segunda-feira, 12 de março de 2018

41 - Atenágoras de Atenas (†180) Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 8 -16


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41
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Atenágoras de Atenas (†180)
Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 8 -16


Capítulo VIII - Demonstração racional do monoteísmo

Que o Deus Criador de todo este universo seja um só desde o princípio, considerai-o do seguinte modo, a fim de que tenhais também o arrazoado da nossa fé: Se, desde o princípio, tivesse havido dois ou mais deuses, certamente os dois teriam tido que estar em um só e mesmo lugar ou cada um, à parte, em seu lugar. Ora, é impossível que estivessem em um só e mesmo lugar, porque, sendo deuses, não seriam iguais, mas, como incriados, seriam desiguais. De fato, o criado é semelhante a seus modelos, mas o incriado não é semelhante a nada, pois não foi feito por ninguém, nem para ninguém. Se Deus é um só, como a mão, o olho e o pé são partes completivas de um só corpo, visto que delas se completa um só; Sócrates, sim, enquanto criado e corruptível, é composto e dividido em partes. Deus, porém, é incriado, impassível e indivisível. Portanto, não é composto de partes. Contudo, se cada um deles ocupa seu próprio lugar, sendo aquele que criou o mundo mais alto que todas as coisas e estando acima do que ele fez e ordenou, onde estará o outro ou os outros? Com efeito, se o mundo, que tem forma esférica perfeita, é limitado pelos círculos do céu, o Criador desse mesmo mundo está acima de tudo o que foi criado, conservando tudo com a sua providência, que lugar resta para o outro ou outros deuses? Porque não está no mundo, já que pertence a outro; nem em torno do mundo, pois o Deus Criador do mundo está acima deste. E se não está no mundo, nem em torno do mundo (porque tudo o que rodeia este é mantido pelo Criador), onde está? Acima do mundo e de Deus, em outro mundo e em torno a outro mundo? Mas se está noutro e em torno de outro, já não está em torno de nós (pois não tem poder sobre este mundo), nem é grande em si mesmo, pois está em lugar limitado. E se não está em outro mundo, porque tudo é repleto pelo criador do mundo, nem em torno a outro, porque tudo é mantido por este, então, definitivamente, não existe, pois não existe lugar onde esteja. O que é que faz, tendo outro de quem é o mundo e estando ele acima do Criador do mundo, mas não estando nem no mundo, nem ao redor do mundo? Existe, porém, um ponto de apoio em que se apóie aquele que foi feito contra aquele que é? Acima dele, porém, está Deus e as obras de Deus. E qual será o lugar, visto que o Criador preenche o que está acima do mundo? Têm providência? Não! Não tem providência também, porque não fez nada. Por fim, se nada faz, não tem providência, nem outro lugar onde esteja, existe, desde o princípio, um único e só: o Deus Criador do mundo.

Capítulo IX  - Se nos contentássemos com esses argumentos de razão, poder-se-ia pensar que a nossa doutrina é humana. Entretanto, nossos arrazoados são confirmados pelas palavras dos profetas. Penso que vós, que sois amicíssimos do saber e instruidíssimos, não desconheceis os escritos de Moisés, nem de Isaías, Jeremias e outros profetas que, saindo de seus próprios pensamentos, por moção do Espírito divino, falaram o que neles se realizava, pois o Espírito se servia deles como flautista que sopra a flauta. Que dizem os profetas? “O Senhor é nosso Deus; não será contado nenhum outro com ele”. E ainda: “Eu sou Deus antes e depois, além de mim não há Deus.” Igualmente: “Antes de mim não existiu outro Deus, e depois de mim não existirá. Eu sou Deus e não outro além de mim.” E a respeito de sua grandeza: “O céu é o meu trono e a terra é o escabelo de meus pés. Que casa me edificarás, ou qual é o lugar do meu descanso?” Deixo para vós, inclinados sobre os livros deles, examinar mais suas profecias, a fim de que, através de um raciocínio conveniente, recuseis a calúnia contra nós.

Capítulo X - Afirmação da fé monoteísta e trinitária
Desse modo, fica suficientemente demonstrado que não somos ateus, pois admitimos um só Deus, incriado, eterno, e invisível, impassível, incompreensível e imenso, compreensível à razão só pela inteligência, rodeado de luz, beleza, espírito e poder inenarrável, pelo qual tudo foi feito através do Verbo que dele vem, e pelo qual tudo foi ordenado e se conserva. De fato, dele vem, e pelo qual tudo foi ordenado e se conserva. De fato, reconhecemos também um Filho de Deus. E que ninguém considere ridículo que, para mim, Deus tenha um Filho. Com efeito, nós não pensamos sobre Deus, e também Pai, e sobre seu Filho como fantasiam vossos poetas, mostrando-nos deuses que não são em nada melhores do que os homens, mas que o Filho de Deus é o Verbo do Pai em idéia e operação, pois conforme a ele e por seu intermédio tudo foi feito, sendo o Pai e o Filho um só. Estando o Filho no Pai e o Pai no Filho por unidade e poder do espírito, o Filho de Deus é inteligência e Verbo do Pai. Se, por causa da eminência de vossa inteligência, vos ocorre perguntar o que quer dizer “filho”, eu o direi livremente: o Filho é o primeiro broto do Pai, não como feito, pois desde o princípio Deus, que é inteligência eterna, tinha o Verbo em si mesmo; sendo eternamente racional, mas como procedendo de Deus, quando todas as coisas materiais eram natureza informe e terra inerte e estavam misturadas as coisas mais pesadas com as mais leves, para ser sobre elas idéia e operação. E o Espírito profético concorda, com o nosso raciocínio, dizendo: “O Senhor me criou como princípio de seus caminhos para suas obras”. Com efeito, dizemos que o mesmo Espírito Santo, que opera nos que falam profeticamente, é uma emanação de Deus, emanando e voltando como um raio de sol. Portanto, quem não se surpreenderá ao ouvir chamar de ateus indivíduos que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e um Espírito Santo, que mostram seu poder na unidade e sua distinção na ordem? E a nossa doutrina teológica não pára aqui, mas dizemos que existe uma multidão de anjos e ministros, aos quais Deus Criador e Artífice do mundo, por meio do Verbo que dele procede, distribuiu e ordenou, para que estivessem em torno dos elementos, dos céus, do mundo, do que há no mundo, e cuidassem de sua boa ordem.

