domingo, 6 de março de 2022

194 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Primeiro (Capítulos 13 - 17)

 



194

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Primeiro (Capítulos 13 - 17)


LIVRO PRIMEIRO

Capítulo 13

1.      Para que algum erro nascido da prudência humana não impeça que se creia com total confiança nestes mistérios da nossa fé, temos ainda o Apóstolo que ensina com palavras divinas: Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações da “filosofia”, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo, porque nele habita a plenitude da divindade corporalmente e nele fostes levados à plenitude. Ele é a Cabeça de todo Principado e de toda a Autoridade. Nele fostes circuncidados, por uma circuncisão não feita por mão de homem, mas pelo despojamento de vossa natureza carnal, pela circuncisão de Cristo, sepultados com Ele no batismo, no qual também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. E vós estáveis mortos pelas vossas faltas e pela incircuncisão da carne, Ele vos vivificou juntamente com Ele; perdoou todos os nossos delitos, apagou o quirógrafo que existia contra nós nas ordens legais, e o suprimiu, pregando-o na cruz, despojando nesta os Principados e as Autoridades, expondo-os em espetáculo diante do mundo, deles triunfando em público com a confiança em si mesmo (Cl 2.8-15).

2.      A firmeza da fé rejeita as capciosas e inúteis questões da filosofia e não se sujeita às falácias das humanas inépcias. Não se oferece a verdade como espólio à falsidade.

3.      A fé não considera Deus segundo o senso comum da inteligência, nem julga, de acordo com os elementos do mundo, a Cristo, em quem a plenitude da divindade habita corporalmente, pois, já que nele está a infinidade do eterno poder, este poder eterno da infinidade supera toda a compreensão da mente terrena.

4.      Atraindo-nos para a natureza de sua infinidade, não nos ligou à observância dos preceitos, nem nos instruiu pela sombra da Lei para o rito do corte da carne (isto é, a circuncisão), mas quis que o espírito circunciso dos vícios pela purificação dos pecados nos libertasse de toda exigência natural do corpo.

5.      Por sua morte seremos, no batismo, sepultados juntamente com Ele, para voltarmos à vida da eternidade.

6.      Visto que a regeneração para a vida eterna é a morte para esta vida e que, morrendo para os vícios, renasceremos para a imortalidade, Ele, imortal, morreu por nós, para que ressuscitássemos juntamente com Ele para a imortalidade.

7.      Assumiu a carne do pecado a fim de conceder-nos, pela assunção de nossa carne, o perdão das culpas, enquanto se tornou participante do que foi assumido, com exceção do pecado.

8.      Apagou, pela morte, a sentença de morte e, pela nova criação do gênero humano, destruiu em si mesmo o decreto de condenação.

9.      Permitiu ser pregado na cruz para que, destruída a maldição da cruz, nela pregasse toda a condenação terrena.

10.  Por último, padeceu como Homem para desonrar as Potestades. Morrendo como Deus, segundo as Escrituras, deveria triunfar com confiança de vencedor, pois sendo imortal e não podendo ser vencido pela morte, quis morrer para conceder a imortalidade aos que morrem.

11.  Estas coisas vão além da compreensão humana, são feitas por Deus e não caem sob o julgamento natural de nossa mente, porque a obra da infinita eternidade exige um julgamento infinito para julgá-la.

12.  Que Deus se faça Homem, que o imortal possa morrer, que o eterno seja sepultado, não pode ser entendido pela inteligência, mas constitui exceção, vinda do poder. Não pertence aos sentidos, mas ao poder divino, que Deus venha do homem, o imortal do morto, o eterno do sepultado.

13.  Pela sua morte ressuscitamos para Deus juntamente com Cristo e, como em Cristo está a plenitude da divindade, devemos reconhecer que o Pai nos ressuscita juntamente com o que morreu e confessar que Cristo Jesus é Deus na plenitude da divindade.

 

Capítulo 14

14.  Minha mente repousava feliz, numa segurança tranquila, por causa da sua esperança. Já não temia a iminência da morte, por considerá-la como o caminho para a vida eterna.

15.  Não julgava molesta ou dura a vida do corpo, mas acreditava ser ela o que são as letras na meninice, o remédio para os doentes, a natação para os náufragos, a disciplina para os adolescentes, a obediência para os militares.

