quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

1- Estudo sobre os Pais da Igreja - Introdução

I
Estudo sobre os Pais da Igreja
Resumo sobre os Pais da Igreja
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Objetivo do Treinamento sobre os Pais da Igreja:
·         Conhecer o inicio da doutrina Cristã;
·         Experimentar a espiritualidade Clássica a partir dos Pais da Igreja
·         Estudar as fontes da espiritualidade cristocentrica.
·         Perceber as contribuições de cada Pai para a Missão da Igreja e sua influência doutrinária.
·         Vivenciar a coragem, a fé e a experiência com Deus de cada Pai da Igreja.

Introdução:
Padres da Igreja, Santos Padres ou Pais da Igreja, foram influentes teólogos, professores e mestres cristãos e importantes bispos. Seus trabalhos acadêmicos foram utilizados como precedentes doutrinários para séculos vindouros. Os padres da Igreja são classificados entre o século II e VII. O estudo dos escritos dos Padres da Igreja é denominado Patrística. O estudo de suas vidas é chamado de Patrologia.
As Igrejas Romana, Ortodoxa, Luterana, Presbiteriana, Metodistas, Anglicana e Batistas Tradicionais acreditam que os padres da Igreja proporcionam a interpretação correta da Sagrada Escritura, registraram a Sagrada Tradição e distinguiram entre as autênticas doutrinas das heresias.
Foram homens que fizeram diferença na vida da Igreja. O historiador metodista Justos Gonzales chama-os de “Gigantes” no seu livro “A Era dos Gigantes”.
O Inglês John Wesley escreveu sobre a importância doutrinária dos Pais da Igreja:
“...reverencio excessivamente tanto a eles como aos seus escritos e os avalio altamente em amor. Reverencio-os porque eram cristãos, cristãos tais como foi acima descrito. Reverencio os seus escritos porque descrevem um Cristianismo verdadeiro e genuíno e nos guiam à evidência mais forte da doutrina cristã. ...Reverencio muito estes antigos cristãos com todas as suas falhas porque vejo tão poucos cristãos atualmente; porque leio tão pouco nos escritos dos últimos tempos e ouço tão pouco de cristianismo genuíno, e porque a maioria dos cristãos modernos (assim chamados) não contentes com o serem totalmente ignorantes a respeito do cristianismo, têm profundos preconceitos contra ele chamando-o "entusiasmo" e não sei mais o que (Cartas: "Ao Dr. Conyers Middleton").
“Não somente que os "pais" não errassem na sua interpretação do evangelho de Cristo, mas que em todas as partes necessárias do mesmo eles eram tão assistidos pelo Espírito Santo que raramente eram suscetíveis de erro. Nós consequentemente temos de nos voltar para os seus escritos, embora não tenham a mesma autoridade das Sagradas Escrituras (porque nem foram os escritores dos mesmos chamados de modo tão extraordinário nem eram eles dotados de tão grande porção do Espírito Santo), contudo merecem muito maior respeito do que quaisquer outras obras escritas desde então, embora os homens depois deles tenham escrito com mais arte, e muito maior bagagem de cultura humana do que podemos encontrar não somente nos trechos seguintes, mas até mesmo no próprio Novo Testamento. Na verdade o modo pelo qual foram escritos, a verdadeira simplicidade primitiva que aparece em todas as suas partes, não lhes é objeção justa, mas uma grande recomendação a todos os homens sensatos. Eles conheceram a excelência da sua doutrina e a importância das revelações que faziam do estado futuro, e, por isso, eles se contentaram em declarar estas coisas de maneira simples, mas com tal eficácia e poder que sobrepujaram toda a retórica do mundo”.
(Wesley -Obras: "Prefácio às Epístolas dos Pais Apostólicos").

Os principais Pais da Igreja são:

Clemente de Roma (†102), Bispo de Roma (88 - 97)
Inácio de Antioquia (†110)
Aristides de Atenas (†130)
Policarpo de Esmira (†156)
Pastor de Hermas (†160)
Aristides de Atenas (†160)
Hipólito de Roma (160 - 235)
Justino (†165)
Militão de Sardes (†177)
Atenágoras (†180)
Teófilo de Antioquia (†181)
Orígenes de Alexandria (184 - 254)
Ireneu (†202)
Tertuliano de Cartago (†220)
Clemente de Alexandria (†215)
Metódio de Olimpo (sec.III)
Cipriano de Cartago (210-258)
Novaciano (†257)
Atanásio de Alexandria(295 -373)
Efrém - (306 - 373), diácono, Mesopotânia
Hilário de Poitiers - bispo (310 - 367)
Cirilo de Jerusalém, bispo (315 - 386)
Basílio Magno, bispo (330 - 369) - Cesaréia
Gregório Nazianzeno - (330 - 379), bispo
Ambrósio - (340 - 397), bispo, Treves - Itália
Eusébio de Cesaréia (340)
Gregório de Nissa (340)
Prudêncio (384 - 405)
Jerônimo ( 348 - 420), presbítero Strido, Itália
João Cassiano (360 - 407)
João Crisóstomo - (349 - 407), bispo
Agostinho - (354 - 430), bispo
Efrém (†373)
Epifânio (†403)
Cirilo de Alexandria - (370 - 442), bispo
Pedro Crisólogo - (380 - 451), bispo, Itália
Leão Magno (400 - 461), papa de Roma - Toscana, Itália
Paulino de Nola (†431) - Sedúlio (sec V)
Vicente de Lerins (†450)
Pedro Crisólogo (†450)
Benedito de Núrcia (480 - 547)
Venâncio Fortunato (530-600)
Ildefonso de Toledo (617 - 667)
Máximo Confessor (580-662)
Gregório Magno (540 - 604), Papa de Roma
Ildefonso de Sevilha (†636)
Germano de Constantinopla - (610-733)
João Damasceno (675 - 749), bispo, Damasco

Neste estudo vamos apresentar um pouco daquilo que esses grandes Padres da Igreja escreveram.

Clemente de Roma (†102), Papa (88-97), foi o terceiro sucessor de Pedro, nos tempos dos imperadores romanos Domiciano e Trajano (92 a 102). No depoimento de Ireneu “ele viu os Apóstolos e com eles conversou, tendo ouvido diretamente a sua pregação e ensinamento”. (Contra as heresias)

Inácio de Antioquia (†110) foi o terceiro bispo da importante comunidade de Antioquia, fundada por Pedro. Conheceu pessoalmente Paulo e João. Sob o imperador Trajano, foi preso e conduzido a Roma onde morreu nos dentes dos leões no Coliseu. A caminho de Roma escreveu Cartas às igreja de Éfeso, Magnésia, Trales, Filadélfia, Esmirna e ao bispo S. Policarpo de Esmirna. Na carta aos esmirnenses, aparece pela primeira vez a expressão “Igreja Católica”.

Aristides de Atenas († 130) foi um dos primeiros apologistas cristãos; escreveu a sua Apologia ao imperador romano Adriano, falando da vida dos cristãos.

Policarpo (†156)  foi bispo de Esmirna, e uma pessoa muito amada. Conforme escreve Irineu, que foi seu discípulo, Policarpo foi discípulo de João Evangelista. No ano 155 estava em Roma com o bispo Niceto tratando de vários assuntos da Igreja, inclusive a data da Páscoa. Combateu os hereges gnósticos. Foi condenado à fogueira; o relato do seu martírio, feito por testemunhas oculares, é documento mais antigo deste gênero.

Hermas (†160) era irmão do bispo Pio I, sob cujo episcopado escreveu a sua obra Pastor. Suas visões são de estilo apocalíptico.

Didaquè (ou Doutrina dos Doze Apóstolos) é como um antigo catecismo, redigido entre os anos 90 e 100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia. Traz no título o nome dos doze Apóstolos. Os Padres da Igreja mencionaram-na muitas vezes. Em 1883 foi encontrado um seu manuscrito grego.
Justino (†165), mártir nasceu em Naplusa, antiga Siquém, em Israel; achou nos Evangelhos “a única filo proveitosa”, filósofo, fundou uma escola em Roma. Dedicou a sua Apologias ao Imperador romano Antonino Pio, no ano 150, defendendo os cristãos; foi martirizado em Roma.

