domingo, 18 de fevereiro de 2024

248 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Décimo Segundo (Capítulos 1 - 14)

Demétrius, Genisson, Isaac, Nathalie, Ani, Alex, Gilson, Marisa e Edson

 



248

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Décimo Segundo (Capítulos 1 - 14)

 


 

O livro XII fala do nascimento eterno do Verbo e termina com a Oração que resume a sua fé na Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, e com a súplica para que Deus conserve a sua fé. São 57 capítulos.

 

LIVRO DOZE

Capítulo 1.

1.      Dirigimo-nos já, guiados pelo Espírito Santo, para o abrigado e tranquilo porto de uma fé segura.

2.      Como acontece muitas vezes, os que são balançados pelo mar agitado e pelo vento, ao aproximar-se do litoral, são impedidos e retardados por altíssimas ondas, mas, finalmente, são arremessados por um forte e terrível impulso das águas, para a conhecida e segura praia. Espero que o mesmo nos aconteça, neste duodécimo livro, no qual nos esforçamos por lutar contra a tempestade da heresia, opondo-o, como a popa de um navio bem fortificado, às enormes ondas da impiedade, de modo que ela mesma nos empurre para a tranquila e desejada enseada.

3.      Todos foram sacudidos pelo vento da falsa doutrina, daí o medo, daí o perigo, daí, muitas vezes, o naufrágio, porque alguns afirmam que o Deus Unigênito foi chamado pela autoridade profética de criatura, e que Ele não existe por geração, mas por criação, porque, pela Sabedoria, foi dito: O Senhor me criou para o início de seus caminhos (Pr 8,22).

4.      Esta é a maior de suas ondas, esta é a mais forte vaga do tortuoso turbilhão; mas, depois de enfrentada e dominada por nossa poderosa nau, chega conosco ao seguro porto da praia desejada.

 

Capítulo 2.

5.      Não nos apoiamos, porém, em esperanças vagas e ociosas, como navegantes que muitas vezes são conduzidos mais por seus desejos do que pela confiança, ou são abandonados ou impelidos por ventos instáveis.

6.      Nós temos a assistência do Espírito, dom do Deus Unigênito, que nos conduz por um caminho imutável para a tranquilidade, pois afirmamos que o Senhor Jesus Cristo não é criatura, visto que não o é.

7.      Ele é o Senhor de tudo o que foi feito e nós o conhecemos como Deus, Filho verdadeiro, geração de Deus Pai.

8.      Nós, pela condescendência de sua bondade, somos clamados e adotados como filhos de Deus, mas Ele é o verdadeiro e único Filho de Deus Pai, a verdadeira e absoluta natividade, que permanece oculta e somente é conhecida pelos dois.

9.      Nossa fé consiste unicamente em confessar que o Filho não é adotivo, mas nascido; não é eleito, mas gerado. Não o pregamos como feito nem como não nascido, porque nem comparamos o Criador às criaturas, nem enganamos com uma natividade sem geração. Não existe por si mesmo quem existe em virtude do nascimento e quem é Filho não poderá sê-lo, a não ser nascendo, porque é Filho.

 

Capítulo 3.

10.  Ninguém duvida de que as razões da impiedade sejam sempre opostas às razões da verdadeira fé. Não se pode aceitar religiosamente o que se revela ter sido impiamente recebido, como acontece agora com estes novos reformadores da fé apostólica, que dividem e opõem o Espírito evangélico e o profético, e os consideram separados por litígios, dizendo que uns profetizam umas coisas, e outros, outra diferente, porque Salomão nos convida a venerar a criatura, e Paulo censura os que servem à criatura.

11.  Segundo a compreensão da impiedade, estas coisas não parecem combinar, pois para os hereges, o Apóstolo, instruído pela Lei e separado antecipadamente (cf. Gl 1,15) e que falava por Cristo, que nele falava, teria ignorado a profecia, ou, conhecendo-a, tê-la-ia rejeitado.

