sexta-feira, 1 de abril de 2016

História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia Livro V – Capítulos 18 a 23


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História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro V – Capítulos 18 a 23

XVIII - Em que termos Apolônio refutou aos catafrigas e quem ele menciona
XIX - De Serapion sobre a heresia dos frígios
XX - O que Irineu discute por escrito com os cismáticos de Roma
XXI - De como Apolônio morreu mártir em Roma
XXII - Que bispos eram célebres naquele tempo
XXIII - Da questão então movida sobre a Páscoa


Leitura Bíblica: Mt 7.16; 12.33.

XVIII - Em que termos Apolônio refutou aos catafrigas e quem ele menciona
1.            Como a heresia chamada catafriga ainda estivesse florescendo por aqueles tempos na Frígia, também Apolônio, escritor eclesiástico, empreendeu o trabalho de uma refutação. Compôs contra eles um escrito próprio, no qual corrige, palavra por palavra, as falsas profecias alegadas por eles e des­creve como foi a vida dos líderes da heresia. Mas escuta isto que diz sobre Montano, literalmente:
2.     "Mas suas obras e seus ensinamentos mostram quem é este novo mestre. Este é o que ensinou o rompimento de matrimônios[1], o que impôs leis de jejuns, o que deu o nome de Jerusalém a Pepuza e a Timio (cidades insigni­ficantes da Frígia), porque queria reunir ali gente de todas as partes, o que estabeleceu arrecadadores de dinheiro, o que inventava a aceitação de dona­tivos sob o nome de oferendas, o que assalariava os arautos de sua doutrina[2], com a finalidade de que o ensinamento de sua doutrina se afirmasse por meio da glutonaria."
3.   Isto sobre Montano. Mas um pouco mais abaixo escreve também sobre suas profetisas como segue:
"Demonstramos portanto que estas primeiras profetisas em pessoa são as que, desde o momento em que ficaram cheias do espírito, abandonaram seus maridos. Como então tratavam de enganar-nos chamando de virgem Priscila?"
4.   Ainda segue dizendo:
"Não te parece que toda a Escritura proíbe que um profeta receba donativos e dinheiro? Portanto, quando vejo que a profetisa recebeu ouro e prata e vestidos suntuosos, como posso não rechaçá-la?"
5.    E um pouco mais abaixo, outra vez diz sobre alguns de seus confessores o que segue:
"Mais ainda: também Temiso, que envolveu sua avidez com mantos de aceitabilidade e que não suportou as insígnias da confissão[3], mas que depôs as correntes em troca de muito dinheiro, quando por tudo isto devia humilhar-se, fez-se de mártir e, compondo uma Carta católica, em imitação ao Apóstolo, atreveu-se a catequizar aos que eram melhores crentes do que ele, a combater com palavras vazias de sentido e a blasfemar contra o Senhor, os apóstolos e a santa Igreja."
6.    E sobre outro, também dos que eles estimam como mártires, escreve assim:"E para não falar demais, que nos diga a profetisa o que há de Alexandre, o que a si mesmo chama de mártir, com o qual ela banqueteia e que muitos inclusive adoram. Não é preciso que citemos os latrocínios e demais crimes seus pelos quais foi castigado: estão conservados no opistodomo[4].
7.    "Quem pois perdoa a quem de seus pecados? Qual dos dois: o profeta ao mártir por seus latrocínios, ou o mártir ao profeta por sua avareza? Porque, tendo dito o Senhor: não possuireis nem ouro nem prata nem duas túnicas[5], estes pecaram fazendo tudo ao contrário no que tange à posse destas coisas proibidas. Efetivamente, vamos demonstrar que os chamados entre eles de profetas e mártires não somente caem sobre as posses dos ricos, mas também sobre as dos pobres, dos órfãos e das viúvas.
8.              E se estão seguros, que se apresentem aqui e se expliquem sobre estes pontos para que, no caso de serem convencidos, deixem de continuar prevaricando. Efetivamente, há que se examinar os frutos dos profetas,
9.              "já que por seu fruto se conhece a árvore[6]. E para que todos que o desejem conheçam a história de Alexandre, foi julgado por Emílio Frontino, procônsul de Éfeso[7], não por causa do nome[8], mas pelos roubos que ousou cometer, porque já era um delinqüente. Logo, juntando mentira a mentira em nome do Senhor, enganou os fiéis do lugar e foi posto em liberdade, e sua própria comunidade de origem não o recebeu, por ser ladrão; os que queiram saber sua história têm o arquivo público da Ásia.
10.        O profeta não o conhece, apesar de conviver com ele muitos anos. Nós, desmascarando-o, por ele colocamos em evidência a natureza do profeta. Coisas semelhantes podemos demonstrar de muitos; e se se atrevem, que suportem a prova".
11.        E novamente, em outro lugar da obra, acrescenta o que segue, sobre os profetas de que se jactam:
"Se porventura negam que seus profetas receberam presentes, que admitam isto: se for provado que os receberam, não são profetas, e nós apresentaremos provas disto aos milhares. É preciso comprovar todos os frutos do profeta. Um profeta, diga-me, tinge os cabelos? Um profeta pinta de negro as sobran­celhas e pestanas? Um profeta é amigo de enfeites? Um profeta joga com tabuleiros e dados? Um profeta empresta dinheiro a juros? Que confessem se é permitido ou não, e eu demonstrarei que entre eles ocorreu."
12.       Este mesmo Apolônio refere na mesma obra que, quando escrevia seu livro, haviam transcorrido já quarenta anos desde que Montano empreendeu sua fingida profecia.
13.       E diz ainda que, estando Maximila em Pepuza fingindo que profetizava, Zotico - que também foi mencionado pelo escritor anterior - enfrentou-a tentando refutar o espírito que operava nela, mas que foi impedido pelos que pensavam o mesmo que aquela mulher. Menciona também um certo Traseas, um dos mártires de então.
14.       Diz ainda, como proveniente de uma tradição, que o Salvador ordenou a seus discípulos que não se afastassem de Jerusalém em doze anos; utiliza também testemunhos tirados do Apocalipse de João e refere que o mesmo João ressus­citou um morto com o poder divino em Éfeso; e ainda diz outras coisas mediante as quais corrigiu acertada e completamente o erro da citada heresia. Isto disse Apolônio.