Hipólito de Roma (160-235) discípulo de Irineu (140-202), foi célebre na Igreja de Roma, onde Orígenes o ouviu pregar. Morreu mártir. Escreveu contra os hereges, compôs textos litúrgicos, escreveu a Tradição Apostólica onde retrata os costumes da Igreja no século III: ordenações, catecumenato, batismo e confirmação, jejuns, ágapes, eucaristia, ofícios e horas de oração, sepultamento, etc.

Melitão de Sardes (†177) foi bispo de Sardes, na Lídia, um dos grandes luminares da Ásia Menor. Escreveu a Apologia, dirigida ao imperador Marco Aurélio.

Atenágoras (†180) era filósofo em Atenas, Grécia, autor da Súplica pelos Cristãos, apologia oferecida em tom respeitoso ao imperador Marco Aurélio e seu filho Cômodo; escreveu também o tratado sobre A Ressurreição dos mortos, foi grande apologista.

Teófilo de Antioquia (†após 181) nasceu na Mesopotâmia, converteu-se ao cristianismo já adulto, tornou-se bispo de Antioquia. Apologista, compôs três livros, a Autólico.

Ireneu (†202) nasceu na Ásia Menor, foi discípulo de Policarpo (discípulo de João), foi bispo de Lião, na Gália (hoje França). Combateu eficazmente o gnosticismo em sua obra Adversus Haereses (Refutação da Falsa Gnose) e a Demonstração da Preparação Apostólica. Segundo Gregório de Tours (†594), Irineu morreu mártir. É considerado o “príncipe dos teólogos cristãos”. Salienta nos seus escritos a importância da Tradição oral da Igreja, o primado da Igreja de Roma (fundada por Pedro e Paulo).

Hilário de Poitiers (316-367), doutor da Igreja, foi bispo de Poitiers, combateu o arianismo, foi exilado pelo imperador Constâncio, escreveu a obra Sobre a Santíssima Trindade.

Clemente de Alexandria (†215) Seu nome é Tito Flávio Clemente, nasceu em Atenas por volta de 150. Viajou pela Itália, Síria, Palestina e fixou-se em Alexandria. Durante a perseguição de Setímio Severo (203), deixou o Egito, indo para a Ásia Menor, onde morreu em 215. Seu grande trabalho foi tentar a aliança do pensamento grego com a fé cristã. Dizia: “Como a lei formou os hebreus, a filo formou os gregos para Cristo”. 

Orígenes (184-254) Nasceu em Alexandria, Egito; seu pai Leônidas morreu martirizado em 202. Também desejava o martírio; escreveu ao pai na prisão: “não vás mudar de ideia por causa de nós”. Em 203 foi colocado à frente da escola catequética de Alexandria pelo bispo Demétrio. Em 212 esteve em Roma, Grécia e Palestina. A mãe do imperador Alexandre Severo, Júlia Mammae, chamou-o a Antioquia para ouvir suas lições. Morreu em Cesaréia durante a perseguição do imperador Décio. 

Tertuliano de Cartago (†220), norte da África, culto, era advogado em Roma quando em 195 se converteu ao Cristianismo, passando a servir a Igreja de Cartago como catequista. Combateu as heresias do gnosticismo. É autor das frases: “Vede como se amam” e “ O sangue dos mártires era semente de novos cristãos”.
Cipriano (†258) Cecílio Cipriano nasceu em Cartago, foi bispo e primaz da África Latina. Era casado. Foi perseguido no tempo do imperador Décio, em 250, morreu mártir em 258. Escreveu a bela obra Sobre a unidade da Igreja Católica. Na obra De Lapsis, sobre os que apostataram na perseguição, narra ao vivo o drama sofrido pelos cristãos, a força de uns, o fracasso de outros. Escreveu ainda a obra Sobre a Oração do Senhor, sobre o Pai Nosso.

Eusébio de Cesaréia (260-339) bispo, foi o primeiro historiador da Igreja. Nasceu na Palestina, em Cesaréia, discípulo aí de Orígenes. Escreveu a sua Crônica e a História Eclesiástica, além de A Preparação e a Demonstração Evangélica. Foi perseguido por Dioclesiano, imperador romano.

Atanásio (295-373), doutor da Igreja, nasceu em Alexandria, jovem ainda foi viver o monaquismo nos desertos do Egito, onde conheceu o grande Santo Antão(†376), o “pai dos monges”. Tornou-se diácono da Igreja de Alexandria, e junto com o seu Bispo Alexandre, se destacou no Concílio de Nicéia (325) no combate ao arianismo. Tornou-se bispo de Alexandria em 357 e continuou a sua luta árdua contra o arianismo (Ário negava a divindade de Jesus), o que lhe valeu sete anos de exílio. Gregório Nazianzeno disse dele: “O que foi a cabeleira para Sansão, foi Atanásio para a Igreja.”

Hilário de Poitiers (316-367), doutor da Igreja, nasceu em Poitiers, na Gália (França); em 350 clero e povo o elegiam bispo, apesar de ser casado. Organizou a luta dos bispos gauleses contra o arianismo. Foi exilado pelo imperador Constâncio, na Ásia Menor, voltando para a Gália em 360, fazendo valer as decisões do Concílio de Nicéia. É chamado o “Atanásio do Ocidente”. Escreveu as obras Sobre a Fé, Sobre a Santíssima Trindade.

Efrém, o Sírio (†373) doutor da Igreja é considerado o maior poeta sírio, chamado de “a cítara do Espírito Santo”. Nasceu em Nísibe, de pais cristãos, por volta de 306, deve ter participado do Concílio de Nicéia (325), segundo a tradição, com o seu bispo Tiago. Foi ordenado diácono em 338 e assim ficou até o fim da vida. Escreveu tratados contra os gnósticos, os arianos e contra o imperador Juliano, o apóstata. Escreveu belos hinos.

Cirilo de Jerusalém (†386), doutor da Igreja, Bispo de Jerusalém, guardião da fé professada pela Igreja no Concílio de Nicéia (325). Autor das Catequeses Mistagógicas, esteve no segundo Concílio Ecumênico, em Constantinopla, em 381.

Dâmaso (304-384), Bispo da Igreja de Roma, instruído, de origem espanhola, sucedeu o Bispo Libério que o ordenou diácono; obteve do Imperador Graciano o reconhecimento jurisdicional do bispo de Roma. Mandou que Jerônimo fizesse uma revisão da versão latina da Bíblia, a Vulgata. Descobriu e ornamentou os túmulos dos mártires nas catacumbas, para a visita dos peregrinos.

Basílio Magno (329-379), Bispo e doutor da Igreja, nasceu na Capadócia; seus irmãos Gregório de Nissa e Pedro foram canonizados. Foi íntimo amigo de Gregório Nazianzeno; fez-se monge. Em 370 tornou-se bispo de Cesaréia na Palestina, e metropolita da província da Capadócia. Combateu o arianismo e o apolinarismo (Apolinário negava que Jesus tinha uma alma humana). Destacou-se no estudo a Santíssima Trindade (Três Pessoas e uma Essência).
Gregório Nazianzeno (329-390), doutor da Igreja – nasceu em Nazianzo, na Capadócia, era filho do bispo local, que o ordenou padre; foi um dos maiores oradores cristãos. Foi grande amigo de Basílio, que o sagrou bispo. Lutou contra o arianismo. Sua doutrina sobre a Santíssima Trindade o fez ser chamado de “teólogo”, que o Concílio de Calcedônia confirmou em 481.

Gregório de Nissa (†394) foi bispo de Nissa, e depois de Sebaste, irmão de Basílio e amigo de Gregório Nazianzeno. Os três brilharam na Capadócia. Foi poeta e místico; teve grande influência no primeiro Concílio de Constantinopla (381) que definiu o dogma da Trindade. Combateu o apolinarismo, macedonismo (Macedônio negava a divindade do Espírito Santo) e arianismo.

