quarta-feira, 13 de maio de 2015

Livro IV - Capítulos 01 a 11

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro IV - Capítulos 01 a 11

Texto Bíblico:  Filipenses 1.29

I - Quais foram os bispos de Roma e de Alexandria sob o reinado de Trajano
II - O que padeceram os judeus nos tempos de Trajano
III - Os que saíram em defesa da fé nos tempos de Adriano
IV - Os bispos de Roma e de Alexandria nos tempos deste
V - Os bispos de Jerusalém, desde o Salvador até os tempos de Adriano
VI - O último assédio de Jerusalém, nos tempos de Adriano
VII - Quem foram neste tempo os líderes da gnosis de enganoso nome
VIII - Quem foram os escritores eclesiásticos nos tempos de Adriano
IX - Uma carta de Adriano dizendo que não se deveria perseguir-nos sem julgamento
X - Quem foram os bispos de Roma e de Alexandria sob o reinado de Antonino
XI - Dos heresiarcas daqueles tempos


 I - Quais foram os bispos de Roma e de Alexandria sob o reinado de Trajano
1. Corria o duodécimo ano do reinado de Trajano[1], morre o bispo da Igreja de Alexandria, a quem aludimos pouco acima[2], e é eleito para o cargo nela Primo, quarto bispo a partir dos apóstolos. Neste tempo também, tendo Evaristo cumprido seu oitavo ano[3], o episcopado de Roma passa para Alexandre, quinto na sucessão a partir de Pedro e Paulo.

II - O que padeceram os judeus nos tempos de Trajano
1.            Enquanto o ensinamento de nosso Salvador e sua Igreja floresciam a cada dia e progrediam mais e mais, a ruína dos judeus chegava ao máximo com sucessivas calamidades. Corria já o ano dezoito do imperador[4] quando estourou novamente uma rebelião dos judeus que levou à ruína uma enorme multidão dentre eles.
2.            Efetivamente, em Alexandria, assim como no resto do Egito e ainda em Cirene, como que instigados por um espírito terrível e faccioso, amotinaram-se contra seus vizinhos, os gregos. A rebelião cresceu enormemente, e no ano seguinte, sendo então Lupo o governador de todo o Egito, provocaram uma guerra nada pequena.
3.            Ocorreu que no primeiro choque eles venceram aos gregos, os quais, refugiando-se em Alexandria, prenderam os judeus da cidade e mataram-nos. Mas os judeus de Cirene, não recebendo a ajuda que esperavam destes, dedicaram-se a saquear o país do Egito e a devastar seu nomos, sob o comando de Lucúa[5]. Contra eles o imperador enviou Márcio Turbon com forças de infantaria e de marinha e inclusive de cavalaria.
4.     Este, depois de manter dura luta contra eles em muitas batalhas e durante bastante tempo, deu morte a muitos milhares de judeus não apenas em Cirene, mas também aos que vinham do Egito, que haviam se sublevado com Lucúa, seu rei.
5.     Mas o imperador, suspeitando que também os judeus da Mesopotâmia atacariam os habitantes dali, ordenou a Lusio Quieto que limpasse deles a província. Este organizou também uma batida contra eles e assassinou uma grande multidão, façanha pela qual o imperador nomeou-o governador da Judéia. Estes fatos são relatados também com termos idênticos pelos gregos que puseram por escrito dos acontecimentos de seu tempo.

III - Os que saíram em defesa da fé nos tempos de Adriano
1.            Depois de Trajano reger o império durante dezenove anos e seis meses, foi sucedido no comando por Elio Adriano. A este Codratos entregou um tra­tado que lhe havia redigido: uma Apologia composta em defesa de nossa religião, já que, efetivamente, alguns homens malvados tratavam de impor­tunar os nossos. Ainda hoje conserva-se nas mãos de muitos de nossos irmãos; nós também possuímos a obra. Nela podemos ver claras provas da inteligência e retidão apostólica deste homem.
2.            Ele mesmo deixa entrever sua antigüidade nisto que nos conta, em suas próprias palavras:
"Mas as obras de nosso Salvador estavam sempre presentes, porque eram verdadeiras: os que haviam sido curados, os ressuscitados dentre os mortos, os quais não foram vistos apenas no instante de serem curados e ressusci­tados, mas também estiveram sempre presentes, e não apenas enquanto vivia o Salvador, mas também depois de Ele morrer, todos viveram tempo sufi­ciente, de forma que alguns deles chegaram mesmo aos nossos tempos."
3.   Assim era Codratos. Mas também Aristides, homem de fé entregue a nossa religião deixou, assim como Codratos, uma Apologia em favor da fé, que havia dirigido a Adriano. Também a obra deste escritor conservou-se até nossos dias em muitos lugares.

IV - Os bispos de Roma e de Alexandria nos tempos deste
1. No terceiro ano do mesmo reinado, morre Alexandre, bispo de Roma, depois de cumpridos dez anos de governo. Sucedeu-o Sixto. E na igreja de Alexandria, tendo morrido Primo por este mesmo tempo, no duodécimo ano de sua presidência, foi sucedido por Justo.