XIX - De Serapion sobre a heresia dos frígios
1.              As obras de Apolinário contra a referida heresia são mencionadas por Serapion, que, segundo quer uma tradição, foi bispo da igreja de Antioquia nos tempos a que nos referimos, depois de Maximino. Menciona-o numa carta particular dirigida a Carico e Pôncio, na qual, refutando também ele a mesma heresia, acrescenta o que segue:
2.              "Mas, para que também saibais que a influência desta enganosa tropa - a chamada nova profecia- é abominada por todos os irmãos do mundo, enviei-vos também uns escritos de Cláudio Apolinário, bispo beatíssimo que foi de Hierápolis da Ásia."
3.              Na mesma carta de Serapion conservam-se também as assinaturas de diversos bispos, um dos quais assina assim: "Aurélio Cirinio, mártir: rogo que estejais bem"; e outro desta maneira:
"Elio Publio Júlio, bispo de Develto, colônia da Tracia: vive o Deus dos céus, que o bem-aventurado Sotas de Anquialo quis expulsar o demônio de Priscila, e os hipócritas não o deixaram."
4.   Também se conservam na carta aludida as assinaturas autógrafas de muitos outros bispos que estão de acordo com estes. Isto é o que há sobre eles.

XX - O que Irineu discute por escrito com os cismáticos de Roma
1.            Contrariamente aos que em Roma falsificavam o são estatuto da Igreja, Irineu compôs várias cartas: uma que intitulou A Blasto, sobre o cisma; outra, A Florino, sobre a monarquia ou que Deus não é o autor dos males, já que, ao que parece, Florino defendia esta opinião, e como também estivesse seduzido pelo erro de Valentim, Irineu compôs outro trabalho, Sobre a Ogdoada, na qual dá a entender que ele mesmo recebeu a primeira sucessão dos apóstolos.
2.            Perto do final da obra encontramos uma grata indicação sua que necessaria­mente temos que registrar no presente escrito, e que diz desta maneira: "Conjuro-te que copies este livro, por nosso Senhor Jesus Cristo e por sua vinda gloriosa, quando vier julgar os vivos e os mortos, que compares o que transcreves e o corrijas cuidadosamente conforme este exemplar de onde o copiaste. E copiarás igualmente este conjuro e o porás na cópia."
3.     Advertência útil para quem a fez e para nós, que a referimos, para que tenhamos aqueles antigos e realmente sagrados varões como o melhor exemplo de solicitude diligentíssima.
4.     Na Carta a Florino de que falamos acima, Irineu novamente menciona sua convivência familiar com Policarpo, dizendo:
"Estas opiniões, Florino, falando com moderação, não são próprias de um pensamento são. Estas opiniões destoam das da Igreja e lançam na maior impiedade aos que as obedecem; estas opiniões nem sequer os hereges que estão fora da Igreja atreveram-se alguma vez a proclamar; estas opiniões não te foram transmitidas pelos presbíteros que nos precederam, os que juntos freqüentaram a companhia dos apóstolos.
5.             Porque sendo eu ainda criança, te vi na casa de Policarpo na Ásia infe­rior[9], quando tinhas uma brilhante atuação no palácio imperial[10] e te esforçavas para ter crédito perante ele. E recordo-me mais dos fatos de então do que dos recentes.
6.      (o que se aprende em criança vai crescendo com a alma e vai se tornando um com ela), tanto que posso inclusive dizer o local em que o bem-aven­turado Policarpo dialogava sentado, assim como suas saídas e entradas, seu modo de vida e o aspecto de seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como descrevia suas relações com João e com os demais que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras de uns e de outros; e o que tinha ouvido deles sobre o Senhor, seus milagres e seu ensinamento; e como Policarpo, depois de tê-lo recebido destas testemunhas oculares da vida do Verbo, relata tudo em consonância com as Escrituras.
7.             E estas coisas, pela misericórdia que Deus teve para comigo, também eu escutava então diligentemente e as anotava, mas não em papel, mas em meu coração, e pela graça de Deus, sempre as estou ruminando fielmente e posso testemunhar diante de Deus que, se aquele bem-aventurado e apostólico presbítero tivesse escutado algo semelhante, teria lançado um grito, teria tampado os ouvidos e, dizendo como era seu costume: "Deus bondoso! Até que tempos me conservaste, para ter que suportar estas coisas!", teria até fugido do local em que estava sentado ou de pé quando escutou tais palavras.
8.    Isto pode-se também comprovar claramente pelas cartas que escreveu, seja às igrejas vizinhas, confortando-as, seja a alguns irmãos admoestando-os e exortando-os"
isto diz Irineu.

XXI - De como Apolônio morreu mártir em Roma
1. Por este tempo do reinado de Cômodo, nossa situação mudou para uma maior suavidade. A paz, com ajuda da graça divina, abarcava todas as igrejas de toda a terra habitada. Foi também quando a doutrina salvadora ia pouco a pouco ganhando todas as almas de toda classe de homens para o culto piedoso do Deus de todas as coisas, tanto que inclusive muitos dos que em Roma sobressaíam por sua riqueza e linhagem marchavam ao encontro de sua salvação com toda sua casa e toda sua família.
2.                Mas o demônio não podia suportar isto, inimigo do bem e invejoso como é por natureza, e em conseqüência preparava-se novamente para o combate enquanto maquinava variados atentados contra nós. Na cidade de Roma conduziu Apolônio ante os tribunais, varão famoso entre os fiéis de então por sua educação e filosofia, e para acusá-lo levantou um ministro seu qualquer, gente apropriada para estas tarefas.
3.                Mas em má hora o desgraçado introduziu a causa, porque segundo um decreto imperial[11], não se permitia que vivessem os acusadores de tais homens, e na hora foram-lhe quebradas as pernas, pois tal sentença foi formulada contra ele pelo juiz Perennio[12].
4.       O mártir, por sua parte, amado de Deus, apesar de o juiz rogar-lhe com muita insistência e pedir-lhe que desse razão ante o senado, apresentou diante de todos uma eloqüente apologia da fé pela qual dava testemunho, e morreu decapitado, como por decreto do senado, já que uma antiga lei ordenava entre eles que não se deixasse ir os que comparecessem uma vez ante o tribunal e não mudassem em absoluto de propósito.
5.       Assim pois, quem deseje ler as palavras de Apolônio ante o juiz e as respostas que deu ao interrogatório de Perennio, assim como sua apologia dirigida ao senado, inteira, poderá vê-lo na relação escrita dos antigos martírios que compilamos.

