quinta-feira, 11 de agosto de 2016

45 - História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia - Livro VII – Capítulos 24 e 25.

Livro VII
45
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro VII – Capítulos 24 e 25


XXIV - De Népos e seu cisma
1. Além de tudo isto, escreveu também os dois livros Sobre as promessas, cujo tema era Népos, bispo dos do Egito, que ensinava que as promessas feitas aos santos nas divinas Escrituras devem ser interpretadas mais ao modo judeu, e supunha que haveria um milênio de delícias corpóreas sobre esta terra seca.
2.            Em todo caso, acreditando reforçar sua própria suposição com o Apocalipse de João, compôs sobre ele uma obra que intitulou Refutação dos alegoristas.
3.            Contra esta obra ergue-se Dionísio em seus livros Sobre as promessas. No primeiro expõe seu próprio pensamento sobre a doutrina, e no segundo discute acerca do Apocalipse de João. Nele faz menção a Népos no começo, e escreve o seguinte sobre ele:
4.     "Mas como quer que aleguem certo livro de Népos no qual se apóiam mais do que deveriam, como se demonstrasse irrefutavelmente que o reinado de Cristo será sobre a terra, em muitas outras coisas aprovo Népos e o amo: por sua fé, por sua laboriosidade, por seu estudo sério das Escrituras e por sua numerosa produção de hinos, com os quais muitos irmãos vêm se reconfortando até hoje, e meu respeito pelo homem é absoluto, ainda mais estando já morto. Porém, como a verdade me é mais querida e mais estimada do que todas as coisas, deve-se louvá-lo e estar de acordo com ele, sem reservas, se diz algo retamente, mas também, se em algo não parece correto o que escreveu, deve-se examiná-lo e corrigi-lo.
5.            Para com alguém que está presente e que se explica por palavra, poderia ser suficiente uma conversação oral, que a base de perguntas e respostas vai persuadindo e reduzindo os contendores; mas havendo no meio um escrito, e muito persuasivo segundo alguns, e contando de outra parte com alguns mestres que, em nada estimando a Lei e os Profetas, deixando de seguir os Evangelhos e desprezando as Cartas dos apóstolos, proclamam sem mais o ensinamento deste livro como um grande e oculto mistério, e não permitem a nossos irmãos mais simples ter pensamentos elevados e magníficos sobre a manifestação gloriosa e realmente divina de nosso Senhor, nem de nossa ressurreição dentre os mortos nem de nossa reunião e configuração com Ele, mas os persuadem a esperar coisas mínimas e mortais, como são as presentes, no reino de Deus, é necessário que também nós discutamos com nosso irmão Népos como se estivesse presente."
6.   Ao dito acrescenta, depois de outras coisas, o seguinte:
"Assim pois, achando-me em Arsinoé, onde, como sabes, há muito prevalece esta doutrina, até o ponto de que ocorreram cismas e apostasias de igrejas inteiras, convoquei os presbíteros e mestres dos irmãos das aldeias, e estando presentes também os irmãos que queriam, exortei-os a realizar em público o exame da doutrina.
7.             Ao me apresentarem este livro como arma e muro inatacável, estive com eles três dias em sessão contínua, da aurora ao anoitecer, tentando emendar o que estava escrito.
8.      Pude então admirar sobremaneira o equilíbrio, o amor à verdade, a facili­dade de compreensão e a inteligência dos irmãos quando, por ordem e com moderação, desenvolvíamos as perguntas, as objeções e os pontos de coincidência; por um lado, tínhamos nos recusado a nos aterrarmos obstinada e insistentemente às decisões tomadas uma só vez, ainda que isto não nos parecesse justo; e por outro, também não evitávamos as objeções, mas na medida do possível tentávamos abordar os temas propostos e dominá-los; e tampouco nos envergonhávamos de mudar de idéia e concordar se a razão o exigisse, antes, com a melhor consciência, sem disfarces e com o coração aberto a Deus, aceitávamos o que ficasse estabelecido pelas argumentações e pelos ensinamentos das Santas Escrituras.
9.      E por último, o líder e introdutor desta doutrina, o chamado Coracion, con­fessou e atestou para que todos os irmãos presentes ouvissem que não mais se entregaria a isto, nem discutiria sobre isto, nem o recordaria nem ensinaria, pois estava suficientemente convencido pelos argumentos opostos. E dos outros irmãos, uns se alegravam do colóquio, assim como da condescen­dência e disposição comum para com todos..."