12.  Não conheceu o Cristo como criatura, ao chamá-lo de criador; e proibiu a adoração à criatura, advertindo que só ao Criador se deve servir: Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e serviram a criatura, deixando de lado o Criador, que é bendito pelos séculos dos séculos (Rm 1,25).

 

Capítulo 4.

13.  Acaso Cristo Deus, que fala em Paulo, não censura fortemente a impiedade de tais mentiras? Condena pouco a mentira que distorce a verdade? Por meio do Senhor Cristo, tudo foi criado e por isso lhe é próprio o nome de criador.

14.  Não convém a Ele a natureza e o nome de sua criatura. Para nós, é testemunha disso Melquisedeque, que anuncia Deus, o criador do céu e da terra: Bendito seja Abraão pelo Deus Altíssimo, que criou o céu e a terra (Gn 14,19).

15.  Testemunha também é o profeta Oséias: Eu sou o Senhor teu Deus, que firmei e criei a terra, cujas mãos criaram toda a milícia do céu (Os 13,4; LXX). E Pedro escreve: Confiam suas almas ao fiel criador (1Pd 4,19). Por que impor ao artífice o nome da obra? Por que dar nossos nomes a Deus? É nosso Criador, o criador de toda a milícia celeste.

 

Capítulo 5.

16.  Referindo-se estas palavras ao Filho, por quem tudo foi feito (que é o que se deve entender pela fé evangélica e apostólica), como poderá ser Ele igual às coisas que fez e como poderá receber o nome que corresponde à natureza de todas elas?

17.  Em primeiro lugar, o simples bom senso rejeita que o Criador seja criatura porque a criação vem do criador. Mas, se fosse criatura, também estaria sujeito à corrupção, dependendo da esperança, e submetido à escravidão. Pois diz o mesmo santo Apóstolo Paulo: Pois a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi submetida à vaidade, não por sua vontade, mas pela vontade daquele que a submeteu, na esperança de também ela ser libertada da escravidão da corrupção, para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus (Rm 8,19-21).

18.  Se, portanto, Cristo for criatura, forçoso será que esteja na incerteza de uma longa expectativa e sua longa espera tenha por objeto o que nós receberemos e que, enquanto espera, esteja submetido à vaidade, e que, sendo a sujeição obrigatória, não lhe seja submetido por sua vontade.

19.  Mas, se não está submetido por sua vontade, então tem de ser necessariamente servo e, sendo servo, permanecerá também na corrupção da natureza, pois tudo isso é próprio da criação, que, ao ser libertada destas coisas pela longa expectativa, será glorificada com a glória humana, conforme ensina o Apóstolo.

20.  Trata-se de uma imprudente e ímpia declaração sobre Deus a que lhe atribui o nome de criatura, de maneira ofensiva, acreditando que esteja obrigado a esperar e servir, que possa ser coagido, que deva ser libertado, naquilo que corresponde a nós, não a Ele, quando nós somos elevados a outra coisa a partir do que pertence a Ele.

 

Capítulo 6.

21.  A impiedade progride e aumenta em falsidade ela audácia desta palavra ilícita. Se o Filho é criatura, o Pai não será diferente da criatura. Cristo, que existia na forma de Deus, assumiu a forma de servo, mas se é criatura, o que existe na forma de Deus não é distinto da criatura, porque a criatura está na forma de Deus.

22.  Mas existir na forma de Deus não significa outra coisa senão permanecer na natureza de Deus. Sendo assim, Deus também seria criatura, porque a criatura existe na sua natureza.

23.  Porém, Aquele que existia na forma de Deus não reteve ciosamente o ser igual Deus, porque, sendo igual a Deus, isto é, existindo na forma de Deus, rebaixou-se até a forma de servo.

24.  Não podia rebaixar-se de Deus para ser Homem, a não ser que se esvaziasse da forma de Deus. Mas ao esvaziar-se de si mesmo não se aniquilou, de forma a não existir, pois passou a ser algo diferente do que era.