XXII - Que bispos eram célebres naquele tempo
1. No décimo ano do reinado de Cômodo, Victor sucede a Eleutério, que havia exercido o episcopado durante treze anos. E pelo mesmo tempo, havendo Juliano cumprido seu décimo ano, Demétrio assume o cargo do minis­tério das comunidades de Alexandria. E também por estas datas era ainda conhecido como bispo da igreja de Antioquia, oitavo a partir dos apóstolos, Serapion, do qual já fizemos menção anteriormente. Cesaréia da Palestina era governada por Teófilo. E também Narciso, que esta obra já mencio­nou acima, ainda então exercia o ministério da igreja de Jerusalém. Já em Corinto, na Grécia, nestas mesmas datas, Baquilo era bispo; e na comunidade de Éfeso, Polícrates. E além destes - pelo menos assim supomos -, nesta época brilharam também muitos outros. Mas, como é natural, enumeramos em lista por seus nomes somente aqueles cuja ortodoxia na fé chegou por escrito até nós.

XXIII - Da questão então movida sobre a Páscoa
1.             Por este tempo levantou-se uma questão bastante grave, por certo, porque as igrejas de toda a Ásia, apoiando-se em uma tradição muito antiga, pensavam que era preciso guardar o décimo quarto dia da lua para a festa da Páscoa do Salvador, dia em que os judeus deviam sacrificar o cordeiro e no qual era necessário a todo custo, caindo no dia que fosse na semana, pôr fim aos jejuns, sendo que as igrejas de todo o resto do mundo não tinham por costume realizá-lo deste modo, mas por tradição apostólica, guardavam o costume que prevaleceu até hoje: que não é correto terminar os jejuns em outro dia que não o da ressurreição de nosso Salvador.
2.      Para tratar deste ponto houve sínodos e reuniões de bispos, e todos unânimes, por meio de cartas, formularam para os fiéis de todas as partes um decreto eclesiástico: que nunca se celebre o mistério da ressurreição do Senhor de entre os mortos em outro dia que não no domingo, e que somente nesse dia guardemos o fim dos jejuns pascais.
3.             Ainda se conserva até hoje um escrito dos que se reuniram naquela ocasião na Palestina; presidiram-nos Teófilo, bispo da igreja de Cesaréia, e Narciso, da de Jerusalém. Também sobre o mesmo assunto conserva-se outro escrito dos reunidos em Roma, que mostra Victor como bispo; e também outro dos bispos do Ponto presididos por Palmas, que era o mais antigo, e outro das igrejas da Gálía, das quais era bispo Irineu.
4.   Assim como também das de Osroene e demais cidades da região, e em particular de Baquilo, bispo da igreja de Corinto, e de muitos outros, todos os quais, emitindo um único e idêntico juízo, estabelecem a mesma decisão. Estes pois, tinham como regra única de conduta a já exposta.

1. O que mais te chamou a atenção neste texto?
2. O que o texto contribui para a sua espiritualidade?


Ícone da Capa: Irineu de Lião
Ireneu nasceu com toda a probabilidade, em Esmirna (hoje Izmir, na Turquia) por volta do ano 135-140, onde ainda jovem freqüentou a escola do Bispo Policarpo, que era discípulo do apóstolo João. Não sabemos quando se transferiu da Ásia Menor para a Gália, mas a transferência coincidiu certamente, com os primeiros desenvolvimentos da comunidade cristã de Lião. Nesta cidade, no ano 177, encontramos Ireneu incluído no colégio dos presbíteros. Precisamente naquele ano, ele foi enviado para Roma, portador de uma carta da comunidade de Lião, ao Papa Eleutério.
A missão romana esquivou Ireneu da perseguição de Marco Aurélio, que causou pelo menos quarenta e oito mártires, entre os quais o próprio Bispo de Lião, Potino que, com noventa anos, faleceu por maus-tratos, no cárcere. Assim, ao seu retorno, Ireneu foi eleito Bispo da cidade. O novo Pastor dedicou-se totalmente ao ministério episcopal, que se concluiu por volta de 202-203, talvez com o martírio.
 Ireneu é antes de tudo um homem de fé e Pastor. Do bom Pastor tem o sentido da medida, a riqueza da doutrina, o fervor missionário. Como escritor, busca uma dupla finalidade: defender a verdadeira doutrina contra os ataques heréticos, e expor com clareza a verdade da fé. Correspondem exatamente a estas finalidades as duas obras que dele permanecem: os cinco livros Contra as Heresias, e a Exposição da Pregação Apostólica (que se pode também denominar o mais antigo “catecismo da doutrina cristã”).



[1] Montano convocava a uma entrega total a obra do Espírito, ainda que às custas de romper com o cônjuge.
[2] 1 Co 9:14.
[3] Ou seja, do martírio.
[4] No templo grego era a câmara mais interna, tem aqui o sentido de arquivo.
[5] Mt 10:9-10.
[6] Mt 7:16; 12:33.
[7] Desconhecido.
[8] O nome de Cristo.
[9] Inferior ou baixa, significando costeira, não é denominação administrativa.
[10] Não consta que por essa época (ca. 150-155) o imperador habitasse na Ásia.
[11] Eusébio deve basear-se em algum presumido decreto imperial que tomou por autêntico.
[12] Tigidius Perennis, prefeito do pretório entre 183 e 185.

sábado, 26 de março de 2016

Sermão de Santo Agostinho de Hipona sobre a Ressurreição do Senhor

Pregação em uma Vigília Pascal



A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo lê-se estes dias, como é costume, segundo cada um dos livros do santo Evangelho. Na leitura de hoje ouvimos Jesus Cristo censurando os discípulos, primeiros membros seus, companheiros seus porque não criam estar vivo aquele mesmo por cuja morte choravam. Pais da fé, mas ainda não fiéis; mestres - e a terra inteira haveria de crer no que pregariam, pelo que, aliás, morreriam - mas ainda não criam. Não acreditavam ter ressuscitado aquele que haviam visto ressuscitando os mortos. Com razão, censurados: ficavam patenteados a si mesmos, para saberem o que seriam por si mesmos os que muito seriam graças a ele.
E foi deste modo que Pedro se mostrou quem era: quando iminente a Paixão do Senhor, muito presumiu; chegada a Paixão, titubeou. Mas caiu em si, condoeu-se, chorou, convertendo-se a seu Criador.

Eis quem eram os que ainda não criam, apesar de já verem. Grande, pois, foi a honra a nós concedida por aquele que permitiu crêssemos no que não vemos! Nós cremos pelas palavras deles, ao passo que eles não criam em seus próprios olhos.