XXV - Sobre o Apocalipse de João
1.   Logo continuando, pouco mais abaixo, diz o seguinte sobre o Apocalipse de João:
"Assim pois, alguns dos nossos antecessores rechaçaram como espúrio e desacreditaram por completo o livro, examinando capítulo por capítulo e declarando que era ininteligível e ilógico, e seu título enganoso.
2.            Dizem mesmo que não é de João e que tampouco é Apocalipse[1], estando como está bem velado com o grosso manto da ignorância, e que o autor deste escrito não só não foi nenhum dos apóstolos, mas que nem sequer nenhum santo ou membro da Igreja em absoluto, mas Cerinto[2], o mesmo que instituiu a heresia cerintiana e que quis dar credibilidade a sua própria invenção com um nome digno de fé.
3.     Na verdade, a doutrina que ele ensina é esta: o reino de Cristo será terreno; e como ele era um amante de seu corpo e inteiramente carnal, sonhava que consistiria no mesmo que ele desejava: fartura do ventre e do que está abaixo do ventre, ou seja: de comidas, de bebidas, de uniões carnais e de tudo aquilo com que lhe parecia que se procurariam estas coisas de uma forma mais bem sonante: festas, sacrifícios e imolação de vítimas.
4.     Eu, de minha parte, não poderia me atrever a rechaçar o livro, pois são mui­tos os irmãos que o tomam a sério, mas ainda admitindo que o pensamento que encerra excede minha própria inteligência, suponho que o sentido de cada passagem está em certo modo encoberto e é bastante admirável, porque, mesmo que não o compreenda, ainda assim suspeito ao menos que nas palavras se encerra alguma intenção mais profunda.
5.            Não meço isto nem o julgo com minha própria razão, mas, ainda outorgando a superioridade à fé, cheguei à conclusão de que isto está demasiado alto para ser concebido por mim. E eu não reprovo o que não compreendi, antes até o admiro mais, porque nem sequer o vi."
6.     Depois disto e depois de examinar todo o livro do Apocalipse e demonstrar que é impossível entendê-lo segundo seu sentido óbvio, continua dizendo: "Depois de concluir toda sua - por assim dizer - profecia, o profeta declara bem-aventurados os que a guardam e também, é verdade, a si mesmo: Bem-aventurado - diz, efetivamente - o que guarda as palavras da profecia deste livro, e eu, João, que estou vendo e escutando estas coisas[3].
7.     Portanto, não contradirei que ele se chamava João e que este livro é de João. Porque inclusive estou de acordo de que é obra de um homem santo e inspirado por Deus. Mas eu não poderia concordar facilmente em que este fosse o apóstolo, o filho de Zebedeu e irmão de Tiago, de quem é o Evangelho intitulado de João e a Carta católica.
8.            De fato, pelo caráter de um e de outro, pelo estilo e pela chamada disposi­ção geral do livro, conjeturo que não é o mesmo, já que o evangelista em nenhuma parte escreve seu nome nem prega a si mesmo: nem no Evangelho nem na Carta."
9.            Logo, um pouco mais abaixo, outra vez diz assim:
"Mas João de nenhuma maneira, nem em primeira nem em terceira pessoa. Porém, o que escreveu o Apocalipse, imediatamente se põe adiante, já no começo: Revelação de Jesus Cristo, que foi dada para mostrar prontamente a seus servos, e que foi revelada enviada por meio de seu anjo a seu servo João, o qual deu testemunho da palavra de Deus e de seu testemunho: tudo o que viu[4].
10. Logo escreve também uma carta: João às sete igrejas que estão na Ásia. Graça e paz a vós outros[5]. Mas o evangelista nem no cabeçalho de sua Carta católica escreveu seu nome, mas começou sem mais pelo próprio mistério da revelação divina: O que era desde o princípio, o que temos ouvido, que vimos com nossos próprios olhos[6]. Por motivo desta revela­ção, efetivamente, o Senhor chamou bem-aventurado a Pedro quando disse:
Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, pois nem a carne nem o sangue to revelaram, mas meu Pai celestial[7].
11. Mas ocorre que nem na segunda nem na terceira Carta que se consideram de João, ainda que breves, aparece João por seu nome, mas de uma forma anônima achamos escrito: o presbítero[8]. Por outro lado, este outro não achou suficiente nomear-se uma vez só e seguir a explicação, mas repete novamente: Eu, João, vosso irmão e co-partícipe na tribulação, no reino e na paciência de Jesus, estive na ilha chamada Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus[9]. E ainda, mesmo perto do final, diz o seguinte: bem-aventurado o que guarda as palavras da profecia deste livro, e eu, João, o que está vendo e ouvindo estas coisas[10].