João Crisóstomo (354-407) ( = boca de ouro), é o mais conhecido dos Padres da Igreja grega. Nasceu em Antioquia. Tornou-se patriarca de Constantinopla, foi grande pregador. Foi exilado na Armênia por causa da defesa da fé sã. Um dos maiores pregadores.

Cirilo de Alexandria (†444) Bispo e doutor da Igreja, sobrinho do patriarca de Alexandria, Teófilo, o substituiu na Sé episcopal em 412. Combateu vivamente o Nestorianismo (Nestório negava que em Jesus havia uma só Pessoa e duas naturezas), com o apoio do Bispo Celestino. Participou do Concílio de Éfeso (431), que condenou as teses de Nestório.

João Cassiano (360-465) recebeu formação religiosa em Belém e viveu no Egito. Foi ordenado diácono por João Crisóstomo, em Constantinopla, e padre pelo bispo Inocêncio, em Roma. Em 415 fundou dois mosteiros em Marselha, um para cada sexo. São Bento recomendou seus escritos.

Paulino de Nola (†431) nasceu na Gália (França), exerceu importantes cargos civis até ser batizado. Vendeu seus bens, distribuindo o dinheiro aos pobres, e com sua esposa Terásia passou a viver vida eremítica. Foi ordenado padre em 394, em 409 bispo de Nola.

Pedro Crisólogo (†450) (= palavra de ouro) bispo e doutor da Igreja – foi bispo de Ravena, Itália. Quando Êutiques, patriarca de Constantinopla pediu o seu apoio para a sua heresia (monofisismo - uma só natureza em Cristo), respondeu: “Não podemos discutir coisas da fé, sem o consentimento do Bispo de Roma”. Temos 170 de suas cartas e escritos sobre o Símbolo e o Pai – Nosso.

Ambrósio (†397), doutor da Igreja, nasceu em Tréveris, de nobre família romana. Com 31 anos governava em Milão as províncias de Emília e Ligúria. Ainda catecúmeno, foi eleito bispo de Milão, pelo povo, tendo, então recebido o batismo, a ordem e o episcopado. Foi conselheiro de vários imperadores e batizou Agostinho, cujas pregações ouvia. Deixou obras admiráveis sobre a fé cristã.

Jerônimo (347-420), “Doutor Bíblico” – nasceu na Dalmácia e educou-se em Roma; é o mais erudito dos Padres da Igreja latina; sabia o grego, latim e hebraico. Viveu alguns anos na Palestina como eremita. Em 379 foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino de Antioquia; foi ouvinte de Gregório Nazianzeno e amigo de Gregório de Nissa. De 382 a 385 foi secretário do Bispo Dâmaso, por cuja ordem fez a revisão da versão latina da Bíblia (Vulgata), em Belém, por 34 anos. Pregava o ideal de santidade entre as mulheres da nobreza romana (Marcela, Paula e Eustochium) e combatia os maus costumes do clero. Na figura de Jerônimo destacam-se a austeridade, o temperamento forte, o amor a Igreja.

Epifânio (†403), Nasceu na Palestina, muito culto, foi superior de uma comunidade monástica em Eleuterópolis (Judéia) e depois, bispo de Salamina, na ilha de Chipre. Batalhou muito contra as heresias, especialmente o origenismo.

Agostinho (354-430), Bispo e Doutor da Igreja - Nasceu em Tagaste, Tunísia, filho de Patrício e Mônica. Grande teólogo, filósofo, moralista e apologista. Aprendeu a retórica em Cartago, onde ensinou gramática até os 29 anos de idade, partindo para Roma e Milão onde foi professor de Retórica na corte do Imperador. Alí se converteu ao cristianismo pelas orações e lágrimas, de sua mãe Mônica e pelas pregações de Ambrósio, bispo de Milão. Foi batizado por esse bispo em 387. Voltou para a África em veste de penitência onde foi ordenado sacerdote e depois bispo de Hipona aos 42 anos de idade. Foi um dos homens mais importantes para a Igreja. Combateu com grande capacidade as heresias do seu tempo, principalmente o Maniqueísmo, o Donatismo e o Pelagianismo, que desprezava a graça de Deus. Agostinho escreveu muitas obras e exerceu decisiva influência sobre o desenvolvimento cultural do mundo ocidental. É chamado de “Doutor da Graça”.

Leão Magno (400-461) – Bispo de Roma - nasceu em Toscana, foi educado em Roma. Foi conselheiro sucessivamente dos papas Celestino I (422-432) e Xisto III (432-440) e foi muito respeitado como teólogo e diplomata. Participou de grandes problemas da Igreja do seu tempo e pôde travar contato pessoal e por cartas com Agostinho, Cirilo de Alexandria e João Cassiano, que o descrevia como “ornamento da Igreja e do divino ministério”. Deixou 96 Sermões e 173 Cartas que chegaram até nós. Participou ativamente na elaboração dogmática sobre o grave problema tratado no Concílio de Calcedônia, a condenação da heresia chamada monofisismo. Leão foi o primeiro bispo de Roma que recebeu o título de Magno (grande). Em sua atuação no plano político, a História registrou e imortalizou duas intervenções de Leão, respectivamente junto a Átila, rei dos Hunos, em 452, e junto a Genserico, em 455, bárbaros que queriam destruir Roma.

Vicente de Lérins (†450) Depois de muitos anos de vida mundana se refugiou no mosteiro de Lérins. Escreveu o seu Commonitorium, “ para descobrir as fraudes e evitar as armadilhas dos hereges”.

Bento de Núrcia (480-547) nasceu em Núrcia, na Úmbria, Itália; estudou Direito em Roma, quando se consagrou a Deus. Tornou-se superior de várias comunidades monásticas; tendo fundado no monte Cassino a célebre Abadia local. A sua Regra dos Mosteiros tornou-se a principal regra de vida dos mosteiros do ocidente, elogiada pelo Bispo Gregório Magno, usada até hoje. O lema dos seus mosteiros era “ora et labora”.

Venâncio Fortunato (530-600) nasceu em Vêneto na Itália, foi para Poitiers (França). Autor de célebres hinos dedicados à Paixão de Cristo, até hoje usados na Igreja.

Gregório Magno (540-604), Bispo de Roma e doutor da Igreja - Nasceu em Roma, de família nobre. Ainda muito jovem foi primeiro ministro do governo de Roma. Grande admirador de Bento, resolveu transformar suas muitas posses em mosteiros. O Bispo Pelágio o enviou como núncio apostólico em Constantinopla até o ano 585. Foi feito Bispo de Roma em 590. Foi um dos maiores bispos que a Igreja já teve. Bossuet considerava-o “modelo perfeito de como se governa a Igreja”. Promoveu na liturgia o canto “gregoriano”. Profunda influência exerceram os seus escritos: Vida de São Bento e Regra Pastoral, usado ainda hoje.

Máximo, o confessor (580 - 662) nasceu em Constantinopla, foi secretário do imperador Heráclio, depois foi para o mosteiro de Crisópolis. Lutou contra o monofisismo e monotelismo, sendo preso, exilado e martirizado por isso. Obteve a condenação do monotelismo no Concílio de Latrão, em 649.

Ildefonso de Sevilha (†636) doutor da Igreja. Considerado o último Padre do ocidente. Bispo de Sevilha, Espanha desde 601. Em 636 dirigiu o IV Sínodo de Toledo. Exerceu notável influência na Idade Média com os seus escritos exegéticos, dogmáticos, ascéticos e litúrgicos.

Germano de Constantinopla - (610-733) Bispo - Patriarca de Constantinopla (715-30), nasceu em Constantinopla ao final do reinado do imperador Heracleo (610-41); morreu em 733 ou 740. Filho de Justiniano, um patriciano, Germano dedicou seus serviços à Igreja e começou como clérigo na catedral de Metrópolis. Logo depois da morte de seu pai que havia ocupado vários altos cargos de oficial, pelas mãos do sobrinho de Herácleo, Germano se consagrou bispo de Chipre, o ano exato, porém, de sua elevação é desconhecido.

