domingo, 9 de outubro de 2022

216 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Sétimo (Capítulos 1 - 6)

 

216
Hilário de Poitiers (315-368)
O Tratado da Santíssima Trindade
Livro Sétimo (Capítulos 1 - )

Divisão do Tratado
O Tratado está dividido em 12 livros.
O livro I começa autobiografia. Refere-se às heresias e apresenta um plano geral do trabalho.
O livro II é um resumo da doutrina da Trindade.
O livro III trata do mistério da distinção e unidade do Pai e do Filho.
No livro IV o autor apresenta a carta de Ário a Alexandre de Alexandria e demonstra a divindade de Filho a partir de citações tiradas do Antigo Testamento.
O livro V também cita o Antigo Testamento para demonstrar a divindade do Filho, que não é um outro Deus ao lado do Pai.
O livro VI refere-se novamente à carta de Ário e argumenta a partir do Novo Testamento.

LIVRO SÉTIMO

Capítulo 1.

1.     Este sétimo livro, que escrevemos contra a insensata temeridade da nova heresia, é posterior, pela ordem, aos anteriores, mas, para a perfeita compreensão do mistério da fé, é o primeiro e mais importante.

2.     Não ignoramos quão árduo e difícil seja o caminho da doutrina evangélica, pelo qual pretendemos subir. Embora o temor de nossa bem conhecida fraqueza nos incite a voltar atrás, estimulados pelo fervor da fé, abalados pela loucura dos hereges, e perturbados pelo perigo que ameaça os ignorantes, não podemos deixar de dizer o que não ousamos falar, sem saber o que seria melhor para a verdade desamparada, se o silêncio ou a defesa.

3.     A sutileza herética, com incríveis artifícios de um pensamento corrupto, dá muitas voltas, primeiro, para fingir piedade, depois, para abalar com suas palavras a certeza dos ouvintes mais simples, igualando-se à prudência do mundo e, finalmente, para subverter a compreensão da verdade a pretexto de dar-lhe razão.

4.     Sua profissão de fé a respeito de Um só Deus é falsa piedade. Ao confessar o Filho de Deus, engana os ouvintes pelo uso do nome; dizendo não ter existido o Filho antes de nascer, satisfaz a sabedoria do mundo; confessando o Deus imutável e incorpóreo, exclui a natividade de Deus vindo de Deus; valendo-se de um malicioso argumento, usa, contra nós, as nossas doutrinas e luta contra a Igreja, utilizando-se da fé da Igreja.

5.     Expõe-nos, assim, a gravíssimos perigos, quer optemos pela resposta, quer optemos pelo silêncio, visto que, por aquilo que não se nega, afirma-se o que é negado.

 

Capítulo 2.

6.     Lembramos que, nos livros anteriores, advertimos os leitores de que, ao estudar a blasfêmia herética, devíamos ter em mente que os hereges se esforçam unicamente porimpor a crença de que Nosso Senhor Jesus Cristo nem é Filho de Deus nem é Deus, concedendo apenas que estes nomes lhe tenham sido dados por adoção.

7.     Negam ao Filho a natureza de Deus e afirmam que, sendo Deus imutável e incorpóreo – o que é verdade – não há Filho nascido de Deus. Somente Deus Pai é professado por eles como Deus Uno, para que Cristo não possa ser Deus, conforme professa a nossa fé. Para eles, a natureza incorpórea não admite a idéia de nascimento, e a fé no Deus Uno exclui a confissão do Deus de Deus.

8.     Já nos livros anteriores, provando pela Lei e os Profetas ser mentirosa e inútil sua pregação, sustentamos, em nossa resposta, que a afirmação de Deus que procede de Deus e a confissão de um só Deus verdadeiro não levam a afirmar a unicidade de pessoa nem a admitir, por outro lado, a fé em outro Deus, pois, em nossa profissão de fé, nem Deus é solitário, nem há dois Deuses.

9.     Assim, sem negar nem confessar que Deus seja Uno, fica preservada a integridade da fé, porquanto a unidade se refere a ambos, mas um e outro não são o mesmo.