V - Os bispos de Jerusalém, desde o Salvador até os tempos de Adriano
1.            No que tange às datas dos bispos de Jerusalém, nada encontrei conservado por escrito, porque, na verdade, uma tradição[6] afirma que tiveram vida muito breve.
2.     Do que foi deixado por escrito, consegui tirar a limpo isto: que até o assédio dos judeus, nos tempos de Adriano, houve uma sucessão de bispos em número de quinze, e dizem que desde a origem todos eram hebreus que haviam aceitado sinceramente o conhecimento de Cristo, tanto que aqueles que estavam capacitados a julgá-los consideraram-nos até dignos do cargo de bispos. Naquele tempo, efetivamente, a igreja era toda composta por fiéis hebreus, desde os apóstolos até o assédio dos que então restavam, quando os judeus, novamente separados dos romanos, foram vítimas de grandes guerras.
3.             Portanto, como quer que tenham terminado os bispos procedentes da circuncisão naquele momento, talvez seja necessário agora dar sua lista desde o primeiro. O primeiro pois, foi Tiago, o chamado irmão do Senhor; depois dele o segundo foi Simeão; o terceiro, Justo; o quarto, Zaqueu; o quinto, Tobias; o sexto, Benjamim; o sétimo, João; o oitavo, Matias; o nono, Felipe; o décimo, Sêneca; o décimo primeiro, Justo; o décimo segundo, Levi; o décimo terceiro, Efrem; José o décimo quarto e, depois de todos, o décimo quinto, Judas.
4.      Estes foram os bispos da cidade de Jerusalém, desde os apóstolos até o tempo de que estamos falando, e todos oriundos da circuncisão.
5.      Achava-se o reinado em seu décimo segundo ano[7] quando Sixto, que havia cumprido seu décimo ano no episcopado de Roma, foi sucedido por Telesforo, sétimo a partir dos apóstolos. Passando ainda um ano e alguns meses, Eumenes recebe em sucessão a presidência da igreja de Alexandria; segundo a ordem, foi o sexto. Seu predecessor havia permanecido no cargo onze anos.

VI - O último assédio de Jerusalém, nos tempos de Adriano
1.            A rebelião dos judeus tomava novamente maior força e maior extensão. Rufo, governador da Judéia, com o reforço militar enviado pelo imperador e tirando partido sem piedade de sua louca temeridade, marchou contra eles. Aniquilou em massa milhares de homens, de crianças e de mulheres, e ao amparo da lei da guerra reduziu seus territórios à escravidão.
2.            Mandava então sobre os judeus um chamado Barkokebas, que significa "estrela"[8], um homem homicida e bandido, mas que, por seu nome, como se tratasse com escravos, dizia que era luz descida dos céus para eles, e com mágicas enganosas fazia ver aos maltratados que brilhava.
3.     Mas a guerra chegou a seu ponto mais grave no décimo oitavo ano do reinado, em Betera, cidadela fortíssima, a pouca distância de Jerusalém. Como demorava longo tempo o assédio que vinha do exterior, os revolucionários viram-se empurrados à extrema ruína pela fome e pela sede, e o causador de sua insensatez pagou a pena merecida. Por decisão e por mandato de uma lei de Adriano proibiu-se a todo o povo judeu dali em diante pôr os pés sequer na região que rodeia Jerusalém, de forma que nem de longe podiam contemplar o solo pátrio. Isto foi contado por Ariston de Pela.
4.     Assim foi que a cidade chegou a ficar vazia da raça judia, e foi total a ruína de seus antigos moradores. Pessoas de outra raça vieram a habitá-la, e a cidade romana então constituída logo trocou de nome e se chamou Elia, em honra ao imperador Adriano. Mas também a igreja dali veio a ser composta de gentios, e o primeiro que se encarregou de seu ministério, depois dos bispos que procediam da circuncisão, foi Marcos.

