sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Estudo 16 - Capítulos 17 a 21

16
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro II - Capítulos 17 a 21



XVII - O que Fílon conta sobre os ascetas do Egito
XVIII - Obras de Fílon que chegaram até nós
XIX  - Calamidades que se abateram sobre os judeus de Jerusalém no dia da Páscoa
XX - Do que ocorreu em Jerusalém nos dias de Nero
XXI - Do egípcio, também mencionado pelos Atos dos Apóstolos


Texto Bíblico: Romanos 8.35

XVII - O que Fílon conta sobre os ascetas do Egito

1.            Um documento diz que Fílon, nos tempos de Cláudio, chegou a Roma para conversar com Pedro, que então estava pregando aos dali. Isto na verdade pode não ser inverossímil, já que a própria obra de que falo - composta por ele mais tarde, passado muito tempo - contém claramente as regras da Igreja, observadas ainda em nossos dias.
2.            Ocorre no entanto que, ao descrever com a maior exatidão possível a vida de nossos ascetas, fica evidente que ele não somente conhecia, mas também aprovava, reverenciava e honrava os valores apostólicos de seu tempo, de origem hebraica ao que parece, e que por isso conservavam ainda a maior parte dos antigos costumes muito à maneira dos judeus.
3.            Em primeiro lugar, no livro que intitulou Da vida contemplativa ou Suplicantes, Fílon deixa bem estabelecido que não acrescentaria ao que contasse nada contrário à verdade nem de sua própria criação. Diz que eram chamados terapeutas, e as mulheres que estavam com eles terapeutisas, e comenta as razões de tais nomes: ou porque como médicos livravam aqueles que os cercavam dos sofrimentos causados pela maldade às almas, curando-os e cuidando deles, ou pela limpeza e pureza de seu serviço e culto à divindade.
4.            Portanto não é necessário estender-se discutindo se Fílon colocou-lhes ele mesmo este nome, escrevendo o nome que correspondia à índole desses homens, ou se na verdade já se chamavam assim aos primeiros quando começaram, já que o nome de cristãos ainda não era bem conhecido em qualquer lugar.
5.     De qualquer forma, em primeiro lugar atesta seu afastamento das riquezas, afirmando que, quando começam a viver esta filosofia, cedem seus bens aos parentes e assim, livres de toda preocupação pela vida, saem para fora das muralhas para seguir sua vida em campos isolados e em bosques, sabendo que o convívio com pessoas de sentimentos diferentes é nocivo e sem proveito. Naquele tempo, ao que parece, os que agiam assim exercitavam-se em imitar com sua fé entusiástica e ardorosa a vida dos profetas.
6.            Com efeito, também nos Atos dos Apóstolos, que são reconhecidos como autênticos, descreve-se que todos os discípulos dos apóstolos vendiam suas posses e riquezas e as repartiam a todos conforme a necessidade de cada um, de forma que entre eles não havia indigentes[1]. Portanto, segundo diz o livro[2], todos os que possuíam campos ou casas os vendiam, e levando o produto da venda, depositavam-no aos pés dos apóstolos, de modo que os repartissem a cada um segundo suas necessidades.
7.     Fílon, depois de atestar práticas semelhantes a estas continua dizendo textualmente:
"Este tipo de homens se encontra em muitos lugares do mundo, pois é mis­ter que tanto a Grécia como as terras bárbaras participem do bem perfeito. Mas onde abundam é no Egito, em cada um dos chamados nomos[3], e sobretudo em torno de Alexandria.
8.   Os melhores de cada região são enviados a um tipo de colônia, como a uma pátria dos terapeutas, um lugar muito adequado, que se encontra às margens do lago Mareia, sobre uma colina baixa, nas melhores condições devido à segurança e à salubridade do ar."
Descreve então como eram suas moradias, e sobre as igrejas da região diz o que segue:
9.             "Em cada casa há uma sala sagrada, que se chama oratório privado e monastério[4], na qual se isolam e realizam os mistérios da vida sagrada. Nela não introduzem bebida, nem alimento, nem nada do que é necessário para o corpo, mas leis, oráculos anunciados por meio dos profetas, hinos e tudo aquilo com que o conhecimento e a religião crescem e se aperfeiçoam." E depois de outras coisas, diz:
10.  "O tempo que vai do alvorecer ao ocaso é empregado inteiramente nesta prática: lêem as Escrituras Sagradas, filosofam e expõe a filosofia pátria empregando a alegoria, já que pensam que a expressão falada é símbolo da natureza oculta, que se manifesta em alegorias.
11.      Possuem também escritos de antigos varões que foram os fundadores de sua seita e deixaram numerosos monumentos de sua doutrina em forma de alegorias. Tomam-nos por modelos e imitam sua maneira de pensar e agir."