16.  Compreendia que a tolerância das coisas presentes traz como prêmio a bem-aventurada imortalidade. Pregava aos outros aquilo que acreditava ser verdadeiro para si mesma e, pelo ministério do sacerdócio recebido, estendia seu múnus (tarefa) a serviço da salvação do povo.

 

Capítulo 15

17.  Entrementes, surgiram invenções imprudentes de homens desesperados de si mesmos, maus, sem piedade para com todos, que medem o poder da natureza de Deus pela fraqueza da sua própria natureza.

18.  Não pretendiam elevar-se até o infinito, a ponto de opinar sobre a imensidão do que é infinito, mas queriam encerrar o Ilimitado dentro dos limites de sua inteligência e ser, para si mesmos, os árbitros da religião, quando, ao contrário, a obediência é necessária para a religião.

19.  Esquecidos do que lhes compete, negligentes das coisas divinas, põem-se a corrigir os preceitos.

 

Capítulo 16

20.  Passamos em silêncio as estultíssimas razões dos outros hereges, sobre as quais, no entanto, se houver ocasião no discurso, diremos algo.

21.  Alguns corrompem de tal forma o mistério da fé evangélica que, sob a única pia profissão de um só Deus, renegam o nascimento do Deus Unigênito, dizendo tratar-se antes de uma extensão até o homem do que de uma descida.

22.  Negam que Aquele que foi Filho do Homem, tendo no tempo assumido a carne, tenha sido sempre e seja agora o mesmo Filho de Deus.

23.  Dizem que não há nele o nascimento de Deus, mas que é o mesmo que procede de si mesmo. Pretendem que o Pai se tenha estendido a si mesmo, como Filho, até a Virgem, de modo que a sucessão que leva de Deus, tal como é em si mesmo, até a carne, permita guardar a inviolável fé no único Deus.

24.  Outros ainda (porque não há salvação alguma a não ser em Cristo, Deus Verbo, que no princípio estava junto de Deus), negando a natividade, professam somente a criação, já que professar o nascimento significa aceitar que Cristo é verdadeiro Deus, enquanto afirmar a criação faz supor que não seja Deus.

25.  Simulam com isso uma fé verdadeira, ao afirmar um só Deus em sua essência, enquanto não excluem a Cristo do mistério.

26.  Substituem, porém, o verdadeiro nascimento pela palavra e pela fé na criação e assim o separam do único Deus verdadeiro, já que uma criatura subordinada não pode pretender para si a perfeição da divindade que não lhe foi concedida pelo verdadeiro nascimento.

 

Capítulo 17

27.  O espírito se inflama ao responder à sua loucura, recordando como foi salutar para si mesmo não apenas crer em um só Deus, mas crer também que Deus é Pai e, não apenas esperar em Cristo, mas no Cristo que é Deus, que não é criatura, mas é Deus criador, nascido de Deus.

28.  Apressamo-nos, a partir dos precônios (pregações) proféticos e evangélicos, em confundir o delírio e a ignorância daqueles que, pretextando a pregação de um só Deus, a única e verdadeiramente útil pregação religiosa, ou negam que Cristo seja Deus Filho, ou se opõem a que seja verdadeiro Deus, de tal modo que a criação de uma criatura poderosa faça parte do mistério da fé no único Deus, porque, para eles, confessar a natividade de Deus seria afastar-se da fé no único Deus.

29.  Quanto a nós, instruídos por Deus a não pregarmos dois deuses nem um solitário, apoiamos a razão desta afirmação nos precônios evangélicos e proféticos, sobre Deus Pai e Deus Filho.

30.  Para nossa fé, um e outro são um só, mas não são uma só pessoa. Professamos que um e outro não são o mesmo e também que, entre o verdadeiro e o falso, não há algum outro.

31.  O nascimento não permite que Deus nascido de Deus seja o mesmo que este nem permite que seja algo diferente.

 

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terça-feira, 1 de março de 2022

192 Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Primeiro (Capítulos 7 - 12)

 



192

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Primeiro (Capítulos 7 - 12)

 


LIVRO PRIMEIRO

Capítulo 7

1.      A alma se alegrava com a percepção desta excelente e inexplicável inteligência, porque adorava em seu Pai e Criador a infinidade de imensa eternidade.