VII - Quem foram neste tempo os líderes da gnosis de enganoso nome
1.            As igrejas de todo o mundo já resplandeciam como astros brilhantíssimos, e a fé em nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo chegava a seu pleno vigor em todo o gênero humano, quando o demônio, avesso ao bem assim como inimigo da verdade e sempre hostil, demasiadamente, à salvação dos homens, voltou contra a Igreja todas as suas artimanhas. Se em outro tempo suas armas eram as perseguições contra ela, que vinham de fora,
2.     agora, em troca, sendo-lhe vedados estes meios e lançando mão de homens malvados e feiticeiros como de funestos instrumentos e ministros da perdição das almas, levam a cabo sua campanha por outros caminhos. Imaginam todos os recursos, como o de que feiticeiros e embusteiros se deslizem sob o próprio nome de nossa doutrina, para assim conduzir ao abismo da perdição os fiéis que conseguem capturar, e aos que não conhecem a fé, com os meios que põe em prática, afastar do caminho que leva à doutrina salvadora.
3.            Assim pois, de Menandro, de quem já dissemos que foi sucessor de Simão[9], saiu como uma serpente bicéfala e com duas bocas uma força que estabeleceu como autores de duas diferentes heresias Saturnino, antioquenho de origem, e o alexandrino Basílides. Um na Síria e o outro no Egito constituíram caminhos de ensino de heresias inimigas de Deus.
4.            Irineu demonstra que as falsidades ensinadas por Saturnino eram em sua maior partes as mesmas de Menandro, e que Basílides, sob a aparência de coisas mais secretas, estendia suas fantasias até o infinito, forjando as fábulas monstruosas de sua ímpia heresia.
5.   Naquele tempo saíram a lutar pela verdade grande número de varões eclesiásticos, e defenderam com bastante eloqüência a doutrina apostólica e eclesiástica. Alguns, com seus escritos, inclusive proporcionaram aos que vieram depois os recursos profiláticos contra as referidas heresias.
6.             Destes chegou até nós uma eficaz Refutação contra Basílides, de Agripa Castor, famosíssimo entre os escritores de então[10].
7.             Agripa põe a descoberto a habilidade da impostura daquele homem, pois ao desvelar seus mistérios diz que Basílides havia composto vinte e quatro livros sobre o Evangelho, e que chamava Barcabas e Barcof de profetas seus, e instituía para si alguns de sua própria invenção, aos quais dava nomes bárbaros para deixar pasmos aos que se assombram com tais coisas, e também ensinava que comer alimentos oferecidos aos ídolos e renegar despreocupadamente a fé com juramento em tempos de perseguição eram atos sem importância. A exemplo de Pitágoras, impunha cinco anos de silêncio aos que vinham a ele.
8.             O mesmo escritor enumera ainda outras coisas parecidas a estas sobre Basílides e desmascara valentemente o erro da citada heresia.
9.      Mas também Irineu escreve que Carpocrates, pai de outra heresia, a deno­minada dos gnósticos, foi coetâneo daqueles. Estes gnósticos consideravam certo transmitir as magias de Simão, não ocultamente como ele, mas aberta­mente, quase gabando-se como se fossem grandes coisas, dos filtros amoro­sos que elaboravam com grande cuidado, de certos espíritos familiares que enviam sonhos e de alguns outros métodos semelhantes. De acordo com isto, ensinavam que os que queriam chegar à perfeição de seus mistérios, melhor dizendo, de suas abominações, tinham que concretizar tudo o que houvesse de mais obsceno, porque, segundo eles, não poderiam escapar aos que chamam de príncipes do mundo senão satisfazendo-os a todos com uma conduta infame.
10.     O que realmente ocorreu foi que o demônio, cujo prazer é o mal dos outros, usando de tais ministros, por um lado conduziu à escravidão, para sua perdi­ção, aos que estes conseguiram miseravelmente enganar, e por outro propor­cionou aos povos infiéis abundante material de descrédito para a doutrina de Deus, pois a fama daqueles resultava em calúnia para todo o povo cristão.
11.     Foi assim que, na maior parte, aconteceu que se divulgasse entre os infiéis de então a ímpia e absurdíssima suspeita de que nós praticássemos inconfes­sáveis uniões com nossas mães e com nossas irmãs e que usássemos alimentos sacrílegos.
12.     Mas o certo é que tudo isso não lhe trouxe proveito por muito tempo, já que a verdade manifestou-se por si mesma e brilhou com uma luz muito intensa com o passar do tempo.
13.     De fato, rebatidas pela própria ação da verdade, logo se estenderam as invenções do adversário. As heresias eram inventadas umas depois das outras, as primeiras iam caindo sem interrupção e, cada qual a sua maneira e a seu tempo, se corrompiam e ficavam reduzidas a idéias variadas e multiformes. Em troca, o esplendor da única verdadeira Igreja católica, sempre idêntica a si mesma, crescia e aumentava irradiando a toda a raça dos gregos e dos bárbaros a majestade, a simplicidade, a liberdade, a sobriedade e a pureza da conduta e da filosofia divinas.
14.     Em conseqüência, com o passar do tempo, extinguiram-se também as calú­nias contra toda a doutrina, enquanto que somente nosso ensinamento se mantinha vencedor entre todos e com o reconhecimento de ser a que mais sobressai por sua venerabilidade, sua moderação e suas doutrinas sábias e divinas, de forma que ninguém dos de agora se atreve a proferir contra nossa fé uma injúria vergonhosa nem calúnia semelhantes às que anterior­mente gostavam de utilizar os que se conjuravam contra nós.
15. E mesmo assim, nos tempos de que falamos, a verdade tomou numerosos defensores seus, que não somente lutaram contra as ímpias heresias com argumentos não escritos, mas também com demonstrações escritas.