12.     Isto parece ser, portanto, o que disse o homem que os ouviu interpretar as Sagradas Escrituras. E talvez os escritos dos antigos, que ele diz que possuem, sejam possivelmente os Evangelhos, os escritos dos apóstolos e algumas explicações que interpretam, como é natural, os antigos profetas, que são as que contêm a Carta aos Hebreus e outras cartas de Paulo.
13.     Depois Fílon continua escrevendo o que segue sobre como compõem para si novos salmos:
"De forma que não somente se dedicam à contemplação, mas também compõem cantos e hinos a Deus, em todas as formas de metros e melodias, ainda que marcando-os forçosamente com números bastante graves."
14.     Muitas outras coisas sobre o tema são explicadas no mesmo livro, mas pareceu-me necessário enumerar aquelas pelas quais se expõe as características da vida da Igreja.
15.     Mas se a alguém parecer que o que dissemos não é próprio unicamente da forma de vida segundo o Evangelho, mas pode aplicar-se também a outros, além dos indicados, que se convença pelas palavras seguintes de Fílon, nas quais, se sua intenção é boa, encontrará um testemunho incontestável sobre este ponto, pois escreve assim:
16.     "Começam estabelecendo como fundamento da alma a continência, e sobre esta edificam as demais virtudes. Nenhum deles tomaria alimento ou bebida antes do pôr-do-sol, pois entendem que a luz é conveniente para filosofar, enquanto que às necessidades do corpo servem bem as trevas; por isso deixam o dia para aquele mister, e um breve espaço da noite para estas.
17.     Alguns inclusive descuidam do alimento durante três dias: neles está mais arraigado o amor pela ciência. Outros de tal maneira se alegram e deleitam no banquete da sabedoria, que tão rica e abundantemente lhes abastece de doutrina, que podem resistir o dobro do tempo e tomar apenas o alimento necessário ao fim de seis dias, por costume."
Cremos que estas palavras de Fílon referem-se clara e indiscutivelmente aos nossos.
18.     Mas se depois do que foi dito alguém ainda se empenhar em contradizê-lo, afaste-se também este de sua incredulidade e convença-se com provas mais claras, que não podem ser achadas em outra parte senão na religião cristã segundo o Evangelho.
19. Diz efetivamente que, com os homens de que fala convivem também mulheres, a maioria das quais chegam virgens à velhice depois de guardar a castidade, não por necessidade como algumas sacerdotisas dos gregos, mas sim por convicção voluntária, devido ao seu zelo e sede de sabedoria, com a qual se esforçam em viver, sem importar-se em nada com os prazeres do corpo e desejosas de ter não filhos mortais, mas imortais, os quais somente a alma amante de Deus pode gerar de si mesma.
20. Um pouco mais adiante expõe ainda mais claramente o que segue:
"Mas eles fazem as interpretações das Sagradas Escrituras por meio de sentidos simbólicos, em alegorias, já que toda a legislação parece a estes homens semelhante a um ser vivo: como corpo têm as expressões conven­cionadas; como alma, o sentido invisível encerrado nas palavras, sentido que esta seita começou a contemplar como que refletida no espelho dos homens, a beleza extraordinária dos conceitos."
21.  Para que acrescentar a tudo isto suas reuniões num mesmo lugar, o modo de vida que levam separadamente os homens e as mulheres e os exercícios que nós mesmos por costume ainda praticamos, sobretudo os que costumamos realizar na festa da Paixão do Salvador: abstinência, vigílias noturnas e a aplicação às palavras divinas?
22.  Tudo isto nos transmitiu muito exatamente o mencionado autor em sua pró­pria obra, com o mesmo caráter que se pode observar até hoje somente entre nós. Descreve as vigílias completas da grande festa, os exercícios que nela são feitos e os hinos que costumamos dizer, e como, enquanto um vai salmodiando com ritmo e ordenadamente, os demais escutam em silêncio e repetem com ele somente o estribilho dos hinos, e também como nos dias assinalados deitam-se sobre leitos de palha e não tomam do vinho em absoluto - como escreve textualmente -, nem sequer carne, antes têm como única bebida a água e como condimento do pão apenas sal e hissôpo.
23.  Além disso, descreve a ordem de precedência daqueles a quem estão con­fiados os ofícios eclesiásticos públicos, o serviço e as presidências do episcopado, que estão acima de todas. Quem desejar um conhecimento exato de tudo isto pode consegui-lo na mencionada obra do referido autor.
24.  E que Fílon escreveu isto depois de aceitar os primeiros arautos da doutrina evangélica e dos costumes que desde o princípio transmitiram os apóstolos, é evidente para todos[5].