A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo é a vida nova dos que crêem em Jesus, e este é o mistério da sua Paixão e Ressurreição, que muito devíeis conhecer e celebrar. Porque não sem motivo desceu a Vida até a morte. Não foi sem motivo que a fonte da vida, de onde se bebe para viver, bebeu desse cálice que não lhe convinha. Por que a Cristo não convinha a morte.

De onde veio a morte?

Vamos investigar a origem da morte. O pai da morte é o pecado. Se nunca houvesse pecado ninguém morreria. O primeiro homem recebeu a lei de Deus, isto é, um preceito de Deus, com a condição de que se o observasse viveria e se o violasse morreria. Não crendo que morreria, fez o que o faria morrer; e verificou a verdade do que dissera quem lhe dera a lei. Desde então, a morte. Desde então, ainda, a segunda morte, após a primeira, isto é, após a morte temporal a eterna morte. Sujeito a essa condição de morte, a essas leis do inferno, nasce todo homem; mas por causa desse mesmo homem, Deus se fez homem, para que não perecesse o homem. Não veio, pois, ligado às leis da morte, e por isso diz o Salmo: “Livre entre os mortos” [Sl 87].

Concebeu-o, sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu. Ele viveu sem culpa, não morreu por motivo de culpa, comungava conosco no castigo mas não na culpa. O castigo da culpa é a morte. Nosso Senhor Jesus Cristo veio morrer, mas não veio pecar; comungando conosco no castigo sem a culpa, aboliu tanto a culpa como a castigo. Que castigo aboliu? O que nos cabia após esta vida. Foi assim crucificado para mostrar na cruz o fim do nosso homem velho; e ressuscitou, para mostrar em sua vida, como é a nossa vida nova. Ensina-o o Apóstolo: “Foi entregue por causa dos nossos pecados, ressurgiu por causa da nossa justificação”[Rm 4,25].

Como sinal disto, fora dada outrora a circuncisão aos patriarcas: no oitavo dia todo indivíduo do sexo masculino devia ser circuncidado. A circuncisão fazia-se com cutelos de pedra: porque Cristo era a pedra. Nessa circuncisão significava-se a espoliação da vida carnal a ser realizada no oitavo dia pela Ressurreição de Cristo. Pois o sétimo dia da semana é o sábado; no sábado o Senhor jazia no sepulcro, sétimo dia da semana. Ressuscitou no oitavo. A sua Ressurreição nos renova. Eis por que, ressuscitando no oitavo dia, nos circuncidou.

É nessa esperança que vivemos. Ouçamos o Apóstolo dizer. “Se ressuscitasses com Cristo…” [Cl 3,1] Como ressuscitamos, se ainda morremos? Que quer dizer o Apóstolo: “Se ressuscitasses com Cristo?” Acaso ressuscitariam os que não tivessem antes morrido? Mas falava aos vivos, aos que ainda não morreram … os quais, contudo, ressuscitaram: que quer dizer?

Vede o que ele afirma: “Se ressuscitasses com Cristo, procurai as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do alto, não o que está sobre a terra. Porque estais mortos!”

É o próprio Apóstolo quem está falando, não eu. Ora, ele diz a verdade, e, portanto, digo-a também eu… E por que também a digo? “Acreditei e por causa disto falei” [Sl 115].

Se vivemos bem, é que morremos e ressuscitamos. Quem, porém, ainda não morreu, também não ressuscitou, vive mal ainda; e se vive mal, não vive: morra para que não morra. Que quer dizer: morra para que não morra? Converta-se, para não ser condenado.

“Se ressuscitasses com Cristo”, repito as palavras do Apóstolo, “procurai o que é do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do alto, não o que é da terra. Pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, aparecer, então também aparecereis com ele na glória”. São palavras do Apóstolo. A quem ainda não morreu, digo-lhe que morra; a quem ainda vive mal, digo-lhe que se converta. Se vivia mal, mas já não vive assim, morreu; se vive bem, ressuscitou.

Mas, que é viver bem? Saborear o que está no alto, não o que sobre a terra. Até quando és terra e à terra tornarás? Até quando lambes a terra? Lambes a terra, amando-a, e te tornas inimigo daquele de quem diz o Salmo: “os inimigos dele lamberão a terra” [Sl 79,9].

Que éreis vós? Filhos de homens. Que sois vós? Filhos de Deus.

Ó filhos dos homens, até quando tereis o coração pesado? Por que amais a vaidade e buscais a mentira? Que mentira buscais? O mundo.

Quereis ser felizes, sei disto. Dai-me um homem que seja ladrão, criminoso, fornicador, malfeitor, sacrílego, manchado por to- dos os vícios, soterrado por todas as torpezas e maldades, mas não queira ser feliz. Sei que todos vós quereis viver felizes, mas o que faz o homem viver feliz, isso não quereis procurar. Tu, aqui, buscas o ouro, pensando que com o ouro serás feliz; mas o ouro não te faz feliz. Por que buscas a ilusão? E com tudo o que aqui procuras, quando procuras mundanamente, quando o fazes amando a terra, quando o fazes lambendo a terra, sempre visas isto: ser feliz. Ora, coisa alguma da terra te faz feliz. Por que não cessas de buscar a mentira? Como, pois, haverás de ser feliz? “Ó filhos dos homens, até quando sereis pesados de coração, vós que onerais com as coisas da terra o vosso coração?” [Sl 4,3] Até quando foram os homens pesados de coração? Foram-no antes da vinda de Cristo, antes que ressuscitasse o Cristo. Até quando tereis o coração pesado? E por que amais a vaidade e procurais a mentira? Querendo tornar-vos felizes, procurais as coisas que vos tornam míseros! Engana-vos o que descaiais, é ilusão o que buscais.

Queres ser feliz? Mostro-te, se te agrada, como o serás. Continuemos ali adiante (no versículo do Salmo): “Até quando sereis pesados de coração? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?”“Sabei” - o quê? ? “que o Senhor engrandeceu o seu Santo” [Sl 4,3].

O Cristo veio até nossas misérias, sentiu a fone, a sede, a fadiga, dormiu, realizou coisas admiráveis, padeceu duras coisas, foi flagelado, coroado de espinhos, coberto de escarros, esbofeteado, pregado no lenho, traspassado pela lança, posto no sepulcro; mas no terceiro dia ressurgiu, acabando-se o sofrimento, morrendo a morte. Eia, tende lá os vossos olhos na ressurreição de Cristo; porque tanto quis o Pai engrandecer o seu Santo, que o ressuscitou dos mortos e lhe deu a honra de se assentar no Céu à sua direita. Mostrou-te o que deves saborear se queres ser feliz, pois aqui não o poderás ser. Nesta vida não podes ser feliz, ninguém o pode.

