sábado, 14 de março de 2020

126 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilias 39)


Resultado de imagem para icone Jesus e os saduceus
126
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilias 39)



HOMILIA 39 - Lc 20.27-40; 20.21-26
A respeito da pergunta que os saduceus fizeram ao Senhor sobre aquela mulher que teve sete maridos, e igualmente a respeito do denário que o Senhor ordenou que lhe fosse mostrado.

A pergunta dos saduceus
Os judeus têm uma seita que é chamada a seita dos saduceus: essa nega “a ressurreição dos mortos”, e pensa que a alma morre com o corpo e que, depois da morte, nossas faculdades espirituais desaparecem. [1]
Membros dessa seita, ao fazer, então, uma pergunta ao Senhor, inventaram a história[2] de uma mulher que tinha tido sete maridos. Depois da morte do primeiro marido, a fim de lhe suscitar uma posteridade, ela se casou com o segundo; tendo este morrido, ela se casou com um terceiro, depois com um quarto e assim sucessivamente até o sétimo.
E para armar uma cilada para o Salvador,[3] os saduceus propuseram-lhe este problema, no momento em que o viram instruir os discípulos a respeito da ressurreição: “Na ressurreição dos mortos”, quem dos sete irmãos deveria reivindicá-la como esposa?

A resposta de Jesus
Respondendo a eles, disse-lhes Jesus: “Vós estais errados, vós não compreendeis nem as Escrituras nem o poder de Deus.
Pois, na ressurreição dos mortos, não tomarão mulher nem marido, mas serão como anjos nos céus”.[4] Aqueles que serão como anjos com toda certeza serão anjos. Deve-se aprender, igualmente, que os anjos não se casam. Mas aqui embaixo, onde há a morte, são necessários os casamentos e os filhos; mas onde há a imortalidade, porém, não há nenhuma necessidade de casamento nem de filhos.
Vou me fazer uma pergunta muito importuna, e que não é resolvida facilmente no dizer daqueles que são muito versados no estudo da Escritura e “meditam dia e noite na lei do Senhor”.[5]
Onde, poderiam eles ter dito, está escrito que “não tomarão nem mulher nem marido”? Repassando em memória e em pensamento tanto o Velho quanto o Novo Testamento, não me recordo de ter aí encontrado em alguma parte uma passagem semelhante. Se essa passagem me escapa, que alguém mais sábio me instrua, aprendo de boa vontade o que ignoro; mas, por quanto sei, não se encontrará nada semelhante nem no Antigo nem no Novo Testamento.

O erro dos saduceus
Todo o erro dos saduceus subjaz à leitura dos profetas, que eles não compreendem[6] – dentre os quais aquilo que está em Isaías: “Meus eleitos não terão filhos destinados à própria perda”,[7] e no Deuteronômio, no capítulo das bênçãos: “Benditos sejam os filhos de teu ventre”[8] – e julgam que isso se cumprirá “quando da ressurreição”, sem compreender que se trata de profecias referentes às bênçãos espirituais.
Paulo, com efeito, “vaso de eleição”,[9] que sabia que todas as bênçãos citadas
na Lei não devem ser entendidas em sentido carnal, interpretava-as de modo espiritual.
Ele diz aos Efésios: “Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda sorte de bênçãos espirituais”.[10] Todas essas bênçãos serão, portanto, bênçãos espirituais, quando, na ressurreição dos mortos, obteremos a eterna bem-aventurança. Mas os saduceus caem no mesmo erro, encontrando um texto similar nos Salmos: “Tua esposa é como uma vinha fecunda no interior de tua casa, teus filhos, como viveiro de oliveiras em torno de tua mesa”, até aquela passagem que diz: “Que Deus te abençoe de Sião e possas tu ver os bens de Jerusalém”.[11]
Quando
Jerusalém for construída e restabelecida em sua antiga condição, então o santo haverá de ver os bens mencionados pela Escritura. Aqueles que concebem espiritualmente uma Jerusalém e sabem que dela se diz: “que ela é celeste, que ela é do alto, que ela é nossa mãe”,[12] verão seus bens, dos quais muitas vezes falamos, bem como aquilo que agora citamos: “Tua esposa é como uma vinha fecunda no interior de tua casa, teus filhos, como viveiro de oliveiras em torno de tua mesa”.
É aos saduceus, uma fração do povo judaico, que tudo compreendia segundo o sentido carnal, que se dirige o Salvador quando diz: “Vós não compreendeis nem as Escrituras nem o poder de Deus”.[13] Eis o que deve ser dito, brevemente, sobre a pergunta que os saduceus fizeram ao Senhor. Por outro lado, visto que se acrescenta o comentário sobre a efígie de César, também sobre isso devemos tocar, de passagem, com algumas palavras.
Alguns pensam que as palavras ditas pelo Salvador têm um sentido literal pura e simplesmente: “Devolvei a César o que pertence a César”, isso quer dizer: devolvei o imposto que deveis. Com efeito, quem de nós eleva uma objeção acerca dos impostos que devem ser devolvidos a César? Essa passagem contém, portanto, algo de místico e secreto.