12. Portanto, que é João que escreve isto, temos que crê-lo pois ele o diz; mas não está claro quem seja este, pois não diz, como em muitas passagens do Evangelho, que ele é o discípulo amado pelo Senhor, o que se reclinou sobre seu peito, o irmão de Tiago, a testemunha ocular e ouvinte direto do Senhor.
13. Porque teria dito algo do que acabamos de indicar se quisesse dar-se a conhecer claramente. E mesmo assim, nada disto, antes se disse irmão e companheiro nosso, testemunha de Jesus e feliz por haver contemplado e ouvido as revelações.
14. Eu creio que houve muitos com o mesmo nome do apóstolo João, os quais, por amor a ele e por admirá-lo e escutá-lo e por querer ser amados como ele pelo Senhor, afeiçoaram-se a esse mesmo nome, da mesma forma que entre os filhos dos fiéis abundam os nomes de Paulo e Pedro.
15. Assim pois, nos Atos dos apóstolos há também outro João, de sobrenome Marcos,[11] a quem Barnabé e Paulo tomaram consigo e sobre o qual chega a dizer: E tinham também a João como servidor[12]. Pois bem, se foi este o autor, eu não diria, porque não está escrito que chegou com eles à Ásia, mas diz: Navegando desde Pafos, Paulo e seus companheiros chegaram a Perges da Panfília, enquanto que João se separou deles e voltou a Jerusalém[13].
16. Eu creio que foi outro dos que viveram na Ásia. Diz-se que em Éfeso havia dois sepulcros e que cada um dos dois era atribuído a João[14].
17. E pelos pensamentos, pelas palavras e por sua ordenação, compreende-se naturalmente que um é pessoa diferente do outro. Efetivamente o Evangelho e a Carta concordam entre si.
18.     E ambos começam igual. Aquele diz: No princípio era o Verbo[15]; e aquele diz: e o Verbo se fez carne e plantou sua tenda entre nós e contemplamos sua glória, glória como do unigênito do Pai[16]; e esta as mesmas palavras um pouco mudadas: o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos apalparam acerca do Verbo da vida, e a vida se manifestou...[17].
19.     Porque isto é o que põe como prelúdio, apontando, segundo o que demons­trou em seguida, aos que andavam dizendo que o Senhor não tinha vindo na carne, pelo que teve também o cuidado de acrescentar: E o que vimos ates­tamos, e vos anunciamos a vida eterna, a que estava no Pai e manifestou-se-nos. O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros[18].
20. Mantém-se fiel a si mesmo e não se aparta daquilo a que se propôs, mas tudo vai explicando com os mesmos princípios e as mesmas expressões, algumas das quais vamos recordar brevemente:
21. Quem se aplique a ler encontrará em um e na outra muitas vezes as expres­sões: 'a vida', 'a luz', 'afastamento das trevas'; e continuamente: 'a verdade', 'a graça', 'a alegria', 'a carne e o sangue do Senhor', 'o juízo', 'o perdão dos pecados', 'o amor de Deus para conosco, o mandamento de amarmos uns aos outros' e que 'há que se guardar todos os mandamentos'; a refutação do mundo, do diabo e do anticristo, a promessa do Espírito Santo, a adoção como filhos por parte de Deus, a fé, que nos é exigida absolutamente; o Pai e o Filho, por todas as partes. E em uma palavra: é evidente que quem se atém a todas suas características vê que tanto o Evangelho como a Carta apresentam uma mesma e única coloração.
22. Por outro lado, o Apocalipse é muito diferente e alheio a estes escritos. Não está ligado a nenhum deles nem lhes tem afinidade, e quase, por assim dizer, nem uma sílaba tem em comum com eles.
23. Porque assim é que nem a Carta (deixemos já o Evangelho) tem a menor menção ou o menor pensamento sobre o Apocalipse, nem o Apocalipse sobre a Carta, enquanto que Paulo deixa entrever em suas Cartas algo sobre suas revelações, ainda que não as tenha consignado por si mesmas[19].
24. Mas inclusive pelo estilo é possível ainda reconhecer a diferença do Evangelho e da Carta com respeito ao Apocalipse.
25. Aqueles, efetivamente, não somente estão escritos sem faltas contra a língua grega, mas inclusive com a máxima eloqüência por sua dicção, seus raciocínios e a construção de suas expressões. Pelo menos estão muito longe de que se encontre neles algum vocábulo bárbaro, um solecismo, ou de modo geral, um vulgarismo, pois seu autor, segundo parece, possuía os dois saberes, por haver o Senhor lhe outorgado ambos graciosamente: o do conhecimento e o da linguagem.
26.    Quanto ao outro, não lhe negarei que viu revelações e que recebeu conhe­cimento e profecia; não creio porém que seu estilo e sua língua sejam exatamente gregas, antes utiliza idiotismos bárbaros e em algumas partes inclusive comete solecismos. Não é preciso agora dar uma seleção,
27. já que tampouco disse isto por zombaria (que ninguém pense isso) mas unicamente para estabelecer a desigualdade destes escritos."