10. Quisemos em primeiro lugar entregar aos ouvintes este indissolúvel mistério da perfeita fé, haurido das doutrinas evangélicas e apostólicas: que o Filho de Deus, por sua verdadeira natividade, é um ser subsistente e que o Filho, nascido de Deus, não provém de outro princípio, nem procede do nada.

11. Disto, de acordo com o que foi dito no livro anterior, não se pode duvidar, já que, excluído o nome de adotivo, é verdadeiro Filho, pela verdade da natividade.

12. Com base nos Evangelhos, declaramos que o Filho verdadeiro é verdadeiro Deus, porque não seria verdadeiro Filho, se não fosse também verdadeiro Deus, e não pode ser verdadeiro Deus, se não for também verdadeiro Filho.

 

Capítulo 3.

13. Nada é mais oneroso para a natureza humana do que a consciência do perigo, pois aquilo que é ignorado, ou surge de modo repentino, demonstra, certamente, que a segurança é enganadora, mas não leva a ter medo do futuro.

14. Para quem é consciente do que pode acontecer, a própria ansiedade já é sofrimento doloroso. Não faço sair o navio do porto desconhecendo o perigo do naufrágio, não caminho por bosques sabendo estarem eles infestados de ladrões, não atravesso as areias da Líbia sem saber que em toda a parte há escorpiões, cobras e basiliscos.

15. Nada escapa à minha preocupação, nada está fora da minha consciência. Sob a vigilância de todos os hereges à espreita de cada palavra saída de minha boca, todo o caminho de meu discurso é cortado por desfiladeiros ou está cheio de armadilhas e laços escondidos.

16. De que seja árduo e difícil o caminho, pouco me queixo, pois não subo pelos meus próprios degraus, mas pelos dos Apóstolos. Porém, estou sempre em perigo, temendo perder-me nos desfiladeiros, cair nas covas ou enredar-me numa armadilha.

17. Se começo a pregar o Deus Uno, conforme a Lei, os Profetas e os Apóstolos, aparece Sabélio, devorando-me como alimento delicioso, com detestável mordida, por causa de minhas palavras.

18. Ao negar, contra Sabélio, o Deus único, confessando o Deus Filho, verdadeiro Deus, espera-me nova heresia, que me censura por pregar dois deuses.

19. Quando digo que o Filho de Deus é também Filho de Maria, Ébion, ou seja, Fotino, se apresenta, buscando confirmação para sua mentira, na profissão da verdade.

20. Sobre os outros, prefiro calar-me, pois não se ignora estarem fora da Igreja. Hoje, porém, embora tenha sido já condenado e rechaçado, freqüentemente o mal ainda se acha no interior da Igreja.

21. Com impiedade, a Galácia nutriu muitos para a profissão ímpia de um só Deus.

22. Alexandria difundiu por quase todo o orbe da terra a doutrina dos dois deuses, que ela nega com falsidade.

23. Panônia defende, de modo pestífero, ter Jesus Cristo nascido de Maria.

24. E a Igreja, em meio a todos estes erros, corre o risco de não manter a verdade, enquanto mantém a verdade.

25. Não podemos pregar piedosamente um só Deus, se dissermos que está só, já que não haverá lugar para o Deus Filho, se acreditarmos em um Deus solitário.

26. Ao contrário, pregando ser o Filho de Deus verdadeiro Deus, como de fato o é, arriscamo-nos a não manter a fé em um só Deus.

27. Há o mesmo perigo em negar o Deus Uno que em confessá-lo solitário.

28. A estas questões o mundo não percebe como estultas, pois parece que não se pode pensar em um não solitário que seja um, nem entender que o que é Um não seja não solitário.

 

Capítulo 4.

29. Como espero, a Igreja também lança a luz de sua doutrina contra a imprudência do século, para que esta, mesmo não aceitando o mistério da fé, entenda contudo ser pregada por nós, contra os hereges, a verdade deste mistério.