2.      Porém, com um empenho mais exigente, procurava ao menos contemplar a beleza de seu infinito e eterno Senhor, como se a incircunscrita imensidade da bela inteligência pudesse ser mostrada de modo que sua beleza fosse conhecida.

3.      Quando a mente religiosa se via cercada pelo erro devido a sua fraqueza, encontrou nas vozes proféticas esta belíssima sentença: Pela magnitude das obras e beleza das criaturas pode-se chegar a contemplar, por analogia, seu Criador (Sb 13,5; LXX).

4.      O Criador daquilo que é grande está nas coisas maiores e o Autor das coisas belíssimas está nas mais belas.

5.      Quando a obra excede o próprio pensamento, necessariamente deve o autor superar em muito esse pensamento.

6.      Certamente belo é o céu, o éter, a terra, os mares; e o conjunto de tudo existe com sua formosura, a ponto de escolherem os gregos para nomeá-lo a palavra, apropriada, kosmos, que significa mundo.

7.      Nossa mente, por um instinto natural, capta a beleza das coisas de tal modo que, como acontece com certas aves e animais, não pode expressar com palavras o que entende, pois, a palavra fica aquém do pensamento, enquanto, por outro lado, toda palavra provém da mente e esta fala a si mesma com compreensão.

8.      Não se deve, então, pensar que o Senhor de toda beleza seja necessariamente muitíssimo mais belo do que toda a beleza?

9.      E se a beleza da eterna glória escapa a toda compreensão, será que ela não permite a nossa inteligência uma intuição a seu respeito?

10.  Por conseguinte, Deus deve ser confessado como belíssimo, pois, se não existe para a inteligência uma expressão adequada, contudo Ele não se acha fora da possibilidade de compreensão.

Capítulo 8

11.  O espírito imbuído pelo desejo despertado por estas piedosas sentenças e doutrinas descansava, como em inacessível altura, na beleza desta ideia, compreendendo que não lhe fora dada, pela sua natureza, outra coisa com que pudesse prestar ao seu Criador maior homenagem que esta: reconhecer que seu ser é tão grande que nele se pode crer, mas não se pode entendê-lo, pois a fé aceita a explicação necessária à religião, mas a infinidade do poder eterno a ultrapassa.

 

Capítulo 9

12.    Em meio a todas estas coisas, permanecia latente o sentimento natural, alimentado pela esperança, de que a santa ideia sobre Deus e os bons costumes mereceria uma incorrupta felicidade como recompensa pela luta vitoriosa.

13.    Não traria fruto pensar bem sobre Deus se a morte fosse destruir todo o sentido e se o ocaso da natureza falível o extinguisse.

14.    A própria razão nos persuadia de que não seria digno de Deus fazer participar do conselho e da prudência, nesta vida, o homem, sujeito a falhar e destinado a morrer para sempre, de tal sorte que aquele que não existia apenas seria trazido a este mundo para deixar de existir.

15.    Pelo contrário, deve-se entender que a única razão de ser de nossa criação está em que o que não era, começasse a ser, e não em que o que começou a ser deixasse de existir.

 

Capítulo 10

16.    O espírito se fatigava, temendo em parte por si mesmo, em parte pelo medo do corpo. Conservava firmemente, pela piedosa profissão da fé, seu modo de pensar a respeito de Deus, mas preocupava-se por si e pelo declínio de seu habitáculo, pois, cheio de ansiedade e incerteza, julgava que o corpo haveria de perecer juntamente com ele.

17.    Contudo, depois do conhecimento da Lei e dos Profetas, veio a conhecer também as palavras da doutrina evangélica e apostólica: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por Ele e, sem Ele, nada foi feito. O que foi feito, nele é a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João. Este veio para dar testemunho da luz. Era a luz verdadeira, que ilumina todo o homem que vem a este mundo. Estava no mundo e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. A todos quantos o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, àqueles que creem em seu nome; que não nasceram do sangue, nem da vontade do homem, nem da vontade da carne, mas de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós; e vimos sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1.1-4).

18.    A mente ultrapassa a razão natural e entende mais sobre Deus do que imaginava.

19.    Reconhece ser seu Criador o Deus de Deus e ouve que o Deus Verbo, no princípio, estava junto de Deus.

20.    Compreende que a luz do mundo, estando no mundo, pelo mundo não foi reconhecida. O que veio ao que era seu, pelos seus não foi recebido.