A imagem de Deus
Há duas imagens no homem: uma que recebeu de Deus, no tempo da criação, como está escrito no Gênesis: “À imagem e semelhança de Deus”; a outra, do homem “terrestre”,[14] que recebeu em seguida, por causa da desobediência e do pecado, seduzido pelos atrativos do “príncipe deste mundo”.[15]
Do mesmo modo que uma moeda ou um denário tem a imagem dos imperadores do mundo, assim aquele que faz as obras do “príncipe destas trevas” traz a imagem desse príncipe, de quem faz as obras.
Jesus ordenou, aqui, que devolvamos essa imagem e que a arranquemos de nosso rosto, para tomar aquela imagem segundo a qual, na origem, fomos criados, isto é, à semelhança de Deus. É assim que devolvemos “a César o que pertence a César e a Deus o que é de Deus”.
“Mostrai-me”, diz Jesus, a moeda”[16] ou o “denário”, como escreve Mateus.[17] Tendo-a tomado, ele acrescenta: “De quem é a inscrição?” Eles responderam: “De César”. E, imediatamente, disse: “Devolvei a César o que pertence a César e a Deus o que é de Deus”.
E Paulo, nesse mesmo sentido, disse: “Como carregamos a imagem do terrestre, carreguemos também a imagem do celeste”.[18] As palavras: “devolvei a César o que é de César” significam: abandonai a figura do “homem terrestre”, rejeitai a imagem terrestre, para que possais, impondo-vos a figura do “homem celeste”, devolver “a Deus o que é de Deus”.
Deus nos faz um novo pedido. O que nos pede? Lê em Moisés: “E agora o que o Senhor teu Deus volta a pedir-te?”,[19] e o resto que se segue. Deus nos dirige um pedido e nos solicita, não porque ele precise que lhe demos alguma coisa, mas porque, depois que lhe tivermos dado, ele nos devolverá a mesma coisa, em vista de nossa salvação.
Para explicar isso mais claramente, citarei a parábola das minas.[20] Um homem tinha recebido uma única mina. Com ela, ele ganhara [outras] dez minas, e ofereceu-as ao Senhor, que lhe tinha confiado a primeira mina; e ele recebeu
outra mina que não possuía antes.
[Mas] o Senhor ordena que seja tirada a mina daquele que a tinha recebido sem fazê-la frutificar, para dá-la àquele que tinha ganhado outras: “Retirai-lhe a mina”, diz Jesus, “e dai-a àquele que tem dez”. Assim, neste mundo, o que tivermos dado a Deus, ele no-lo devolverá e acrescentará outra coisa que não possuíamos anteriormente.
Deus exige, Deus pede, para ter a ocasião de nos dar, para distribuir ele próprio seus dons. É graças a ele que a mina multiplicou-se, e àqueles que o merecem é dado mais do que esperavam. Por essa razão, levantando-nos, oremos a Deus, para que sejamos dignos de oferecer-lhe seus dons, os quais possa nos restituir e, em lugar dos bens terrenos, ele possa nos prodigalizar os celestiais, no Cristo Jesus: “a quem pertencem a
glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.
Fim das trinta e nove homilias de Orígenes Adamâncio sobre o Evangelho de Lucas, traduzidas do grego para o latim pelo bem-aventurado presbítero Jerônimo.

O que você destaca no texto?
Como o texto serve para sua espiritualidade? 



Notas:

[1] Para os saduceus, a morte física representa o fim das funções biológicas, bem como de qualquer atividade espiritual posterior. Com o corpo, morrem também a alma e o espírito.
[2] Fábula, no latim fabula, pode significar tanto uma história imaginada quanto uma história falsa. No vocabulário de Jerônimo, tem o duplo sentido, mas, no mais das vezes, refere-se a uma história verdadeira.
[3] Do mesmo modo, como os judeus faziam com o Cristo, nos últimos tempos de sua vida terrestre.
[4] Mt 22,29-30.
[5] Sl 1,2.
[6] O desconhecimento dos profetas, por parte dos saduceus, decorre do fato de que recebiam apenas os cinco livros do Pentateuco, daí a natural incompreensão da obra profética.

[7] Is 65,23.
[8] Dt 7,13.
[9] At 9,15.
[10] Ef 1,3.
[11] Sl 128(127),3-5.
[12] Gl 4,26.
[13] Mt 22,29.
[14] 1Cor 15,49.
[15] Jo 12,31.
[16] A imagem de César, príncipe do Império Romano, é a imagem do “príncipe deste mundo” ou o diabo. Aí fica patente o sofrimento da Igreja, submetida a perseguições à margem da sociedade romana, fiel ao Deus único e submetida à idolatria.
[17] Mt 22,19
[18] 1Cor 15,49.
[19] Dt 10,12.
[20] Cf. Lc 19,11-27.

domingo, 8 de março de 2020

125 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilias 38)


Resultado de imagem para Icone Jesus e os vendedores do templo


125
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilias 38)


HOMILIA 38 - Lc 19.41-45
Sobre o que está escrito: “Como, porém, ele se tinha aproximado, viu a cidade e chorou sobre ela”, até aquela passagem que diz: “Ele derrubou as mesas de todos os que vendiam pombas”.