XVIII - Obras de Fílon que chegaram até nós
1.      Rico em linguagem, de pensamentos amplos, sublime e elevado na contem­plação das divinas Escrituras, Fílon fez sobre as palavras sagradas uma exposição variada e multiforme. Primeiro, em ordem concatenada e seguida, expôs detalhadamente as dificuldades do conteúdo do Gênesis nos livros que intitulou Alegorias das leis sagradas, depois, em parte distinguin­do, suprimindo e fazendo concordar capítulos das escrituras postos num mesmo quadro de referência, nos mesmos a que aplicou o título Problemas e soluções sobre o Gênesis e sobre o Êxodo, respectivamente.
2.      Tem além destes alguns estudos de certos problemas particularmente trabalhados, como são: dois livros Sobre a agricultura, e outros dois Sobre a embriaguez[6] e alguns outros que levam títulos diversos e apropriados, tais como Sobre as coisas que o sóbrio entendimento deseja e abomina[7], Sobre a confusão das línguas, Sobre a fuga e a invenção, Sobre o agrupa­mento para o ensino, Sobre quem é o herdeiro das coisas divinas ou Sobre a divisão em partes iguais e desiguais, e também Sobre as três virtudes que Moisés descreveu junto com outras.
3.      Há também a obra Sobre as trocas de nomes e o por quê destas trocas, na qual diz que escreveu também os livros I e II Sobre os testamentos[8].
4.      Também é sua a obra Sobre a emigração e vida do sábio perfeito segundo a justiça[9] ou Sobre as leis não escritas; e também Sobre os gigantes ou De como a divindade não muda, assim como os livros I-V da obra De como, segundo Moisés, é Deus quem envia os sonhos. Estas são as obras que chegaram até nós das que tratam sobre o Gênesis.
5.      Quanto ao Êxodo, conhecemos dele o seguinte: os livros I-V de Problemas e soluções, as obras Sobre o tabernáculo, Sobre o decálogo e os livros I-IV Sobre as leis que em especial se referem aos capítulos principais do decálogo; Sobre os animais para os sacrifícios e espécies de sacrifícios e Sobre os prêmios para os bons, e castigos e maldições para os maus, que estão na lei.
6.      Além destas todas, dão-se como suas obras de um só livro, como: Sobre a Providência[10], o tratado que compôs Sobre os judeus, O Político e ainda Alexandre ou de como os animais irracionais têm razão, e também De como todo homem mau é escravo[11], ao qual se segue outra obra: De como todo homem bom é livre.
7.              Depois destas compôs a obra Da vida contemplativa ou Suplicantes, da qual citamos passagens sobre a vida dos varões apostólicos[12]; e diz-se que são também suas as Interpretações dos nomes hebreus que há na Lei e nos Profetas.
8.              Chegou Fílon em Roma nos tempos de Caio, e diz-se que seus escritos sobre a teofobia de Caio, que ele intitulou, com sua ponta de ironia, Sobre as virtudes, foram por ele expostos diante do senado romano reunido, nos tempos de Cláudio, de forma que suas obras foram muito admiradas e consideradas dignas de ser colocadas nas bibliotecas.
9.              Por este tempo Paulo realizava sua viagem desde Jerusalém até o Ilírico[13], Cláudio expulsava os judeus de Roma e Áquila e Priscila, lançados de Roma com os demais judeus, desembarcavam na Ásia e conviviam com o após­tolo Paulo, que consolidava os fundamentos daquelas igrejas, recém lan­çados por ele. Quem nos ensina tudo isto é também a sagrada escritura dos Atos[14].