Capítulo XI - Não vos maravilheis de que eu exponha tão detalhadamente nossa doutrina, pois todo o meu afã de exatidão se orienta a que não vos deixeis arrastar pela opinião vulgar e irracional, mas que tenhais o meio de conhecer a verdade. E assim que, pelos mesmos preceitos aos quais aderimos e que não são humanos, mas ditos por Deus e por Deus ensinados, podemos persuadir-vos de que não somos ateus. Quais são essas doutrinas com as quais nos nutrimos? “Eu vos digo: amai os vossos inimigos, bendizei aqueles que vos amaldiçoam, orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus, que faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e chover sobre justos e injustos”. Permiti-me aqui, pois este discurso foi ouvido com grandes aplausos, que prossiga com confiança, como quem pronuncia a sua defesa diante de imperadores filósofos. Com efeito, quem, dentre os que analisam os silogismos, solucionam os equívocos, esclarecem as etimologias, ou que ensinam os homônimos e sinônimos, os categoremas, os axiomas, o que é o sujeito e o que é predicado; quais desses prometem fazer felizes os seus discípulos por essas ou semelhantes doutrinas? Quais desses têm almas tão purificadas que amem os seus inimigos ao invés de odiá-los, e abençoem a quem primeiro os amaldiçoou - coisa naturalíssima -, e roguem contra aqueles que atentam contra a sua própria vida? Ao contrário, eles passam a vida aprofundando com má intenção seus próprios mistérios, estão sempre desejando fazer algum mal, pois professam não uma demonstração de obras, mas uma arte de palavras. Entre nós, porém, é fácil falar a pessoas simples, artesãos e velhinhas que, se não são capazes de manifestar a utilidade da sua religião, a demonstram pela prática. Com efeito, não aprendem discursos de cor, e sim manifestam boas ações: não ferir a quem os fere, não perseguir na justiça a quem os despoja, dar a todo aquele que lhes pede e amar ao próximo como a si mesmos.

Capítulo XII  - Ora, se não acreditássemos que Deus preside ao gênero humano, poderíamos levar uma vida tão pura? Não é possível dizer. Mas como estamos persuadidos de que teremos de dar contas de toda a nossa vida presente a Deus, que fez a nós e ao mundo, escolhemos a vida moderada, caritativa e desprezada, pois pensamos que não podemos sofrer mal tão grande aqui, mesmo quando nos tirem a vida e qual será a recompensa que receberemos lá do grande juiz por uma vida mansa, caritativa e modesta. Platão disse que Minos e Radamante julgariam e castigariam os maus. Nós, porém, dizemos que nem o próprio Minos ou Radamante ou o pai deles escapará do julgamento de Deus. Além disso, homens que consideram essa vida como “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” e fazem da morte um sono profundo e puro esquecimento - “a morte e o sono, irmãos gêmeos” - são considerados piedosos. Nós, porém, homens que consideramos a vida presente de curta duração e de mínima estima, que nos dirigimos pelo único desejo de conhecer o Deus verdadeiro e o Verbo que dele procede - qual é a comunicação do Pai com o Filho, que coisa é o Espírito, qual é a união de tão grandes realidades, qual a distinção dos assim unidos, do Espírito, do Filho e do Pai-;nós que sabemos que a vida que esperamos é superior a tudo quanto a palavra pode expressar, se chegarmos até ela puros de toda iniqüidade; nós que vivemos a nossa caridade até amar não só os nossos amigos, como diz a Escritura: “Se amais os que vos amam e emprestais aos que vos emprestam, que recompensa tereis?”, a nós que somos tais e vivemos tal vida para fugirmos de ser julgados, não somos considerados religiosos?
Tudo isso são pequenas amostras de grandes coisas, poucas entre muitas, a fim de não vos molestarmos com a prolixidade. Com efeito, os que provam o mel ou o soro, através de uma pequena quantia, examinam se o todo é bom.

Capítulo XIII  - Contudo, já que aqueles que nos acusam de ateísmo - vulgo que não sabe sequer em sonho que é Deus, tão ignorantes e alheios que são à contemplação tanto da razão teológica como da física, que medem a religião por lei de sacrifícios - nos reprovam por não termos os mesmos deuses que as cidades, considerai, vos peço, ó imperadores, um e outro ponto do modo que segue, e, antes de tudo, a reprovação por não sacrificar. O Artífice e Pai deste universo não tem necessidade nem de sangue nem de gordura, nem de perfume de flores e incensos, já que ele é o perfume perfeito; nada lhe falta, e de nada necessita. Para ele o máximo sacrifício é que reconheçamos quem estendeu e deu força esférica aos céus e assentou a terra como centro, que reuniu as águas em mares e separou a luz das trevas, quem adornou o éter com astros e fez que a terra produzisse sementes, quem criou os animais e plasmou o homem. Considerando, pois, Deus como artífice que contém tudo e que olha tudo com a ciência e a arte com que dirige tudo, e levantando as nossas mãos puras para ele, que necessidade há de catástrofes?
“Os homens tratam de dobrá-los com sacrifícios e suaves súplicas, com libação e gordura, suplicando-lhes quando alguém comete transgressão e pecado”. Que falta me fazem os holocaustos de que Deus não necessita? E que falta me faz apresentar oferendas, quando se deve ofere cer-lhe sacrifícios incruentos, que é culto racional?

Capítulo XIV - Sobre o fato de não nos aproximarmos ou termos como deuses os mesmos que as cidades têm, é palavra totalmente idiota; mas nem aqueles que nos acusam de ateísmo por não considerarmos como deuses aqueles aos quais de modo vão se aproximam, concordam entre si a respeito dos deuses. Os atenienses estabelecem como deuses Celeu e Metanira; os lacedemônios estabelecem Menelau, e a ele sacrificam e celebram festas; os troianos, que não podem sequer ouvir seu nome, estabelecem Heitor; os habitantes de Queos estabelecem Aristeu, que identificam com Zeus e Apolo; os tássios estabelecem Teágenes, que cometeu homicídio nos jogos olímpicos; os habitantes de Samos estabelecem Lisandro, depois de tantas mortes e tantos males; os cilícios consideram Medéia e Níobe; os sículos consideram Filipe, filho de Butacides; os amatúsios consideram Onesilau; os cartagineses consideram Amílcar. O dia acabaria se eu tivesse que enumerar toda a multidão. Se eles entre si não estão de acordo sobre seus próprios deuses, por que nos acusam de não coincidir com eles? Quanto aos egípcios, a coisa chega ao ridículo. Em suas grandes reuniões, eles batem no peito nos templos, como pelos mortos, e lhes oferecem sacrifícios como a deuses; e ninguém estranha que introduzam animais como deuses, raspem a cabeça quando morrem, os enterrem nos templos e organizem lutos públicos. Se nós, portanto, por não praticar a religião como eles, somos ímpios, todas as cidades e todas as nações são ímpias, pois não são todos que têm os mesmos deuses.

Capítulo XV  - Aceitemos, porém, que todos admitissem os mesmos deuses. E daí? Se o vulgo, incapaz de distinguir entre matéria e Deus, e de compreender a diferença que existe de uma para outro, recorre aos ídolos feitos de matéria, deveremos também nós adorar as estátuas para agradá-los? Nós, que distinguimos e separamos o incriado do criado, o ser do não-ser, o inteligível do sensível, e que damos nome conveniente a cada uma dessas coisas? Com efeito, se a matéria e Deus são a mesma coisa, e se trata apenas de dois nomes para a mesma realidade, não aceitando como deuses as pedras, a madeira, o ouro e a prata, cometemos uma impiedade; contudo, se existe imensa distância entre um e outro, como do artista para os instrumentos de sua arte, por que nos acusam? Como o oleiro e o barro, o barro é a matéria e o oleiro é o artista, assim Deus é o artífice, e a matéria lhe obedece em vista da arte. Mas como o barro sem a ação do artista não pode por si mesmo converter-se em vasos, também a matéria, capaz de qualquer forma, não teria recebido em distinção nem figura nem ornato sem a ação do Deus artífice. Ora, nós não consideramos o vaso mais digno de honra do que o seu fabricante, nem as taças de ouro mais dignas de honra do que aquele que as fundiu, mas, se vemos nelas alguma habilidade artística, louvamos o artista e é este que colhe o fruto da glória dos vasos. Do mesmo modo, tratando-se de Deus e da matéria, não é esta que recebe a glória e a justa honra pela ordenação do mundo, mas Deus, artífice da matéria. Assim, se considerássemos como deuses as formas da matéria, daríamos prova de não ter o sentido do Deus verdadeiro, equiparando o dissolúvel e corruptível ao eterno.