1.    O que te chamou mais atenção neste texto?
2.    Como ele contribuiu para sua espiritualidade?




[1] Isto é, "Revelação".
[2] Daqui até o final do parágrafo já foi citado em III:XXVIII:4-5.
[3] Ap 22:7-8. Ao contrário do que diz Dionísio, a frase "e eu, João..." não pertence à oração anterior, mas começa uma nova.
[4] Ap 1:1-2.
[5] Ap 1:4.
[6] 1 Jo 1:1.
[7] Mt 16:17.
[8] 2 Jo l;3 Jo 1.
[9] Ap 1:9.
[10] Ap 22:7-8.
[11] At 12:25.
[12] At 13:5.
[13] At 13:13.
[14] Vide III:XXXIX:6.
[15] 1 Jo 1:1.
[16] Jo 1:14.
[17] 1 Jo 1:1-2.
[18] 1 Jo 1:2-3.
[19] 2 Co 12:1-9; Gl 1:12; 2:2; Ef 3:3.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Estudo 44 da OESI - História Eclesiástica - Livro VII - Capítulos 16-23

44
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro VII – Capítulos 16- 23

XVI - A história de Astirio
1. Ali também[20] Astirio é lembrado por sua grande franqueza, agradável a Deus. Era membro do senado romano, favorito dos imperadores e conhecido de todos por sua nobre linhagem e por suas propriedades. Achava-se presente quando se executou o mártir, e apoiando o ombro, levantou o cadáver sobre sua esplêndida e rica vestimenta e levou-o para enterrá-lo com grande magnificência e dar-lhe digna sepultura. Os próximos e conhecidos deste homem que sobreviveram até nossos dias recordam outras inúmeras façanhas suas, inclusive a que segue, grandiosa.