XIX  - Calamidades que se abateram sobre os judeus de Jerusalém no dia da Páscoa
1.            Cláudio ainda regia o império quando ocorreu que, na festa da Páscoa, produziu-se em Jerusalém uma insurreição e uma confusão tamanhas que apenas dentre os judeus, que se apertavam com toda a força nas saídas do templo, morreram trinta mil, esmagados uns contra os outros, transformando-se a festa em dor para toda a nação e em pranto para cada família. Também isto é expressamente referido por Josefo.
2.            Cláudio estabeleceu como rei dos judeus Agripa, filho de Agripa, e enviou Félix como procurador de toda a região da Samaria, da Galiléia e da chamada Peréia. Depois de ter exercido o comando durante treze anos e oito meses, morreu, deixando Nero como sucessor no império.

XX - Do que ocorreu em Jerusalém nos dias de Nero
1.            Nos tempos de Nero e sendo Félix procurador da Judéia, os sacerdotes se levantaram uns contra os outros; Josefo o descreve textualmente no livro XX de suas Antigüidades, como segue:
2.            "Os sumos sacerdotes levantaram disputa contra os sacerdotes e principais personalidades do povo de Jerusalém, e cada um deles criou para si uma tropa de homens dos mais atrevidos e revolucionários e fez-se seu chefe. Quando se enfrentavam insultavam-se uns aos outros e lançavam pedras. Não havia ninguém que o reprimisse, pelo contrário, como numa cidade sem governo, isto acontecia com toda a liberdade.
3.            Tamanho descaramento e audácia se apoderou dos sumos sacerdotes, que se atreveram a enviar escravos às eiras para tomar para si os dízimos devi­dos aos sacerdotes, e chegou-se ao ponto de sacerdotes pobres morrerem na indigência. Assim é como a força dos facciosos prevalecia sobre toda a justiça."
4.            Relata também o mesmo escritor que naquele tempo surgiu em Jerusalém certa espécie de ladrões que, segundo diz, em pleno dia e no meio da cidade assassinavam quem quer que os encontrasse.
5.     Principalmente nos dias de festas, misturavam-se à multidão levando adagas[15] escondidas sob as roupas e com elas apunhalavam seus adversários. Quando estes caíam, os próprio assassinos uniam-se aos que manifestavam sua indignação, e por isso, com tal aparência de honradez, não havia quem os descobrisse.
6.     O primeiro que degolaram foi o sumo sacerdote Jonatan, e depois dele, a cada dia foram matando muitos. O medo era mais terrível do que as calamida­des, pois todos esperavam a morte a qualquer momento, como numa guerra.

XXI - Do egípcio, também mencionado pelos Atos dos Apóstolos
1.   Em continuação, acrescenta depois de outros detalhes:
"Com uma praga pior do que esta foram os judeus prejudicados pelo pseudoprofeta Egípcio. De fato, chegou este ao país como feiticeiro e com ares de profeta. Conseguiu reunir trinta mil iludidos e os conduziu ao deserto até o monte chamado das Oliveiras, de onde lhe seria possível entrar à força em Jerusalém e subjugar a guarnição romana e o povo, utilizando despoticamente as forças que o haviam acompanhado.
2.            Mas Félix antecipou-se a seu ataque saindo logo com os soldados romanos, e todo o povo contribuiu com a defesa, de modo que, iniciado o combate, o Egípcio empreendeu a fuga com uns poucos, enquanto a maior parte dos que estavam com ele pereceram ou foram feitos prisioneiros."
3.     Isto escreve Josefo no livro II de suas Histórias. Contudo, será bom relacio­nar o que ele diz sobre o Egípcio com o que é dito nos Atos dos Apóstolos[16], na passagem onde o tribuno militar de Jerusalém pergunta a Paulo nos tem­pos de Félix, quando o populacho judeu se voltara contra ele: Então não és tu o Egípcio que há alguns dias levantou uma sedição e levou ao deserto os quatro mil sicários?
Isto sucedeu nos tempos de Félix.


O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?