Capítulo XVI  - Certamente o mundo é belo, abarca tudo com a sua grandeza, pela disposição dos astros da ecléptica e os do setentrião, e por sua forma esférica; contudo, não é a ele, mas ao seu artífice que se deve adorar. Com efeito, nem mesmo vossos súditos que recorrem a vós, seus donos e senhores, dos quais podem conseguir o que necessitam, vos deixam de honrar para deter-se na magnificência de vossa moradia; de passagem, eles olham vosso palácio imperial e admiram sua bela feitura; contudo, a glória e a honra eles as tributam inteiramente a vós. E de se notar que vós, os reis, construís para vós mesmos vossas régias moradas; o mundo, porém, não foi feito porque Deus necessitasse dele, pois Deus é tudo para si mesmo, luz inacessível, mundo perfeito, espírito, poder, verbo. Portanto, se o mundo é um instrumento harmonioso que se move conforme um ritmo, eu não adoro o instrumento, mas a quem lhe dá harmonia, o faz emitir os sons e entoa o canto afinado. Nem mesmo nos jogos públicos os atletas deixam de lado os tocadores de cítaras e coroam as cítaras deles. Se o mundo é, como diz Platão, uma obra de Deus, admirando sua beleza, eu me dirijo ao artista. Se é essência e corpo, como querem os peripatéticos, não vamos deixar de adorar a Deus, causa do movimento desse corpo, para cair nos elementos míseros e fracos, preferindo em nossas adorações a matéria passível ao éter que, segundo eles, é impassível. E se existe quem entende as partes do mundo como potências de Deus, não vamos prestar honras às potências, mas ao criador e dono delas. Não peço à matéria o que ela não tem, nem abandono a Deus para servir aos elementos, que podem apenas aquilo que lhes é ordenado. Se é certo que são formosas à vista por perícia do artífice, nem por isso deixam de ser perecíveis por natureza da matéria. O próprio Platão confirma meu raciocínio. Ele diz: “O que chamamos céu e mundo, embora participe de muitos e afortunados bens da parte do Pai, contudo, também tem a comunicação do corpo e, por isso, é impossível que esteja isento de toda mudança”. Se, embora admirando o céu e os elementos por causa da arte que neles resplandece, não os adoro como a deuses, pois conheço a razão de dissolução que pesa sobre eles, como chamarei deuses aos que eu sei que têm homens como artífices?

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Como ele serve para sua espiritualidade?


















segunda-feira, 5 de março de 2018

40 - Atenágoras de Atenas (133-180) - Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 1 - 7


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40
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Atenágoras de Atenas (133-180)
Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 1 - 7



Atenágoras de Atenas, viveu nos fins do século II d.C. 
Apologista cristão, que aparentemente nasceu e viveu em Atenas. Apresentou uma apologia em prol do  cristianismo  ao  imperador Marco Aurélio.
Ali ele defende o cristianismo e suas práticas, e ataca as religiões pagãs, sobre tudo quanto ao seu politeísmo.
Descobriu noções monoteístas em diversos poetas e filósofos gregos e nisso, apresentou um argumento a priori, em favor da existência de Deus. Tratando sobre a ressurreição dos mortos, ele combinou ideias religiosas e filosóficas. Naturalmente, Platão o influenciou fortemente, pelo que sua fé religiosa geralmente foi apropriada de falar a não-cristãos, que sabiam algo das ideias de Platão e apreciavam a grandeza de seus conceitos.
Deste apologista cristão sabe-se tão – somente que era de Atenas e filósofo. Nem Eusébio de Cesaréia, nem Jerônimo o menciona. Dele se encontra uma menção no tratado Sobre a ressurreição 1,37,1, de Metódio de Olimpo (sécs. III-IV).
Traços de sua vida e de suas obras desapareceram completamente da literatura cristã até que o bispo Aretas de Cesaréia manda copiar, em 914, para o seu Corpus apologetarum, a Apologia e o tratado Sobre a ressurreição dos mortos de Atenágoras.
O local de seu nascimento, sua formação intelectual, suas origens, local e data de sua morte nos escapam. Suas obras, contudo, revelam uma pessoa de boa cultura, alguém que frequentou cursos de retórica.
Seu estilo é moderado, bem mais sóbrio que o de Taciano, mais ordenado que o de Justino. Como Justino, é simpático à filosofia e à cultura gregas.
Se a tradição que faz de Atenágoras um ateniense é verdade, sem dúvida há uma relação entre sua origem e o meio em que se formou, e sua cultura mais afinada que a dos escritores cristãos anteriores.



Obras:
Legatio pro Cristianis (Apelo em favor dos Cristãos).
De Resurrectione (Sobre a Ressurreição).

Obra: Apelo em Favor dos Cristãos

Capítulo I - Introdução e Dedicatória
Aos imperadores Marco Aurélio Antonino e Lúcio Aurélio Cômodo, armênicos, somáticos e, o que é o máximo título, filósofos.
Em vosso império, ó grandes entre os reis, certas pessoas usam alguns costumes e leis, e outras seguem outros, e a ninguém é proibido, nem por lei nem por medo de castigo, amar suas tradições pátrias, por mais ridículas que sejam. Desse modo, o troiano chama deus a Heitor e adora Helena, crendo que ela é Adrastéia; o lacedemônio cultua Agamenon como se fosse Zeus, Filonoe, filha de o Tindáreo, como se fosse Enódia; o ateniense sacrifica a Ereteu Posêidon, e os atenienses celebram iniciações e mistérios a Agraulo e Pandroso, iniciações que foram consideradas sacrílegas por terem aberto a caixa. Numa palavra, os homens, conforme as nações e os povos, oferecem os sacrifícios e celebram os mistérios à vontade. Quanto aos egípcios, têm como deuses os gatos, crocodilos, serpentes, víboras e cães. Vós e vossas leis tolerais tudo isso, pois considerais ímpio e sacrílego não crer de modo algum em Deus. É necessário que cada um tenha os deuses que quiser a fim de que, por temor à divindade, se abstenha de cometer impiedades. A nós, porém, embora não vos ofendais, como o vulgo, já ficamos sendo odiados, só em ouvir o nome visto que não são os homens que merecem o ódio, mas a injustiça, que merece pena e castigo. Daí que admirando a vossa suavidade e mansidão, o vosso amor à paz e a toda humanidade, as pessoas particulares são regidas por leis iguais, e as cidades, segundo a sua dignidade, participam também de igual honra, e a terra inteira goza, graças à vossa inteligência, de profunda paz. Quanto a nós, que somos chamados cristãos, não tendo providência por nós, permitis que, sem cometer nenhuma injustiça, mas pelo contrário, como a continuação do nosso discurso demonstrará, comportando-nos de modo mais piedoso e justo do que ninguém, não só diante da divindade, mas também em relação ao vosso império, permitis que sejamos acusados, maltratados e perseguidos, sem outro motivo para que o vulgo nos combata, a não ser apenas o nosso nome. Todavia, nós nos atrevemos a vos manifestar a nossa vida e doutrina, e com o nosso discurso compreendereis que sofremos sem causa e contra toda lei e razão, e vos suplicamos que também a nós deis alguma atenção, para que cesse, finalmente, a degolação a que nos submetem os caluniadores. Com efeito, não é perda de dinheiro que nos vem de nossos perseguidores, não é desonra no desfrutar de nossos direitos de cidadania, não é o prejuízo em alguma das outras coisas menores. Nós desprezamos tudo isso, por mais importante que pareça ao vulgo. Nós aprendemos não só a não ferir aquele que nos fere, mas também a não perseguir na justiça aqueles que nos roubam e saqueiam; mais ainda, àquele que nos dá uma bofetada numa face, devemos oferecer-lhe a outra, e a quem nos tira a túnica, devemos dar-lhe também o manto. Já que renunciamos às riquezas, o que eles atentam é contra os nossos corpos e as nossas almas, espalhando incontáveis acusações, que nem por suspeita tocam a nós; tocam sim aos que as propagam e aos de sua laia.