21.    Mas, sabe também que aqueles que o receberam, como recompensa de sua fé, se tornaram filhos de Deus.

22.    E apreende que não nasceram da união da carne nem foram concebidos pelo sangue nem pela vontade dos corpos, mas nasceram de Deus.

23.    Em seguida conhece o Verbo feito carne, que habitou entre nós, e reconhece que foi vista a sua glória que, sendo a do Unigênito do Pai, é perfeita com a graça e a verdade.

 

Capítulo 11

24.    Aqui, a mente trêmula e ansiosa já encontra mais esperança do que pensava. Em primeiro lugar, é imbuída do conhecimento de Deus Pai.

25.    Aquilo que anteriormente, pelo senso natural, afirmava sobre a eternidade, infinidade e beleza de seu Criador, agora aceita como ser próprio também do Deus Unigênito.

26.    Não estende a fé a vários deuses, por ouvir que Deus vem de Deus. Não admite a diversidade de natureza que separaria Deus de Deus, porque reconhece ser cheio de graça e de verdade o Deus de Deus. Não pensa ser posterior o Deus de Deus, porque reconhece que no princípio estava junto de Deus.

27.    Reconhece que é muitíssimo extraordinária a fé neste conhecimento salutar, mas sabe que traz consigo um imenso prêmio, porque, se os seus não o receberam, os que o receberam foram elevados à filiação de Deus, não pelo nascimento da carne, mas pela fé.

28.    Ser filhos de Deus não vem da necessidade, mas do poder, pois o dom de Deus, proposto a todos, não é dado aos que nasceram simplesmente pela natureza, mas é alcançado como prêmio da aceitação.

29.    Embora cada um tenha o poder de se tornar filho de Deus, a fraqueza de uma fé vacilante pode constituir um impedimento para isto.

30.    Devido a esta dificuldade é levado a esperar com relutância, desejando mais, porém acreditando menos.

31.    Por isso o Deus Verbo se fez carne, para que, pelo Deus Verbo feito carne, a carne fosse elevada, até ser Deus Verbo. Para que se conhecesse que o Verbo feito carne não era outro senão o Deus Verbo e que não deixava de ter a carne de nosso corpo, habitou entre nós, e o que habitou entre nós não é outro, senão o mesmo Deus.

32.    Ao se fazer carne de nossa carne, por condescendência, assumiu nossa carne, e não ficou privado do que é seu, porque, como Unigênito de Deus, é cheio de graça e de verdade, perfeito no que é seu, e verdadeiro no que é nosso.

 

Capítulo 12

33.  Com alegria a mente acolheu esta doutrina do divino mistério. Elevando-se até Deus por meio da carne, foi chamada ao nascimento pela fé e à posse da celeste e nova geração concedida pelo poder.

34.  Reconheceu o cuidado que tem por ela o seu Pai e Criador, tendo por certo que não será reduzida a nada por Aquele, no qual tudo subsiste, vindo do nada.

35.  Tudo isso ultrapassa os limites da inteligência humana, incapaz de entender os desígnios celestes apenas com o senso comum, que julga haver na natureza das coisas somente aquilo que compreende ou pode provar por si mesmo.

36.  Mas as virtudes de Deus, segundo a magnificência do poder eterno, não são avaliadas pela inteligência, mas pela infinidade da fé.

37.  Pelo fato de não entender, não deixava de crer que no princípio Deus estivesse junto de Deus e que o Verbo feito carne tivesse habitado entre nós, e lembrava-se de que poderia entender se acreditasse.

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Encontro de Formação 192 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Primeiro (Capítulos 1-6)

 


192

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Primeiro (Capítulos 1-6)

 


LIVRO PRIMEIRO

Capítulo 1

1.      Procurando investigar o sentido propriamente religioso da vida humana que, ou provém da natureza, ou é descoberto pelas investigações laboriosas dos sábios, para obter o que é concedido ao conhecimento por dom divino, encontrei muitas coisas que, segundo a opinião corrente, parecem tornar a vida mais útil e desejável.

2.      Constatei, principalmente, que o ócio e a opulência são tidos pelos mortais como os melhores e mais importantes de todos os bens. Um sem a outra seria, antes, causa de mal do que de bem, pois o ócio na pobreza pode ser considerado quase como um exílio da vida, e a inquietação na opulência traz tanto mais calamidades quanto, com maior preocupação, carece daquilo que, mais do que tudo, é desejável e ambicionado.