XVII[21]
1. Em Cesaréia de Filipo, que os fenícios chamam Paneas, diz-se que, nas fontes que ali surgem, ao pé da montanha chamada Paneion, e das quais nasce o Jordão, em certo dia de festa uma vítima imolada é ali lançada, e esta, por obra do demônio, torna-se invisível de modo prodigioso. O fato é uma maravilha famosa para os que se acham presentes. Pois bem, uma vez Astirio assistia o evento, e contemplando a multidão afetada pelo fato, compadeceu-se de seu erro, e levantando os olhos ao céu suplicou por Cristo ao Deus que está sobre todas as coisas para que confundisse o demônio enganador do povo e que o fizesse deixar de enganar os homens. E conta-se que assim que orou deste modo, a vítima começou a nadar nas fontes e desta maneira cessou para eles o prodígio, e daí em diante não se deu nenhum milagre em torno daquele lugar.

XVIII - Dos sinais da magnificência de nosso Salvador existentes em Paneas
1.            Mas já que fizemos menção a esta cidade, creio que não é justo passar por alto um relato digno de memória inclusive para nossos descendentes. De fato, a hemorrágica, que pelos Evangelhos[22] sabemos que encontrou a cura de seu mal por obra de nosso Salvador, diz-se que era originária desta cidade e que nela se encontra sua casa, e que ainda subsistem monumentos admiráveis da boa obra nela realizada pelo Salvador:
2.            Efetivamente, sobre uma pedra alta, diante das portas de sua casa, alça-se uma estátua de mulher, em bronze, com um joelho dobrado e com as mãos estendidas para a frente como uma suplicante; e em frente a esta, outra do mesmo material, efígie de um homem em pé, belamente vestido com um manto e estendendo sua mão para a mulher; a seus pés, sobre a mesma pedra, brota uma estranha espécie de planta, que sobe até a orla do manto de bronze e que é um antídoto contra todo tipo de enfermidades.
3.            Dizem que esta estátua reproduzia a imagem de Jesus. Conservava-se até nossos dias, como comprovamos nós mesmos de passagem por aquela cidade.
4.     E não é estranho que tenham feito isto os pagãos de outro tempo que receberam algum benefício de nosso Salvador, quando perguntamos por que se conservam pintadas em quadros as imagens de seus apóstolos Paulo e Pedro, e inclusive do próprio Cristo, coisa natural, pois os antigos tinham por costume honrá-los deste modo, simplesmente, como salvadores, segundo o uso pagão vigente entre eles[23].

XIX - Do trono de Tiago
1. O trono de Tiago, primeiro que recebeu do Salvador e dos apóstolos o episcopado da igreja de Jerusalém e ao qual os livros divinos chamam in­clusive de irmão de Cristo[24], foi preservado até hoje. Os irmãos do lugar vêm rodeando-o de cuidados por sucessivas gerações e claramente mostram a todos que veneração têm os antigos e continuam tendo os de hoje para com os santos varões, por serem amados de Deus. Basta já disto.

XX - Das "cartas festivas[25]" de Dionísio, nas quais fixa também um cânon sobre a Páscoa
1. Quanto a Dionísio, além de suas cartas já mencionadas, compôs por aquele tempo outras que ainda se conservam: as festivas. Nelas tece palavras muito mais solenes acerca da festa da Páscoa. Uma é dirigida a Flávio, e outra a Domécio e Dídimo, na qual propõe inclusive um cânon de oito anos, alegando que não convém celebrar a festa da Páscoa senão depois do equinócio da primavera. Além destas cartas escreveu também outra a seus co-presbíteros de Alexandria, e ao mesmo tempo a outras pessoas em termos distintos; estas quando ainda durava a perseguição.