25.  Nem deixou de ser o que era, por ter-se esvaziado de si mesmo, já que o poder de sua força permanece no mesmo poder esvaziar-se de si mesmo. Passar para a forma de servo não significa perder a natureza de Deus, pois esvaziar-se da forma de Deus manifesta o poder da força divina.

 

Capítulo 7.

26.  Existir na forma de Deus não é diferente de ser igual a Deus, de sorte que a mesma honra é devida ao Pai e ao Senhor Jesus Cristo, como Ele mesmo disse: Para que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai. Quem não honra o Filho, também não honra o Pai que o enviou (Jo 5,23).

27.  Não há diversidade entre os seres, se não há diversidade na honra que lhes é devida. São objeto da mesma veneração, porque ou a honra é prestada, indignamente, a inferiores, ou, com injúria, aos superiores, por serem igualados a inferiores, na honra.

28.  Quanto ao Filho, se existe por criação em vez de nascimento e é igualado em honra ao Pai, não se prestará a honra devida ao Pai, pois, lhe foi prestada tanta veneração quanto à criatura; mas, porque é igual ao Deus Pai pelo motivo de ter nascido dele, como Deus, será também igual a Ele na honra, porque é Filho, não é criatura.

 

Capítulo 8.

29.  Sobre isto a admirável palavra do Pai é: Do seio antes da luz, Eu te gerei (Sl 109,5). Como já dissemos muitas vezes, devido à fraqueza da nossa inteligência, não podemos emitir julgamentos sobre Deus.

30.  Não podemos pensar que, por ter dito que o gerou de seu seio, consiste de partes internas e externas unidas pelos membros, como acontece com os corpos que se originam das causas materiais, pois o Senhor de todas as coisas acha-se absolutamente livre em relação às leis que regem as causas naturais.

31.  Com estas palavras indica a propriedade do nascimento de seu Unigênito, decorrente do poder de sua imutável natureza. Pois, nascendo Espírito do Espírito, nasce com a propriedade do Espírito, pela qual também Ele é Espírito, porém não há outra causa do seu nascimento, a não ser aquela dos princípios perfeitos e imutáveis.

32.  Nascendo de um princípio, embora perfeito e imutável, é forçoso que, a partir deste princípio, nasça com as características deste princípio.

33.  Pelas características da natureza humana, o nascimento se dá a partir do seio materno. Mas Deus é perfeito, sem partes, e imutável pela sua natureza espiritual, porque Deus é Espírito (Jo 4,24) e não está submetido à necessidade natural de causas internas.

34.  Contudo, porque anunciava a natividade do Espírito a partir do Espírito, quis instruir nossa inteligência pelo exemplo tirado das causas materiais, não para indicar-nos como se dá a natividade, mas para que se compreenda a geração, de modo tal que este exemplo não mostre uma necessidade, mas esclareça o seu sentido. Se, portanto, o Deus Unigênito fosse criatura, que quereria dizer esta comparação, que, a partir do modo normal do nascimento humano propõe uma ideia da divina geração?

 

Capítulo 9.

35.  Muitas vezes, pela comparação com os membros de nossos corpos e pelo uso dos modos comuns de entendimento, Deus quis mostrar a importância de suas operações, a nós, a quem queria ensinar.

36.  Assim disse: Cujas mãos criaram toda a milícia do céu (Os 13,4); ou: Os olhos do Senhor estão sobre os justos (Sl 34,16), e de novo: Encontrei Davi, filho de Jessé, varão segundo o meu coração (1Sm 13,14; At 13,22).

37.  A vontade é indicada pelo coração, ao qual Davi agradou pela probidade dos costumes o conhecimento de todas as coisas, pelo qual nada está fora da ciência de Deus, se enunciou com a palavra olhos; a eficácia de suas ações, já que tudo vem de Deus, foi comparada às mãos.

38.  Pela comparação com os órgãos do corpo devemos compreender que Deus quer, prevê e realiza todas as coisas sem o uso dos membros corporais. Ao dizer que gerou do seu seio, deve-se entender que se trata de um nascimento que não se dá a partir de um princípio corporal, do mesmo modo que a referência a outros membros do corpo aponta para o efeito de outras ações divinas.