Capítulo II -
Se alguém é capaz de nos convencer de termos cometido uma injustiça, pequena ou grande, não fugiremos do castigo, mas pedimos antes que se nos inflija o que for mais áspero e cruel. Mas se a nossa acusação é tão somente o nome - e pelo menos até hoje o que propalam sobre nós é apenas vulgar e estúpido rumor das gentes, e não foi provado que algum cristão tenha cometido um crime - a vossa questão é, como imperadores máximos, humaníssimos e amicíssimos do saber, rejeitar por lei a calúnia feita contra nós, a fim de que, assim como toda a terra, pessoas particulares e cidades gozam de vosso benefício, também nós vos possamos agradecer, glorifi­cando-vos por termos deixado de ser caluniados. Com efeito, a vossa justiça não diz que, quando se acusa a outros, não se pode condená-los antes de tê-los interroga­ do? Quanto a nós, porém, vale mais o nome do que as provas do julgamento, pois os juízes não buscam averi­guar se o acusado cometeu algum crime, mas tratam-no com insolência por causa do nome, como se fosse crime. Entretanto, em si e por si, um nome não pode ser conside­rado bom ou mau, e sim que pareça bom ou mau conforme sejam boas ou más as ações que ele supõe. Sabeis disso melhor do que ninguém, pois sois formados na filosofia e em toda a cultura. Por isso, mesmo os que são julgados diante de vós, embora sejam acusados dos maiores crimes, estão confiantes e, sabendo que examinais sua vida e não atacais os seus nomes, se são vazios, nem atendeis às acusações, se são falsas, recebem com o mesmo espírito tanto a sentença de absolvição como a de condenação.
Também nós reclamamos o direito comum, isto é, que não sejamos odiados e castigados por termos o nome de cris­ tãos. Definitivamente, o que o nome tem a ver com a maldade? Reclamamos que cada um seja julgado por aquilo de que foi acusado, e nos absolvam, se desfizermos as acusações, ou nos castiguem se somos réus de maldade. Que não sejamos julgados pelo nome, mas pelo crime, pois nenhum cristão é mau, a não ser que professe fingidamente o cristianismo. Assim vemos que se procede com os filósofos. Nenhum deles, antes do julgamento, pelo simples fato de sua ciência ou profissão, é considerado pelo juíz como bom ou mau; pelo contrário, se é julgado injusto, é castigado, sem que por isso se faça qualquer acusação à filosofia, pois o mau é aquele que não a professa como é de lei; mas a ciência não tem culpa; e se ele se defende das acusações, então é absolvido. Proceda-se de modo igual conosco. Examine-se a vida dos que são acusados e deixese o nome livre de qualquer acusação.
Parece-me necessário, ó máximos imperadores, rogar-vos que, ao começar a defesa da nossa doutrina, vos mostreis ouvintes equânimes e não vos deixeis levar por algum preconceito, arrastados pelos rumores vulgares e irracionais, mas que também apliqueis à nossa doutrina o vosso amor ao saber e à verdade. Desse modo não pecareis por ignorância, e nós, livres das estúpidas intrigas do vulgo, deixaremos de ser combatidos.

Capítulo III -
São três as acusações que se propagam contra nós: o ateísmo, os convites de Tiestes, e as uniões edípicas. Se isso é verdade, não perdoeis a classe alguma. Castigai esses crimes, matai-nos pela raiz com nossas mulheres e filhos, se é que existe entre os homens alguém que viva como ós animais. Até os animais não atacam os de sua espécie, unem-se entre si por lei de natureza, e apenas no tempo da procriação, e não por dissolução e, finalmente, conhecem quem lhes faz benefício. Se alguém, portanto, é mais feroz do que as próprias feras, que castigo corresponderá a tantos crimes? Mas se isso é pura intriga e calúnias vazias, é de razão natural que a maldade se oponha à virtude e de lei divina que os contrários lutem entre si, e vós sois testemunhas de que nós não cometemos nenhum desses crimes, mandando que não confessássemos, a vós cabe agora fazer uma investigação sobre a nossa vida e doutrinas, sobre a nossa lealdade e obediência à vossa casa e império e, por fim, conceder-nos o mesmo que àqueles que nos perseguem. Nós os venceremos, pois estamos dispostos a dar intrepidamente até as nossas vidas pela verdade.

1ª PARTE: REFUTAÇÃO DAS ACUSAÇÕES DE ATEÍSMO E AFIRMAÇÃO DO MONOTEÍSMO

Capítulo IV - Deus segundo os filósofos
Refutarei agora cada uma das acusações. Que não sejamos ateus, temo até chegar ao ridículo deter-me para contestar àqueles que dizem tal coisa. Diágoras sim, era com razão reprovado pelos atenienses por causa do seu ateísmo. Com efeito, ele não só expunha publicamente a doutrina órfica e divulgava os mistérios de Elêusis e os dos Cabiros, e quebrava a estátua de Herácles para com os pedaços cozer os seus nabos, mas também diretamente afirmava que Deus não existe em absoluto. Nós, porém, distinguimos Deus da matéria e demonstramos que uma coisa é Deus e outra a matéria, e que a diferença entre um e outro é imensa, pois a divindade é incriada e eterna, contemplável apenas pela inteligência e pela razão, mas a matéria é criada e corruptível. Não é irracional chamar-nos de ateus? Com efeito, se pensássemos como Diágoras, tendo tantos argumentos para a crença em Deus - a ordem, a harmonia universal, a grandeza, a cor, a figura, a disposição do mundo -, então sim teríamos com razão a fama de ím-pios e haveria motivo para sermos perseguidos. Mas a nossa doutrina admite um só Deus, criador de todo este mundo, e ele não foi criado - pois não se cria o que existe, mas o que não existe -, e sim ele é criador de todas as coisas por meio do Verbo que dele procede. Portanto, sofremos ambas as coisas sem motivo, a má fama e a perseguição.