XXI - Do que aconteceu em Alexandria
1. Apenas havia-se restabelecido a paz, e já estava de volta a Alexandria; mas tendo eclodido outra sedição e uma guerra, de modo que não lhe era possível visitar a todos os irmãos da cidade, divididos como estavam em um e outro bando da sedição, uma vez mais, na festa da Páscoa[26], da própria Alexan­dria, como se estivesse do outro lado da fronteira, entrou em comunicação com eles por carta.
2.   E escrevendo também depois disto a Hieraco, um bispo do Egito, outra carta festiva, menciona a rebelião dos alexandrinos de seu tempo nestes termos:
"E quanto a mim, por que admirar-se de que me seja penoso comunicar-me inclusive por carta com os que moram longe, sendo que até conversar comigo mesmo e deliberar com minha própria alma torna-se impossível?
3.            O certo é que, na relação com minha própria entranha, isto é, com os irmãos que compartem meu teto e meus sentimentos, cidadãos também de minha própria igreja, necessito correspondência epistolar, e ainda esta não vejo como arranjar-me para transmiti-la, porque seria mais fácil atravessar, já não digo para lá da fronteira, mas até do Oriente para o Ocidente, do que chegar a Alexandria da própria Alexandria;
4.     pois mais vasta e mais impraticável do que aquele enorme e não trilhado deserto que Israel atravessou em duas gerações[27] é a avenida mais central da cidade. E daquele mar que, partido e separado por dois muros, aqueles acha­ram vadeável para seus cavalos, enquanto os egípcios eram afundados na mesma trilha, fazem imagem os portos agradáveis e sem ondas, pois muitas vezes, pelos assassinatos neles cometidos, parecem iguais a um mar Vermelho.
5.            E o rio que banha a cidade, algumas vezes foi visto mais ressecado do que o deserto sedento e mais árido que aquele no qual, ao atravessá-lo, Israel passou tanta sede que Moisés gritou suplicando e por obra do único que faz maravilhas brotou bebida para eles de uma rocha;
6.            e outras vezes, ao contrário, tanto transbordou que inundou toda a várzea, as e ruas e os campos, até ameaçar com a vinda das águas dos tempos de Noé. E sempre corre manchado com sangue, por homicídios e afogamentos, como nos tempos de Moisés, quando converteu-se em sangue para o faraó e empestava.
7.             E que outra água poderia purificar a água que tudo purifica? E como o vasto oceano, intransponível para o homem, poderia derramar-se e purificar este mar amargo? Ou como o grande rio que sai do Éden poderia lavar o sangue impuro, ainda que vazasse os quatro braços em que se divide para um só: o Giom?[28]
8.      E quando poderia tornar-se puro o ar infestado pelos miasmas procedentes de todas as partes? Porque tais hálitos emanam da terra, tais ventos do mar, tais eflúvios dos rios e tais exalações dos portos, que o rocio poderia ser o pus de cadáveres que apodrecem em todos os elementos indicados.
9.      E logo o povo se admira e está incerto de onde provém as contínuas pestes e as graves enfermidades, de onde as corrupções de toda espécie e a variada e reiterada mortandade dos homens, e por que a grande cidade não sustenta já em si mesma aquela tão grande multidão de homens que antes alimentava, começando pelas crianças de peito até os anciãos de extrema velhice, passando pelo grande número de 'velhos prematuros', como eram chamados. Ao contrário, os quarentões e mesmo os setentões eram tão numerosos então, que agora seu número não chega a completar-se ainda que estejam inscritos e assinalados para a ração pública de víveres desde os quatorze até os oitenta anos; e os que aparentam ser os mais jovens parecem contemporâneos dos mais velhos de então.
10.  E desta maneira, ainda que vendo constantemente diminuída e consumida a família humana sobre a terra, não tremem, apesar de aproximar-se cada vez mais sua completa destruição."