30. Pois grande é a força da verdade que, embora possa ser entendida por si mesma, refulge quando a combatem, de modo que, permanecendo imóvel em sua natureza, adquira firmeza ao ser diariamente atacada.

31. É próprio da Igreja vencer ao ser ferida, ser entendida quando é acusada, triunfar ao ser desamparada, pois deseja ter a todos, junto e dentro de si, sem expulsar ninguém de seu tranqüilíssimo regaço, nem perder os que se tornam indignos de tão grande Mãe.

32. Sabe que os hereges que se afastam, ou são por ela afastados, perdem a ocasião de obter a salvação que vem por ela mas têm, ao mesmo tempo, assegurada a convicção de que a felicidade só vem por meio dela.

33. Isto se torna mais do que evidente, pelo próprio empenho dos hereges. Pois, sendo a Igreja instituída pelo Senhor e confirmada pelos Apóstolos, uma entre todas as que o insensato erro dela afastou por diversas formas de impiedade, não se pode negar que a separação aconteceu por causa do vício de má compreensão, tendo havido dissídio da fé, pois se adapta o que se lê às próprias idéias em lugar de submeter a opinião própria ao que se lê.

34. Enquanto os partidos se combatem mutuamente, deve-se reconhecer a Igreja, não apenas pelas suas doutrinas, mas também pelas dos adversários, visto que, estando todas contra uma só, justamente por ser uma só e una, refuta e repele o ímpio erro de todas.

35. Todos os hereges se levantam contra a Igreja, mas, enquanto todos se vencem mutuamente, não vencem para si mesmos. A vitória deles é o triunfo da Igreja sobre todos; lutando cada heresia contra outra, a fé de Igreja condena a todas, pois nada existe de comum entre os hereges que, enquanto lutam entre si, afirmam nossa fé.

 

Capítulo 5.

36. Sabélio prega um só Deus, negando a natividade do Filho, mas, pelo poder da natureza que operava no Homem, não duvida de que seja Deus. Ignorando, porém, o mistério do Filho, pela admiração por suas obras perdeu a fé na verdadeira geração, e ao ouvir: Quem me vê, vê também o Pai (Jo 14,9), apressa-se em afirmar impiamente a unicidade, no Pai e no Filho, de uma só natureza indivisível e em nada diferente, sem entender que, quando se fala de nascimento, se demonstra a unidade de natureza.

37. Porque no Filho é visto o Pai, fica confirmada a divindade, sem que se negue a natividade.

38. Conhecer um é conhecer o outro porque não é diferente a natureza de um e do outro. Como não existe diferença, pode-se considerar indiferentemente o que é próprio da natureza. Não se pode duvidar de que Aquele que existia na forma de Deus mostrasse em si a imagem da forma de Deus.

39. O furor insensato da perversa opinião que nega o Filho apóia-se também neste dito do Senhor: Eu e o Pai somos Um (Jo 10,30), aproveitando-se da declaração de haver a unidade de natureza, em tudo idêntica, para afirmar impiamente a unicidade de pessoa.

40. Interpretar esta frase como referida a um único poder não faz justiça ao seu sentido. Pois Eu e o Pai somos Um não indica um solitário, visto que a conjunção e, que indica o Pai, não admite que se entenda um só, e somos não se refere a um singular.

41. A expressão somos um não exclui a natividade, mas não distingue a natureza, pois um não se diz da diversidade, nem somos, de um só.

 

Capítulo 6.

42. A insensatez dos hereges atuais (Arianos) vai de encontro à deles. Afirmam, contra Sabélio, ter lido: O Pai é maior do que eu (Jo 14,28) e, sem entender nada do mistério da natividade nem do mistério de um Deus que se esvazia de si, nem da carne assumida, sustentam que a natureza do Filho é inferior porque Ele proclama que o Pai é maior.

43. Combatem Sabélio, afirmando que o Filho existe e é menor do que o Pai, porque pede para ser reconduzido à glória anterior, porque tem medo de morrer e porque morreu.