VIII - Quem foram os escritores eclesiásticos nos tempos de Adriano
1.            Entre estes destacava-se Hegesipo. Dele já utilizamos anteriormente nume­rosas citações, com o fim de estabelecer, tomando de sua tradição, alguns fatos dos tempos dos apóstolos.
2.     Efetivamente, em cinco livros comentou a tradição limpa de erro da pregação apostólica, com um estilo muito simples. O tempo em que se deu a conhecer é indicado por ele mesmo ao escrever assim dos que desde o princípio insta­laram os ídolos:
"Erigiam-lhes cenotáfios e templos, como até hoje. Deles é também Antino, escravo do imperador Adriano. Ainda que contemporâneo nosso, em sua honra celebram-se os jogos Antinoeus. Adriano inclusive fundou uma cidade com o nome de Antinoo e criou profetas."
3.            Também por este tempo, Justino, sincero amante da verdadeira filosofia, continuava ainda ocupado em exercitar-se nas doutrinas dos gregos. Ele mesmo indica este tempo ao escrever sua Apologia dirigida a Antonino: "Não creio que esteja fora de lugar mencionar aqui também Antinoo, que viveu em nossos dias e a quem todos se sentiam constrangidos a pres­tar culto como a um deus, por medo, apesar de saber quem era e de onde procedia."
4.     E o mesmo Justino acrescenta o seguinte, ao mencionar a guerra de então contra os judeus:
"E, de fato, na guerra judia de agora, Barkokebas, o líder da rebelião dos judeus, mandava que somente os cristãos fossem conduzidos a terríveis suplícios se não renegassem e blasfemassem contra Jesus o Cristo."
5.   Na mesma obra demonstra que sua conversão da filosofia grega à religião não se fez sem razão, mas com juízo; escreve o seguinte:
"porque também eu mesmo, que me comprazia nos ensinamentos de Platão, ao ouvir as calúnias contra os cristãos e vê-los irem intrépidos para a morte e para tudo que é terrível, comecei a pensar que não era possível que aqueles homens vivessem na maldade e no amor aos prazeres. Pois, que homem amante do prazer ou incontinente ou que pensa que comer carne humana é bom poderia abraçar com alegria a morte se com ela se vê privado do objeto de seus desejos? Não tentaria por todos os meios seguir vivendo sempre sua vida daqui e ocultar-se dos governantes, em vez de delatar-se a si mesmo para ser morto?"
6.             O mesmo escritor conta ainda que Adriano recebeu de Serenio Graniano, lúcido governador, uma carta em favor dos cristãos, dizendo que não era justo, sem ter havido acusação nenhuma, condená-los à morte sem julga­mento, apenas para dar o gosto aos gritos do povo, e que havia respondido a Minucio Fundano, procônsul da Ásia, ordenando-lhe que ninguém julgasse sem denúncia e sem acusação razoável.
7.      Desta carta Justino oferece uma cópia, conservando a língua latina, tal como estava, e antepondo o seguinte:
"Poderíamos também, pelo conteúdo de uma carta do máximo e ilustrís­simo imperador Adriano, vosso pai, exigir que mandeis celebrar os jul­gamentos segundo nossa demanda. Mas isto não pedimos por ter sido ordenado por Adriano, mas por estarmos convencidos de que nossa reclamação é justa. No entanto, também colocamos atrás a cópia da car­ta de Adriano, para que saibas que também nisto dizemos a verdade. E a que segue."
8.   E em continuação ao dito, o mencionado autor põe a própria cópia latina, que nós, no entanto, traduzimos ao grego, como pudemos, e diz assim:

IX - Uma carta de Adriano dizendo que não se deveria perseguir-nos sem julgamento
1.             "A Minucio Fundano: Recebi uma carta que me foi escrita por Serenio Graniano, varão claríssimo, a quem tu sucedeste. Pois bem, não me parece que devamos deixar sem examinar o assunto, para evitar que se perturbe os homens e que os delatores encontrem apoio para suas maldades.
2.      Por conseguinte, se os habitantes de uma província podem sustentar com firmeza e às claras esta demanda contra os cristãos, de tal modo que lhes seja possível responder ante um tribunal, devem ater-se a este procedi­mento somente, e não a meras petições e gritos. Efetivamente, é muito melhor que, se alguém quiser fazer uma acusação, tu mesmo examines o assunto. 3. Portanto, se alguém os acusa e prova que cometeram algum delito contra as leis, julga tu segundo a gravidade da falta. Se porém - por Hércules - alguém apresenta o assunto para caluniar, decide sobre esta atrocidade e cuida de castigá-la adequadamente." Este é o transcrito de Adriano.

X - Quem foram os bispos de Roma e de Alexandria sob o reinado de Antonino
1. Depois de pagar este sua dívida, depois de vinte e um anos, o Império romano é recebido em sucessão por Antonino, o chamado Pio. Em seu primeiro ano morre Telesforo, que cumpria o décimo primeiro de seu ministério, e Higinio assume o episcopado de Roma. Conta Irineu que Telesforo abri­lhantou sua morte com o martírio, e no mesmo lugar declara que, nos tem­pos do mencionado bispo de Roma Higinio, eram notórios em Roma estes dois: Valentim, introdutor de sua própria heresia, e Cerdon, causador do erro de Márcion. Escreve assim:

XI - Dos heresiarcas daqueles tempos
1.            "Valentim veio a Roma, realmente, nos tempos de Higinio, mas floresceu sob Pio e permaneceu até Aniceto. E Cerdon, o antecessor de Márcion -também no tempo de Higinio, que foi o nono bispo -, assim que chegou à Igreja, depois de fazer confissão pública, passava sua vida assim: algu­mas vezes ensinava às escuras e outras vezes via refutadas suas doutrinas, e ia se afastando da companhia dos irmãos."
2.            Isto diz em seu livro terceiro dos escritos Contra as heresias. Mesmo assim, também no primeiro explica o que segue sobre Cerdon:
"Um tal Cerdon, que vinha do círculo de Simão e residia em Roma no tempo de Higinio - o nono na sucessão do episcopado a partir dos apóstolos -, andava ensinando que o Deus proclamado pela Lei e os Profetas não era Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, já que um é conhecido e o outro desconhecido; um é justo e o outro é bom. Tendo-lhe sucedido Márcion o Pôntico, este deu muita força à escola, blasfemando sem pudor."
3.     O mesmo Irineu explica vigorosamente o abismo infinito da matéria, carregada de erros, de Valentim, e põe a nu sua maldade oculta e insidiosa, como de serpente que se esconde na touceira.
4.      Depois destes diz que houve na mesma época outro, um tal chamado Marcos, habilíssimo na arte da magia. Descreve também suas intermináveis iniciações e suas infames mistagogias, revelando-as nos seguintes termos:
5.      "Alguns deles, efetivamente, preparam um leito e celebram uma iniciação ao mistério com algumas invocações mágicas sobre os iniciados, e dizem ser um matrimônio espiritual o que eles fazem, à semelhança das uniões do alto. Outros, ainda, levam-nos às águas e, ao batizá-los, dizem sobre eles: 'Em nome do desconhecido pai de todas as coisas; pela verdade, mãe de tudo; por aquele que desceu sobre Jesus.' E outros dizem sobre eles nomes hebreus, com o fim de impressionar mais os iniciados."
6.             Agora bem, tendo morrido Higinio depois do quarto ano de episcopado, encarrega-se do ministério em Roma Pio.
Em Alexandria foi proclamado pastor Marcos, depois que Eumenes cumpriu no total treze anos. Morto Marcos depois de dez anos de ministério, Celadion recebe o ministério da igreja de Alexandria.
7.   Na cidade de Roma, falecido Pio no décimo quinto ano de seu episcopado, assume a presidência dali Aniceto. Hegesipo conta sobre si mesmo que no tempo deste veio a estabelecer-se em Roma e que ali viveu até o episcopado de Eleutério.
8.             Mas sobretudo foi nesta época que floresceu Justino. Com estofo de filósofo, era embaixador da palavra de Deus e lutava pela fé com seus escritos. Escreveu efetivamente um tratado Contra Márcion, no qual recorda que, ao tempo em que o compunha, este ainda estava vivo. Diz assim:
9.      "Há um tal Márcion, natural do Ponto, que ainda hoje está ensinando seus seguidores a crerem em outro deus maior do que o criador: e com a ajuda dos demônios, fez com que por todas as raças de homens muitos proferissem blasfêmias e negassem que o criador de todo o universo seja o Pai de Cristo, e em troca confessem que algum outro o tivesse criado, por ser em compara­ção maior do que ele. E como dissemos, todos os que procederam destes são chamados cristãos, do mesmo modo que, apesar de não serem as doutrinas comuns a todos os filósofos, o sobrenome de filosofia é comum a todos eles." Ao que acrescenta:
10.  "Também temos um tratado Contra todas as heresias passadas[11], que vos daremos se quereis lê-lo."
11.      E este mesmo Justino, depois de escrever muito acertadamente contra os gregos, dirigiu também outras obras que continham uma defesa em favor de nossa fé ao imperador Antonino, o chamado Pio, e ao senado romano, pois estava residindo em Roma. Sobre si mesmo declara em sua Apologia quem era e de onde procedia, nos seguintes termos:

O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?

Ícone da Capa: Justino Mártir. Seu lugar de nascimento foi Flávia Nápoles (atual Nablus), na Síria Palestina ou Samaria. A educação infantil de Justino incluiu retórica, poesia e história. Como jovem adulto mostrou interesse por filosofia e estudou primeiro estoicismo e platonismo. Justino foi introduzido na fé diretamente por um velho homem que o envolveu numa discussão sobre problemas filosóficos e então lhe falou sobre Jesus. Convertido, Justino "se consagrou totalmente a expansão e defesa da religião cristã". Justino continuou usando a capa que o identificava como filósofo e ensinou estudantes em Éfeso e depois em Roma. Os trabalhos que escreveu inclui: duas apologias em defesa dos cristãos e sua terceira obra foi Diálogo com Trifão. A convicção de Justino da verdade do Cristo era tão completa que ele teve morte de mártir sendo decapitado no ano 165 d.C.. Justino Mártir, está sepultado na igreja dos Freis Capuchinhos, em Roma, bairro Barberini.




[1] Ano 109-110.
[2] O bispo Cerdon.
[3] Segundo os dados de Eusébio (vide III:34), Evaristo termina em 108-109.
[4] O ano 18 de Trajano, antes de setembro de 115.
[5] O historiador Dion Casio chama este líder de André.
[6] Provavelmente vinda das Memórias de Hegesipo.
[7] O décimo segundo ano de Adriano foi 128-129.
[8] Mais propriamente "Filho de estrela".
[9] Vide III:XXVI.
[10] Apesar desta fama, perderam-se todos seus escritos, conhecidos apenas por fragmen­tos conservados por Clemente de Alexandria.
[11] Nada sabemos desta obra, exceto por citações de outros autores.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Livro III - Capítulos 36-39

24
História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia
Livro III - Capítulos 36-39

Texto Bíblico:  I Coríntios 4.4

XXXVI - Sobre Inácio e suas cartas
XXXVII - Dos evangelistas que ainda então se distinguiam
XXXVIII - Da carta de Clemente e os escritos que falsamente lhe atribuem
XXXIX - Dos escritos de Papias