 

Capítulo 10.

39.  O coração significa a vontade, os olhos a visão, a mão a realização; no entanto, Deus quer, prevê e realiza de um modo que vai muito além da comparação incompleta com os membros do corpo.

40.  As palavras coração, olhos, mãos expressam o que foi sugerido. Por que então a afirmação de que gerou de seu seio não mostra a verdadeira natividade? Não se quer dizer que Deus tenha gerado de seu seio, pois também não age com as mãos, não vê com os olhos, não quer com o coração, mas com esta comparação se indica que tudo realiza, vê e quer.

41.  Assim também pela menção do seio se demonstra que verdadeiramente gerou de si mesmo aquele a quem gerou, não para insistir na palavra seio, mas para afirmar a verdade, assim como não é por meio de membros do corpo que Deus quer, vê ou age.

42.  Os nomes desses membros se empregam para que, por meio das ações corporais, aprendamos o valor de suas operações.

 

Capítulo 11.

43.  Os costumes humanos não permitem, e a palavra do Senhor não aceita que o discípulo passe à frente do mestre, ou que o servo dê ordens ao senhor, porque um se submete ao outro, seja pela ignorância, como o ignorante ao conhecedor, seja pela fraqueza de sua condição, como o servidor ao senhor que domina.

44.  Sendo assim o modo comum de julgar, como diremos agora que Deus é criatura e que o Filho foi feito por Deus, quando nunca o nosso mestre e Senhor disse tal coisa de si mesmo a nós, seus servidores e discípulos, nem ensinou que seu nascimento tenha sido uma criação ou que Ele tenha sido feito? Também o Pai jamais declarou outra coisa a não ser que Ele (o Cristo) é o Filho, e o Filho afirmou unicamente que o Pai é seu próprio Pai, e que nasceu e não foi feito nem criado, quando disse: Aquele que ama o Pai, ama também o Filho, que dele nasceu (1Jo 5,1).

 

Capítulo 12.

45.  O que foi feito é criatura, não é filho, nascido por geração. O céu não é filho, a terra não é filha, e o mundo não nasceu. Sobre eles se disse: Tudo foi feito por Ele (Jo 1,3), e o Profeta disse: Os céus são obras de tuas mãos (Sl 101,26).

46.  Também disse o mesmo Profeta: Não abandones a obra de tuas mãos (Sl 137,8). Será acaso a pintura filha do pintor, o ferreiro terá por filha a espada, a casa será filha do arquiteto? Todas essas coisas são obra dos que as fabricam; mas o Pai tem somente um Filho, que nasceu dele.

 

Capítulo 13.

47.  Quanto a nós, na verdade, somos filhos para Deus, mas porque fomos feitos filhos. Pois, em certo tempo, fomos filhos da ira (Ef 2,3) e fomos feitos filhos para Deus pelo Espírito de adoção (cf. Rm 8,14-17), e, antes, somos filhos porque foi-nos concedido ser chamados de filhos, do que pelo fato de termos nascido.

48.  E porque tudo o que se faz, antes de ser feito, não existia, como não éramos filhos de Deus, fomos feitos o que somos. Antes não éramos filhos, mas, depois que nos foi concedido ser filhos, nós o somos.

49.  Não o somos por nascimento, mas porque fomos feitos filhos, não enquanto gerados, mas como adquiridos. Pois Deus adquiriu para si um povo (cf. 1Pd 2,9) e por isso nos gerou. Que Deus tenha gerado filhos, mas nunca no sentido de serem filhos por natureza, bem o sabemos, pois não disse: Gerei e exaltei meus filhos, mas: Gerei filhos e os exaltei (Is 1,2).

 

Capítulo 14.

50.  Por causa das palavras: Filho primogênito meu, Israel (Ex 4,22), talvez alguém entenda que tenha dito primogênito meu para negar ao Filho a geração que lhe é própria. Por ter dito também: meu em relação a Israel, não teria sido substituída pela geração a adoção dos que foram feitos filhos?