João Damasceno (675-749) Bispo e Doutor da Igreja - É considerado o último dos representantes dos Padres gregos. É grande a sua obra literária: poesia, liturgia, filo e apologética. Filho de um alto funcionário do califa de Damasco, foi companheiro do príncipe Yazid que, mais tarde o promoveu ao mesmo encargo do pai, ministro das finanças. A um determinado tempo deixou a corte do califa e retirou-se para o mosteiro de São Sabas, perto de Jerusalém. Tornou-se o pregador titular da basílica do Santo Sepulcro. Enfrentou os iconoclastas. Ficaram famosos os seus Três Discursos a Favor das Imagens Sagradas.

Pergunta ao grupo:
Como os Pais da Igreja podem contribuir com o cristianismo do século XXI?
Você acredita que a vida e os escritos dos Pais da igreja são uteis para a nossa espiritualidade? Porque?

Fonte: http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/os_santos_padres.html


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Espiritualidade de Gertrudes de Helfta

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“Ó Jesus, tu que me és imensamente querido, estejas sempre comigo, para que o meu coração permaneça contigo e o teu amor persevere comigo sem divisão e o meu trânsito seja abençoado por ti, de tal forma que o meu espírito, desprendido dos laços da carne, possa imediatamente encontrar repouso em ti. Amém"

Gertrudes, a Grande, leva-nos também ao mosteiro de Helfta, onde surgiram algumas das obras-primas da literatura religiosa feminina latino-alemã. A esse mundo pertence Gertrudes, uma das místicas mais famosas, única mulher da Alemanha a ter o apelativo de "Grande", devido à estatura cultural e evangélica: com a sua vida e seu pensamento incidiu de modo singular sobre a espiritualidade cristã. É uma mulher excepcional, dotada de particulares talentos naturais e de extraordinários dons da graça, de profundíssima humildade e ardente zelo pela salvação do próximo, de íntima comunhão com Deus na contemplação e de prontidão para socorrer os necessitados.

Em Helfta, confronta-se, por assim dizer, sistematicamente com a sua mestra Matilde de Hackeborn, entra em contato com Matilde de Magdeburgo, outra mística medieval; cresce sob o cuidado materno, doce e exigente, da Abadessa Gertrudes. Dessas três coirmãs surgem tesouros de experiência e sabedoria; processa-os em uma síntese própria, percorrendo o seu itinerário religioso com ilimitada confiança no Senhor. Expressa a riqueza da espiritualidade não somente do seu mundo monástico, mas também e sobretudo daquele bíblico, litúrgico, patrístico e beneditino, com um sinal personalíssimo e com grande eficácia comunicativa.
Nasce em 6 de janeiro de 1256, festa da Epifania, mas não se sabe nada nem sobre seus pais nem sobre o lugar de nascimento. Gertrudes escreve que o próprio Senhor revela-lhe o sentido desse seu primeiro desenraizamento. "Escolhi-a para minha morada porque me comprazo que tudo que há de amável em ti é obra minha […]. Exatamente por essa razão eu a distanciei de todos os seus parentes, para que nenhum a amasse por razão de consanguinidade e eu fosse o único motivo de afeto que levasse consigo" (Le Rivelazioni, I, 16, Siena 1994, p. 76-77).
Na idade de cinco anos, em 1261, entra no mosteiro, como era comum naquela época, para a formação e o estudo. Aqui transcorre toda a sua existência, da qual ela mesma assinala as fases mais significativas. Nas suas memórias, recorda que o Senhor a protegeu com longânime paciência e infinita misericórdia, esquecendo os anos da infância, adolescência e juventude, transcorridos – escreve – "em tal cegueira de mente que eu teria sido capaz […] de pensar, dizer ou fazer sem nenhum remorso tudo aquilo que me fosse aprazível e em qualquer lugar tivesse podido, se tu não me tivesses prevenido, seja com um inerente horror do mal e uma natural inclinação para o bem, seja com a vigilância externa dos outros. Teria me comportado como uma pagã […] e isso graças por tendo tu desejado que desde a infância, a partir do meu quinto ano de idade, habitasse no santuário bendito da religião para ser educada entre os teus amigos mais devotos" (Ibid., II, 23, p. 140s).
Gertrudes é uma estudante extraordinária, aprende tudo o que se pode aprender das ciências do Trivio e Quadrivio, a formação daquele tempo; é fascinada pelo saber e se dedica ao estudo secular com ardor e tenacidade, conseguindo sucessos escolares para além de toda a expectativa. Se nada sabemos sobre as suas origens, muito ela nos diz sobre suas paixões juvenis: literatura, música e canto, arte da miniatura a capturam; tem um caráter forte, decidido, imediato, impulsivo; muitas vezes afirma ser negligente; reconhece os seus defeitos, dos quais pede humildemente perdão. 
Com humildade, pede conselho e orações pela sua conversão. São traços do seu temperamento e defeitos que a acompanharam até o fim, a ponto de surpreender algumas pessoas que se perguntavam por que o Senhor a preferia tanto.