Jesus, realização das bem-aventuranças
“Como tivesse se aproximado de Jerusalém, Nosso Senhor e Salvador, vendo a cidade, chorou e disse: ‘Se nesse dia tu também tivesses conhecido a mensagem de paz; porém agora, ela permanece escondida de teus olhos; pois dias virão sobre ti em que teus inimigos te sitiarão’”. São misteriosas as coisas ditas por Jesus, e esperamos, desvelando-as Deus [para nós], poder descobrir o [seu] sentido oculto.
Primeiramente, deve-se ver, então, o significado de seu choro. Todas as bem-aventuranças, das quais falou Jesus no Evangelho, são confirmadas por seu exemplo, e ele justifica seu ensinamento por seu próprio testemunho. Ele diz: “Bem-aventurados os mansos”. Eis o que diz de si próprio: “Aprendei de mim, que sou manso”. “Bem-aventurados os pacíficos”.
E quem mais é tão pacífico como o meu Senhor Jesus, que “é nossa paz, que fez cessar a inimizade e a suprimiu em sua carne?”
 “Bem-aventurados aqueles que sofrem perseguição por causa da justiça”.
Ninguém sofreu perseguição por causa da justiça mais do que o Senhor Jesus, que
por nossos pecados foi crucificado. O Senhor mostra, pois, todas as bem-aventuranças realizadas nele. Em conformidade com aquilo que dissera: “Bem-aventurados os que choram”, o próprio Jesus chorou para lançar o fundamento dessa bem-aventurança. Ele chorou, porém, sobre Jerusalém dizendo: “Se neste dia tivesses conhecido tu também a mensagem de paz; mas agora ela permanece oculta a teus olhos”, e a sequência, até aquela passagem que diz: “Porque não reconheceste o tempo em que tu foste visitada”.

Jesus chora sobre Jerusalém
Alguém entre os ouvintes poderia dizer: o sentido de tais palavras é evidente; elas se cumpriram, de fato, quanto ao que diz respeito a Jerusalém: o exército romano, com efeito, sitiou-a e devastou-a até o extermínio, e virá um tempo em que não restará mais dela pedra sobre pedra. Não nego que, evidentemente, aquela Jerusalém foi destruída por causa dos crimes de seus habitantes; mas pergunto se por acaso esse choro convenha também a esta nossa Jerusalém. Nós somos, com efeito, a Jerusalém que é deplorada por Jesus; nós, cujo olhar espiritual parece ser mais penetrante.
Se, depois de ter conhecido os mistérios da verdade, depois da palavra do Evangelho, depois da doutrina da Igreja e depois da visão dos mistérios de Deus, alguém dentre nós tiver pecado, ele será causa de choro e deploração. Nenhum pagão, com efeito, é causa de choro, mas aquele que foi de Jerusalém e deixou de ser dela.
Porém, esta nossa Jerusalém é causa de choro, porque, depois de seus pecados, “os inimigos, a saber, as potências adversas, os espíritos maus, a sitiarão. Eles lançarão trincheiras ao seu redor e sitiá-la-ão “até que não deixem pedra sobre pedra”. Isso é o que acontece sobretudo se, depois de uma perfeita continência, depois de muitos anos passados na castidade, um homem que tiver sido atraído pelos apelos moles da carne, tenha perdido a capacidade de suportar a pureza.
Se tiveres cometido uma fornicação, “não deixarão pedra sobre pedra” em ti. Com efeito, diz em outra passagem: “Eu não me recordarei mais das obras de justiça que ele praticou; eu o julgarei no próprio pecado em que tiver sido surpreendido”.
Essa é, portanto, a Jerusalém que é deplorada.

Jesus expulsa os vendilhões
É dito depois disso: “Ele entrou no templo” e, uma vez tendo entrado, “ele pôs para fora aqueles que vendiam pombas”. Não expulsou os compradores; quem, com efeito, compra, possui o que compra. Jesus expulsou do templo de seu Pai aqueles que vendem seus bens e põem fora o que tinham tido, à semelhança do filho voluptuoso que recebeu uma parte dos haveres do Pai e pôs a perder todas as coisas, bebendo em demasia.
Se vende, portanto, alguma coisa, é expulso, sobretudo se vendia pombas.
Por que não citou outras aves, senão pombas? Esse animal é simples e decoroso. Receio que também em nós um vício desse tipo seja identificado. Se, com efeito, eu tiver vendido por dinheiro, e não ensinado gratuitamente, o que me é revelado e confiado pelo Espírito Santo para dá-lo a conhecer ao povo, o que faço de diferente a não ser vender pombas, isto é, o Espírito Santo?
Quando o tiver vendido, eu serei expulso do templo de Deus.
Por isso, roguemos ao Senhor para que todos sejamos antes compradores que vendedores. Se, com efeito, não tivermos vendido, teremos o conhecimento e a compreensão de nossa salvação; caso contrário, os inimigos sitiarão nossa cidade. E se o exército inimigo nos tiver cercado uma vez, não mereceremos as lágrimas do Senhor.
Levantemo-nos, portanto, ao romper do dia e rezemos a Deus para que possamos comer, pelo menos, as migalhas que caem da mesa daquele homem.
A Escritura admira que a rainha de Sabá tenha vindo “da extremidade da terra para ouvir a sabedoria de Salomão”; e, depois de ter visto a refeição, e o mobiliário e os serviços de sua casa, ficou tomada de estupor e toda maravilhada. Quanto a nós, se não abraçarmos de boa vontade as prodigiosas riquezas de Nosso Senhor, o maravilhoso mobiliário de sua palavra, a abundância de seus ensinamentos, se não comermos “o pão da vida”, se não nos nutrirmos da carne de Jesus e não bebermos o sangue de seu sacrifício, se desprezarmos o banquete de Nosso Salvador, devemos saber que Deus pode ter “tanto bondade quanto severidade”.
 A partir disso tudo, devemos implorar para nós mais a sua bondade, em Cristo Jesus, Nosso Senhor, “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