3.      Embora a opulência traga consigo os maiores e melhores encantos da vida, não parece estar muito longe dos deleites dos animais. Estes, de fato, vagando pelos bosques repletos de alimentos, sossegados e sem trabalho, encontram a saciedade nos campos. Se o melhor e o mais importante nesta vida fosse descansar e ter fartura, seria preciso que tal gênero de vida fosse comum a nós e a todos os animais privados da razão.

4.      Para estes, a própria natureza, com imensa prodigalidade, além de segurança, livre de cuidados, fornece com facilidade o necessário.

Capítulo 2

5.      Tenho para mim que a maior parte dos mortais considera absurdo e animal este modo de viver e o rejeita. Censuram-no nos outros porque, levados pela própria natureza, julgam indigno do homem imaginar que tenha nascido, como os irracionais, apenas para o ventre e a inércia, não tendo sidos trazidos a esta vida para a realização de grandes feitos ou ótimas artes.

6.      A vida, pelo contrário, deve ter sido concedida em vista de algum proveito eterno, porque não se poderia atribuir ao dom de Deus uma existência atribulada por angústias, afligida por tantas moléstias e pela ignorância de si mesma e de seu interior, desde a meninice até se consumar nos achaques da velhice.

7.      Por isso preferem exercer as obras e virtudes da paciência, da continência e da benignidade, entendendo que viver bem consiste em bem agir e bem compreender. Não pensam ter sido dada a vida pelo Deus imortal apenas para terminar na morte, pois compreendem não provir do bom Doador a grande alegria de viver somente para o tristíssimo medo de morrer.

Capítulo 3

8.      Não considero inepto nem inútil o modo de pensar dos que procuram conservar a consciência livre de toda culpa e, com prudência, dar um sentido a todas as dificuldades da vida humana, ou deliberadamente pretendem evitá-las, ou pacientemente suportá-las.

9.      Contudo, não me parecem bastante idôneos para ensinar como viver bem e com 15 felicidade, pois apenas estabelecem os preceitos comuns das doutrinas condizentes com o espírito humano.

10.  Não compreender estes ensinamentos é coisa de animal, não exercer o que se compreendeu parece uma loucura que ultrapassa a ferocidade do animal. Apressese, pois, a alma, não apenas em agir assim, porque se não o fizesse estaria cheia de culpa e de sofrimento, mas em conhecer a Deus, Pai de tão grande dom, a quem se deve entregar totalmente, por reconhecer que servi-lo é nobilitante, nele colocando toda a esperança, nele descansando entre as calamidades das preocupações presentes, como em porto seguríssimo e familiar.

11.  Por isso, meu espírito ardia de intenso desejo, não só de compreendê-lo, mas também de conhecê-lo.

Capítulo 4

12.  Muitos afirmavam a existência de numerosas famílias de pretensos deuses e, julgando haver na natureza divina o sexo masculino e o feminino, sustentavam haver nascimentos e sucessões de deuses. Pregavam a existência de deuses, uns maiores, outros menores, diferentes quanto ao poder.

13.  Alguns afirmavam não haver absolutamente um Deus e veneravam apenas a natureza constituída por movimentos e encontros fortuitos. A maioria deles, em conformidade com a opinião popular, dizia que Deus existe, sendo, no entanto, descuidado e negligente quanto às coisas humanas. Outros ainda adoravam os corpos e formas visíveis das criaturas, nos elementos terrenos e celestes.

14.  Por fim, colocavam seus deuses em imagens de homens, animais, feras, aves ou serpentes e encerravam em metais, pedras ou troncos de árvores o Senhor do universo e Pai da imensidão. Não mereciam que se cresse serem mestres da verdade aqueles que, seguindo ridículas e irreligiosas ideias, dissentiam, eles próprios, entre si, por suas vãs opiniões.

15.  No meio de tudo isso, meu espírito solícito, esforçando-se por seguir o caminho útil e necessário para o conhecimento de seu Senhor, não considerava digno de Deus o descaso pelas coisas criadas por Ele e julgava também não competir à natureza forte e incorrupta o sexo dos deuses e as sucessões de progenitores e nascidos.