XXII - Da doença que sobreveio em Alexandria
1.            Depois disto, quando a peste interrompeu a guerra e a festa se aproximava, novamente entrou em comunicação por carta com os irmãos, indicando-lhes os padecimentos desta calamidade com estas palavras:
2.            "Certamente aos demais homens[29] não parecerá tempo de festas a presente ocasião. Para eles, nem este nem outro o é; não me refiro aos tempos de luto, mas nem sequer dos que se poderiam crer sumamente alegres. Atualmente, ao menos, é certo que tudo são lamentações, tudo prantos, e os gemidos ressoam em toda a cidade por causa da multidão dos mortos e dos que cada dia continuam morrendo;
3.            porque, como está escrito dos primogênitos do Egito, assim também agora levantou-se um grande clamor, pois não há casa onde não haja um morto[30]; e oxalá não fosse mais do que um, porque em verdade são muitas e terríveis as coisas que sucederam inclusive antes disto.
4.            Primeiramente nos expulsaram, e somos os únicos que, apesar de sermos perseguidos por todos e estarmos condenados a morrer, celebramos a festa, inclusive então, e cada lugar de tribulação de cada um se converterá em para­gem de assembléia festiva: campo, deserto, nave, albergue, cárcere. Mas a mais esplendorosa de todas as festas foi celebrada pelos mártires perfeitos, premiados com o festim do céu.
5.            E depois disto lançaram-se encima a guerra e a fome, que sofremos junto com os pagãos: suportamos todos os maus-tratos que nos deram, mas entra­mos à parte no que eles faziam e padeciam entre si, e mais uma vez gozamos da paz de Cristo, que só a nós foi dada.
6.            Tínhamos conseguido, tanto eles quanto nós, um brevíssimo intervalo quando irrompeu esta enfermidade, coisa mais temível para eles do que todo temor, e portanto mais cruel do que qualquer calamidade, e como escreve um par­ticular escritor seu, 'única coisa que sobrepujou toda previsão'[31]. Mas não é assim para nós, pois foi um exercício e uma prova em nada inferiores às demais. Efetivamente, em nada nos perdoou, ainda que tenha ceifado muitos entre os pagãos."
7.            E em continuação acrescenta o que segue:
"Em todo caso, a maioria de nossos irmãos, por excesso de seu amor e de seu afeto fraterno, esquecendo-se de si mesmos e unidos uns com os outros, visitavam os enfermos sem precaução, serviam-nos com abundância, cuida­vam-nos em Cristo e até morriam contentíssimos com eles, contagiados pelo mal dos outros, atraindo sobre si a enfermidade do próximo e assumindo voluntariamente suas dores. E muitos que curaram e fortaleceram outros, morreram, transferindo para si mesmos a morte daqueles e convertendo então em realidade o dito popular, que sempre parecia ser de mera cortesia: 'Despedindo-se deles humildes servidores'.
8.            Em todo caso, os melhores de nossos irmãos partiram da vida desde modo, presbíteros - alguns -, diáconos e laicos, todos muito louvados, já que este tipo de morte, pela grande piedade e fé robusta que envolve, em nada parece ser inferior mesmo ao martírio.
9.            E assim tomavam com as palmas das mãos e em seus seios os corpos dos santos, limpavam-lhes os olhos, fechavam suas bocas e, agarrando-se a eles e abraçando-os, depois de lavá-los e envolvê-los em sudários, levavam-nos sobre os ombros e os enterravam. Pouco depois eles mesmos recebiam os mesmos cuidados, pois sempre os que ficavam seguiam os passos dos que os precederam.
10.     Já entre os pagãos foi o contrário: até afastavam os que começavam a adoe­cer e repeliam até aos mais queridos, e lançavam os moribundos para as ruas e cadáveres insepultos ao lixo, tentando evitar o contágio e a compa­nhia da morte, tarefa nada fácil até para os que usavam mais engenho em esquivá-la."
11.     E depois desta carta, quando a cidade já estava em paz, enviou ainda uma carta festiva aos irmãos do Egito, e logo voltou a escrever outras. Conservam-se dele também uma Sobre o sábado e outra Sobre o exercício.
12.     Comunicando-se uma vez mais por carta com Hermamon e os irmãos do Egito, explica muitas coisas sobre a perversidade de Décio e de seus suces­sores, e menciona a paz dos tempos de Galieno.