Capítulo V
A ninguém pareceu que os poetas e filósofos eram ateus, porque especularam sobre Deus. Assim Eurípides, duvidando completamente sobre aqueles que a preocupação comum chama falsamente de deuses, disse: “Se é que Zeus está no céu, não deveria torná-lo desgraçado”. Mas, dando a sua opinião sobre aquele que é cognoscível por ciência, diz: “Vês na altura este éter imenso e que mantém a terra ao redor em seus braços úmidos? Crê que este é Zeus; tem a este como Deus”.
Com efeito, não via daqueles nem as essências que subsistiriam sob o nome que se lhes atribui - “Porque Zeus, seja Zeus quem for, dele sei apenas o nome” - nem que os nomes fossem atribuídos a coisas subsistentes. Ora, onde não há essências subsistentes, que valor têm os nomes? Este, porém, era visto pelas obras, entendendo que o aparente é manifestação do oculto. Assim, portanto, aquele cujas obras via e cujo espírito segura as rédeas de tudo, esse ele compreendeu como Deus. E com ele concorda Sófocles: “Um, em verdade, um só é Deus, que fabricou o céu e a vasta terra”. Com isso ele ensina sobre a natureza de Deus, que enche o universo com a sua beleza, e não só onde deve estar Deus, mas também que deve ser necessariamente uno.

Capítulo VI
Também Filolao, ao afirmar que Deus fechou tudo como em uma prisão, demonstra que Deus é uno e que está acima da matéria. Quanto a Lisis e Opsimo, um defende a Deus como o número inefável, o outro como a diferença entre o número máximo e seu contíguo. Ora, conforme os pitagóricos, o número máximo é o dez, pois é tetractys ou quaternário e compreende todas as proporções aritméticas e harmônicas, e o contíguo a este é o nove. Portanto, Deus é a mônada, isto é, uno, pois supera por um o maior em relação ao seu contíguo inferior.
Platão e Aristóteles - aviso, antes de tudo, que não tenho a intenção de expor com absoluto rigor as doutrinas dos filósofos, ao citar o que disseram a respeito de Deus; com efeito, sei o quanto superais a todos por vossa inteli gência e o poder de vosso império, também sais versados em cada uma das partes da ciência, como não o são nem os que se reservaram uma só delas; todavia, como, sem citar nomes, era impossível demonstrar que não somos apenas nós que encerramos Deus na mônada, recorri aos florilégios ou coleções de sentenças. Platão, portanto, diz o seguinte: “Ao Criador e Pai de todo o universo não só é difícil encontrá-lo, mas, uma vez encontrado, é difícil manifestá-lo a todos”, dando a entender que o Deus incriado e eterno é um. É certo que ele conhece outros, como o sol, a lua e as estrelas, mas conhece-os como seres criados: deuses de deuses, de que eu sou o artífice, e pai de obras que, se eu não quiser, não são desatáveis, pois tudo o que é atado é desatável”. Portanto, se Platão não é ateu, por entender que o artífice do universo é um só Deus incriado, muito menos o somos nós, por saber e afirmar o Deus, por cujo Verbo tudo foi fabricado e por cujo Espírito tudo é mantido. Aristóteles e sua escola, que introduzem um só Deus como uma espécie de animal composto, dizem que Deus é composto de alma e corpo e consideram como seu corpo o éter, as estrelas errantes e a esfera das estrelas fixas, tudo movido circularmente; e consideram a alma como a inteligência que dirige o movimento do corpo, sem que ela própria se mova, sendo ela, em troca, a causa do movimento. Quanto aos estóicos, embora nos nomes multipliquem o divino nas denominações que lhe dão, conforme as mudanças da matéria, na realidade conside ram Deus como uno. Com efeito, se Deus é o fogo artificio so, que marcha por um caminho para a geração do mundo e compreende em si todas as razões seminais, segundo as quais tudo se produz conforme o destino, e se o espírito de Deus penetra o mundo inteiro, Deus é uno, segundo eles; e chama-se Zeus, se olha o fervor da matéria; ou Hera, se o ar; e daí por diante, conforme cada parte de matéria, por onde penetra abrir para outros nomes que apontam.

Capítulo VII
De qualquer forma, tratando dos princípios do universo, todos geralmente, até contra a sua vontade, estão de acordo em que o divino é uno, e nós afirmamos que quem ordenou todo o universo, esse é Deus. Portanto, qual é o motivo pelo qual se permite que uns possam dizer e escrever livremente sobre Deus, conforme queiram, e, por outro lado, haja uma lei estabelecida contra nós, justamente nós, que podemos estabelecer por sinais e razões de verdade o que entendemos e retamente cremos, isto é, que Deus é uno? Com efeito, os poetas e filósofos, aqui como em outros lugares, procederam por conjecturas, movidos conforme a simpatia do sopro de Deus, cada um por sua própria alma, a buscar se era possível encontrar e compreender a verdade. E só conseguiram entender, mas não encontrar o ser, pois não se dignaram aprender de Deus sobre Deus, mas cada um de si mesmo. Então, cada um dogmatizou a seu modo, não só a respeito de Deus, mas sobre a matéria, as formas e o mundo. Nós, porém, sobre o que entendemos e cremos, temos como testemunhas os profetas que, movidos pelo Espírito divino, falaram sobre Deus e as coisas de Deus. Ora, vós mesmos, que por vossa inteligência e vossa pie-dade em relação ao verdadeiramente divino ultrapassais a todos, direis que é irracional aderir a opiniões humanas, abandonando a fé no Espírito de Deus, que moveu, como seus instrumentos, as bocas dos profetas.

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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

39 - Militão de Sardes (†177) Homilias


39
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Militão de Sardes (†177)
Homilias

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1. Homilia de Páscoa: «Magoado com a dureza dos seus corações»

É Ele o cordeiro sem voz, é Ele o cordeiro imolado, Ele que nasceu de Maria, a cordeira cheia de graça. Ele é o que foi retirado do rebanho para ser conduzido ao matadouro...
Ele foi conduzido à morte. Onde? No coração de Jerusalém. Porquê ? Porque tinha cuidado dos seus coxos, purificado os seus leprosos, devolvido a luz aos seus cegos e ressuscitado os seus mortos (Lc 7,22). Eis a razão por que sofreu. Está escrito na Lei e nos profetas: “Pagaram-me o mal pelo bem. A minha alma vive o abandono; meditaram o mal contra mim. Prendamos o justo, diziam ele, porque nos é odioso” (Sl 37,21 ; Jr 11,19).
Porque cometeste este crime sem nome? Desonraste aquele que te tinha honrado, humilhaste o que te tinha exaltado, renegaste aquele que te tinha reconhecido, rejeitaste o que te tinha chamado, mataste aquele que te dava a vida... Era preciso que ele sofresse, mas não por ti. Era preciso que fosse julgado, mas não por ti. Era preciso que fosse crucificado, mas não pelas tuas mãos. Porque não rezaste a Deus esta oração: “Ó Senhor, se é preciso que o teu filho sofra, se é essa a tua vontade, que ele sofra, mas não por mim”.