[1] At 2:45.
[2] At 4:34-35.
[3] Distritos em que era dividido o Egito.
[4] Fílon não fala de igreja, como diz Eusébio, mas de habitação sagrada, com o duplo nome de oratório privado e monastério (lugar para uma só pessoa).
[5] Eusébio trata Fílon como "um dos nossos", um escritor cristão, no que é seguido por S. Jerônimo, apesar de este duvidar da autenticidade do texto de Fílon.
[6] O segundo livro foi perdido totalmente.
[7] Desta obra só se conservaram fragmentos.
[8] Isto indica que Eusébio já não conheceu diretamente esta obra, que está perdida.
[9] São na verdade duas obras: Sobre a emigração e Sobre a vida do sábio perfeito segundo a justiça.
[10] Só se conserva completa uma tradução armênia; em grego somente o que foi transmi­tido por Eusébio.
[11] Obra perdida.
[12] Vide XVII:7-ss.
[13] Rm 15:19.
[14] At 18:2, 18-19,23.
[15] Estas adagas eram as sicae, o que deu origem à palavra sicário, aquele que mata com a adaga e a traição.
[16] At 21:38.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

15
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro II - Capítulos 8 a 16

      
                                                     



Texto Bíblico: Atos 12.1,2,13-17
 
VIII - Da fome nos tempos de Cláudio
IX - Martírio do apóstolo Tiago
X - De como Agripa, também chamado Herodes, perseguiu os apóstolos e logo sentiu a vingança divina
XI - Do impostor Teudas
XII - De Elena, rainha de Adiabene
XIII - De Simão Mago
XV - Do evangelho de Marcos
XVI - De como Marcos foi o primeiro a pregar aos egípcios o conhecimento de Cristo


VIII - Da fome nos tempos de Cláudio
1.            Caio, porém, não chegou a cumprir os quatro anos de exercício do comando. Sucedeu-o como imperador Cláudio, sob o qual se abateu sobre o mundo uma grande fome (e isto nos transmitem em suas histórias mesmo os escritores mais alheios a nossa doutrina) e cumpriu-se a predição do profeta Ágabo, segundo os Atos dos Apóstolos, de que era iminente uma grande fome sobre todo o mundo.
2.            Lucas descreveu nos Atos a grande fome dos tempos de Cláudio, e depois de narrar como os irmãos de Antioquia enviaram socorro aos irmãos da Judéia por meio de Paulo e Barnabé, cada qual segundo suas possibilidades, acrescenta:

IX - Martírio do apóstolo Tiago
1.            Naquele tempo - evidentemente o de Cláudio -o rei Herodes pôs-se a mal­tratar alguns da Igreja. E matou Tiago, o irmão de João, com a espada[1].
2.            Acerca deste Tiago, Clemente, no livro VII de suas Hypotyposeis, acrescenta um relato digno de menção, afirmando tê-lo tomado de uma tradição ante­rior a ele. Diz que aquele que o introduziu ante o tribunal, comovido ao vê-lo dar testemunho, confessou que também ele era cristão.
3.     "Ambos pois, diz Clemente, foram levados juntos dali, e no caminho pediu que Tiago o perdoasse, e este, depois de olhá-lo um instante, disse: A paz esteja contigo, e beijou-o. E assim é que ambos foram decapitados ao mes­mo tempo."
4.            Então, como diz a divina Escritura[2], vendo Herodes que sua façanha de assassinar Tiago tinha agradado aos judeus, tentou-o também contra Pedro, encarcerou-o e pouco faltou para que o executassem também se um anjo, por aparição divina, não houvesse aparecido a ele durante a noite e não o tivesse retirado milagrosamente da prisão, deixando-o livre para o ministério da pregação. Esta foi a providência disposição no que diz respeito a Pedro.