44. Sabélio, contrariamente, defende a natureza divina, pelas ações. Como esta nova heresia, para não crer que o Filho seja Deus, não negar o Único Deus, Sabélio, afirmando o Deus Uno, não admite absolutamente um Filho.

45. Um (Ário) valoriza as obras do Filho, o outro (Sabélio) retruca dizendo que Deus está presente nas obras. Um afirma a unicidade, o outro a nega. Sabélio se defende dizendo: “As suas obras não se realizaram a não ser pela natureza de Deus. Perdoar os pecados, curar os enfermos, fazer andar os coxos, dar a vista aos cegos, restituir a vida aos mortos pertence somente a Deus. Nenhuma outra natureza, diferente da que está cônscia de si, poderia dizer: Eu e o Pai somos Um (Jo 10,30). Por que me forçar a crer em uma substância diferente? Por que me atraís para a crença em outro Deus? Os atos que são próprios de Deus, só o Deus uno os realizou”.

46. Clamarão contra estas coisas os que pregam um Filho diferente de Deus Pai, com lábios não menos viperinos dizendo: “Não reconheces o mistério da salvação. Deve-se crer no Filho, por quem foram feitos os séculos, por quem foi formado o homem. Foi Ele que, por meio de anjos, deu a Lei, nasceu de Maria, foi enviado pelo Pai, foi crucificado, morto e sepultado e ressurgiu dos mortos, está à direita do Pai e é o juiz dos vivos e dos mortos. Nele iremos renascer, a Ele se deve confessar, dele é o reino a ser merecido”.

47. Ambos, sendo hostis à Igreja, ajudam a Igreja. Sabélio, enquanto prega ser Deus por natureza, afirma a natureza divina de quem age. Os outros confessam o Filho de Deus a partir do mistério da fé.

 

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terça-feira, 4 de outubro de 2022

215 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Sexto (Capítulos 44 - 52).

 


215

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Sexto (Capítulos 44 - 52)

 


Divisão do Tratado

O Tratado está dividido em 12 livros.

O livro I começa autobiografia. Refere-se às heresias e apresenta um plano geral do trabalho.

O livro II é um resumo da doutrina da Trindade.

O livro III trata do mistério da distinção e unidade do Pai e do Filho.

No livro IV o autor apresenta a carta de Ário a Alexandre de Alexandria e demonstra a divindade de Filho a partir de citações tiradas do Antigo Testamento.

O livro V também cita o Antigo Testamento para demonstrar a divindade do Filho, que não é um outro Deus ao lado do Pai.

O livro VI refere-se novamente à carta de Ário e argumenta a partir do Novo Testamento.

 

Capítulo 44.

1.        Nada diferente pregou aquele que, de perseguidor, se tornou Apóstolo e vaso de eleição. Que palavra sua não é uma confissão do Filho? Que epístola não começa pelo mistério desta verdade? Em que nome por ele dito não está contida a indicação desta natureza?

2.        Quando diz: Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho (Rm 5,10), Deus enviou seu Filho na semelhança da carne de pecado (Rm 8,3), Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho (1Cor 1,9), que lugar é deixado aqui para a fraude dos hereges? É seu Filho, não é adoção, não é criatura.

3.        O nome diz a natureza, a propriedade enuncia a verdade, a confissão atesta a fé. Não entendo o que se possa acrescentar à natureza do Filho.

4.        Pois, porque é seu Filho, crê-se ser Ele o seu Pai; não falou de modo pouco claro e sem fundamento aquele que é vaso de eleição, nem deixou o erro de uma doutrina ambígua o Doutor das gentes, o Apóstolo de Cristo.

5.        Sabe quais são os filhos de adoção e os que merecem ser assim chamados pelo mérito de sua fé. Pois diz: Todos quantos são movidos pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus. Pois não recebestes o espírito de servidão para recair no temor, mas recebestes o Espírito de adoção, no qual clamamos: Abba, Pai (Rm 8,14-15).