2. Homilia de Páscoa: «O mistério da Páscoa: a novidade do Verbo encarnado»

Sobre a Páscoa
Foi lida a Escritura a respeito do êxodo hebreu, foram explicadas as palavras do mistério: como a ovelha foi imolada e o povo foi salvo.
Compreendei, pois, caríssimos! É assim
novo e antigo,
eterno e temporal,
corruptível e incorruptível,
mortal e imortal
o mistério da Páscoa:
antigo segundo a Lei,
novo segundo o Verbo;
temporal na figura,
eterno na graça;
corruptível pela imolação da ovelha,
incorruptível pela vida do Senhor;
mortal pela sepultura, na terra,
imortal pela ressurreição dentre os mortos.
Antiga a Lei, novo o Verbo;
temporal a figura, eterna a dádiva;
corruptível a ovelha, incorruptível o Senhor,
o qual, imolado como cordeiro, ressurgiu como Deus.
Pois, como a ovelha, foi levado ao matadouro,
mas não era ovelha;
como o cordeiro, não abriu a boca,
mas não era cordeiro.
Passou a figura, persiste a realidade.
Em vez do cordeiro, Deus presente,
em vez da ovelha, um homem,
e neste homem, Cristo,
aquele que sustém todas as coisas.
Assim, o sacrifício da ovelha,
e a solenidade da Páscoa,
e a letra da Lei,
cederam lugar ao Cristo Jesus,
por causa do qual tudo sucedera na antiga Lei,
e muito mais sucede na nova disposição.
Pois a Lei se converteu em Verbo,
o antigo em novo,
ambos saídos de Sião, e de Jerusalém.
O mandamento se converteu em dádiva,
a figura em realidade,
o cordeiro em Filho,
a ovelha em homem,
o homem em Deus.
Com efeito, aquele que nascera como Filho,
e fora conduzido como cordeiro,
sacrificado como ovelha,
sepultado como homem,
ressuscitou dentre os mortos como Deus,
sendo por natureza Deus e homem.
Ele é tudo:
enquanto julga, é lei;
enquanto ensina, Verbo;
enquanto gera, pai;
enquanto sepultado, homem;
enquanto ressurge, Deus;
enquanto gerado, Filho;
enquanto padece, ovelha;
ele, Jesus Cristo,
a quem seja dada a glória pelos séculos. Amém.
Tal é o mistério da Páscoa,
como foi descrito na Lei
e como o acabamos de ler.

3. Homilia: As figuras do Antigo Testamento,
suplantadas pela realidade do Novo.

A salvação do Senhor e a realidade
foram prefiguradas no povo ( judeu),
as prescrições do Evangelho prenunciadas pela Lei.
O povo era como o esboço de um plano,
a Lei como a letra de uma parábola;
mas o Evangelho é a explicação da Lei e seu cumprimento,
e a Igreja o lugar onde isso se realiza.
O que existia como figura era valioso
antes que ocorresse a realidade,
maravilhosa a parábola antes que viesse a explicação.
O povo tinha seu valor antes que se estabelecesse a Igreja,
Lei era admirável antes que refulgisse o Evangelho.
Mas quando surgiu a Igreja e se apresentou o Evangelho,
esvaziou-se a figura, sua força passou para a realidade,
a Lei se cumpriu, transfundiu-se no Evangelho...
O povo perdeu razão de ser quando veio a Igreja,
a imagem se fez abolida quando apareceu o Senhor.
O que antes era valioso perdeu seu valor,
frente à manifestação do que era realmente valioso por natureza.
Valioso era antes o sacrifício da ovelha,
agora perdeu o valor, por causa da vida do Senhor.
Valiosa era a morte da ovelha,
agora perdeu o valor, por causa da salvação do Senhor.
Valioso era o sangue da ovelha,
mas perdeu o valor, por causa do Espírito do Senhor.
Valioso era o cordeiro que não abria a boca,
mas perdeu o valor, por causa do Filho sem mácula.
Valioso era o templo terreno,
mas perdeu o valor, por causa do Cristo celeste.
Valiosa era a Jerusalém de baixo,
mas perdeu o valor, por causa da Jerusalém do alto.
Valiosa era a pequena herança,
mas perdeu o valor por causa da amplitude do dom.
Porque não foi em parte alguma da terra,
em nenhuma faixa estreita da terra
que se estabeleceu a glória de Deus,
e sim por todos os confins se derramou seu dom,
em toda parte armou sua tenda o Deus onipotente.
Por Jesus Cristo,
a quem seja dada glória pelos séculos. Amém.


4. Homilia: O Pecado do Homem
Deus, no princípio,
tendo criado pelo Verbo o céu,
a terra e tudo o que neles se encerra,
modelou do barro o homem
e comunicou-lhe seu sopro.
Colocou-o em seguida num jardim
voltado para o Oriente, o Eden,
para que ali vivesse feliz.
E deu-lhe um mandamento...
Mas o homem,
sendo por natureza capaz do bem e do mal,
como uma porção de terra
capaz de receber sementes boas e más,
escutou ao conselheiro hostil
e, tomando o fruto da árvore,
transgrediu o mandamento,
desobedeceu a Deus.
Por conseguinte,
foi deixado neste mundo,
como numa prisão de condenados.
Após muitos anos
e após gerar numerosa prole,
voltou à terra,
de cuja árvore colhera o fruto,
legando a seus filhos esta herança...
não a pureza, mas a luxúria,
não a imortalidade, mas a corrupção,
não a honra, mas a desonra,
não a liberdade, mas a escravidão,
não a realeza, mas a tirania,
não a vida, mas a morte,
não a salvação, mas a perdição.
Nova e terrível tornou-se a ruína dos homens sobre a terra.
Eis o que lhes aconteceu:
foram tiranizados pelo pecado,
e levados a lugares de concupiscência,
para viverem assaltados por prazeres insaciáveis,
pelo adultério, a fornicação, a impureza,
os maus desejos, a cobiça,
os homicídios, o derramamento de sangue,
a tirania da maldade e da injustiça.
Era o pai lançando a espada contra o filho,
o filho erguendo a mão contra o pai,
o ímpio golpeando a lactante,
o irmão ferindo o seu irmão,
o hospedeiro injuriando o hóspede,
o amigo assassinando seu amigo,
o homem degolando o semelhante.
Todos se transformaram na terra em homicidas,
fratricidas, parricidas, infanticidas...
E com isso exultava o Pecado:
colaborador da Morte,
precedia-a nas almas dos homens
e preparava-lhe como alimento os corpos mortos.
Imprimia em toda alma sua marca,
para fazer morrer os que a traziam.
Toda carne, pois, caiu sob o pecado,
e todo corpo sob a morte.
Toda alma foi arrancada de sua morada de carne
e o que foi tirado da terra se dissolveu na terra,
o que foi dado por Deus se encarcerou no Hades.
Estava destruída a bela harmonia,
desfeito o belo corpo.
O homem dividido sob o poder da morte,
estranha desgraça a aprisioná-la:
Era arrastado como cativo pelas sombras da morte,
jazia abandonada a imagem do Pai.
Eis a razão por que se cumpriu o mistério da Páscoa
no corpo do Senhor.