X - De como Agripa, também chamado Herodes, perseguiu os apóstolos e logo sentiu a vingança divina
1. O merecido pelos atentados do rei contra os apóstolos não demorou, e o ministro vingador da justiça divina alcançou-o em seguida. Imediatamente depois da conspiração contra os apóstolos, segundo narra o livro dos Atos, pôs-se a caminho de Cesaréia, e ali, estando adornado com esplêndidas e regias vestimentas e colocado no alto diante de uma tribuna, dirigiu a palavra ao povo. Todo o povo aplaudiu seu discurso, como se fosse voz de Deus e não de homem, e neste mesmo instante - narra a Escritura - um anjo do Senhor o feriu, e convertido em pasto para os vermes, morreu[3].
2.            É de se admirar como também concordam quanto a este estranho aconteci­mento a Escritura divina e a narrativa de Josefo. É evidente que Josefo atesta a verdade no livro XIX de suas Antigüidades, onde explica o ocorrido com as palavras que se seguem:
3.     "Havia terminado o terceiro ano de seu reinado sobre toda a Judéia e ele se achava na cidade de Cesaréia, antes chamada Torre de Stráton. Estava ali celebrando jogos públicos em honra de César, por cuja saúde sabia ele que se realizavam estas festas. A eles tinha comparecido grande multidão de autoridades e dignitários da província.
4.     No segundo dia da festa, havendo posto um traje todo feito de prata, que resultava num tecido admirável, entrou no teatro ao raiar do dia, então a prata, iluminada pelos primeiros raios do sol, refulgia admiravelmente e lançava reflexos que atemorizavam e faziam estremecer a todos que colocavam suas vistas sobre ele.
5.            Logo começaram os aduladores, por todos os lados, a levantar suas vozes, que para ele de nada valiam, chamando-o deus e dizendo: Sede-nos propício! Se até aqui nós o tememos como a um homem, desde agora confessamos que és superior à natureza mortal.
6.     O rei não os repreendeu nem tentou rechaçar a ímpia adulação. Mas pouco depois, levantando os olhos viu um anjo[4] planando sobre sua cabeça, e em seguida pensou que aquele anjo seria causa de males como por algum tempo fora de bens. A angústia oprimiu-lhe o coração.
7.            E sobreveio-lhe uma repentina dor no ventre, que começou com grande intensidade. Pondo os olhos sobre os amigos, disse: Eu, vosso deus, recebi a ordem de devolver a vida. O destino se apressou em desmentir vossas vozes mentirosas de agora a pouco. Eu, que vocês chamavam imortal, sou agora conduzido à morte. Devo aceitar o destino como Deus o quis, porque de forma alguma vivi mal, mas com grande ventura.
8.   Enquanto dizia isto, a força da dor o esgotava. Dirigiu-se pois com cuidado para dentro do palácio.
A todos foi chegando o rumor de que irremediavelmente morreria em pouco tempo. Mas a multidão, com suas mulheres e seus filhos, logo veio a prostrar-se segundo os costumes pátrios e começou a suplicar pelo rei. Os choros e lamentos enchiam tudo, e o rei, deitado no dormitório do alto, vendo-os embaixo inclinados, prostrados, também não pôde conter as lágrimas.
9.             Acabado pela dor intestinal de uns cinco dias contínuos, morreu aos cinqüenta e quatro anos de idade, no sétimo de seu reinado. Reinou quatro anos sob César Caio, governou as tetrarquias de Felipe durante três e no quarto recebeu também a de Herodes. Reinou ainda três anos sob o império de César Cláudio."
10.      Estou admirado de como Josefo, neste e em outros pontos, confirma a verdade das divinas Escrituras. É certo que para alguns poderia parecer que discordam quanto ao nome do rei[5], mas o tempo e o modo de agir mostram que se trata do mesmo, devendo-se a troca de nome a um erro de escrita ou a que um mesmo tivesse dois nomes, como ocorre com muitos outros.

XI - Do impostor Teudas
1.            Já que Lucas, nos Atos[6], apresenta Gamaliel dizendo, na sentença sobre os apóstolos, que no tempo assinalado surgiu Teudas, que dizia ser alguém, e que ao ser eliminado todos os que nele creram se dispersaram, comparemos também o que Josefo escreve sobre isto, pois efetivamente, na obra citada há pouco, narra isto textualmente como segue:
2.            "Sendo Fado procurador da Judéia, certo impostor chamado Teudas conseguiu persuadir uma grande multidão a que tomassem seus bens e o seguissem até o rio Jordão, pois dizia que era profeta e afirmava que com seu comando separaria o rio para fazê-lo mais facilmente transponível. Enganou muitos falando assim.
3.            "Fado não lhes permitiu saborear sua loucura, mas enviou contra eles um esquadrão de cavalaria que caiu-lhes em cima de surpresa, e deu morte a muitos e capturou muitos vivos. O próprio Teudas foi pego vivo, cortaram-lhe a cabeça e a levaram a Jerusalém."
Em continuação a isto, Josefo menciona também a grande fome que houve nos tempos de Cláudio, como segue:

XII - De Elena, rainha de Adiabene
1.      "Neste tempo ocorreu que houve a grande fome na Judéia. Durante esta, a rainha Elena gastou muito dinheiro na compra de trigo egípcio, que distribuía aos necessitados."
2.              Vemos que também isto concorda com o texto dos Atos dos Apóstolos, que relata como os discípulos de Antioquia decidiram enviar algo, cada um segundo suas possibilidades, em socorro dos que habitavam na Judéia; o que fizeram enviando-o aos anciãos por mãos de Barnabé e Paulo[7].
3.              Desta Elena mencionada pelo escritor ainda hoje vêem-se esplêndidas colunas nos subúrbios da atual Elia. Dizia-se que havia sido rainha do povo de Adiabene.