51.  E por isso não seria próprio somente do Filho de Deus o que dele se disse: Este é o meu Filho dileto (Mt 17,5), já que meu foi dito a respeito daqueles que, é evidente, não nasceram de Deus. Que não nasceram como filhos, apesar de serem assim chamados, também se vê por aquilo que foi dito: O povo que há de nascer, que o Senhor fez (Sl 21,32).

 

O que você destaca na fala do seu irmão/ã?

O que você destaca no texto?

Como o texto serve para a sua espiritualidade?

 

 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

O que é a Quaresma? Como celebrar a Quaresma?

 



O que é a Quaresma?

Quaresma é uma caminhada de Oração até a Semana Santa. Começa na quarta-feira de cinzas. É a entrada no Ciclo Pascal.

Para entendermos a quaresma precisamos olhar para a conversão dos Ninivitas.

Jonas foi forçado por Deus a ir a Nínive pregar a palavra profética. Deus disse: “Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te digo”. Jonas percorreria a cidade em três dias. Jonas começou a percorre-la e dizia: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida”. Sua mensagem foi clara: Deus destruirá Nínive em quarenta dias. Resta apenas uma Quaresma para o povo de Nínive.

Os Ninivitas teriam apenas uma quaresma de vida. Eles creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor. O Rei de Nínive ficou sabendo da mensagem de Jonas. Foi tão impactado que se levantou do seu trono, tirou de si as vestes reais, cobriu-se de pano de saco, assentou-se sobre cinza e proclamou um jejum para todos os habitantes e animais de Nínive.

Mandou que todos fossem cobertos de pano de saco, clamassem fortemente a Deus e se convertessem de seus pecados. O rei esperava a misericórdia de Deus. Disse o rei: “Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?”

Deus se agradou do arrependimento e dos sinais da conversão. “Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez”. (Jn 3.1-10).

Jejum, pano de saco, cinzas, orações, clamor e conversão marcaram o arrependimento dos Ninivitas. Foi uma quaresma perfeita que os livrou da destruição eminente.

Com a Quaresma tem início o Tempo Pascal. Estramos na celebração dos quatro períodos litúrgicos: Quaresma, Semana Santa, Páscoa e Pentecostes.

A Quaresma abre as portas para este período de vivência do Sacrifício, Morte e Ressurreição do Senhor. O centro do Calendário Cristão é a Páscoa; e a Quaresma é a preparação para este momento de oração e contrição. É um caminho pascal.

O Colégio Episcopal na Carta Pastoral sobre o Culto na Igreja Metodista dá a seguinte orientação sobre a Quaresma:

“A Quaresma: Da Quarta-feira de cinzas ao Domingo de Ramos, este período enfatiza a importância da contrição, do preparo e da conversão. Inicia-se no 40° dia antes da Páscoa, sem contar os domingos. O início, na Quarta-feira de cinzas, retorna à tradição bíblica do arrependimento com cinzas e vestes de saco (Jn 3.5-6). É um momento oportuno para refletir sobre a confissão e o valor do perdão de Deus. Sua espiritualidade enfatiza momentos de preparo na história bíblica geral e da vida de Jesus: • Quarenta dias de Jesus no deserto (Mt 4.2; Lc 4.1ss) • Quarenta anos do povo no deserto (Ex 16.35) • Elias caminhou quarenta dias em direção ao Horebe (1Rs 19.8).

Cores da Quaresma: roxo ou lilás. Essas cores enfatizam a preparação, a expectativa, a saudade, a contrição e o arrependimento. (...)

Símbolos da Quaresma: • Cinzas, referindo-se ao arrependimento; • Ramos, lembrando a entrada triunfal; • Coroa de espinhos e os cravos, rememorando o sofrimento de Cristo”. (Carta Pastoral sobre o Culto na Igreja Metodista).

 

Qual o simbolismo do número quarenta na Bíblia?

O número 40 (quarenta) indica um tempo necessário de preparação para algo novo que vai chegar. Observe a presença do número quarenta na Bíblia:

40 dias e 40 noites do dilúvio (Gn 7.4-12).