16.  Também tinha por certo que, ao Divino e Eterno, competia ser somente Um e sem diferença, porque, sendo Ele mesmo o fundamento de seu próprio ser, não poderia deixar fora dele nada que fosse melhor do que aquilo que lhe é próprio.

17.  A onipotência e a eternidade não poderiam estar senão em um mesmo ser, pois não teria sentido existir, na onipotência, o mais forte e o mais fraco e, na eternidade, o antes e o depois, visto que em Deus não se deve venerar nada que não seja eterno e poderoso.

Capítulo 5

18.  Revolvendo no espírito estas e muitas outras coisas, deparei com aqueles livros escritos por Moisés e os Profetas, que transmitiam a religião dos hebreus. Neles, o próprio Deus criador, dando testemunho de si mesmo, assim se expressa: Eu sou o que sou.[...] Isto dirás aos filhos de Israel: Enviou-me a vós aquele que é (Ex 3,14). Fiquei cheio de admiração por tão perfeita definição de Deus que, de modo inteiramente apto, dava à inteligência humana o conhecimento da natureza divina e incompreensível, pois entende-se que nada é mais próprio a Deus do que ser.

19.  O que é, não se diz de alguém a quem falta algo, nem de quem teve começo, mas daquele que, com o poder da incorrupta beatitude, é perpétuo e não pode nem poderia, em algum tempo, não ser. O Ser divino não está sujeito à extinção nem ao começo e, como nada falta à eternidade de Deus, somente dele se deve afirmar a incorrupta eternidade.

Capítulo 6

20.  Com esta definição de sua infinidade, concorda aquela palavra: Eu sou o que sou. Para nós, porém, é ainda necessário entender a obra de sua magnificência e poder.

21.  Sendo-lhe próprio o ser, pois permanece sempre e não começa de modo algum, escuta-se a palavra digna do Deus eterno e incorrupto: O que tem o céu nas palmas e a terra no côncavo da mão (Is 40,12), e também: O céu é meu trono, e a terra, escabelo de meus pés. Que casa me edificareis, ou qual o lugar de meu repouso? Não foi a minha mão que fez isto? (Is 66,1-2). O céu inteiro está na palma de Deus e toda a terra está contida no côncavo da sua mão.

22.  Quanto à palavra de Deus, por mais que se aprofunde sua compreensão, seu sentido íntimo contém sempre mais do que aquilo que o ouvido percebe. Pois o céu, fechado nas palmas, é também o trono de Deus, e a terra, contida no côncavo da mão, é igualmente o escabelo de seus pés. Trono e escabelo não se podem entender como uma extensão da forma do corpo, segundo o modo de assentar-se, já que aquilo que é para si trono e escabelo é também aquilo que a infinidade poderosa encerra segurando na palma da mão. Deve-se reconhecer, nestas comparações tiradas das criaturas, que Deus está dentro e fora de todas as coisas, que transcende e está no mais íntimo de tudo e mostra o seu poder sobre a natureza exterior, contendo-a na mão.

23.  O trono e o escabelo, postos como base, manifestam que as coisas exteriores estão submetidas Àquele que está no interior, pois Deus está dentro das coisas exteriores e encerra as interiores a partir do exterior. Ele mesmo contém tudo o que está dentro e fora e, como é infinito, não está longe de nada, e nada deixa de estar dentro daquele que é infinito.

24.  Demorando-se nestas afirmações tão religiosas, com muito empenho, meu espírito se deleitava. Julgava que nenhum pensamento era digno de Deus, por estar Ele além da compreensão das coisas. Quanto mais a mente finita se dilata para além dos limites do pensamento, mais a infinidade da desmedida eternidade excede a infinidade do que procura atingi-la.

25.  Aquilo que piedosamente chegamos a entender, o Profeta confirmava claramente ao dizer: Aonde irei longe do teu espírito ou fugirei de tua face? Se subo aos céus, lá estás; se desço aos infernos, ali te encontro. Se tomasse minhas asas, antes da luz, e fosse habitar nos confins dos mares, também ali tua mão me conduziria e tua destra me seguraria (Sl 138,7-10).

26.  Nada existe sem Deus e não há lugar algum em que Deus não esteja. Nos céus está, no inferno está, além dos mares está. Está dentro do que é interior, transcende o que é exterior. Tal como contém, assim é contido. Não está em coisa alguma sem que esteja em todas.

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