6.        Este é o nome de nossa fé, pelo sacramento da regeneração. Nossa profissão nos concede a adoção. As obras que realizamos segundo o Espírito de Deus nos dão o nome de filhos de Deus, e nossa exclamação Abba, Pai ultrapassa aquilo que é próprio de nossa natureza porque a função da palavra vai além do que nos é próprio e ser chamado de filhos não é a mesma coisa que ser filhos.

 

Capítulo 45.

7.        Vamos estudar, positivamente, qual seja a fé do Apóstolo sobre o Filho de Deus. Nos discursos que pronunciou diante de toda a Igreja, para sua doutrina, nunca confessou o Pai sem o Filho; contudo, para mostrar, enquanto a palavra humana pode expressar, a verdade do nome, disse: Que diremos, pois, à vista dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou o próprio Filho, mas o entregou por nós? (Rm 8,31-32).

8.        Como ainda se falará de adoção onde há o nome da natureza? Querendo o Apóstolo mostrar o amor de Deus por nós, para que se conhecesse a magnificência da dileção de Deus por uma comparação, ensinou que Deus não havia poupado nem seu próprio Filho, entregando-o, não como adotado, pelos que iria adotar, nem, como criatura, pelos que foram criados, mas dando o seu em lugar do estranho, o próprio em lugar dos que receberiam o nome de filhos.

9.        Investiga a força das palavras, para poderes entender a magnitude da caridade. Examina com atenção o que significa próprio, não ignores a verdade. Pois aqui o Apóstolo diz: próprio Filho, quando em relação a muitos iria dizer diversas vezes seu ou dele. E embora, em muitos códices, pela fraca compreensão dos tradutores, neste lugar, em vez de próprio Filho, se encontre seu Filho, em grego, língua falada pelo Apóstolo, diz-se próprio, em vez de seu.

10.    Para o modo comum de pensar não há muita diferença entre próprio e seu, e o Apóstolo, em outros escritos, empregou a expressão seu Filho, que em grego é tòn eautoû uiòn; neste lugar, porém, aqui diz que não perdoou a seu próprio Filho (os ge toû ídíou Uiou oùk egeisato).

11.    Estas palavras demonstram que Ele é o Deus Unigênito pela verdade da natureza, de modo que, tendo demonstrado antes que muitos eram filhos pelo Espírito de adoção, agora demonstrou ser o Unigênito o Deus Filho por natureza.

 

Capítulo 46.

12.    Este não é um erro humano, nem é fruto da ignorância negar o Filho de Deus, porque não é possível ignorar o que se nega.

13.    O Filho de Deus é chamado de criatura vinda do nada. Isto nem o Pai declarou, nem o Filho atestou, nem o Apóstolo pregou, e no entanto ousaram dizê-lo; isto não é apenas ignorar a Cristo, mas odiá-lo.

14.    Como o Pai diz a respeito de seu Filho: Este é (Mt 3,17), o Filho diz de si mesmo: É este mesmo que fala contigo (Jo 9,37), Pedro confessa: Tu és (Mt 16,16), João afirma: Este é verdadeiro (1Jo 5,21) e Paulo não deixa de pregar que é próprio, não entendo que se negue, a não ser por ódio, quando o erro da imperícia não é escusa do crime.

15.    É isto que diz, claramente, pela vinda de seus profetas e núncios, aquele mesmo que depois irá falar como anticristo, inquietando a salutar profissão de fé com novas investidas, a fim de, primeiro, arrancar de nossa consciência a ideia de Filho segundo a natureza em que cremos, e excluir, em seguida, por ser adotivo, qualquer outro nome.

16.    Pois para aqueles para quem Cristo é criatura, forçoso é que, junto com eles o próprio Cristo seja o anticristo; porque a criatura não tem a natureza de Filho, e Ele mente, dizendo ser o Filho de Deus. Por isso, segundo aqueles que negam o Filho de Deus, deve-se acreditar que Cristo é o anticristo.

 

Capítulo 47.