Boa coisa a que desejas, mas não nesta terra se encontra o que desejas. Que desejas? A vida bem-aventurada. Mas aqui não reside ela.

Se procurasses ouro num lugar onde não houvesse, alguém, sabendo da sua não existência, haveria de te dizer: “Por que estás a cavar? Que pedes à terra? Fazes uma fossa na qual hás de apenas descer, na qual nada encontrarás!”

Que responderias a tal conselheiro? “Procuro ouro”. Ele te diria: “Não nego que exista o que descias, mas não existe onde o procuras”.

Assim também, quando dizes: “Quero ser feliz”. Boa coisa queres, mas aqui não se encontra. Se aqui a tivesse tido o Cristo, igualmente a teria eu. Vê o que ele encontrou nesta região da tua morte: vindo de outros paramos, que achou aqui senão o que existe em abundância? Sofrimentos, dores, morte. Comeu contigo do que havia na cela de tua miséria. Aqui bebeu vinagre, aqui teve fel. Eis o que encontrou em tua morada.

Contudo, convidou-te à sua grande mesa, à mesa do Céu, à mesa dos anjos, onde ele é o pão. Descendo até cá, e tantos males recebendo de tua cela, não só não rejeitou a tua mesa, mas prometeu-te a sua.

E que nos diz ele?

“Crede, crede que chegareis aos bens da minha mesa, pois não recusei os males da vossa”.

Tirou-te o mal e não te dará o seu bem? Sim, da-lo-á. Pro- meteu-nos sua vida, mas é ainda mais incrível o que fez: ofereceu-nos a sua morte. Como se dissesse: “À minha mesa vos convido. Nela ninguém morre, nela está a vida verdadeiramente feliz, nela o alimento não se corrompe, mas refaz e não se acaba. Eia para onde vos convido, para a morada dos anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para a ceia eterna, para a fraternidade comigo; enfim, a mim mesmo, à minha vida eu vos conclamo! Não quereis crer que vos darei a minha vida? Retende, como penhor a minha morte”.

Agora, pois, enquanto vivemos nesta carne corruptível, morramos com Cristo pela conversão dos costumes, vivamos com Cristo pelo amor da justiça.

Não haveremos de receber a vida bem-aventurada senão quando chegarmos àquele que veio até nós, e quando começarmos a viver com aquele que por nós morreu.
Fonte: http://cocp.50webs.com/fixas/sermressr.htm 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Uma Vida de Impacto: M. Basilea Schlink



