seus filhos legítimos, terceiro que somou aos outros dois já assassinados anteriormente[4], e no mesmo momento, de repente e entre enormes dores, expirou[5].
16. Assim foi o final de Herodes, justo e merecido pelo infanticídio perpetrado em Belém por atentar contra nosso Salvador. Depois disto, um anjo se apresentou em sonhos a José, que vivia no Egito, e ordenou-lhe partir com o menino e sua mãe para a Judéia, explicando-lhe que estavam mortos os que buscavam a morte do menino, ao que acrescenta o evangelista: Porém, ouvindo que Arquelau reinava no lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá, mas avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galiléia[6].

IX - Dos tempos de Pilatos

1.           O historiador acima citado corrobora a notícia da subida de Arquelau ao poder depois de Herodes e descreve de que maneira, por testamento de seu pai Herodes e por decisão de César Augusto, recebeu em sucessão o reino judeu, e como, tirado do poder após dez anos, seus irmãos Felipe e Herodes o Jovem, junto com Lisanias, governaram suas próprias tetrarquias.
2.     O mesmo Josefo, no livro XVIII de suas Antigüidades, declara que no ano 12 do império de Tibério (pois foi este o sucessor no Império, depois dos cinqüenta e sete anos de reinado de Augusto), Pôncio Pilatos obteve o governo da Judéia, no qual se manteve por dez anos completos, quase até a morte de Tibério.
3.           Portanto está claramente refutada a patranha dos que agora, ultimamente, divulgaram umas Memórias contra nosso Salvador, nas quais a própria data anotada é a primeira prova da mentira de tal farsa.
4.     De fato, situam suas atrevidas invenções acerca da paixão do Salvador no quarto consulado de Tibério, que coincide com o sétimo ano de seu reinado, tempo no qual está demonstrado que Pilatos não tinha ainda se apresentado na Judéia, ao menos se tomarmos Josefo como testemunha, que claramente assinala em seu livro já citado que Tibério instituiu Pilatos governador da Judéia justamente no décimo segundo ano de seu império.

X - Dos sumos sacerdotes dos judeus sob os quais Cristo ensinou

1.            Foi portanto nestes tempos, segundo o evangelista[7], estando Tibério César no décimo quinto ano de seu império e Pilatos no quarto ano de sua procuração, e sendo tetrarcas do resto da Judéia Herodes, Lisanias e Felipe, que nosso Salvador e Senhor Jesus, o Cristo de Deus, tendo cerca de trinta anos[8], se apresentou para o batismo com João[9] e deu início então à procla­mação do Evangelho[10].
2.     Diz ainda a divina Escritura que todo o tempo de seu ensino transcorreu durante o sumo sacerdócio de Anás e Caifás[11], mostrando que efetivamente todo o tempo de seu ensino se cumpriu nos anos em que estes exerceram seus cargos. Portanto, começou durante o sumo sacerdócio de Anás e continuou até o começo do de Caifás, o que não chega a dar um intervalo de quatro anos completos.
3.             De fato, como as normas legais naquele tempo estavam já de certa forma relaxadas, havia-se quebrado aquela segundo a qual os cargos referentes ao culto de Deus seriam vitalícios e por sucessão hereditária, e os governadores romanos investiam com o sumo sacerdócio pessoas diferentes e em tempos também diferentes, sem que durassem no cargo mais de um ano.
4.      Relata pois Josefo, que depois de Anás se sucederam quatro sumos sacerdotes até Caifás. Na mesma obra Antigüidades escreve o seguinte:
"Valério Grato destituiu do sacerdócio a Anás e tornou sumo sacerdote a Ismael, filho de Fabi; mas trocando também este ao cabo de pouco tempo, designa como sumo sacerdote a Eleazar, filho do sumo sacerdote Anás.
5.             Mas transcorrido um ano, destituiu também a este e entregou o sumo sacerdócio a Simão, filho de Camito. Mas nem para este durou a honra do cargo mais de um ano, sendo seu sucessor José, também chamado Caifás."
6.             Por conseguinte, está demonstrado que todo o tempo do ensino de nosso Salvador não chega a quatro anos completos, posto que desde Anás até a nomeação de Caifás foram quatro os sumos sacerdotes que, em quatro anos, exerceram o cargo anual. Tem razão o texto evangélico ao menos em apontar Caifás como sumo sacerdote do ano que se cumpriu a paixão do Salvador[12]. Por não discordar da observação precedente, fica também corroborada a duração do ensino de Cristo.
7.             Além disso, nosso Salvador e Senhor chama os doze apóstolos pouco depois do início de seu ensino, e somente a eles dentre os demais discípulos, por privilégio especial, deu o nome de apóstolos[13]. Depois designou outros setenta, e também a estes enviou, de dois em dois, adiante dele a todo lugar e cidade por onde ele iria[14].

O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?




[1] Mq 5:l (5:2); Mt 2:5-6.
     [2] Mt 2:1-7; 16:13-15.
     [3] O Mar Morto.
[4] No ano 29 a.C. Herodes matou sua segunda esposa, Mariana; em 7 a.C. os filhos que teve dela, Alexandre e Aristóbulo, e apenas cinco dias antes de sua morte, em 4 a.C. matou Antípatro, filho de sua primeira mulher, Doris.
[5] Aos setenta anos, provavelmente em março ou abril de 4 a.C.
[6] Mt 2:22.
[7] Lc3:1.
[8] Lc 3:23.
[9] Mt 3:13.
[10] Mt 4:17; Mc 1:14.
[11] Lc 3:2; Mt 26:57.
[12] Mt 26:3-57; Jo 11:49; 18:13, 24, 28.
[13] Mt 10:1-ss.; Mc 3:14-ss.; Lc 6:13; 9:1-ss.
[14] Lc 10:1.