O que você destaca no texto?
Como o texto serve para sua espiritualidade?

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Quaresma e os Pais da Igreja


http://img.historiadigital.org/2012/12/Coroa-Espinhos.jpg


QUARESMA E OS PAIS DA IGREJA
Estudo 1

E nós, meus irmãos, nós que recebemos do Invencível Combatente as sagradas práticas da Quaresma, saibamos repelir os desejos da carne e mortificar o corpo com jejuns, a fim de que cresçam as virtudes na nossa alma. Jejum das funestas paixões e prazeres, jejum de toda a injustiça, jejum do odioso espírito de rivalidade. Renunciemos, meus irmãos, aos festins, mas renunciemos mais ainda aos nossos vícios. Saibamos escolher a temperança. Abster-nos do vinho, a fim de que saibamos resistir à embriaguez dos prazeres. De que nos servirá, com efeito, jejuar durante quarenta dias se não respeitarmos a lei do jejum? De que nos serve fugir aos banquetes, se ocuparmos em discórdias os nossos dias? De que nos serve não comer o pão que nos cabe, se tirarmos a comida da boca do pobre? O jejum para o cristão que escolhe as privações deve ser alimento espiritual. O jejum para o cristão deve preparar a paz e não as lutas. De que te serve não comer carne, se da tua boca se soltam injúrias piores que qualquer alimento? De que te serve santificar o estômago com jejuns, se as mentiras te mancham a boca? Em verdade te digo, meu irmão, que não tens o direito de entrar na Igreja se continuas enredado e envolvido nas malhas mortais da usura voraz, que não tens o direito de invocar o teu Senhor se as tuas orações vêm do teu coração invejoso; que não tens o direito de bater no peito se nele se escondem os teus maus desejos. A moeda que deres ao pobre só será justa, quando fores pobre também. Eis, irmãos muito amados, a verdadeira fome religiosa, eis o alimento das almas tementes a Deus. As almas que santificaram o jejum pela castidade, que o tornaram alegre pela caridade, que o aformosearam pela paciência, que o acalentaram pela bondade, que lhe deram o seu justo preço pela humildade. Meus irmãos, vivamos a Quaresma de Cristo com todas as nossas forças e, pela prática daquelas virtudes, façamos que seja nossa, pelos dois gêmeos jejuns do corpo e do espírito, a graça divina. Amém (Máximo de Turim (380-465) – As práticas Quaresmais).
Nós, os novos batizados, os filhos do batistério que acabamos de receber a luz, damos-Te graças, Cristo Deus. Tu iluminaste-nos com a luz do Teu rosto, Tu revestiste-nos com a veste que convém às Tuas núpcias (Sl 4, 7; Mt 22, 11). Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado.  Quem dirá, quem mostrará ao primeiro homem criado, Adão, a beleza, o brilho, a dignidade dos seus filhos? Quem contará também à infeliz Eva que os seus descendentes se tornaram reis, revestidos de uma veste de glória, e que com grande glória glorificam Aquele que os glorificou, brilhantes de corpo, de espírito e de veste? […] E quem os exaltou? Foi, evidentemente, a sua Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. […] Tu és brilhante e radioso, Adão. […] Ao ver-te, o teu adversário definha e exclama: Quem é este que vejo? Não sei. O pó foi renovado (Gn 2, 7), as cinzas foram divinizadas. O pobre doente foi convidado, foi refrescado, entrou e sentou-se à mesa, foi conduzido ao banquete e tem a audácia de comer e o desplante de beber Aquele que o criou. E quem Lho deu? Foi, evidentemente, a sua Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. Esqueceu as suas culpas antigas, não ostenta a menor cicatriz dos primeiros ferimentos. Abandonou os seus longos anos de paralisia na piscina, como tinha feito o paralítico, e deixou de trazer o leito aos ombros, mas traz às costas a cruz Daquele que teve piedade dele […]. Outrora, o Amigos dos homens lavou muitos homens nas águas, mas eles não brilharam assim; àqueles, porém, a Ressurreição tornou-os luminosos. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. […]. Eis-te recriado, novo batizado, eis-te renovado; não curves as costas ao peso dos pecados. Possuis a cruz como cajado, apóia-te nela. Leva-a à tua oração, leva-a para a mesa, leva-a para o leito, leva-a para todo o lado como título de glória. […] Grita aos demônios: Com a cruz na mão, ergo-me, louvando a Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado (Romano, o Melodista (490-556) – A Quaresma é o caminho da renovação).