5. Homilia: O Desígnio Salvador em Cristo
O Senhor havia ordenado de antemão seus próprios padecimentos nos patriarcas, nos profetas e em todo o povo, pondo como seu selo a Lei e os profetas. Pois o que devia realizar-se de modo inaudito e grandioso estava preparado desde muito, a fim de que ao suceder fosse crido, depois de tão vaticinado (...)
Antigo e novo o mistério do Senhor:
antigo na figura, novo no dom.
Se vês a figura,
verás a realidade ao longo de sua atuação.
Se queres contemplar o mistério do Senhor
verás Abel, assassinado como ele,
Isaac, aprisionado como ele,
José, vendido como ele,
Moisés, exposto como ele,
Davi, perseguido como ele,
os profetas padecendo como ele e por causa dele.
Contempla também o cordeiro degolado na terra egípcia,
que abateu o Egito e salvou a Israel por seu sangue (...)
Aquele que veio dos céus à terra por causa do homem que sofria,
e se revestiu do homem nas entranhas de uma Virgem,
aparecendo como homem.
Aquele que assumiu os sofrimentos de quem sofria,
tomando um corpo capaz de sofrer,
aquele que anulou os sofrimentos da carne,
destruindo com seu espírito imortal a morte homicida (...)
Aquele que nos tirou da escravidão para a liberdade,
das trevas para a luz,
da morte para a vida,
da tirania para o reino eterno.
Que fez de nós um sacerdócio novo
e um povo escolhido para sempre,
Ele, a Páscoa de nossa salvação...
Ele, que se encarnou numa Virgem,
se deixou suspender na cruz,
foi sepultado na terra,
ressuscitou dos mortos,
foi arrebatado aos céus.
Ele, o cordeiro emudecido,
o cordeiro imolado,
nascido de Maria, a ovelha bela,
o cordeiro levado do rebanho ao matadouro,
sacrificado à tarde, sepultado à noite.
Não lhe quebraram os ossos no madeiro,
na terra não sofreu a corrupção,
mas ressurgiu dentre os mortos,
ressuscitou o homem das profundezas do sepulcro.
Ele, entregue à morte.
Onde?
No meio de Jerusalém.
Por que?
Porque curou os coxos,
purificou os leprosos,
trouxe a luz aos cegos,
despertou os mortos.
Por isto padeceu...
Por que cometeste, ó Israel, tão grande injustiça,
entregando teu Senhor a tais sofrimentos,
ele, teu amo,
ele, que te plasmou,
te criou,
te honrou,
te chamou Israel?
Não te mostraste" Israel" pois não viste a Deus,
não reconheceste o Senhor,
não soubeste ser ele o primogênito de Deus,
aquele que foi gerado antes da estrela matutina,
aquele que fez brotar a luz,
fez brilhar o dia,
separou as trevas,
firmou o primeiro fundamento,
suspendeu a terra,
secou o abismo,
estendeu o céu,
organizou o mundo,
dispôs no alto os astros,
fez resplandecer as estrelas,
fez os anjos celestiais,
fixou nas alturas os tronos,
modelou na terra o homem!
Ele, o que te escolheu e te guiou de Adão a Noé,
de Noé a Abraão,
de Abraão a Isaac, a Jacó e aos patriarcas;
aquele que te conduziu ao Egito e te protegeu e sustentou,
que iluminou teu caminho com a coluna de fogo,
te ocultou sob a nuvem,
e dividiu o mar Vermelho para atravessares suas águas.
Que dispersou teu inimigo,
te deu o maná do alto,
e a água da pedra.
Que te deu a Lei em Horeb,
e te fez herdar a terra,
que te enviou os profetas.
Verdadeiramente é amarga
conforme está escrito:
"Comereis pães ázimos com ervas amargas".
Amargos para ti os cravos que afiaste,
amarga a língua que aguçaste,
amargas as falsas testemunhas que propuseste,
amargas as cordas que preparaste.
amargos os açoites que descarregaste,
amargo para ti foi Judas, a quem pagaste,
amargo Herodes a quem obedeceste,
amargo Caifás, em quem confiaste,
amargo o fel que ofereceste,
o vinagre que cultivaste,
amargos os espinhos que ajuntaste,
amargas as mãos que ensanguentaste.
Entregaste teu Senhor à morte, no meio de Jerusalém...
O triunfo de Cristo
Ele, o Senhor, revestido do homem,
padecente pelo homem que sofria,
atado pelo homem prisioneiro,
julgado em prol do culpado,
sepultado pelo que jazia na terra,
ressurgiu dentre os mortos e clamou em alta voz:
"Quem se levantará em juízo contra mim?
Venha defrontar-se comigo!
Eu libertei o condenado,
vivifiquei o morto,
reergui o sepultado.
Quem me irá contradizer?
Eu, o Cristo, destruí a morte,
triunfei do inimigo,
esmaguei o inferno,
rnanietei o forte,
arrebatei o homem para as alturas dos céus.
Eu, o Cristo!
Vinde, pois, famílias dos homens manchadas por pecados,
recebei o perdão dos pecados!
Pois sou vosso perdão,
eu, a Páscoa da salvação,
O cordeiro imolado por vós,
a vossa redenção,
a vossa vida,
a vossa ressurreição,
a vossa luz,
a vossa salvação,
o vosso rei.
Eu vos elevarei à sublimidade dos céus,
e vos mostrarei o Pai que existe desde os séculos,
vos ressuscitarei por minha destra".
A Ele, o Cristo,
o Alfa e o Omega,
o Começo e o Fim,
o Inenarrável Começo,
o Incompreensível Fim,
o Rei,
a Ele, Jesus,
o Chefe,
o Senhor,
O que ressurgiu dentre os mortos,
O que está assentado à direita do Pai,
O que conduz ao Pai e é conduzido pelo Pai,
a Ele, glória e poder pelos séculos. Amém.