 XXXVI - Sobre Inácio e suas cartas
1.            Brilhava por este tempo na Ásia Policarpo, discípulo dos apóstolos, a quem as testemunhas oculares e os ministros do Senhor tinham confiado o episcopado da igreja de Esmirna.
2.            Ao mesmo tempo adquiriram notoriedade Papias, bispo da igreja de Hierápolis, e Inácio, o homem mais célebre para muitos ainda hoje, segundo a obter a sucessão de Pedro no episcopado de Antioquia.
3.            Uma tradição refere que este foi trasladado da Síria à cidade de Roma para ser alimento das feras, em testemunho de Cristo.
4.             Ao ser conduzido através da Ásia, sob a vigilância cuidadosa dos guardiães, dava ânimo com suas falas e exortações às igrejas de cada cidade onde faziam parada. Primeiramente exortava-os a que sobretudo se guardassem das heresias, que precisamente então começavam a pulular, e estimulava-os a segurar-se solidamente à tradição dos apóstolos, que, por estar ele já a ponto de sofrer o martírio, achava necessário pôr por escrito para fins de segurança.
5.             E foi assim que, achando-se em Esmirna, onde estava Policarpo, escreveu uma carta à igreja de Éfeso, mencionando Onésimo, seu pastor; outra à de Magnesia, a que está sobre Meandro, mencionando igualmente o bispo Damas, e outra à de Trales, cujo chefe era então Políbio, segundo diz.
6.             Além destas, escreveu também à igreja de Roma uma carta em que expõe sua súplica para que não intercedam por ele, para não privá-lo do martírio, sua sonhada esperança. Em apoio ao que dissemos, será bom citar algumas passagens das citadas cartas, ainda que brevíssimas:
Escreve pois, textualmente:
7.      "Desde a Síria até Roma venho lutando com feras por terra e por mar, de noite e de dia, atado a dez leopardos, isto é, um grupo de soldados que ficam piores com o bem que se lhes faz. Mas com seus maus-tratos torno-me mais e mais discípulo. Mesmo assim, nem por isso estou justificado[1].
8.             "Oxalá pudesse eu usufruir das feras que me estão preparadas! Espero encontrá-las bem ligeiras para comigo. Chegarei até a adulá-las para que me devorem rapidamente e não me façam o que fizeram a alguns, que por temor não tocaram, e se fazem de preguiçosas e não querem, eu mesmo as forçarei.
9.             Perdoai-me. Eu sei o que me convém. Agora estou começando a ser discí­pulo. Que nenhuma coisa visível ou invisível tenha ciúme de que eu alcance a Jesus Cristo. Fogo, cruz e manadas de feras, dispersão de ossos, destroçamento de membros, trituração do corpo todo e tormentos do diabo venham sobre mim, contanto somente que eu alcance a Jesus Cristo."
10.      Isto escrevia da cidade mencionada às igrejas que enumeramos. Mas achando-se já longe de Esmirna, desde Troasse põe-se a conversar, por escrito mesmo, com os de Filadélfia e com a igreja de Esmirna, e em par­ticular com Policarpo, que a presidia. Reconhecendo este como homem verdadeiramente apostólico e porque ele mesmo era pastor legítimo e bom, confia-lhe seu próprio rebanho de Antioquia e pede-lhe que se ocupe dele com solicitude.
11.  Ele mesmo, escrevendo aos de Esmirna e citando passagens não sei de onde, discorre sobre Cristo com estas palavras:
"Quanto a mim, sei e creio que mesmo depois da ressurreição permanece em sua carne, e quando se aproximou dos que rodeavam Pedro disse-lhes: 'Tomai e apalpai-me, e vede que não sou um espírito incorpóreo.' Na mesma hora eles o tocaram e creram[2]."
12. Também Irineu conhece seu martírio e faz menção de suas cartas quando diz assim:
"Como disse um dos nossos, condenado às feras por seu testemunho em favor de Deus, 'sou trigo de Deus e pelos dentes das feras sou moído para ser encontrado como pão puro.'
13. E Policarpo também faz menção disto na carta que se diz ser dele, dirigida
aos Filipenses, quando diz textualmente:
"Exorto-vos pois todos a obedecer e exercitar toda a paciência, a que vistes com vossos olhos não somente nos bem-aventurados Inácio, Rufo e Zózimo, mas também em outros dos vossos, e no próprio Paulo e nos demais após­tolos, persuadidos de que não correram em vão[3], mas na fé e na justiça, e de que já estão no lugar que lhes é devido, junto ao Senhor, com o qual padeceram. Porque não amaram este século, mas aquele que morreu por nós e por nós também ressuscitou, por obra de Deus." E acrescenta logo:
14.     "Vós e Inácio escrevestes-me para que, se alguém fosse à Síria, levasse também vossas cartas. Isto farei quando encontrar ocasião favorável, eu mes­mo ou alguém que eu envie e que será também embaixador de vossa parte.
15.     As cartas de Inácio que ele enviou e todas as outras que tínhamos conosco, vo-las envio, como haveis pedido; seguem anexas à presente carta. Delas podereis tirar grande proveito, já que estão cheias de fé, de paciência e de toda edificação concernente a nosso Senhor."
Isto é o que se refere a Inácio. Depois dele Heros recebeu a sucessão do episcopado de Antioquia.