Meu Deus, na Tua compaixão
derrama sobre mim o olhar do Teu amor
E recebe a minha ardente confissão.
Pequei mais do que todos os homens,
pequei só contra Ti, Senhor;
faz-me participar da Tua misericórdia,
meu Salvador, porque me criaste. […]
Meu Redentor, manchei a Tua imagem e semelhança (Gn 1, 26), […]
desfiz em farrapos o vestuário de perfeição
que o próprio Criador fabricou para mim e estou nu;
em seu lugar quis usar uma farpela rasgada,
obra da serpente que me seduziu (Gn 3, 1-5). […]
Fiquei fascinado com a beleza
da árvore que traiu a minha inteligência:
agora estou nu e coberto de vergonha. […]
O pecado me revestiu de túnicas de pele (Gn 3, 21),
agora que fui despojado
das vestes tecidas pelo próprio Deus. […]
E, como a prostituta, grito:
pequei contra Ti, só contra Ti.
Ó Salvador, acolhe as minhas lágrimas,
como aceitaste o perfume da pecadora (Lc 7, 36 ss.)
E, como o publicano, grito:
tem piedade de mim, ó Salvador.
Perdoa-me, porque de toda a descendência de Adão
ninguém pecou como eu. […]
Prostrado como Davi,
estou coberto de lama;
Mas assim como ele se lavou nas próprias lágrimas,
lava-me Tu também, Senhor!
Ouve os gemidos da minha alma
e os suspiros do meu coração;
acolhe as minhas lágrimas
e salva-me, meu Redentor.
Porque Tu amas os homens
e queres que todos se salvem.
Faz-me voltar à Tua bondade
e nela me recebe,
porque estou arrependido  (André de Creta – (650-740), monge e bispo  - Grande Cânon da Liturgia Bizantina da Quaresma).


QUARESMA E OS PAIS DA IGREJA
Estudo 2

Naamã era sírio e estava leproso, sem que ninguém o pudesse curar. Então, uma jovem prisioneira disse-lhe que havia em Israel um profeta que podia curá-lo da lepra. […] Já é tempo de descobrires quem era aquela jovem prisioneira. Era a figura da assembleia mais nova de entre as nações, isto é, da Igreja do Senhor. Antes, quando não possuía ainda a liberdade da graça, fora humilhada pelo cativeiro do pecado. Mas, a seu conselho, este povo que não era ainda um povo escutou a palavra dos profetas, da qual duvidara durante muito tempo. Em seguida, quando acreditou que devia segui-la, o povo foi purificado de todo o contágio do pecado. Naamã duvidara antes de ser curado; mas tu já foste curado e por isso não deves duvidar. Já antes te foi dito que não devias acreditar apenas no que vês ao aproximares-te do batistério, para que digas: «É este o «grande mistério que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais passou pelo pensamento do homem» (1Cor 2, 9)? Eu vejo as águas que via todos os dias. Vão purificar-me estas águas a que tantas vezes desci sem nunca ter sido purificado?» Deves reconhecer que a água não purifica sem o Espírito. Por isso, leste que no batismo as três testemunhas são uma só: a água, o sangue e o Espírito (1Jo 5, 7-8); porque, se prescindires de uma delas, já não há sacramento do batismo. Que é a água sem a cruz de Cristo? É um elemento comum, sem nenhuma eficácia sacramental. Mas também é verdade que sem a água não há mistério da regeneração: «quem não renascer da água e do Espírito não entrará no reino de Deus» (Jo 3, 5). Também o catecúmeno acredita na cruz do Senhor Jesus, com a qual é assinalado; mas, se não for batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, não pode receber o perdão dos pecados nem obter o dom da graça espiritual. Por isso o sírio Naamã mergulhou sete vezes, segundo a Lei; tu, porém, foste batizado em nome da Trindade. […] Proclamaste a tua fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo. […] Morreste para o mundo, ressuscitaste para Deus e, de certo modo sepultado naquele elemento do mundo, morto para o pecado, ressuscitaste para a vida eterna (Rm 6, 4). (Ambrósio de Milão (340-397), bispo de Milão – A Quaresma é um caminho para o Batismo).

Kyrios
Senhor e Mestre da minha vida,
não me abandones ao espírito de preguiça, de desencorajamento
de dominação e de vã tagarelice.
Concede-me a graça de um espírito de castidade, de humildade,
de paciência e de caridade, a mim, Teu servo.
Sim, meu Senhor e meu Rei, que eu veja as minhas faltas
e não condene o meu irmão.
Tu, que és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
Ó Deus, tem piedade de mim, pecador.
Ó Deus, purifica-me que sou pecador.
Ó Deus, meu Criador, salva-me.
Perdoa-me os meus numerosos pecados!
Bendito Aquele que vem, o nosso Rei»
(Efrém, o Sírio – (306-373).