De estudante, passa a consagrar-se totalmente a Deus na vida monástica e, por vinte anos, não acontece nada de excepcional: o estudo e a oração são a sua atividade principal. Devido aos seus dons, destaca-se entre as coirmãs; é tenaz no consolidar a sua cultura em variados campos. Mas, durante o Tempo do Advento de 1280, começa a sentir desgosto em tudo isso, sente vaidade e, em 27 de janeiro de 1281, poucos dias antes da festa da Purificação da Virgem, rumo à Hora das Completas, à noite, o Senhor ilumina as suas densas trevas. Com suavidade e doçura, acalma a preocupação que a angustia, preocupação que Gertrudes vê como um dom próprio de Deus "para abater aquela torre de vaidade, ai de mim, mesmo tendo o nome e hábito de religiosa, que eu estava elevando com a minha soberba, onde ao menos encontrastes a via para mostrar-me a tua salvação" (Ibid., II,1, p. 87).
Tem a visão de um rapaz que a guia a superar o emaranhado de espinhos que oprime a sua alma, tomando-a pela mão. Naquela mão, Gertrudes reconhece "o traço precioso daquelas feridas que revogaram todos os atos de acusação de nossos inimigos" (Ibid., II,1, p. 89), reconhece Aquele que, sobre a Cruz, salvou-nos com o seu sangue, Jesus.
A partir daquele momento, a sua vida de comunhão íntima com o Senhor intensifica-se, sobretudo nos tempos litúrgicos mais significativos – Advento-Natal, Quaresma-Páscoa, – também quando, doente, era impedida de unir-se ao coro. É o mesmo húmus litúrgico de Matilde, sua mestra, que Gertrudes, no entanto, descreve com imagens, símbolos e termos mais simples e lineares, mais realistas, com referências mais diretas à Bíblia, aos Padres, ao mundo beneditino.
A sua biografia indica duas direções daquele que poderíamos definir como a sua particular "conversão": nos estudos, com a passagem radical dos estudos humanísticos seculares para aqueles teológicos, e na observância monástica, com a passagem da vida que ela define negligente à vida de oração intensa, mística, com um excepcional ardor missionário. O Senhor, que a tinha escolhido desde o seio materno e desde pequena a tinha feito participar do banquete da vida monástica, a chama com a sua graça "das coisas externas à vida interior e das ocupações terrenas ao amor das coisas espirituais". 
Gertrudes compreende ter estado longe d'Ele, em razão da dessemelhança, como ela diz com Santo Agostinho; ter se dedicado com muita avidez aos estudos livres, à sabedoria humana, descuidando das ciências espirituais, privando-se do gosto da verdadeira sabedoria; então é conduzida ao monte da contemplação, onde deixa o homem velho para revestir-se do novo. "Da gramática torna-se teóloga, com a inquebrantável e atenta leitura de todos os livros sagrados que podia ter ou procurar, preenchendo o seu coração das mais úteis e doces sentenças da Sagrada Escritura. Tinha, por isso, sempre pronta alguma palavra inspirada e de edificação com a qual satisfazer aqueles que vinham consultá-la, e reúne os textos bíblicos mais adequados para refutar qualquer opinião errada e silenciar seus opositores" (Ibid., I,1, p. 25).
Gertrudes transforma tudo isso em apostolado: dedica-se a escrever e divulgar a verdade de fé com clareza e simplicidade, graça e persuasão, servindo com amor e fidelidade à Igreja, a ponto de ser útil e apreciada por teólogos e pessoas piedosas. Dessa sua intensa atividade restaram-nos poucos registros, também devido aos acontecimentos que levaram à destruição do mosteiro de Helfta. Além de Arauto do divino amor ou As revelações, restam-nos os Exercícios Espirituais, uma joia rara da literatura mística espiritual.
Na observância religiosa, foi "uma coluna forte […], firmíssima defensora da justiça e da verdade" (Ibid., I, 1, p. 26), diz a sua biografia. Com as palavras e o exemplo, suscita nos outros grande fervor. Às orações e às penitências da regra monástica acrescenta outras com ainda maior devoção e abandono confiante em Deus, a ponto de suscitar em quem a encontra a consciência de estarem na presença do Senhor.
E, de fato, Deus mesmo a faz compreender tê-la chamado a ser instrumento da sua graça. Desse imenso tesouro divino, Gertrudes sente-se indigna, confessa não tê-lo protegido e valorizado. Exclama: "Ai de mim! Se Tu me tivesses dado para tua recordação, indigna como sou, ainda que um fio somente de estopa, teria que guardá-lo com maior respeito e reverência que o que tive por esses teus dons!" (Ibid., II,5, p. 100). Mas, reconhecendo a sua pobreza e a sua indignidade, adere à vontade de Deus, "porque – afirma – tão pouco aproveitei das tuas graças que não posso vir a acreditar que tenham sido agraciadas para mim somente, não podendo a tua eterna sabedoria ser frustrada por alguém. Foi, pois, o Doador de todo o bem que me ofereceu gratuitamente dons tão imerecidos, para que, lendo este escrito, o coração de pelo menos um de seus amigos seja comovido pelo pensamento de que o zelo das almas levou a deixar por tanto tempo uma joia de valor tão inestimável em meio à lama abominável do meu coração" (Ibid., II,5, p. 100s).
Em particular, dois favores lhe são caros mais que qualquer outro, como a própria Gertrudes escreve: "Os estigmas das tuas salutares chagas que me imprimistes, quase preciosas joias, no coração, e a profunda e salutar ferida de amor com que o assinalastes. Tu me inundastes com esses Teus dons de tamanha felicidade que, ainda que eu tivesse que viver milhares de anos sem qualquer consolação interna ou externa, a sua recordação seria suficiente para confortar-me, iluminar-me, encher-me de gratidão. Desejastes ainda introduzir-me na inestimável intimidade da tua amizade, abrindo-me de diversos modos aquele sacrário nobilíssimo da tua Divindade que é o teu Coração divino […]." (Ibid., II, 23, p. 145).
Voltada para a comunhão sem fim, conclui a sua existência terrena em 17 de novembro de 1301 ou 1302, à idade de cerca de 45 anos. No sétimo Exercício, aquele da preparação à morte, Santa Gertrudes escreve: "Ó Jesus, tu que me és imensamente querido, estejas sempre comigo, para que o meu coração permaneça contigo e o teu amor persevere comigo sem divisão e o meu trânsito seja abençoado por ti, de tal forma que o meu espírito, desprendido dos laços da carne, possa imediatamente encontrar repouso em ti. Amém" (Exercícios, Milano 2006, p. 148).
Parece-me óbvio que essas não são coisas do passado, históricas, mas a existência de Santa Gertrudes permanece uma escola de vida cristã, de caminho justo, e mostra-nos que o centro de uma vida feliz, de uma vida verdadeira, é a amizade com Jesus, o Senhor. E essa amizade aprende-se no amor pela Sagrada Escritura, no amor pela liturgia, na fé profunda, de modo a conhecer sempre mais realmente o próprio Deus e, assim, a verdadeira felicidade, a meta da nossa vida. 

·         Parte da Catequese de Bento XVI sobre Santa Gertrudes proferida - 2010





sexta-feira, 11 de novembro de 2016

53 - História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro X – Capítulos 05 a 11.

53
História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro X – Capítulos 05 a 11

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V. Cópias das leis imperiais referentes aos cristãos
1.   Bem, mas no que segue, citemos também as traduções das disposições imperiais de Constantino e de Licínio, traduzidas do latim.

Cópia das disposições imperiais traduzidas do latim.
2.   'Ao considerar, já há tempo, que não se há de negar a liberdade da religião, mas que se deve outorgar à mente e à vontade de cada um a faculdade de ocupar-se dos assuntos divinos segundo a preferência de cada um, tínhamos ordenado aos cristãos que guardassem a fé de sua escolha e de sua religião.
3.             Mas como ocorreu que naquele decreto em que aos mesmos se outorgava semelhante faculdade parece que se acrescentavam claramente muitas e diversas condições, talvez se desse que alguns deles foram pouco depois violentamente afastados da dita observância.
4.      Quando eu, Constantino Augusto, e eu, Licínio Augusto, nos reunimos feliz­mente em Milão e nos pusemos a discutir tudo o que importava ao proveito e utilidade públicas, entre as coisas que nos pareciam de utilidade para todos em muitos aspectos, decidimos sobretudo distribuir umas primeiras disposições em que se asseguravam o respeito e o culto à divindade, isto é, para dar, tanto aos cristãos quanto a todos em geral, livre escolha para seguir a religião que quisessem, com o fim de que tanto a nós quanto aos que vivem sob nossa autoridade nos possam ser favoráveis a divindade e os poderes celestiais que existam.
5.      Portanto, foi por um saudável e retíssimo arrazoamento que decidimos tomar esta nossa resolução: que a ninguém se negue em absoluto a faculdade de seguir e escolher a observância ou a religião dos cristãos, e que a cada um se dê a faculdade de entregar sua própria mente à religião que creia que se adapta a ele, a fim de que a divindade possa em todas as coisas outorgar-nos sua habitual solicitude e benevolência.
6.             Assim era natural que déssemos por decreto o que era de nosso agrado: que, suprimidas por completo as condições que se continham em nossas primeiras cartas a tua santidade acerca dos cristãos, também se suprimisse tudo o que parecia ser inteiramente sinistro e alheio a nossa mansidão, e que agora cada um dos que sustentam a mesma resolução de observar a reli­gião dos cristãos, observe-a livre e simplesmente, sem impedimento algum.
7.      Tudo isto decidimos manifestar da maneira mais completa a tua solicitude, para que saibas que nós demos aos mesmos cristãos livre e absoluta faculdade de cultivar sua própria religião.
8.             Já que estais vendo o que precisamente lhes demos sem restrição alguma, tua santidade compreenderá que também a outros, a quem queira, dá-se-lhes faculdade de prosseguir suas próprias observâncias e religiões - o que precisamente está claro que convém à tranqüilidade de nossos tempos -, de sorte que cada um tenha possibilidade de escolher e dar culto à divindade que queira.
Isto é o que fizemos, com o fim de que não pareça que menoscabamos o mínimo a honra ou a religião de ninguém.
9.   Mas, além disto, em atenção às pessoas dos cristãos, decidimos também o seguinte: que seus lugares em que anteriormente tinham por costume reunir-se e acerca dos quais já em carta anterior enviada a tua santidade havia outra regra, delimitada para o tempo anterior, se parecer que alguém os tenha comprado, seja de nosso tesouro público, seja de qualquer outro, que os restitua aos mesmos cristãos, sem reclamar dinheiro nem compensação alguma, deixando de lado toda negligência e todo equívoco, E se alguns, por acaso, os receberam como doação, que estes mesmos lugares sejam restituídos o mais rapidamente possível aos mesmos cristãos.
10.     Mas de tal maneira que, tanto os que haviam comprado ditos lugares como os que os receberam de presente, se pedirem alguma compensação de nossa benevolência, possam acudir ao magistrado que julga no lugar, para que também se proveja a ele por meio de nossa bondade.
11.     Tudo o que deverá ser entregue à corporação dos cristãos, pelo mesmo, graças a tua solicitude, sem a menor dilação.
E como ocorre que os mesmos cristãos não somente têm aqueles lugares em que costumavam reunir-se, mas que se sabe que também possuem outros lugares pertencentes, não a cada um deles, mas ao direito de sua corporação, isto é, dos cristãos, em virtude da lei que anteriormente mencionei mandarás que todos esses bens sejam restituídos sem o menor protesto aos mesmos cristãos, isto é, a sua corporação, e a cada uma de suas assembléias, guardada, evidentemente, a razão exposta acima: que aqueles, como dissemos, que os restituírem sem recompensa, esperem de nossa benevolência sua própria indenização.
12. Em tudo isto deverás oferecer à dita corporação dos cristãos a mais eficaz diligência, para que nosso comando se cumpra o mais rapidamente possível e para que também nisto, graças a nossa bondade, se proveja à tranqüilidade comum e pública.
13.     Efetivamente, por esta razão, como também ficou dito, a solicitude divina por nós, que já experimentamos em muitos assuntos, permanecerá assegurada por todo o tempo.
14. E para que o alcance desta nossa legislação benevolente possa chegar ao conhecimento de todos, é preciso que tudo o que nós temos escrito tenha preferência e por ordem tua se publique por todas as partes e se leve ao conhecimento de todos, para que a ninguém se possa ocultar esta legislação, fruto de nossa benevolência."