XXXVII - Dos evangelistas que ainda então se distinguiam
1. Entre os que eram famosos neste tempo, achava-se também Codratos, sobre o qual uma tradição refere que sobressaía em carisma profético, junta­mente com as filhas de Felipe. Também eram célebres então, além des­tes, muitos outros que tiveram o primeiro lugar na sucessão dos apóstolos. Estes magníficos discípulos de tão grandes homens edificavam sobre os fundamentos das igrejas deixados anteriormente em cada lugar pelos apóstolos[4]. Aumentavam mais e mais a pregação e semeavam por toda a extensão da terra habitada a semente salvadora do reino dos céus.
2.             Efetivamente, muitos dos discípulos de então, tocados na alma pela palavra divina com um amor muito forte à filosofia[5], primeiramente cumpriam o mandamento salvador repartindo seus bens entre os indigentes[6], e depois empreendiam viagem e realizavam trabalho de evangelistas[7], empenhando sua honra em pregar aos que ainda não haviam ouvido a palavra da fé e em transmitir por escrito os divinos evangelhos[8].
3.             Estes homens nada mais faziam que deitar os fundamentos da fé em alguns lugares estrangeiros e estabelecer outros como pastores, encarregando-os do cultivo dos recém-admitidos, e em seguida mudavam-se para outras regiões e outros povos com a graça e a cooperação de Deus, já que por meio deles continuavam realizando-se ainda então muitos e maravilhosos poderes do Espírito divino, de forma que, desde a primeira vez que os ouviam, multidões inteiras de pessoas recebiam em massa com ardor em suas almas a religião do Criador do universo.
4.      Sendo-nos impossível enumerar pelo nome todos os que na primeira geração de apóstolos foram pastores e inclusive evangelistas nas igrejas de todo o mundo, é natural que mencionemos por seus nomes e por escrito apenas aqueles dos quais se conserva a tradição até hoje graças a suas memórias da doutrina apostólica.

XXXVIII - Da carta de Clemente e os escritos que falsamente lhe atribuem
1.            Não cabe dúvida, portanto, de que tais são Inácio, em suas cartas cuja lista fornecemos, e Clemente na carta por todos admitida, que escreveu em nome da igreja de Roma à de Corinto. Nela Clemente expõe muitos pensamentos da Carta aos Hebreus, e inclusive utiliza textualmente algumas passagens da mesma, mostrando assim com toda claridade que este escrito não é recente.
2.            Por isso pareceu natural catalogá-lo entre os demais escritos do apóstolo. Porque Paulo praticou por escrito com os hebreus valendo-se de sua língua pátria, e alguns dizem que a carta foi traduzida pelo evangelista Lucas, mas outros afirmam que foi o próprio Clemente,
3.            o que talvez seja mais verdadeiro pelo fato de ambas, a Carta de Clemente e a Carta aos Hebreus, conservarem um caráter estilístico semelhante, além de não se diferenciar muito o pensamento de um e outro escrito.
4.             Deve-se saber ainda que há uma segunda carta que se diz de Clemente, mas não sabemos que seja conhecida como a primeira, já que nem os antigos a utilizaram, tanto quanto sabemos.
5.             E muito recentemente alguns trouxeram à luz, dizendo que são dele, outros escritos, verbosos e longos, que contêm os diálogos de Pedro e Apion. Destes escritos não se encontra a menor menção entre os antigos, nem mesmo conservam puro o caráter da ortodoxia apostólica. Conseqüentemente fica claro qual é o escrito aceito de Clemente. Também se falou dos de Inácio e de Policarpo.