O dia de hoje, meus bem-amados, é da maior importância. É um dia que nos solicita um grande desejo, uma pressa imensa, um alento vivo, para nos conduzir ao encontro do Rei dos Céus. Paulo, o mensageiro da Boa Nova, dizia-nos: «O Senhor está perto. Não vos inquieteis» (Fil 4, 5-6). […] Acendamos, pois, as lamparinas da fé; à semelhança das cinco virgens sensatas (Mt 25, 1ss.), enchamo-las do óleo da misericórdia para com os pobres; acolhamos a Cristo bem despertos, e cantemos-Lhe com as palmas da justiça na mão. Beijemo-Lo, derramando sobre Ele o perfume de Maria (Jo 12, 3). Ouçamos o cântico da ressurreição: que as nossas vozes se elevem, dignas da majestade divina, e brademos com o povo, soltando esse grito que se escapa das bocas da multidão: «Hosana nas alturas! Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel». É razoável chamar-Lhe «Aquele que vem», porque Ele vem sem cessar, porque Ele nunca nos falta: «O Senhor está próximo de quantos O invocam em verdade» (Sl 144, 18). «Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor». O Rei manso e pacífico está à nossa porta. Aquele que tem o trono nos céus, acima dos querubins, senta-Se, cá em baixo, sobre uma burrinha. Preparemos a casa da nossa alma, limpemos as teias de aranha que são os mal-entendidos fraternos, que não haja em nós a poeira da maledicência. Difundamos às mãos-cheias a água do amor, e apaziguemos todas as feridas criadas pela animosidade; semeemos o vestíbulo dos nossos lábios com as flores da piedade. E soltemos então, na companhia do povo, esse grito que brota dos lábios da multidão: «Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel». (Proclo de Constantinopla (390-446), bispo – A Quaresma prepara para o Dia de Ramos).





QUARESMA E OS PAIS DA IGREJA
Estudo 3

Depois deste tempo consagrado à observância do jejum, a alma chega, purificada e esgotada, ao batismo. Recobra então as forças mergulhando nas águas do Espírito; tudo o que tinha sido queimado pelas chamas das doenças renasce do orvalho da graça do céu. Abandonando a corrupção do homem velho, o neófito adquire uma nova juventude […]. Através de um novo nascimento, renasce outro homem, sendo embora o mesmo que tinha pecado. Por meio de um jejum ininterrupto de quarenta dias e quarenta noites, Elias mereceu pôr fim, graças à água que veio do céu, a uma seca longa e penosa na terra inteira (1Rs 19, 8; 18, 41). Extinguiu a sede ardente do solo trazendo-lhe uma chuva abundante. Estes fatos produziram-se para nos servir de exemplo, para merecermos, após um jejum de quarenta dias, a chuva bendita do batismo, para que a água que vem do céu regue toda a terra, desde há muito tempo árida, dos nossos irmãos do mundo inteiro. O batismo, como uma rega de salvação, porá fim à longa esterilidade do mundo pagão. É, com efeito, de seca e de aridez espiritual que sofre todo aquele que não foi banhado pela graça do batismo. Através de um jejum do mesmo número de dias e noites, o santo Moisés mereceu falar com Deus, ficar, permanecer com Ele, receber das Suas mãos os preceitos da Lei (Ex 24, 18). […] Também nós, irmãos muito queridos, jejuamos com fervor durante todo este período, para que […] também para nós se abram os céus e se fechem os infernos (Máximo de Turim (380-465), bispo
Sermão 28 – Importância do Jejum na Quaresma).

Aproximaste-te, viste a pia batismal e viste também o bispo perto da pia. E sem dúvida surgiu na tua alma o mesmo pensamento que se insinuou na de Naaman, o sírio. Pois, embora tenha sido purificado, inicialmente ele duvidara. […] Temo que alguém tenha dito: «É apenas isto?» Sim, realmente é apenas isto: ali encontra-se toda a inocência, toda a piedade, toda a graça, toda a santidade. Viste o que conseguiste ver com os olhos do corpo […]; aquilo que não se vê é muito maior […], porque aquilo que não se vê é eterno […]. Que haverá de mais surpreendente do que a travessia do Mar Vermelho pelos israelitas, para não falarmos agora apenas do batismo? E, no entanto, todos os que o atravessaram morreram no deserto. Pelo contrário, aquele que atravessa a pia batismal, isto é, aquele que passa dos bens terrestres para os do céu […], não morre, mas ressuscita. Naaman era leproso. […] Ao vê-lo chegar, o profeta disse-lhe: «Vai, entra no Jordão, banha-te e ficarás curado.» Ele pôs-se a refletir em si mesmo e disse para consigo: «É apenas isto? Vim da Síria à Judeia e disseram-me: vai até ao Jordão, banha-te e ficarás curado. Como se não houvesse rios melhores no meu país!» Os servos diziam-lhe: «Senhor, por que não fazes o que diz o profeta? Fá-lo, experimenta.» Então ele foi até ao Jordão, banhou-se e ficou curado. Que significa isto? Viste a água, mas nem toda a água cura; mas a água que contém em si a graça de Cristo cura. Há uma diferença entre o elemento e a santificação, entre o ato e a eficácia. O ato realiza-se com água, mas a eficácia vem do Espírito Santo. A água não cura se o Espírito Santo não tiver descido e consagrado aquela água. Leste que quando nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o rito do batismo, veio ter com João e este disse-Lhe: «Eu é que tenho necessidade de ser batizado por Ti. E Tu vens até mim?» (Mt 3,14). […] Cristo desceu; João, que batizava, estava a Seu lado; e eis que, como uma pomba, o Espírito Santo desceu. […] Por que desceu Cristo primeiro e em seguida o Espírito Santo? Por que razão? Para que o Senhor não parecesse ter necessidade do sacramento da santificação: é Ele que santifica; e é também o Espírito que santifica (Ambrósio de Milão (340-397), Bispo de Milão – Quaresma para o Santo Batismo).