Cópia de outra disposição imperial que também foi tomada assinalando que a doação foi feita somente à igreja católica.[1]
15. "Saúde, estimadíssimo Anulino[2]. É costume de nossa benevolência o seguinte: que nós não somente queremos que não se cause dano ao que precisamente pertence ao direito alheio, mas que inclusive se restitua, estimadíssimo Anulino.
16.     Daí que queiramos que, ao receber esta carta, se, em cada cidade ou inclu­sive em outros lugares, alguns destes bens pertenciam à Igreja católica dos cristãos e agora os detenham cidadãos ou outras pessoas, faças com que ditos bens sejam restituídos imediatamente à mesmas igrejas, posto que decidimos que precisamente aquilo que as ditas igrejas possuíam antes seja restituído a seu direito.
17.     Por conseguinte, já que tua santidade está comprovando que a ordem deste nosso comando é evidente, apressa-te para que tudo, sejam jardins, casas ou qualquer outra coisa que pertença ao direito das ditas igrejas, seja-lhes restituído o mais rapidamente possível, de sorte que chegue a nosso conhe­cimento que aplicaste a esta nossa ordem a mais escrupulosa obediência. Que tudo te vá bem, estimadíssimo e mui querido Anulino."

Cópia de uma carta imperial, pela qual manda que se reúna um concílio de bispos em Roma, sobre a unidade e a concórdia das igrejas.
18.     "Constantino Augusto a Milcíades, bispo dos romanos, e a Marcos: Muitos importantes documentos me têm sido enviados da parte do ilustríssimo procônsul da África Anulino, nos quais se menciona que o bispo da cidade dos cartagineses Ceciliano é acusado de muitas coisas por alguns de seus colegas com sede na África, e a mim me parece sumamente grave que nestas províncias, que a divina providência voluntariamente confiou a minha so­licitude e nas quais é muito numerosa a população, encontre-se uma multidão persistindo no pior, como se estivesse dividida, e que entre os próprios bispos existam diferenças.
19.     Pelo que, decidimos que o próprio Ceciliano, com dez bispos dos que pare­cem acusá-lo e outros dez que ele mesmo possa crer necessários para sua própria causa, embarque para Roma e ali, estando vós presentes - assim como também vossos colegas Retício, Materno e Marino[3], aos quais mandei por esta causa apressarem-se a ir a Roma -, possa ser ouvido, o que se ajusta, como sabes, à lei augustíssima.
20. Mesmo assim, para que possais ter acerca de todos estes assuntos um conhe­cimento completo, anexo a minha carta as cópias dos documentos que me enviou Anulino e remeto-os também a vossos colegas anteriormente citados. Quando os lerdes, vossa firmeza decidirá de que maneira haverá que exa­minar com o maior escrúpulo a dita causa e dar-lhe fim conforme o direito,
posto que não vos é ocultado que estou dispensando à legítima Igreja católica um respeito tão grande que por nada do mundo quero que permitais cisma ou divisão em lugar algum. Que a divindade do grande Deus vos guarde por muitos anos, estimadíssimo."

Cópia de uma carta imperial pela qual manda que se faça um segundo concilio sobre a eliminação de toda DivisãO entre os bispos.
21.      "Constantino Augusto a Cresto, bispo dos siracusanos. Já em ocasião anterior, quando alguns, com ânimo vil e perverso, começaram a dividir-se acer­ca do culto do santo e celestial poder e da religião[4] católica, querendo eu cortar semelhantes discussões entre eles, ditei umas disposições de tal natureza que, enviando alguns bispos da Gália aos das partes contrárias que lutavam entre si obstinada e ferozmente, e achando-se também presente o bispo de Roma, aquilo que parecia estar em litígio pudesse solucionar-se por efeito de sua presença unida a um cuidadoso exame.
22.  Mas o que ocorre, posto que alguns, esquecendo-se de sua própria salvação e da veneração devida à santíssima religião, ainda hoje não cessam de pro­longar suas peculiares inimizades e não querem conformar-se com a sentença já ditada, declarando que, em realidade, somente alguns poucos aportaram suas próprias opiniões e afirmações, ou até mesmo que, sem haver sido examinado com exatidão tudo o que devia ser examinado, apressaram-se a emitir o juízo a toda pressa e precipitadamente; disto veio a resultar que os mesmos que deveriam ter uma concórdia fraterna e unânime, separaram-se uns dos outros vergonhosamente, e mais, abominavelmente, e deram motivo de zombaria aos homens cujas almas são alheias à santíssima religião. Devido a isto tive que tomar providências para que o mesmo precisamente que deveria ter cessado por livre assentimento depois do juízo já determinado, possa chegar a um termo, ao menos agora, com a presença de muitos.
23. Como pois ordenamos a numerosos bispos de diferentes e incontáveis lugares que se reúnam na cidade de Aries pelas calendas de agosto[5], pensamos escrever-te também a ti para que tomes do governador da Sicília, o ilustríssi­mo Latroniano, um veículo público, e juntando a ti pelo menos outros dois da segunda ordem[6] que tu mesmo venhas a escolher, e depois de tomares ainda três criados que possam servir-vos no caminho, te apresentes esse mesmo dia no lugar acima indicado.
24. Desta maneira, mediante tua firmeza e a compreensão unânime e concorde dos demais reunidos, ao ser ouvido tudo o que se dirá da parte dos que agora estão divididos - aos quais igualmente ordenei estarem presentes -, aquilo mesmo que por causa de uma vergonhosa disputa entre companheiros tem se mantido até agora de forma errada, poderá, ainda que lentamente, ser novamente conduzido à religião devida, à fé e à concórdia fraterna. Que o Deus Todo-poderoso te conserve são por muitos anos."

VI. Cópia de uma carta mediante a qual se faz doação de dinheiro às igrejas.
1.   "Constantino Augusto a Ceciliano, bispo de Cartago.
Posto que em todas as províncias, particularmente nas Áfricas, nas Numídias e nas Mauritânias[7], determinei que se outorgasse algo para os gastos de alguns ministros designados da legítima e santíssima religião católica, despa­chei uma carta para o perfeitíssimo Urso, diretor geral das finanças da África, indicando-lhe que providenciasse para abonar a tua firmeza três mil follis.
2.            Tu, por conseguinte, quando acusardes o recebimento da indicada quantia de dinheiro, manda que este dinheiro seja repartido a todas as pessoas acima mencionadas conforme o documento que Osio te enviou.
3.            Mas se perceberdes que falta algo para o cumprimento deste meu plano rela­tivo a eles, deverás pedir sem demora a Heráclides, o procurador de nossos bens, o quanto saibas que é necessário, já que, achando-se aqui presente, dei-lhe ordens para que se preocupasse de pagar-te sem a menor vacilação, no caso de que tua firmeza lhe pedisse algum dinheiro.
4.     E como tenho informes de que alguns homens de pensamento inconstante estão querendo afastar o povo da santíssima e católica Igreja com perverso engano, saiba que dei ordens semelhantes ao procônsul Anulino e também ao representante dos prefeitos, Patrício, que se achavam presentes, para que, além do mais, dediquem também a isto a devida preocupação e não se permitam descuidar deste assunto.
5.            Portanto, se virdes que alguns homens assim persistem nesta loucura, apela sem a menor vacilação aos juízes acima citados e apresenta-lhes este assunto para que eles, como lhes ordenei quando estavam presentes, os convertam ao bom caminho.
Que a divindade do grande Deus te guarde por muitos anos."