40 dias e 40 noites Moisés passa no Monte (Ex 24.18; 34.26; Dt 9.9-11; 10.10);

40 anos foi o tempo da peregrinação pelo deserto (Nm 14.33; 32.13; Dt 8.2; 29.4, etc.).

40 dias de caminhada de Elias até o monte do Senhor (I Rs 19.8).

O Senhor Jesus jejuou 40 dias antes de começar o seu ministério (Mt 4,2; Mc 1,12; Lc 4,2);

A Ascensão de Jesus acontece 40 dias depois da Ressurreição (At 1,3).

 

Quando surgiu a Quaresma na História da Igreja?

A quaresma é mencionada pela primeira vez no Concílio de Nicéia (325 d.C.). 

Foi criada a partir de duas práticas da Igreja Primitiva: O longo jejum anterior à Páscoa (prática judaica) e o período de preparação para o Batismo.

Desde o II século o candidato ao batismo esperava três anos para ser batizado. O batismo ocorria uma vez ao ano, no dia da Páscoa. Na Sexta feira ele ia à igreja e colocava as roupas de neófitos. Ali ficava em jejum até o Domingo da ressurreição onde era batizado nu, em geral por derramamento.

O número quarenta foi determinado pela duração do jejum do Senhor Jesus no deserto. Para alguns líderes da igreja do passado, a quaresma terminava na Quinta-feira Santa e a contagem de 40 dias não contemplava os sábados e domingos.

A quaresma passou a ser um caminho de oração, jejum e arrependimento como preparação para a devida celebração da Paixão e Ressurreição do Senhor.

 

 O que é a Quarta-feira de cinzas?

No século VII d.C. foram acrescentados quatro dias antes do primeiro domingo da Quaresma estabelecendo os quarenta dias de jejum, para imitar o jejum de Cristo no deserto. Assim a quaresma começava na quarta-feira de cinzas.

Era prática comum em Roma que os penitentes (arrependidos de seus pecados) começassem sua penitência pública no primeiro dia de Quaresma. Eles eram salpicados de cinzas, vestidos com sacos e obrigados a manter-se longe até que se reconciliassem com a Igreja na Quinta-feira Santa (Quinta-feira antes da Páscoa).

Quando estas práticas caíram em desuso (do século VIII ao século X) o início do Tempo da Quaresma foi simbolizado colocando cinzas nas cabeças de toda a congregação.

Hoje em dia em várias igreja protestantes e católicas, na Quarta-feira de Cinzas, o cristão recebe uma cruz na fronte com as cinzas obtidas da queima das palmas (ramos) usadas no Domingo de Ramos do ano anterior.

A Igreja Ortodoxa começa a quaresma desde a segunda-feira anterior e não celebra a Quarta-feira de Cinzas.

Para nós a quarta-feira de cinzas é o início da preparação para a Semana Santa e para a Páscoa.

As leituras da Quarta-feira de cinzas para os anos A,B e C são as mesmas: Jl 2:1-2, 12-17 ou Is 58:1-12; Sl 51:1-17; 2 Co 5:20b-6.10; Mt 6:1-6, 16-21.

 

Oração Protestante para Quarta-feira de Cinzas:

Onipotente e Eterno Deus, que amas tudo quanto criaste, e que perdoas a todos os penitentes; cria em nós corações novos e contritos, para que, lamentando deveras os nossos pecados e confessando a nossa miséria, alcancemos de ti, Deus de suma piedade, perfeita remissão e perdão; por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

           

 Como viver o Período Quaresmal?

 

Os domingos: Os domingos da Quaresma são ricos. Os Evangelhos e os textos bíblicos convidam para o arrependimento e nos preparam para o sacrifício do Senhor.

Lecionário: Leia as citações bíblicas para cada dia da semana da Quaresma presentes no Lecionário Comum.