“A honra do jejum consiste não na abstinência da comida, mas em evitar as ações pecaminosas; quem limita o seu jejum apenas à abstinência de carnes o desonra. Praticas o jejum? Prova-me por tuas obras! Perguntas que tipo de obras? Se vires um inimigo, reconcilia-te com ele! Se vires um amigo tendo sucesso, não o inveje! Se vires uma mulher bonita, passe sem olhar! Que não apenas a boca jejue, mas também os olhos, e os ouvidos, e os pés, e as mãos, e todos os membros de nossos corpos. Que as mãos jejuem sendo puras da avareza e da rapina. Que os pés jejuem, deixando de caminhar para espetáculos imorais. Que os olhos jejuem, não se detendo sobre feições belas, ou se ocupando de belezas exóticas. Pois o que é visto é a comida dos olhos, mas se o que for visto for imoral ou proibido, macula-se o jejum e perturba toda a segurança da alma; mas se for moral e seguro, o que é visto adorna o jejum. Pois seria absurdo abster-se da comida permitida por causa do jejum, mas devem os olhos absterem-se até de tocar o que é proibido. Não comes carne? Então não se alimente de luxúria através dos olhos. Que também os ouvidos jejuem. O jejum dos ouvidos consiste em recusar-se a ouvir assuntos perversos e calúnias. ‘Não receberás notícias falsas’, já foi dito. Que a boca também jejue de falar coisas vergonhosas e de ficar reclamando. Pois que ganhas se te absténs de pássaros e peixes, e mesmo assim mordes e devoras teu próximo? O que tem fala maligna come a carne de seu irmão, e morde o corpo de seu próximo.” (João Crisóstomo (347-407). Orientação sobre o verdadeiro Jejum Quaresmal).























quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

124 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilias 36,37)

Resultado de imagem para icone Jesus e o burrinho
124
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilias 36,37)



HOMILIA 36 - Lc 17.20,21, 33.
Sobre o que está escrito: “Aquele que quiser salvar sua alma perdê-la-á” até aquela passagem que diz: “O reino de Deus está entre vós”.

O homem espiritual
“Quem buscar”, diz Jesus, “salvar sua alma, perdê-la-á, e quem a tiver perdido, salvá-la-á.” Os mártires buscam salvar sua alma; perdem-na, para salvá-la.
Mas os que querem salvar sua alma e não a perdem, estes perderão ao mesmo tempo “seu corpo e sua alma na geena”.
Por isso, “não temais”, diz Jesus, “aqueles que podem matar o corpo, mas temei sobretudo aquele que pode perder a alma e o corpo na geena”.
Sobre este assunto, diremos algumas palavras segundo a capacidade de nosso espírito.
O homem animal não acolhe o que vem do espírito” e, portanto, não pode ser salvo.
“Semeia-se um corpo animal, ressuscita um corpo espiritual.”
Enfim, “aquele que se une ao Senhor torna-se com ele apenas um único espírito”.
Se, portanto, “aquele que se une ao Senhor”, como se tratasse de um animal, se encontra transformado por essa união em homem espiritual, e “é um único espírito” com o Senhor, também nós, então, percamos nossa alma, para que, unindo-nos ao Senhor, sejamos transformados em um único espírito com ele.

O reino de Deus e o reino dos pecados
O Salvador, interrogado pelos Fariseus, igualmente sobre o tempo do advento do reino de Deus, respondeu: “O reino de Deus não se deixa observar e não se diria: “ei-lo aqui, ou ei-lo aí. Pois o reino de Deus está entre vós”.
O Salvador não diz a todos: “O reino de Deus está entre vós”, porque os pecadores vivem voltados para o reino do pecado; não há ambiguidade alguma: no nosso coração impera ou o reino de Deus ou o reino do pecado.
Sejamos mais atentos, seja a nossos atos, seja a nossas palavras, seja a nossos pensamentos, e veremos, então, se é o reino de Deus que prevalece em nós ou o reino dos pecados.
Conhecendo essa oposição, o Apóstolo dá a alguns esta advertência: “Que o pecado não reine em vosso corpo mortal”.
Se algum de nós deseja o reino de Deus, já é governado por ele; se alguém é atormentado pelo ardor da avareza, é governado pela avareza.
Aquele que é justo tem como rainha a justiça.
Aquele que é tomado pela ambição da vanglória, reina para ele a popularidade.
A tristeza, o medo, o amor, o desejo, cada uma dessas várias perturbações domina aquele que as experimenta.
Conhecendo todas essas coisas e quão numerosos sejam os tipos de reinos, levantemo-nos e oremos a Deus, para que nos retire do reino do inimigo e possamos viver sob o reino de Deus todo-poderoso, isto é, sob o reino da Sabedoria, da Paz, da Justiça, da Verdade; todas compreendidas no Deus Filho Unigênito: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

HOMILIA 37 - Lc 19.29-40
Sobre a passagem em que é dito que um jumentinho foi desatado pelos discípulos.