17.    Que esperanças, ó inútil furor, aguardas tu? E por que confiança na salvação te esforças em provar com lábios blasfemos ser Cristo criatura e não Filho? Seria vantagem para ti conhecer pelos Evangelhos e manter o mistério desta fé. Pois o Senhor, que tudo pode, quis, no entanto, que cada um dos que lhe pediam um efeito de seu poder o experimentasse pelo mérito da confissão. Não que a confissão do pedinte acrescente a sua virtude, a Ele que é a Virtude de Deus, mas é prêmio da fé merecer tal coisa.

18.    Quando, à Marta, que pede por Lázaro, Ele pergunta se crê que não morrerão aqueles que nele crêem, ela, com fé consciente, diz: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, Filho de Deus, que vieste a este mundo (Jo 11,17).

19.    Esta confissão é a própria eternidade, esta fé não morre. Marta, pedindo a vida de seu irmão, ao ser interrogada se assim acreditava, acreditou. Agora pergunto: quem nega isto, de quem, ou para que vida espera, se somente há vida, se assim se crê? Pois é grande este mistério da fé, e a sua perfeita confissão é a bem-aventurança.

 

Capítulo 48.

20.    O Senhor concedera a visão ao cego de nascença, e o Senhor da natureza desfizera o dano natural. E porque este cego assim nascera para a glória de Deus, para que, em Cristo, se pudesse entender a obra de Deus, não se esperava dele a confissão de fé; mas, porque ignorava o autor do grande dom da visão recuperada, mereceu depois conhecer a fé.

21.    Pois a expulsão da cegueira não conferia a vida eterna. Por este motivo, o Senhor, depois de ter sido ele curado e expulso da sinagoga, o interroga, dizendo: Tu crês no Filho de Deus? (Jo 9,35). Que não julgasse um dano estar privado da sinagoga aquele que, pela confissão da fé, readquiria a imortalidade.

22.    E, quando, ainda inseguro, respondeu: Quem é, Senhor, para que nele eu creia?, não querendo que aquele a quem, depois da recuperação dos olhos, seria concedida tão grande inteligência da fé, permanecesse na ignorância, assim diz o Senhor: Tu o viste, é Ele mesmo o que fala contigo.

23.    Acaso o Senhor pede a este, como aos outros que pediam curas, a confissão de fé para merecerem saúde? Claro que não, pois falou ao cego quando já via, somente para que respondesse: Creio, Senhor (Jo 9,38), porque a fé da resposta não serviria para curar a cegueira, mas para dar a vida.

24.    Estudemos com mais empenho a força deste dito. O Senhor interroga: Tu crês no filho de Deus? Se uma confissão qualquer de fé em Cristo fosse bastante, teria sido dito, Tu crês em Cristo? Mas, como para quase todos os heréticos este nome era só uma palavra usada, para confessarem a Cristo, negando o Filho, o que Cristo pede é próprio à fé, isto é, que se creia no Filho de Deus.

25.    Mas para que serve crer no Filho de Deus, quando se crê na criatura e é pedida a fé em Cristo, não criatura de Deus, mas Filho?

 

Capítulo 49.

26.    Será que os demônios desconheciam o sentido próprio deste nome? É digno de hereges serem convencidos, não já pelas doutrinas dos Apóstolos, mas pela boca dos demônios. Pois estes gritam, e gritam muitas vezes: Que há entre mim e ti, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? (Lc 8,28).

27.    A verdade atraía a confissão feita de má vontade, o sofrimento em obedecer atesta o poder da natureza. Pela força são vencidos, quando abandonam corpos por muito tempo possuídos; prestam honra quando confessam a natureza de Deus, e atestam que Cristo é Deus, pelas obras e pelo nome. Entre estas vozes dos demônios a confessarem, donde tiras, ó herege, o nome de criatura e a benevolência da adoção?

 

Capítulo 50.

28.    Quem seja Cristo, aprende ao menos pelos que o desconhecem, para que tua impiedade seja censurada pela confissão que os ignorantes são forçados a fazer. Pois os Judeus, se não conheciam o Cristo encarnado, conheciam, no entanto, ser Filho de Deus Aquele que deveria aparecer como Cristo.