XIII - De Simão Mago
1.            No entanto, havendo-se propagado a fé em nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo a todos os homens, o inimigo da salvação dos homens já tramava antecipar-se na captura da cidade imperial e para lá conduziu Simão, de quem já falamos acima[8]. De fato, seguindo as hábeis artes deste homem, ganhou para o erro muitos habitantes de Roma.
2.            Isto é demonstrado por Justino, que se distinguiu em nossa doutrina não muito tempo depois dos apóstolos e de quem exporemos oportunamente o que seja conveniente. Em sua primeira Apologia, dirigida a Antonino, em favor de nossa fé, escreve como segue:
3.            "E depois da ascensão do Senhor ao céu, os demônios levaram alguns homens a dizer que eram deuses, e estes não somente não foram perseguidos por vós, mas até foram considerados dignos de honras. Um tal Simão, samaritano, originário da aldeia chamada Giton, que em tempos do César Cláudio realizou mágicos prodígios em vossa imperial cidade, Roma, por arte dos demônios que nele operavam, foi tido por deus, e como a um deus foi honrado por vós com uma estátua no rio Tibre, entre as duas pontes, com a inscrição latina seguinte: SIMONIDEO SANCTO[9], ou seja: A Simão, o Deus santo.
4.     E quase todos os Samaritanos, além de uns poucos de outras nações, proclamam-no e adoram-no como ao Deus primeiro. E a uma certa Elena, que na época andava com ele, e que primeiro estava num prostíbulo -em Tiro da Fenícia -, chamavam-na o Primeiro Pensamento nascido dele".
5.     Isto segundo Justino. Também Irineu concorda com ele quando, no primeiro de seus livros Contra as heresias, traça um retrato deste homem e de sua ímpia e nefasta doutrina. Expô-la em detalhe nesta minha obra seria supérfluo, podendo os que o queiram informar-se também da origem, vida e princípios das falsas doutrinas dos heresiarcas que depois dele foram se sucedendo um após outro, assim como de suas práticas, meticulosamente transmitido no mencionado livro de Irineu.
6.             Recebemos pois por tradição que Simão foi o primeiro autor de toda heresia. Dele até hoje aqueles que, participando de sua heresia fingem a filosofia dos cristãos, sóbria e celebrada universalmente por sua pureza de vida, chegam de novo à superstição idólatra da qual pareciam estar livres, pois se prosternam diante de escritos e de imagens do próprio Simão e de sua companheira, a já citada Elena, e se esforçam em render-lhes culto com incenso, sacrifícios e libações.
7.             Mas suas mais secretas práticas, das quais se diz que quem pela primeira vez as escuta fica estupefato e, segundo uma expressão escrita que corre entre eles, espantado, verdadeiramente estão cheias de espanto, de frenesi e de loucura, e são tais que não somente não podem ser colocadas por escrito, mas que nem sequer com os lábios pode um homem sensato pronunciar o mínimo, pelo exagero de obscenidade e costumes infames.
8.             Porque tudo quanto se possa pensar de mais impuro e vergonhoso fica bem superado pela abominável heresia destes homens, que abusam de mulheres miseráveis e carregadas verdadeiramente de males de todo tipo.