Jejum: Faça jejum uma vez por semana, de preferência na sexta-feira lembrando-se da morte do Senhor. Caso tenha dúvidas, por motivo de saúde, pergunte ao seu médico sobre a duração do jejum e o que não poderá se abster nestas horas.

Abstinência: Faça abstinência em oração e consagração de alguma coisa importante para você. (televisão, carne, refrigerante, pão, etc.).

Oração: Coloque diante de Deus diariamente sua vida e família; e clame por conversão e unção de Deus para que possamos viver verdadeiramente a justiça e a paz de Cristo no mundo.

Leituras de Espiritualidade: Procure leituras próprias para este período. Livros que falem sobre oração, jejum, conversão, perdão, etc.

Caridade: Não apenas na Quaresma, mas em todo o tempo, viva o jejum praticando a caridade e o amor ao próximo. Contudo, neste santo período, faça uma ação concreta sobre a vida de alguém.

Conversão: Todo tempo pensamos na necessidade de conversão. A Quaresma nos ajuda a aprofundar este exame pessoal e nos convida ao arrependimento e a volta para o Senhor.

Retiros Quaresmais: Participe de Retiros Quaresmais com sua igreja.   

 

A Quaresma foi a primeira campanha de oração da Igreja. Uma campanha de Oração de preparação para o Santo Batismo que ocorria sempre na vigília da Páscoa.

 

Para a Equipe Litúrgica:

Cante hinos que falem de arrependimento, contrição, cruz e morte do Senhor.

A equipe precisa prestar atenção aos temas dos domingos da Quaresma. Lembrando que no quarto domingo a cor do altar deve ser rosa claro. Dia de Alegria (Domingo Laetare).

Na quarta-feira de cinzas é interessante o culto com Ceia do Senhor pela manhã, e a lembrança de que somos cinzas e voltaremos para o pó com a nossa morte e nosso espírito volta para Deus.

Pode ser usado o símbolo das cinzas para este fim litúrgico.

A igreja pode estar ornamentada com panos de saco no altar, símbolo de contrição e arrependimento.

Uma cruz vazia ou uma coroa de espinho pode também ser utilizados como símbolos.

 

Cor litúrgica da Quaresma:

A Cor é o Roxo Lilás. No 4º Domingo da Quaresma (Domingo Laetare – Alegria), a cor é o Rosa.

 

domingo, 11 de fevereiro de 2024

247 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Décimo Primeiro (Capítulos 47 - 49)

 






247

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Décimo Primeiro (Capítulos 47 - 49)

 


O livro XI fala da diferença entre a humanidade e a divindade de Cristo e da glorificação da humanidade de Cristo e nossa glorificação juntamente com Ele. São 49 capítulos.

 

Capítulo 47.

1.      Porque só podemos conhecer o que é posterior à nossa capacidade de conhecimento, o Apóstolo, depois de referir-se à profundidade da sabedoria de Deus, à imensidão de seus juízos imperscrutáveis e infinitos, a seus caminhos misteriosos e inacessíveis, a seu pensamento secreto e incompreensível, a seu conselho oculto, acrescentou: Quem primeiro lhe fez dom para receber em troca? Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! (Rm 11,35-36).

2.      Deus, que é eterno, não está sujeito a nenhum limite, nem pode ser antecipado por nenhum movimento anterior ou da inteligência anterior a Ele.

3.      Por isso, é uma imperscrutável profundeza, de tal sorte que não pode ser limitado de modo algum.

4.      É entendido como imenso porque não recebeu de ninguém o que é e ninguém antes lhe deu algo, para que tenha a obrigação de retribuir.

5.      Pois dele e por Ele e nele tudo existe. Não necessita de nada do que existe a partir dele por meio dele e nele. Ele é origem, é opífice (artífice), é Aquele que tudo contém, que tudo transcende, é o criador de tudo o que foi feito, não tem necessidade do que é seu.

6.      Nada existe antes dele, nada tem outra origem, nada existe fora dele. Portanto, de que aumento de plenitude precisará, para que, no tempo, Deus venha a ser tudo em todas as coisas? Ou, de onde receberá Aquele, fora do qual nada existe? Não havendo nada fora dele, é eterno.