XXXIX - Dos escritos de Papias
1.   Diz-se que são cinco os escritos de Papias, sob o título de Explicações das palavras do Senhor. Irineu os menciona como os únicos escritos de Papias; assim diz:
"Isto também atesta por escrito Papias, que foi ouvinte de João, companheiro de Policarpo e varão dos antigos, no quarto livro dos que escreveu, porque efetivamente tem cinco livros escritos."
2.     Isto é o que diz Irineu. O próprio Papias no entanto, segundo o prólogo de seus tratados, não se apresenta de modo algum como ouvinte e testemunha ocular dos sagrados apóstolos, mas ensina-nos que recebeu o referente à fé da boca de outros que os conheceram, estas são suas palavras:
3.           "Não vacilarei em apresentar-te ordenadamente com as interpretações tudo o que um dia aprendi muito bem dos presbíteros e que recordo bem, seguro que estou de sua verdade. Porque eu não me comprazia como outros com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade; nem tampouco com os que recordam mandamentos alheios, mas com os que trazem na memória os (mandamentos) que receberam pela fé da parte do Senhor e nascem da própria verdade.
4.     E se por acaso chegava alguém que também havia seguido os presbíte­ros, eu procurava discernir as palavras dos presbíteros: o que disse André, ou Pedro, ou Felipe, ou Tomás, ou Tiago, ou João, ou Mateus ou qual­quer outro dos discípulos do Senhor, porque eu pensava que não aprovei­taria tanto o que tirasse dos livros como o que provêm de uma voz viva e durável."
5.   Aqui seria bom fazer notar também que ele enumera duas vezes o nome de João. O primeiro coloca na lista com Pedro, Tiago, Mateus e os demais apóstolos, sendo evidente que se refere ao evangelista; já ao outro João, depois de cortar o discurso, coloca-o com outros, fora do número dos apóstolos, antepondo Aristion e chamando-o claramente de presbítero.
6.            De forma que também isto demonstra que é verdade a história dos que dizem que na Ásia houve dois com este mesmo nome, e em Éfeso dois sepulcros, dos quais ainda hoje se afirma que são, um e outro, de João. É necessário prestar atenção a estes fatos, porque é provável que fosse o segundo - se não se prefere o primeiro - o que viu a Revelação (= Apocalipse) que corre sob o nome de João.
7.            Agora bem, Papias, de quem estamos falando, confessa que recebeu as palavras dos apóstolos de discípulos destes, enquanto que de Aristion e de João o Presbítero ele diz ter sido ouvinte direto. Efetivamente menciona-os pelo nome várias vezes em seus escritos e compila suas tradições.
8.            E não se diga que por nossa parte é inútil o dito. Mas é justo adicionar às palavras de Papias já citadas outros ditos seus com os quais se refere a algumas coisas estranhas e outros detalhes que, segundo ele, chegaram-lhe pela tradição.
9.            Pois bem, já foi explicado mais acima que o apóstolo Felipe morou em Hierápolis com suas filhas, mas agora há que se assinalar como Papias, que viveu nesse mesmo tempo, faz menção de haver recebido um relato mara­vilhoso da boca das filhas de Felipe. Narra efetivamente a ressurreição de um morto ocorrida em seu tempo e, como se fosse pouco, outro fato porten­toso referente a Justo, apelidado Barsabás, pois aconteceu que este bebeu uma poção mortal sem que, pela graça do Senhor, sofresse qualquer dano.
10.     Depois da ascensão do Salvador, os sagrados apóstolos puseram este Justo junto com Matias e oraram sobre eles para que a sorte completasse seu número em lugar do traidor Judas; conta-o o livro dos Atos da seguinte maneira: E puseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias. E orando sobre eles disseram[9].
11.     O próprio Papias conta também outras coisas como tendo chegado a ele por tradição não escrita, algumas estranhas parábolas do Salvador e de sua doutrina, e algumas outras coisas ainda mais fabulosas.
12.     Entre elas diz que, depois da ressurreição dentre os mortos, haverá um milênio, e que o reino de Cristo se estabelecerá fisicamente sobre esta terra. Eu creio que Papias supõe tudo isto por haver derivado das explicações dos apóstolos, não percebendo que estes haviam-no dito figuradamente e de modo simbólico.
13.     E aparece como homem de muito escassa inteligência, segundo se pode supor por seus livros. Mesmo assim, ele foi o culpado de que tantos escrito­res eclesiásticos depois dele tenham abraçado a mesma opinião que ele, apoiando-se na antigüidade de tal varão, como realmente faz Irineu e qual­quer outro que manifeste professar idéias parecidas.
14.     Em sua própria obra Papias transmite ainda outras interpretações das pala­vras do Senhor recebidas de Aristion, mencionado acima, assim como também outras tradições de João o Presbítero. A elas remetemos a quan­tos queiram instruir-se. Agora nos vemos obrigados a acrescentar às suas palavras anteriormente citadas uma tradição acerca de Marcos, o que escreveu o Evangelho, que vem exposta nos termos seguintes:
15.     "E o presbítero dizia isto: Marcos, que foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto recordava do que o Senhor havia dito e feito. Porque ele não tinha ouvido o Senhor nem o havia seguido, mas, como disse, a Pedro mais tarde, o qual transmitia seus ensinamentos segundo as necessidades e não como quem faz uma composição das palavras do Senhor, mas de tal forma que Marcos em nada se enganou ao escrever algumas coisas tal como as recordava. E pôs toda sua preocupação em uma só coisa: não descuidar nada de quanto havia ouvido nem enganar-se nisto o mínimo."
16.     Isto é o que conta Papias sobre Marcos. Referente a Mateus, diz o seguinte: "Mateus ordenou as sentenças em língua hebraica, mas cada um as traduzia como melhor podia."
17.     O mesmo escritor utiliza testemunhos tomados da primeira carta de João, e igualmente da de Pedro, e expõe também outro relato de uma mulher acusada de muitos pecados ante o Senhor, que está contido no Evangelho dos hebreus[10]. Que conste também isto, além do que já havia exposto.

O que mais te chamou a atenção neste texto?
O que o texto contribui para a sua espiritualidade?

Ícone da Capa: Papias foi um escritor do primeiro terço do século II e um dos primeiros líderes da igreja cristã. Eusébio de Cesareia o chama de bispo de Hierápolis (atualmente Hierápolis-Pamukkale, Turquia), que fica a 22 km de Laodiceia e Colossos. Ireneu diz que ele foi companheiro de Policarpo, consequentemente discípulo do apóstolo João. Conforme a tradição ele foi martirizado junto com Policarpo (155 d.C.). Suas Interpretações dos Provérbios do Senhor (a palavra "ditos" é logia) em cinco livros teria sido uma das principais autoridades no início da exegese das palavras de Jesus. Entretanto, o livro não sobreviveu e só é conhecido através de fragmentos citados em escritores posteriores, como Ireneu em Contra as Heresias e mais tarde por Eusébio em História Eclesiástica. Papias foi o primeiro a investigar as origens dos cristianismo.



[1] 1 Co 4:4.
[2] A passagem, que pode ter sido tirada do Evangelho dos Hebreus, corresponde a Lc 24:38-40.
[3] Fp 2:16.
[4] 1 Co 3:10; Ef 2:20.
[5] Significa a doutrina cristã vivida.
[6] Mt 19:21; Mc 10:21; Lc 18:22.
[7] 2 Tm 4:5.
[8] Rm 15:20-21.
[9] At 1:23-24.
[10] Eusébio apenas assinala que o relato se encontra em Papias e no Evangelho dos hebreus. É muito possível que se trate do mesmo que consta em Jo 7:53-8:11.