29.    Como falsas testemunhas não apresentassem nenhuma verdade contra Ele, o Sumo Sacerdote o interroga: Tu és o Cristo, o Filho do Bendito? (Mc 14,61). Ignoravam o mistério, mas não a natureza. E não perguntam se Cristo é filho de Deus, mas se este é o Cristo Filho de Deus. Erra-se quanto ao Homem, não quanto a ser Filho de Deus. Pois não há dúvida de que Cristo seja Filho de Deus e por isso, quando se pergunta se é este, não se nega que o Cristo seja Filho de Deus.

30.    E indago, por qual fé tu negas aquilo que não é negado nem mesmo pelos que o desconhecem? A perfeita ciência sobre Cristo é reconhecer ser ele Filho de Deus, que existe antes dos séculos, e é também Filho da Virgem. Os que não sabem que nasceu de Maria não desconhecem ser Filho de Deus. E vê, ao negar o Filho de Deus, a que companhia da judaica impiedade te misturaste. Pois indicam a causa de sua condenação quando dizem: E de acordo com a Lei deve morrer, porque se diz Filho de Deus (Jo 14,7).

31.    E não é também o que a tua palavra ímpia censura: que se diga Filho, aquele a quem tu garantes ser criatura? Ele, dizendo-se Filho de Deus, é por eles julgado digno de morte; e tu, que negas o Filho de Deus, que julgamento mereces? Pois a afirmação sobre Ele desagrada a ti. Pergunto se ainda manténs opinião diversa da deles, dos quais não diverges pela vontade, pois negas com a mesma impiedade que seja Filho de Deus.

32.    A culpa deles é menor, pois ignoram. Não sabem que o Cristo nasceu de Maria, mas não duvidam de que o Cristo seja Filho de Deus. Tu, que não podes desconhecer que o Cristo nasceu de Maria, pregas que Cristo não é Filho de Deus. Porque não sabem, ainda podem ter assegurada a salvação, se acreditarem.

33.    Para ti, todo caminho para a salvação está fechado, já que negas o que não podes ignorar.

34.    Não ignoras ser Filho de Deus, pois chegas a aceitar o nome de Filho adotivo para dizer com falsidade que é criatura e que, como as demais, é chamado Filho.

35.    Se podes pensar em negar-lhe a natureza, negarias, se te fosse possível, também o nome. E porque isto não te é permitido, não dás ao nome o seu verdadeiro significado, para que não seja verdadeiro Filho de Deus, ao ser chamado de Filho.

 

Capítulo 51.

36.    A confissão daqueles a quem foi devolvida a tranqüilidade, quando o vento estava desencadeado e o mar se agitava, pela ordem de uma palavra, poderia dar-te ocasião de confessá-lo, também, como verdadeiro Filho de Deus, repetindo a palavra deles: Verdadeiramente é Filho de Deus (Mt 14,35).

37.    Mas o mau espírito te arrasta ao naufrágio, te rouba a vida, e domina os movimentos de tua mente, como a procela que irrompe no mar tempestuoso.

 

Capítulo 52.

38.    Se não te parece digna de crédito a fé dos navegantes, porque provém dos Apóstolos, para mim, embora cause menos admiração, tem contudo maior autoridade. Aceita a fé no Filho proclamada até pelos gentios, escuta entre os malvados guardas da cruz, o indômito soldado da coorte romana, movido pela fé. Pois o centurião fala, à vista de tantos prodígios: Verdadeiramente este homem era Filho de Deus (Mt 27,54).

39.    Deram testemunho disto, depois que Jesus entregou o espírito, o véu do Templo rasgado, os mortos ressuscitados, o terremoto, as pedras rachadas, os sepulcros abertos e a confissão de um homem provindo da infidelidade dos gentios.

40.    Reconhece nas obras o poder da natureza divina e proclama, com o nome, a verdade da mesma natureza. A verdade se impõe com tamanha evidência e é tão grande a força da fé que a vontade é vencida pela necessidade da verdade, e nem mesmo o que o tinha crucificado nega que Cristo, Senhor da glória eterna, seja verdadeiramente Filho de Deus.