VII. Da imunidade dos clérigos
Cópia de uma carta imperial mediante a qual ordena que os presidentes das igrejas sejam eximidos de toda função pública civil.
1. "Saúde, estimadíssimo Anulino. Como parece, por uma série de fatos, que sempre que a religião em que se conserva o supremo respeito ao santíssimo poder do céu foi desprezada, foi causa de grandes perigos para os assuntos públicos, e por outro lado, quando foi admitida e preservada legalmente proporcionou ao nome romano enorme fortuna e uma prosperidade sin­gular a todos os assuntos dos homens - pois isto é obra dos benefícios divinos -, decidi, estimadíssimo Anulino, que aqueles varões que com a devida santidade e com a familiaridade desta lei estão prestando seus serviços pessoalmente ao culto da divina religião recebam a recompensa de seus próprios trabalhos.
2. Por esta razão, aqueles que dentro da província a ti confiada estão prestando pessoalmente seus serviços a esta santa religião na Igreja católica, que é presidida por Ceciliano, e os que se costuma chamar clérigos, quero que, sem mais e uma vez por todas, fiquem isentos de toda função pública civil, para que não ocorra que por algum erro ou por um extravio sacrílego vejam-se afastados do culto devido à divindade; antes, estejam ainda mais entregues ao serviço de sua própria lei sem estorvo algum, já que, se eles rendem à divindade a maior adoração, parece que acarretarão incontáveis benefícios aos assuntos públicos. Que tenhas saúde, meu estimadíssimo e mui querido Anulino."

VIII. Da posterior perversidade de Licínio e de sua morte
1.            Tais dons, pois[8], nos concedia a divina e celestial graça da manifestação de nosso Salvador, e tão abundantes eram os bens que por meio de nossa paz se outorgava a todos os homens. E desta maneira o nosso era celebrado entre regozijo e grandes reuniões festivas.
2.            Mas nem a inveja inimiga do bem, nem o demônio, amante do mal, podiam suportar a contemplação do que viam; como tampouco para Licínio o sucedido aos tiranos anteriormente mencionados[9] foi suficiente para uma atitude prudente. Ele que havia sido considerado digno de um governo bem próspero, digno da honra do segundo posto depois do grande imperador Constantino e digno de afinidade e parentesco do mais alto grau[10], ia se afastando da imitação dos bons e, em troca, copiava a perversidade e malícia dos ímpios tiranos. E ainda que tivesse visto com seus próprios olhos o final catastrófico destes, preferiu segui-los em seu sentimento a permanecer na amizade e boa disposição de seu superior.
3.     Presa da inveja para com o benfeitor universal, provoca contra ele uma guerra execrável e terrível, sem respeito pelas leis da natureza e sem trazer à mente a memória dos juramentos, do sangue e dos pactos.
4.     De fato, que sinais de verdadeira benevolência não lhe havia outorgado o boníssimo imperador! Não lhe regateou seu parentesco nem lhe negou esplêndidas núpcias com sua irmã, antes até, considerou-o digno de compartilhar sua nobreza, que vinha de seus pais, e seu sangue imperial ancestral, e também havia-lhe proporcionado poder desfrutar do governo supremo como cunhado e co-imperador, posto que havia-lhe dado a graça de uma parte não menor de povos sujeitos a Roma, para que os governasse e administrasse[11].
5.            Mas ele, por sua vez, agia contrariamente a isto e cada dia imaginava intrigas contra seu superior e imaginava todo gênero de conspirações, como se res­pondesse com males a seu benfeitor. Assim é que, em primeiro lugar, tratava de ocultar seus preparativos fingindo ser amigo, e aplicando-se à astúcia e ao engano, esperava alcançar com toda facilidade o resultado apetecido.
6.            Mas deve-se saber que aquele tinha Deus como amigo, protetor e guardião, que, trazendo à luz as conspirações urdidas contra ele secretamente e nas sombras, ia desbaratando-as. Tão grande força e virtude tem a arma da piedade para rechaçar os inimigos e preservar a própria salvação! Guarnecido com ela, nosso imperador, amado de Deus, ia esquivando as conspirações do infame astuto.
7.            Este, por sua parte, quando viu que seus preparativos ocultos de modo algum andavam conforme seus desígnios, já que Deus ia manifestando a seu amado imperador todo engano e toda maldade, e não podendo já dissimular por mais tempo, declarou abertamente a guerra.
8.            Decidido, efetivamente, a fazer a guerra contra Constantino, apressava-se já a formar suas tropas também contra o Deus do universo, a quem sabia que aquele honrava, e logo pôs-se a atacar - moderada e silenciosamente a princípio - seus próprios súditos adoradores de Deus, que jamais haviam causado o mínimo incômodo a seu governo. E agia assim porque sua maldade inata o forçava a uma terrível cegueira.
9.             Ocorre que ele não tinha ante os olhos a memória dos que haviam perseguido os cristãos antes dele, nem sequer a daqueles de quem ele mesmo havia sido instrumento de ruína e de castigo pelas impiedades em que haviam tomado parte. Pelo contrário, voltando as costas a um pensamento prudente, e mais, em termos exatos, transtornado pela loucura, tinha decidido fazer a guerra ao próprio Deus, como protetor de Constantino, em vez de ao protegido.
10.  Em primeiro lugar expulsou de sua própria casa todos os que eram cristãos, com o que o desgraçado privou a si mesmo da oração destes por ele, oração que costumavam fazer por todos, segundo ensinamento ancestral[12]; mas logo foi dando ordens para que em cada cidade se separasse e degradasse os soldados que não escolhessem sacrificar aos demônios[13]. E isto ainda era coisa pouca se o compararmos com as medidas maiores.
11.     Que necessidade há de recordar uma por uma e sucessivamente as coisas que este inimigo de Deus perpetrou e como sendo o maior violador das leis inventou leis ilegais?[14] Pelo menos é certo que impôs a lei de que ninguém tivesse a humanidade de repartir alimentos aos que penavam nos cárceres, que ninguém se compadecesse dos que padecessem de fome nas prisões e, em uma palavra, que ninguém fosse bom nem fizesse o menor bem, nem sequer aqueles que por sua própria natureza se deixam arrastar à compaixão por seus próximos. Esta lei era, evidentemente, a mais desavergonhada e a mais cruel de todas, já que passava por cima de toda natureza civilizada e continha ainda como castigo que os compassivos sofressem as mesmas penas que seus compadecidos e que seriam acorrentados e encarcerados os que prestassem serviços humanitários aos condenados, sofrendo o mesmo castigo que eles.
12. Tais eram as ordens de Licínio. Que necessidade temos de enumerar detalha­damente suas inovações acerca das núpcias ou suas disposições revolucioná­rias a respeito dos que deixam esta vida? Atreveu-se a abolir as antigas leis romanas, reta e sabiamente estabelecidas, e introduziu no lugar delas algumas leis bárbaras e incivilizadas, verdadeiramente ilegais e contra as leis. Inventava também inumeráveis acusações contra as nações submetidas, toda classe de extorsões de ouro e prata, novos cadastros e lucrativas multas a homens que já não estavam nos campos, mas que tinham morrido há tempo.
13.     E que classe de desterros inventou ainda o inimigo dos homens contra pessoas que nenhum dano tinham lhe causado? E as detenções de homens nobres e notáveis dos quais separava suas legítimas esposas e as entregava a alguns criados lascivos para que as ultrajassem com suas torpezas? E ele mesmo, um velhote, quantas mulheres casadas e quantas donzelas não vexou para satisfazer a paixão desenfreada de sua alma? Que necessidade temos de alongar a conta, se o excesso de suas últimas maldades deixou as primeiras pequenas e reduzidas a quase nada?
14. Certo é que, no cúmulo de sua loucura, procedeu contra os bispos. Por crer que estes, como servidores do Deus supremo, eram contrários ao que ele fazia, urdia seus preparativos, ainda não a plena luz, por medo ao mais forte[15], mas sim ocultamente e com falsidade, e deles ia eliminando os mais conspícuos valendo-se da confabulação dos governadores[16]. E o gênero de morte usado contra eles era muito estranho e inaudito até então.
15.     O certo é que o que foi realizado em torno de Amasia e as demais cidades do Ponto superou a todo excesso de crueldade. Ali, das igrejas de Deus, algumas foram novamente arrasadas por completo, e outras foram fechadas para que ninguém fosse a elas segundo o costume nem oferecessem a Deus os cultos devidos.
16.     Efetivamente, por pensar nisto com sua má consciência, não acreditava que se fizessem orações por ele, antes, estava persuadido de que nós fazíamos tudo e aplacávamos a Deus em favor do imperador amigo de Deus. Desde então, começou a fazer cair seu furor sobre nós.
17.     Assim foi. Os governadores aduladores, persuadidos de que faziam o que queria o infame, oprimiam alguns bispos com os castigos habitualmente reservados aos malfeitores, e desta forma detinha-se e se castigava sem pretexto algum, como aos homicidas, os que nada de mal tinham feito. Outros sofreram um novo gênero de morte: esquartejados seus corpos em muitos pedaços com uma espada, depois deste cruel e horripilante espetáculo, eram lançados ao fundo do mar para pasto dos peixes.
18.     Ante estes fatos reiniciaram-se as fugas dos homens piedosos, e novamente os campos, os vales solitários e os montes começaram a acolher os servos de Cristo. E como desta maneira o ímpio tinha êxito nestas medidas, chegou mesmo a conceber a idéia de ressuscitar a perseguição contra todos.
19.     Seu pensamento se reafirmava e nada o impedia de pô-lo em ação, se o Deus que luta em favor das almas que lhe pertencem, prevendo o que suce­deria, não tivesse rapidamente feito brilhar, como em trevas profundas e noite escuríssima, uma grande luminária e ao mesmo tempo um salvador para todos: seu servo Constantino, a quem levou pela mão para esta obra com braço poderoso.