Às portas de Betânia
Foi lido no Evangelho segundo [São] Lucas como o Salvador, quando vinha “de Betfagé e de Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos” para desatar “o jumentinho” que estava amarrado, “sobre o qual nenhum homem nunca tinha montado”.
Tudo isso, ao que me parece, tem um sentido mais profundo que a significação da simples narrativa. O asno estava amarrado.
Onde? “Em frente a Betfagé e Betânia”. Betânia significa “casa da obediência”; Betfagé, “casa das mandíbulas”, um lugar reservado aos sacerdotes; pois as mandíbulas eram dadas aos
sacerdotes, como está prescrito na Lei.
O Salvador envia, pois, seus discípulos para lá onde se encontra a obediência, e em um lugar reservado aos sacerdotes, para aí desatar “o jumentinho sobre o qual nenhum homem nunca tinha montado”.

O jumentinho desatado
Que outro pode montar sobre um asno senão um homem? Quero tomar um breve exemplo para que possa ser compreendido o que vou dizer. Está escrito em Isaías: “A visão dos quadrúpedes na tribulação e na angústia”, e a sequência, até a passagem: “As riquezas das serpentes não lhes serão úteis”.
Cada um de nós deve examinar quantos bens das áspides, quantas riquezas dos asnos tenha carregado anteriormente.
Veremos como nem o homem espiritual nem a palavra de Moisés, nem a de Isaías nem a de Jeremias, ou de nenhum outro profeta montou sobre nosso asno.
Veremos que a Palavra de Deus e o Verbo repousaram sobre nós quando o Senhor veio dizer para desatar o jumentinho que havia sido amarrado, para que avançasse livremente.
Desatado, assim, o jumentinho é conduzido a Jesus, que havia dito, ao enviar seus
discípulos para desatá-lo: “Se alguém vos perguntar por que desatais o jumentinho, dizei-lhe: porque o Senhor precisa dele”.
Muitos eram os donos desse jumentinho, antes que o Senhor precisasse dele; mas, depois que o Senhor se tornou seu dono, deixaram de ser vários os seus senhores; pois “ninguém pode servir a Deus e à Riqueza”.
Quando somos escravos da maldade, estamos sujeitos às paixões e aos vícios.
O jumentinho é, pois, desatado “porque o Senhor precisa dele”. Ainda agora o Senhor precisa do jumentinho. Vós sois o jumentinho.
Em que o Filho de Deus precisa de vós? Que espera ele de vós? Ele precisa de vossa salvação, ele quer vos desatar dos laços dos pecados.

O jumentinho carrega Jesus
Os discípulos em seguida lançam “suas vestes sobre o asno” e fazem o Salvador assentar-se nele.
Eles tomam a Palavra de Deus e a impõem sobre as almas dos ouvintes; se despem de suas vestes e “estendem-nas sobre o caminho”.
As vestes dos Apóstolos estão sobre nós, suas boas obras são nossos ornamentos; os Apóstolos querem que andemos sobre seus vestuários. E a bem da verdade, o asno desatado pelos discípulos, e que carrega Jesus, avança sobre as vestimentas dos apóstolos, quando sua doutrina e sua vida são imitadas.
Quem de nós tem a felicidade de ser a montaria de Jesus, que, enquanto esteve na montanha, morava apenas com os apóstolos, mas,
quando se aproximou [o tempo] de sua descida, então acorreu a ele a turba popular?
Se Jesus não tivesse realizado sua descida, não teria podido a multidão acorrer a ele. Ele desceu e montou sobre o jumentinho, e todo o povo louvava a Deus com uma voz unânime.

Proclamar a glória de Deus
Vendo isso, os fariseus diziam ao Senhor: “Repreende-os”. A estes ele respondeu: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”.
Quando nós falamos, as pedras silenciam;
quando nos calamos, as pedras gritam; “pois o Senhor pode destas pedras suscitar filhos para Abraão”.
Quando nos calaremos? Quando “a caridade de muitos tiver se resfriado”, quando aquilo que foi predito pelo Salvador tiver se cumprido: “Pensas tu que, quando o Filho do homem tiver vindo, encontrará fé sobre a terra?”.
Imploremos, pois, a misericórdia do Senhor, a fim de que, ao nosso calar, as pedras não cessem de gritar; mas falemos e louvemos a Deus no Pai, e no Filho, e no Espírito Santo: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

O que você destaca no texto?
Como o texto serve para sua espiritualidade?