Uma “mãe em Cristo”, Madre Basilea, que fundou a Irmandade Evangélica de Maria após a Segunda Guerra Mundial na Alemanha, faleceu no dia 21 de março, com a idade de 96 anos.
Depois de uma vida longa e frutífera, marcada pelo sofrimento, mas também por uma paixão imensa por Jesus, e por um discipulado de total comprometimento com Deus, Basilea Schlink partiu para a glória, deixando um exemplo duradouro de confiança implícita no Pai celestial e de obediência à direção do Espírito Santo.
Filha de um professor de matemática, Klara Schlink foi criada em Braunschweig, na Alemanha, e tornou-se cristã fervorosa com a idade de 17 anos. Formou-se como professora de pré-escola e líder de juventude, completou estudos num instituto bíblico, e em 1934, tirou seu doutorado em psicologia na Universidade de Hamburg.
Schlink e sua colega luterana, Erika Madauss, tomaram uma corajosa posição cristã, durante o regime de Hitler. Quando era a presidente nacional do “Movimento Cristão das Estudantes Alemãs” (1933-35), Schlink recusou-se a compactuar com a política nazista, que impedia aos judeus cristãos de participarem de encontros e reuniões.
Durante a II Guerra Mundial ela arriscou a vida e a carreira, falando publicamente sobre o destino singular de Israel, o povo de Deus. Convocada duas vezes a comparecer perante a polícia nazista (a Gestapo) pelo fato de proclamar o senhorio de Jesus Cristo, permitiram-lhe que saísse ilesa, a despeito de sua firme postura. Madauss mantinha estudos da Bíblia para jovens e também ensinava-lhes o Antigo Testamento, que era proibido durante o regime de Hitler.
Em 11 de setembro de 1944, depois da cidade de Darmstadt ser praticamente destruída por bombardeios, causando mais de 12 mil mortos, algo tremendo aconteceu. Durante anos, Schlink e Madauss haviam orado por avivamento entre as moças dos seus grupos de estudo bíblico. Agora suas orações foram respondidas de modo bem diferente do que esperavam. Naquela noite as moças encontraram com Deus em sua santidade como Juiz e Senhor da vida e da morte. Nada podia ser escondido, nenhum cristianismo morno podia permanecer na sua santa presença.
Depois daquela noite de terror, houve um mover entre estas moças para trazer o pecado à luz e receber perdão. O momento havia chegado. Das cinzas surgiu nova vida.
Foi somente em março de 1947 que Schlink e Madauss finalmente puderam realizar sua visão de estabelecer a Irmandade. A cerimônia inaugural foi realizada no lar dos pais de Schlink em Darmstadt, na Casa Steinberg, que permanecera quase intacta apesar dos bombardeios de 1944.
Schlink assumiu o nome religioso de Madre Basilea, enquanto Madauss tornou-se Madre Martyria. As duas trabalharam juntas até a morte da Madre Martyria em 1999.
O co-fundador, Paul Riedinger, um pastor da Igreja Metodista, deu à Irmandade o nome de Maria, a mãe de Jesus, que exemplificava a fé e a dedicação à vontade de Deus, seguindo Jesus até à cruz. As primeiras Irmãs eram na maioria da igreja luterana, mas atualmente a Irmandade conta com membros de muitas denominações evangélicas, procedentes de 18 nacionalidades.
Dois anos depois da sua fundação, quando a Casa Steinberg não estava mais cabendo a Irmandade, e com apenas 30 marcos alemães em caixa, a comunidade começou a construir um novo centro que seria chamado de Canaã, aproveitando tijolos resgatados dos escombros da cidade.
Até hoje os visitantes neste centro da Irmandade são recebidos por uma faixa proclamando: “Edificado somente com a ajuda do Senhor, que fez os céus e a terra—pela fé em Jesus Cristo”.
Na época, foi levantada uma tenda ao lado do local da construção, para que a casa de Deus fosse apoiada em oração, além de serviço braçal. As pessoas se revezavam na tenda numa corrente de oração, a fim de apresentar a Deus todas as suas necessidades. E Deus supria todos os materiais, mesmo na dificuldade daquela Alemanha pós-guerra.
Qualquer problema, acidente ou revés durante a construção, levava toda a equipe de irmãs para a tenda para saber por que o Senhor estava retendo sua bênção. À medida que tensões ocultas e irritações eram trazidas à luz, elas pediam perdão umas das outras, e do Senhor. E as coisas voltavam a engrenar. Por longo tempo depois da construção terminada, quando a tenda já não existia mais, as lições de orações respondidas, de como andar na luz, e viver pela fé permaneciam firmes nas vidas dos participantes. Hoje as comunidades da Irmandade, em todos os países onde estão, dependem de Deus não só para ampliação ou estruturação, mas para seu sustento diário. Totalmente dependentes da bondade e fidelidade do Pai celestial, seja em missões de apenas duas pessoas, seja em centros maiores, onde se cozinha para mais de duzentas pessoas, existem abundantes testemunhos de como o Senhor supriu, às vezes de maneiras bem originais.
Uma visita da Madre Basilea ao Monte Sinai em 1963 resultou nos “Preceitos de Canaã”, uma aplicação prática dos Dez Mandamentos e do Sermão da Montanha. Amar, perdoar, compartilhar, dar a outra face, confiar em Deus em todas as situações — estas são as leis que Deus deu para o reino do céu. Elas funcionam. Quando todo um grupo as segue, em amorosa obediência, ele faz ali a sua morada, conforme prometeu (João 14.23).
Entre os preceitos de Canaã estão estes dois fundamentos:
• Arrependa-se diariamente—e você terá cada dia um gostinho do Reino dos Céus. E quanto maior for o seu arrependimento, tanto mais amplamente abrir-se-lhe-ão os portais para o Reino dos Céus. Salmo 51.7,8.
• Dirija-se àquele contra quem você tenha algo em seu coração — ou ele contra você — e reconcilie-se, e a oração alcançará os céus e terá poder. Mateus 5.23,24.
Além de formar irmandades, que fossem lugares onde o mundo pudesse encontrar o reino de amor que só Deus pode gerar, a vida e obra de Basilea Schlink produziu outros frutos importantes.
Depois da Segunda Guerra Mundial, ela procurou identificar-se com a culpa do seu país, visitando os lugares das atrocidades nazistas nos países vizinhos, e buscando reconciliação com os tchecos, os poloneses e outros, especialmente, os judeus. Em vários lugares, placas de reconciliação foram colocadas, expressando tristeza por esses crimes.
Ela cria fortemente que havia uma ligação entre o Holocausto e a divisão do país da Alemanha. Considerava a divisão da nação um castigo pelas atrocidades cometidas pelos alemães contra os judeus. Falava da “maldição da falta de arrependimento pela culpa para com Israel”.
Como cidadã do seu país, ansiava por corrigir os pecados daquele passado, no espírito de Daniel 9, e por encontrar maneiras práticas de expressar o amor pelo povo escolhido de Deus. Isto a levou, em 1961, a inaugurar uma pequena casa para hóspedes, em Jerusalém, para sobreviventes do Holocausto, que continua sob a liderança da Irmandade. O objetivo ali é compartilhar a dor daqueles que talvez jamais consigam se esquecer dos traumas que sofreram, e orar com eles para que se sintam como se estivessem repousando no seio de Abraão, e para que experimentem a paz do Todo-Poderoso. Passagens das Escrituras são lidas, mostrando que Deus jamais se esqueceu do seu povo em todos seus sofrimentos, e que jamais se esquecerá da sua aliança, que é eterna.
Outro aspecto da sua obra foi iniciada durante as décadas de 1950 e 1960, que era a construção de “pontes” entre cristãos de diferentes denominações, principalmente católicos, ortodoxos e coptas, segundo o último pedido de Jesus em João 17. Por cima das barreiras denominacio- nais e nacionais, laços de comunhão foram estabelecidos, porque, como ela dizia: “Quanto mais perto estivermos do coração amoroso de Deus, tanto mais perto estaremos uns dos outros.”
Finalmente, procurando expressar o amor por Jesus, e de Jesus para o mundo, que é o cerne de todo verdadeiro ministério, Madre Basilea transmitiu esta mensagem de todas as maneiras possíveis ao seu alcance. Livros e panfletos de Canaã foram traduzidos e distribuídos em mais de 60 idiomas. Há aproximadamente 300 transmissões radiofônicas, semanalmente, em 12 línguas. Uma variedade de programas de vídeo em 23 línguas já foi transmitida em todos os cinco continentes, por centenas de estações.
Dos Bálcãs, dilacerados pela guerra, até os campos mortíferos de Ruanda, essa literatura tem alcançado áreas consideradas inacessíveis. No auge da Guerra Fria, os livros da Madre Basilea eram secretamente copiados a mão e passados entre as pessoas na antiga União Soviética e nos satélites da Europa Oriental. Desde que a Cortina de Ferro se abriu, livros, folhetos e textos curtos aos milhões encontraram seu caminho nesses países. Cartas vindas do mundo todo contam de detentos nas prisões aceitando a Jesus; casamentos refeitos; viciados em drogas sendo libertados do vício, e jovens sendo libertados de práticas de bruxarias e de ocultismo.
Em Cuba, famílias inteiras reúnem-se com seus vizinhos em torno de um rádio para sintonizar estes programas. Cristãos na China baseiam-se nas transmissões de rádio de Canaã para os seus ensinos. Na Austrália e nos EUA, os vídeos de Canaã são, freqüentemente, um aspecto popular da televisão durante o Natal e a Páscoa.
Entre suas obras literárias maiores está o livro “Para Ele Todo o Meu Ser”, de onde foi extraído um devocional na edição nº 11 da revista Impacto, e que expressa em maiores detalhes a mensagem da sua vida.
Uma de suas passagens favoritas da Bíblia era: “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21). Como boa semente que era pela graça de Deus, sua vida continuará a frutificar e trazer glória a Jesus através das pessoas que foram marcadas, e das literaturas que foram e que ainda serão publicadas.
Para maiores informações e contatos diretos com a Irmandade Evangélica de Maria, verifique o website internacional: www.kanaan.org, ou o endereço da Irmandade no Brasil: Caixa Postal 440; 80011-970 Curitiba, PR; e-mail: canaan @bsi.com.br

Fonte: https://www.revistaimpacto.com.br/biblioteca/uma-vida-de-impacto-m-basilea-schlink/

sexta-feira, 11 de março de 2016

Livro V – Capítulos 16 e 17

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História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia
Livro V – Capítulos 16 e 17