XXIII - Do império de Galieno
1.     Mas nada é melhor do que ouvir como foram estes acontecimentos: "Assim pois aquele[32], traindo um de seus imperadores e atacando o outro, logo desapareceu com sua pilhagem, sem deixar traços, e todos proclamaram e reconheceram Galieno, que era ao mesmo tempo velho e novo imperador, pois era-o antes e veio depois deles[33].
2.     Efetivamente, conforme o dito do profeta Isaías: Vede que chega o do prin­cípio, e o que agora surgir será novo[34]. Porque assim como uma nuvem, deslizando sob os raios do sol, por um momento o cobre e sombreia e se mostra em lugar dele, mas logo, quando a nuvem passou ou se desfez, nova­mente surge e reaparece o sol, que antes já havia saído, assim Macriano pôs-se diante e aproximou-se em pessoa ao imponente poder imperial de Galieno, mas já não é[35], posto que não era, enquanto que este é o mesmo que era;
3.     e o poder imperial, como se tivesse deposto sua vetustez e estivesse nova­mente purificado de sua anterior maldade, floresce agora com maior vigor e é visto e ouvido muito mais longe e vai penetrando por todas as partes".
4.     Logo, continuando, assinala também o tempo em que escrevia isto com as palavras que seguem:
"Também me agrada examinar novamente os dias dos anos imperiais, porque estou vendo que os mais ímpios, apesar de seu renome, ao fim de pouco tempo caíram no anonimato, enquanto que ele[36], mais santo e amado de Deus, tendo passado já seu sétimo ano, cumpre agora o nono ano no qual celebraremos a festa[37]."

1.    O que te chamou mais atenção neste texto?
2.    Como ele contribuiu para sua espiritualidade?






[20] Em Cesaréia da Palestina.
[21] Na atual distribuição de capítulos este não tem título.
[22] Mt 9:20 ss; Mc 5:25 ss; Lc 8:43 ss.
[23] O culto cristão às imagens parece já ser um fato; Eusébio o vê como influência pagã.
[24] Gl 1:19.
[25] Não se refere a um caráter festivo, mas à festa da Páscoa.
[26] Provavelmente do ano 262, precedida pelas repercussões da revolta de Macriano contra Galieno.
[27] Nm 14:22-23.
[28] Gn 2:10-13. Aqui identifica o Giom com o Nilo.
[29] Os não cristãos.
[30] Ex 12:30.
[31] O autor "seu", isto é, dos outros, é Tucídides, cuja descrição da peste em Atenas é famosa desde a antigüidade.
[32] Macriano, o que convenceu Valeriano a perseguir os cristãos e tratou de derrubar Galieno.
[33] Já o fora desde que seu pai o associou ao império como co-augusto em 253, voltou a sê-lo em Alexandria por breve intervalo.
[34] Is 42:9; 43:19.
[35] Ap 17:8-11.
[36] Galieno, em oposição a Valeriano.
[37] Galieno cumpria o sétimo ano de seu império ao fim do ano 260, tempo longo para um imperador daquela época. Para Dionísio há outro motivo para comentá-lo: o fim da per­seguição. A Páscoa de 262 anunciava-se especialmente alegre.