7.      E que se deverá acrescentar, para que seja completado ou mudado, Àquele que sempre é, fora de quem nada existe? Pois diz: Eu sou, e não mudo (Ml 3,6).

8.      Nele não há lugar para mudança nem motivo para progredir, nada anterior à sua eternidade, nada além de sua divindade.

9.      Logo, Deus não será tudo em todas as coisas pela submissão do Filho, nem será levado à plenitude por nenhuma causa, porque é a partir dele, por Ele e nele que subsistem todas as causas.

10.  Deus permanece sempre o que é e não precisa progredir, pois é sempre o que é, por si e para si.

 

Capítulo 48.

11.  Também para o Deus Unigênito não há necessidade de mudança da natureza.

12.  É Deus, e este nome indica a plena natureza da plena e perfeita divindade.

13.  Como acima ensinamos, a razão para pedir a glória e a causa da submissão é que Deus seja tudo em todas as coisas.

14.  Que Deus seja tudo em todas as coisas é mistério, não necessidade.

15.  Permanecendo na forma de Deus, assumiu a forma de servo. Não se transformou, despojou-se de si mesmo, ocultou-se dentro de si, esvaziou-se, mantendo, no entanto, o seu poder.

16.  Adaptou-se ao modo de agir humano porque a fraqueza da natureza humana assumida não aguentaria a poderosa e imensa natureza divina, mas o poder ilimitado devia ficar circunscrito somente à medida que fosse preciso para obedecer e suportar o padecimento do corpo unido a Ele.

17.  Ao esvaziar-se, manteve-se em si mesmo, por isso seu poder não sofreu detrimento, visto que, na humilhação de seu esvaziamento, exerceu em si mesmo o poder de que se tinha despojado.

 

Capítulo 49.

18.  Que Deus seja tudo em todas as coisas significa a elevação de nossa natureza assumida.

19.  Aquele que, existindo na forma de Deus, foi achado na forma de servo, de novo deve ser louvado na glória de Deus Pai, para que se entenda, sem nenhuma dúvida, que permanece na forma daquele em cuja glória deve ser louvado.

20.  Trata-se do desígnio de salvação, não de mudança, pois continua a existir na natureza em que existia.

21.  Mas, tendo havido, entretanto, um tempo intermediário em que começou a existir, isto é, seu nascimento como Homem, tudo é adquirido para aquela natureza que antes não foi Deus, porque se mostra que Deus é tudo em todas as coisas, depois do mistério da economia.

22.  É proveito e lucro para nós, pois somos conformados à glória do corpo de Deus (cf. Fl 3,21; 2,11).

23.  Além disso, o Deus unigênito, ainda que tenha nascido como Homem, não é outro senão Deus que é tudo em todas as coisas.

24.  Pois aquela submissão do corpo, pela qual aquilo que Ele tem de carnal é absorvido pela natureza espiritual, faz com que Aquele que, além de Deus, é também homem, seja Deus, tudo em todas as coisas.

25.  É nossa humanidade que é assim elevada. Nós também havemos de progredir até ser conformados à glória daquele que é Homem como nós, e, renovados para o conhecimento de Deus, seremos reformados à imagem do Criador, de acordo com o dito do Apóstolo: Despidos do homem velho com seus atos, e vestidos com o novo, que se renova para o conhecimento de Deus, segundo a imagem de seu Criador (Cl 3,9-10).

26.  O homem torna-se a perfeita imagem de Deus. E, sendo agora conforme a glória do corpo de Deus, eleva-se até ser imagem do Criador, de acordo com o modelo estabelecido para o primeiro homem.

27.  Feito homem novo, para o conhecimento de Deus, depois de abandonar o pecado e o velho homem, atinge a perfeição para a qual foi criado.

28.  Conhecendo seu Deus e fazendo-se sua verdadeira imagem, por meio da verdadeira fé, caminha rumo à eternidade devendo permanecer por toda a eternidade a imagem de seu Criador.

 

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