XVI - O que se menciona sobre Montano e os pseudoprofetas de sua compa­nhia
XVII - De Milcíades e os tratados que compôs

XVI - O que se menciona sobre Montano e os pseudoprofetas de sua compa­nhia
1.           Contra a heresia chamada catafriga, o poder defensor da verdade levantou em Hierápolis uma arma potente e invencível: Apolinário, a quem esta obra já mencionou mais acima[1], e com ele muitos outros homens doutos daquele tempo, dos quais foi-nos deixado abundante material para historiar.
2.           Ao começar pois, um dos mencionados seu escrito contra aqueles, assinala primeiramente que também lutou contra eles com argumentos orais. Escreve no prólogo desta maneira:
3.     Faz muito e bem longo tempo, querido Avircio Marcelo, que tu me ordenaste escrever algum tratado contra a heresia dos chamados "de Milcíades", mas até agora de certa maneira sentia-me indeciso, não por dificuldade em poder refutar a mentira e dar testemunho da verdade, mas por temor de que, apesar de minhas precauções, parecesse a alguns que de certo modo acres­cento ou junto[2] algo novo à doutrina do Novo Testamento, ao qual não pode juntar nem tirar nada quem tenha decidido viver conforme este mesmo Evangelho.
4.     Encontrando-me recentemente em Ankira da Galácia e compreendendo que a igreja local estava aturdida por esta, não como dizem, nova profecia, mas mais propriamente, como se demonstrará, pseudoprofecia, enquanto nos foi possível e com a ajuda do Senhor, durante vários dias, discutimos intensamente sobre estes mesmos homens e sobre os pontos propostos por eles, tanto que a igreja encheu-se de alegria e ficou robustecida na verdade, enquanto que os contrários eram rechaçados na hora e os inimigos abatidos.
5.            Em conseqüência, os presbíteros do lugar pediram que lhes deixássemos alguma nota do que havia sido dito contra os que se opõe à doutrina da verdade, achando-se também presente nosso co-presbítero[3] Zotico, o de Otreno, mas nós não o fizemos; em troca, prometemos escrevê-lo aqui, com a ajuda de Deus, e enviá-lo com toda a presteza."
6.            Depois de expor no começo isto e em seguida alguma outra coisa, segue adiante e narra a causa da mencionada heresia desta maneira:
"Agora bem, sua conduta e sua recente ruptura herética a respeito da Igreja tiveram como causa o que segue.
7.             "Diz-se que em Misia da Frígia existe uma aldeia chamada Ardaban. Ali foi, dizem, que um recém-convertido à fé chamado Montano, pela primeira vez, em tempos de Grato, procônsul da Ásia, saindo contra o inimigo com a paixão desmedida de sua alma ambiciosa de proeminência, ficou a mercê do espírito e de repente entrou em arrebatamento convulsivo como se pos­sesso e em falso êxtase, e começou a falar e a proferir palavras estranhas, profetizando desde aquele momento contra o costume recebido pela tradição e por sucessão desde a Igreja primitiva.
8.             Dentre os que naquela ocasião escutaram estas expressões bastardas, uns, ofendidos com ele como energúmeno, endemoninhado, embebido no espírito do erro e perturbador das multidões, repreendiam-no e tentavam impedi-lo de falar, lembrando-se da explicação e advertência do Senhor sobre estar em guarda e alerta com a aparição de falsos profetas[4]; os outros em troca, como que excitados por um espírito santo e um carisma profético, e não menos inchados de orgulho e esquecidos da explicação do Senhor, fascinados e extraviados pelo espírito insano, sedutor e desencaminhador do povo, provocavam-no para que não permanecesse mais em silêncio.
9.             Com certa habilidade, ou melhor, com tais métodos fraudulentos, o diabo maquinou a perdição dos desobedientes e, honrado por eles contra todo merecimento, excitou e inflamou ainda suas mentes adormecidas, já distan­tes da fé verdadeira, e assim suscitou outras duas mulheres quaisquer[5] e encheu-as com seu espírito bastardo, de maneira que também elas começa­ram a falar delirando, inoportunamente e de modo estranho, como o men­cionado antes. O espírito proclamava bem-aventurados aos que se alegra­vam e vangloriavam nele e os enchia com a grandeza de suas promessas; às vezes, no entanto, por motivos aceitáveis e verossímeis, condenava-os publicamente a fim de parecer também ele capaz de argumentar; mas contudo, poucos eram os frígios enganados. O orgulhoso espírito ensinava também a blasfemar contra a Igreja católica inteira que se estende sob o céu, porque o espírito pseudoprofético não tinha conseguido louvor nem entrada nela.
10.     Efetivamente, os fiéis da Ásia haviam-se reunido para isto muitas vezes e em muitos lugares da Ásia, e depois de examinar as recentes doutrinas, declararam-nas profanas e as rechaçaram como heresia; desta maneira aqueles foram expulsos da Igreja e separados da comunhão."
11.     É a isto que se refere no início; logo continua através de todo o livro a refutação do erro montanista, e no segundo livro diz sobre o fim das pessoas citadas o que segue:
12.     "Pois bem, posto que nos chamam mata-profetas[6] porque não aceitamos seus profetas charlatães (dizem efetivamente que estes são os que o Senhor havia prometido enviar a seu povo[7]), que ante Deus nos respondam: dos que começam a falar[8] a partir de Montano e das Mulheres, há algum, amigos, a quem os judeus tenham perseguido ou alguém que os crimino­sos tenham assassinado? Nenhum. Nem sequer algum deles foi preso e crucificado por causa do nome? Também não, desde logo. Nem sequer alguma das mulheres foi açoitada nas sinagogas dos judeus e apedrejada?
13.     Nem em parte alguma, em absoluto. Por outro lado, diz-se que Montano e Maximila findaram com outro gênero de morte. Efetivamente, é corrente que estes, por influência do espírito perturbador da mente, que movia tanto um quanto a outra, enforcaram-se, ainda que não ao mesmo tempo, e que ao tempo da morte de ambos correu forte boato de que haviam terminado e morrido da mesma maneira que Judas o traidor.
14.     Como também é rumor insistente que aquele inefável Teodoto, o primeiro intendente[9], por assim dizer, de sua pretendida profecia, achando-se um dia como que elevado e alçado aos céus, entrou em êxtase e entregou-se por completo ao espírito do engano, e então, lançado com força, acabou desastrosamente. Ao menos dizem que foi assim.
15.     No entanto, querido, não o tendo visto nós mesmos, pensamos que nada sabemos a respeito; porque talvez tenha ocorrido assim, mas talvez não tenham morrido assim nem Montano nem Teodoto nem a citada mulher."
16. Volta a dizer no mesmo livro que os sagrados bispos daquele tempo tentaram refutar o espírito que havia em Maximila, mas que outros o impediram, colaboradores, evidentemente, daquele espírito.
17. Escreve como segue:
"E que aquele espírito que opera por meio de Maximila não diga no mesmo livro de Asterio Urbano: 'Perseguem-me como a um lobo longe das ovelhas; eu não sou lobo, sou palavra e espírito e poder', antes é bom que demonstre claramente o poder que há no espírito, que o prove e que por meio do espírito obrigue a confessar aos que naquela ocasião achavam-se presentes para examinar e para dialogar com o espírito que falava, varões probos e bispos: Zotico, da aldeia de Cumana, e Juliano, de Apamea, cujas bocas foram amordaçadas pelos partidários de Temiso, impedindo assim que refutassem o espírito enganador e desencaminhador de povos."
18. Novamente no mesmo livro, quando dizem algumas outras coisas refutando as falsas profecias de Maximila, indica o tempo em que escreveu isto e menciona os vaticínios dela, nos quais predizia que haveria guerras e revoluções; a falsidade de tudo isto ele revela quando escreve:
19. "E como não se evidenciou também esta mentira? Porque já são transcorridos mais de treze anos até hoje desde que aquela mulher morreu e no mundo não tem havido guerra, nem parcial nem geral, mas que até para os cristãos a paz tem sido mais permanente, por misericórdia divina."
20. Isto tomamos do livro segundo. Mas também do terceiro citaremos algumas frases breves, pelas quais diz contra os que se jactavam de que entre eles houve mais mártires:
"Agora bem, quando os refutamos com todo o dito e vêem-se apurados, tentam refugiar-se nos mártires, dizendo que têm muitos mártires e que isto é uma garantia fidedigna do poder do espírito que eles chamam profético, mas isto, ao que parece, é de tudo o menos verdadeiro.
21. Efetivamente, das outras heresias algumas têm numerosos mártires, e nem por isso vamos aprová-las nem confessar que possuem a verdade. Os primeiros ao menos, os que se chamam Marcionitas por seguir a heresia de Márcion, também eles dizem que têm inúmeros mártires, mas ao próprio Cristo não confessam conforme a verdade."
E depois de breve espaço, acrescenta ao dito:
22. "Por isso, sempre que os fiéis da Igreja chamados a dar testemunho da fé conforme a verdade encontram-se com algum dos chamados mártires procedentes da heresia catafriga, afastam-se deles e morrem sem terem se comunicado com eles, porque não querem dar assentimento ao espírito que se vale de Montano e de suas mulheres. Que isto é verdadeiro e que, até em  nossos tempos, tem ocorrido em Apamea, às margens do Meandro, evidencia-se nos martírios de Caio e Alexandre de Eumenia e de seus companheiros."