XIV - Da pregação do apóstolo Pedro em Roma
1.            A este Simão, pai e autor de tão grandes males, o poder malvado e odiento de todo bem, inimigo da salvação dos homens, destacou-o naquele tempo como grande adversário dos grandes e divinos apóstolos de nosso Salvador.
2.            No entanto a graça divina e celestial veio em socorro de seus servidores, e somente com a aparição e presença destes extinguiu rapidamente o fogo ateado pelo maligno, e por meio deles humilhou e abateu toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus[10].
3.     Por isso nenhuma maquinação, nem de Simão nem de nenhum outro dos que então proliferavam, prevaleceu naqueles tempos apostólicos: a luz da verdade e o próprio Verbo divino, que recentemente tinha brilhado sobre os homens, florescendo sobre a terra e convivendo com seus próprios apóstolos, triunfava sobre tudo e dominava tudo.
4.     Em seguida o mencionado impostor[11], como ferido nos olhos da mente por um ofuscamento divino e extraordinário quando anteriormente o apóstolo Pedro pôs a descoberto suas malvadas intenções na Judéia, empreendeu uma longa viagem para além do mar, e foi-se fugindo de oriente a ocidente, convencido de que somente ali seria possível viver segundo suas idéias.
5.             Chegou à cidade de Roma, e com a grande ajuda do poder que nela se assenta[12], em pouco tempo alcançou tamanho êxito em seu empreendi­mento, que os habitantes do lugar chegaram a honrá-lo como a um Deus, dedicando-lhe uma estátua.
6.             Não chegaria muito longe esta prosperidade. De fato, pisando em seus calcanhares, durante o próprio império de Cláudio, a providência univer­sal, santíssima e amantíssima dos homens, levava sua mão em direção a Roma, como contra um tão grande flagelo da vida, o firme e grande após­tolo Pedro, porta-voz de todos os outros devido a sua virtude. Como nobre capitão de Deus, equipado com as armas divinas[13], Pedro levava do oriente aos homens do ocidente a apreciadíssima mercadoria da luz espiritual, anunciando a boa nova da própria luz, da doutrina que salva as almas: a proclamação do reino dos céus.

XV - Do evangelho de Marcos
1.            Assim foi que, por habitar entre eles a doutrina divina, o poder de Simão se extinguiu e foi reduzido a nada, junto com ele mesmo. Em troca, o resplendor da religião brilhou de tal maneira sobre as mentes dos ouvintes de Pedro, que não ficavam satisfeitos apenas ouvindo-o uma vez, nem com o ensinamento não escrito da pregação divina, mas com todo tipo de pedidos importunavam Marcos - de quem se diz que é o Evangelho e que era companheiro de Pedro - para que lhes deixasse também um memorial escrito da doutrina que de viva voz lhes era transmitida, e não o deixaram em paz até que o homem o tivesse terminado, e desta forma tornaram-se a causa do texto chamado Evangelho de Marcos.
2.     E dizem que o apóstolo, quando por revelação do Espírito soube o que tinha sido feito, alegrou-se pela boa vontade daquela gente e aprovou o escrito para ser lido nas igrejas. Clemente cita o fato no livro VI de suas Hypotyposeis[14], e o bispo de Hierápolis chamado Papias apóia-o tam­bém com seu testemunho. Marcos é mencionado por Pedro em sua pri­meira carta; dizem que esta foi escrita em Roma mesmo, e que isto se dá a entender ao chamar a cidade, metaforicamente, de Babilônia, com estas palavras: Saúda-vos aquela que está em Babilônia, eleita convosco, e meu filho Marcos.

XVI - De como Marcos foi o primeiro a pregar aos egípcios o conhecimento de Cristo
1.            Dizem que este Marcos foi o primeiro a ser enviado ao Egito, e que ali pregou o Evangelho que ele havia posto por escrito e fundou igrejas, começando pela de Alexandria.
2.            E surgiu ali, na primeira tentativa, uma multidão de crentes, homens e mulheres, tão grande e com um ascetismo tão conforme a filosofia e tão ardente, que Fílon achou que era digno colocar por escrito suas práticas, suas reuniões, suas refeições em comum e tudo o mais referente ao seu modo de vida.


O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?






[1] At 12:1-2.
[2] At 12:13-17.
[3] At 12:19, 21-23.
[4] Em seus manuscritos Josefo fala de uma coruja.
[5] O Novo Testamento chama-o Herodes, Josefo prefere Agripa; na realidade, tinha os dois nomes.
[6] At 5:34-36.
[7] At 11:29-30.
[8] A identificação de Simão o herege com Simão o Mago é duvidosa.
[9] A estátua, encontrada em 1574, tem a inscrição: SEMONI SANCO DEO FIDIO SACRUM, sendo uma homenagem a um antigo deus Sabino SEMO.
[10] 2 Co 10:5.
[11] At 8:18-23.
[12] i.é. o demônio. Sobre a estátua, vide nota 123.
[13] Ef 6:14-17; 1Ts 5:8.
[14] Clemente na verdade diz que Pedro "nem o impediu nem o estimulou".