IX. Da vitória de Constantino e do que este permitiu aos súditos do poder romano
1. A este, por conseguinte, foi que Deus outorgou desde cima, como fruto digno de sua piedade, o troféu da vitória contra os ímpios. Em troca, precipitou o criminoso com todos seus conselheiros e amigos aos pés de Constantino.
2.            Efetivamente, tendo aquele feito avançar seus atos até extremos de loucura, o imperador amigo de Deus concluiu que já era insuportável. Fazendo seu cálculo prudente e somando a sua humanidade a firmeza do juiz, decide acudir em socorro dos que sofriam sob o tirano. Desembaraçou-se de alguns breves contratempos e pôs-se em movimento para recobrar a maior parte do gênero humano.
3.            Até então, efetivamente, havia utilizado com ele somente a humanidade, e havia-se compadecido de quem não era digno de compaixão, sem proveito nenhum, já que o outro não se afastava de sua maldade, antes até, aumentava ainda mais sua raiva contra as nações submetidas e já não deixava nenhuma esperança de salvação para os maltratados, tiranizados como estavam por uma fera espantosa.
4.     Por isto, juntando seu ódio ao mal com seu amor ao bem, o defensor dos bons avança junto com seu filho Crispo, humaníssimo imperador, estendendo sua destra salvadora a todos os que pereciam. Logo, como se tivessem guias e como aliados a Deus, rei universal, e a seu Filho, salvador de todos, pai e filho, ambos de uma vez, separam em círculo sua formação contra os inimigos de Deus e conseguem para si uma fácil vitória, já que Deus lhes dispôs tudo no confronto conforme seu plano.
5.            Efetivamente, de súbito e com mais rapidez do que se diz, os que ontem e anteontem respiravam morte e ameaça[17], já não existiam[18]; nem de seus nomes havia memória; suas imagens e monumentos recebiam seu merecido desdouro, e o que em outro tempo Licínio contemplou com seus próprios olhos nos ímpios tiranos, isto mesmo ele sofreu em pessoa, por não arrepen­der-se nem corrigir-se ante os castigos de seus vizinhos. Depois de compartir com estes o mesmo caminho da impiedade, caiu merecidamente no mesmo precipício que eles.
6.             Mas, enquanto ele jazia prostrado desta maneira, Constantino, o vencedor máximo, que sobressaía em toda virtude religiosa, e seu filho Crispo, impe­rador amado de Deus e semelhante em tudo a seu pai, recobraram o familiar Oriente e apresentavam reunido em um, como antigamente, o governo romano, conduzindo sob a paz de ambos a terra toda, desde o sol nascente, em círculo por uma e outra parte do orbe habitado, e pelo norte e o meio dia, até o limite extremo do Ocidente.
7.      Em conseqüência, eliminava-se de entre os homens todo medo aos que antes os pisoteavam, e em troca, celebravam-se brilhantes e concorridos dias de solenes festas. Tudo explodia de luz. Os que antes andavam cabis-baixos olhavam-se mutuamente com rostos sorridentes e olhos radiantes, e pelas cidades, assim como pelos campos, as danças e os cantos glorificavam em primeiríssimo lugar o Deus rei e soberano de tudo - porque isto haviam aprendido -, e em seguida o piedoso imperador, junto com seus filhos amados por Deus.
8.            Havia perdão dos males antigos e esquecimento de toda impiedade; goza­va-se dos bens presentes e esperavam-se os vindouros. Por conseguinte, estendiam-se por todo lugar disposições do vitorioso imperador cheias de humanidade e leis que levavam a marca da munificência e verdadeira piedade.
9.     Expurgada assim, realmente, toda tirania, o império que lhes correspondia reservava-se seguro e indiscutível somente para Constantino e seus filhos, os quais, depois de eliminar do mundo antes de tudo o ódio a Deus, cons­cientes dos bens que Deus lhes havia outorgado, tornaram manifesto seu amor à virtude, seu amor a Deus, sua piedade para com Deus e sua gratidão, mediante obras que realizavam publicamente à vista de todos os homens.

1.                  O que mais te chamou atenção no texto?
2.                  Qual a contribuição do texto para sua espiritualidade?
Fim



[1] Os documentos seguintes afetam somente a Igreja do Ocidente, por isso aparece apenas o nome de Constantino.
[2] Este documento é dirigido ao governador proconsular da África.
[3] Bispos, respectivamente, de Autun, Tréves-Colônia e Aries.
[4] A palavra no original é "airéseos", donde vem "heresia", e que significa escolha ou opção.
[5] 12 de agosto de 314.
[6] Isto é, dois presbíteros.
[7] O uso do plural se deve à divisão da diocese da África em províncias por parte de Diocleciano.
[8] Aqui se retoma o assunto do capítulo 4, interrompido pela inserção dos documentos dos capítulos 5-7.
[9] Maxêncio e Maximino.
[10] Licínio casou-se com a irmã de Constantino em fevereiro de 313.
[11] Contrariamente ao que diz Eusébio, Licínio não devia o império a Constantino, mas a Galério, que junto com Diocleciano e Maximiano, tornou-o augusto, enquanto a Constantino concediam apenas o título de césar. Eusébio deve referir-se mais à condescendência de Constantino para com Licínio ao fazer as pazes após a intentona deste contra ele em 314.
[12] 1 Tm 2:1-2.
[13] A motivação desta perseguição foi mais política. Determinado a levantar-se contra Constantino, tinha que eliminar o obstáculo que para ele eram os cristãos, os do palácio, que poderiam descobrir e delatar seus planos, e os militares, especialmente os graduados.
[14] Estas leis não foram feitas diretamente contra os cristãos, mas foram estes os mais afetados.
[15] Isto é, por medo a Constantino.
[16] Forjavam-se pretextos legais para justificar as mortes, o que indica que não houve edito contra os hierarcas eclesiásticos.

[17] At 9:1.
[18] Ap 17:8-11.