XVII - De Milcíades e os tratados que compôs
1. Na mesma obra[10] menciona-se também Milcíades, um escritor que, parece, também escreveu um tratado contra a dita heresia. Depois de citar algumas passagens destes[11] continua dizendo: "Isto encontrei em uma obra das que atacam o escrito de Milcíades, nosso irmão, escrito que demonstra não ser necessário que um profeta fale em êxtase, e fiz um resumo."
2. Um pouco mais abaixo na mesma obra estabelece uma lista dos que profe­tizaram no Novo Testamento; entre eles enumera um tal Amias e a Codrato; diz assim:
 ".. .mas o falso profeta, no êxtase - ao qual seguem o descaramento e a ousa­dia -, começa em voluntária ignorância e termina em demência involuntária da alma, como se disse anteriormente.
3.             Mas não poderão mostrar um só profeta, nem do Antigo nem do Novo (Testamento) que tenha sido arrebatado pelo espírito desta maneira, nem poderão gloriar-se de Agabo, nem de Judas, nem de Silas, nem das filhas de Felipe, nem de Amias de Filadélfia, nem de Codrato nem de nenhum outro, se há, porque nada tem a ver com eles."
4.      E logo, depois de curto espaço, diz o seguinte:
"Porque, se é como dizem, que depois de Codrato e de Amias de Filadélfia, o carisma profético passou por sucessão às mulheres do séquito de Montano, que demonstrem quem dentre eles sucedeu aos discípulos de Montano e a suas mulheres, já que o Apóstolo sustenta que é necessário que o caris­ma profético subsista em toda a Igreja até a parousia final[12]. Mas não pode­rão mostrar ninguém, apesar de já ser este o décimo quarto da morte de Maximila."
5.   Isto diz ele. No que tange a Milcíades, por ele mesmo mencionado, também deixou-nos outras lembranças de sua aplicação diligente às divinas Escrituras nos tratados que compôs Contra os gregos e Contra os judeus, temas com os quais se debateu separadamente nos dois livros. E mais, fez também uma Apologia dirigida aos príncipes[13] do mundo em favor da filosofia por ele professada[14].

1. O que mais te chamou a atenção neste texto?
2. O que o texto contribui para a sua espiritualidade?

Desenho da capa: Montano e o Montanismo
O montanismo foi um movimento cristão fundado por Montano por volta de 156-157 (ou 172), que se organizou e difundiu em comunidades na Ásia Menor, em Roma e noNorte de África. Por ter se originado na região da Frígia, Eusébio de Cesareia relata em sua História Eclesiástica (V.14-16) que ela era chamada de "Heresia Frígia" na época.



[1] Vide IV:XXI; IV:XXVI: 1; IV:XXVII.
[2] Gl 3:15.
[3] É como os bispos se dirigiam aos presbíteros e às vezes a seus colegas de episcopado.
[4] Mt 7:15.
[5] Quer dizer, outras vítimas (do diabo), não outras duas mulheres.
[6] Mt 23:31.
[7] Jo 14:26.
[8] Isto é: começaram a "profetizar" como Montano.
[9] Como veremos mais tarde, Montano tinha suas finanças bem organizadas, por isso podemos entender literalmente o cargo atribuído a Teodoto.
[10] O anônimo antimontanista, cf. 16:2.
[11] Dos hereges.
[12] Ef 4:11-13; 1 Co 1:4-8; 13:8-10.
[13] Provavelmente refere-se a Marco Aurélio e a seu co-augusto Lúcio Vero.
[14] Todas suas obras se perderam.