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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

38 - Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra Militão de Sardes (†177) Introdução

38
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Militão de Sardes (†177)
Introdução

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No fim do segundo século, conforme mostra a obra História Eclesiástica, de Eusébio de Cesaréia, Polícrates de Éfeso enviou a Roma uma carta na qual defendia a observância da “Páscoa no décimo quarto dia, segundo o evangelho, sem nenhuma transgressão, mas conformando-se à regra da fé”.
De acordo com essa carta, Melito — bispo de Sardes, em Lídia — era um dos que defendia o dia 14 de nisã como a data a ser observada.
A carta afirmava que os contemporâneos de Melito o consideravam um dos ‘grandes luminares que adormeceram na morte’. Polícrates disse que Melito não se casou e “viveu inteiramente sob o Espírito Santo e repousa em Sardes, esperando a visita do Senhor que virá dos céus, quando ressuscitará dos mortos”.
Melito foi um homem corajoso e determinado. De fato, ele escreveu uma Apologia dos cristãos — uma das primeiras de que há registro — dirigida a Marco Aurélio, imperador romano de 161 EC a 180 EC.
Ele não tinha medo de defender o cristianismo e de denunciar homens perversos e gananciosos. Esses homens procuravam obter várias ordens imperiais como desculpa para perseguir e condenar injustamente os cristãos, a fim de roubarem seus bens.
Melito corajosamente escreveu o seguinte ao imperador: “Nós te apresentamos apenas o pedido de tomares conhecimento primeiramente de quais são os invejosos e sentencieis de acordo com o direito se eles são merecedores de morte e suplício ou de salvação e tranquilidade. Se, porém, de ti não se originam essa decisão e esse novo edito, que nem mesmo conviriam contra bárbaros inimigos, postulamos com a maior insistência que não nos deixes entregues a essa pública rapina.”

Melito demonstrava muito interesse no estudo das Escrituras Sagradas. Embora não tenhamos uma lista completa de suas obras, os títulos de algumas delas revelam o interesse que ele tinha em assuntos bíblicos. Estes são alguns dos títulos: Da Maneira de Viver e das Profecias; A Fé do Homem; A Criação; O Batismo; A Verdade, a Fé e o Nascimento de Cristo; A Hospitalidade e a Chave; O Diabo e Apocalipse de João.
Fez questão de viajar para terras bíblicas a fim de pesquisar o número exato de livros das Escrituras Hebraicas. A respeito disso ele escreveu: “Tendo ido, portanto, ao Oriente e tendo estado até mesmo no lugar onde a Escritura foi anunciada e cumprida, tive exato conhecimento acerca dos livros do antigo Testamento. Levantei uma lista, que te envio.”
Essa lista não menciona os livros de Neemias e de Ester, porém, é o mais antigo catálogo dos livros canônicos das Escrituras Hebraicas em obras de professos cristãos.
Durante sua pesquisa, Melito compilou uma série de versículos, tirados das Escrituras Hebraicas, que contêm profecias acerca de Jesus.
A obra de Melito intitulada Éclogas mostra que Jesus era o muito esperado Messias e que a Lei mosaica e os Profetas apontavam para Cristo.

Era notória a forte presença judaica em cidades importantes da Ásia Menor. Os judeus de Sardes, onde Melito vivia, observavam a Páscoa hebraica em 14 de nisã. Melito escreveu um sermão, com o título A Páscoa, que mostrava a legitimidade da Páscoa segundo a Lei mosaica e defendia a observância cristã da Refeição Noturna do Senhor em 14 de nisã.
Depois de fazer comentários sobre o capítulo 12 de Êxodo e de mostrar que a Páscoa prefigurava o sacrifício de Cristo, Melito explicou que, uma vez que Deus já havia abolido a Lei mosaica, não fazia sentido os cristãos observarem a Páscoa.
Depois ele mostrou por que o sacrifício de Cristo era necessário: Deus colocou Adão num paraíso onde ele poderia viver feliz. Mas o primeiro homem desobedeceu à ordem de não comer da árvore do conhecimento do que é bom e do que é mau. Por isso, surgiu a necessidade de um resgate.
Melito reafirmou que Jesus havia sido enviado à Terra e morrido numa cruz para resgatar do pecado e da morte quem acreditasse nele. É interessante que Melito tenha usado a palavra grega xylon, que significa “madeiro”, ao escrever sobre a cruz em que Jesus morreu.
Melito não era conhecido apenas na Ásia Menor. Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes conheciam suas obras.
No entanto, o historiador Raniero Cantalamessa declara: “O declínio de Melito, que levou ao desaparecimento gradual das suas obras, começou quando os quartodecimanos (que guardavam o dia 14 de Nisa para comemorar a Páscoa) passaram a ser considerados hereges — depois que o costume de celebrar a Páscoa Dominical ficou estabelecido.”
Por fim, as obras de Melito desapareceram quase por completo.
Melito nos proveu com o que é possivelmente o mais antigo cânon cristão do Antigo Testamento conhecido, tendo viajado por toda a Palestina (e provavelmente à famosa biblioteca de Cesareia Marítima) tentando obter informações sobre este assunto.
O cânon de Melitão era este:
De Moisés, cinco livros: Gênesis, Êxodo, Números, Levítico e Deuteronômio; Josué (filho de Nun), Juízes, Rute; de Reis, quatro livros; de Crônicas, dois; de Salmos de Davi, de Provérbios de Salomão (Sabedoria) também, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Jó; de profetas: Isaías, Jeremias; dos doze profetas menores, um livro; Daniel, Ezequiel e Esdras.

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sábado, 10 de fevereiro de 2018

37 Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra Hipólito de Roma (160 - 235) Obra: Tradição Apostólica Partes 3 e 4

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37
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Hipólito de Roma (160 - 235)
Obra: Tradição Apostólica
Partes 3 e 4

I. A Comunhão dominical
No domingo pela manhã, o bispo distribuirá a comunhão, se puder, a todo o povo com as próprias mãos, cabendo aos diáconos partir do pão. Os presbíteros também poderão parti-lo. Quando o diácono apresentar a eucaristia ao presbítero, estenderá o vaso e o próprio presbítero o tomará e distribuirá ao povo pessoalmente. Nos outros dias, os fiéis receberão a eucaristia de acordo com as ordens do bispo.

II. O jejum
As viúvas e as virgens devem jejuar e orar freqüentemente pela Igreja. Os presbíteros e os leigos podem jejuar quando quiserem. O bispo, porém, não pode jejuar a não ser no dia em que todo o povo o faz, pois é possível que alguém queira levar algo até a igreja, não podendo ele recusar. Pois, se partir o pão, deverá prová-lo.

III. O Ágape
Caso o presbítero não esteja presente, o diácono dará, em casos de urgência, o sinal [signum] aos enfermos com cuidado. Após dar o necessário e receber o que for distribuído, dará graças e aí comerão. Todos aqueles que recebem algo devem dar com cuidado: se alguém receber algo para levar a uma viúva, um doente ou alguém que se dedique à Igreja, devem levá-lo no mesmo dia. Se não o fizer, deve levar no dia seguinte, acrescentando com algo de seu por ter permanecido na sua casa o pão dos pobres.

IV. A lucerna
No início da noite, com a presença do bispo, o diácono trará a lucerna e aquele, de pé no meio de todos os fiéis presentes, dará graças. Primeiramente, fará a saudação, dizendo: ─ O Senhor esteja convosco! O povo responderá: ─ E com o teu espírito! [Dirá:] ─ Demos graças ao Senhor! E responderão: ─ É digno e justo. A Ele convém a grandeza e a exaltação com a glória. Não dirá: "Corações ao alto", porque já o faz no Sacrifício, mas orará da seguinte forma: ─ Graças te damos, Senhor, pelo teu Filho Jesus Cristo Nosso Senhor, pelo qual nos iluminaste, revelando-nos a luz incorruptível. Atingindo agora o fim do dia e chegando a noite, tendo-nos saturado a luz do dia que criaste para nos saciar, e não carecendo agora da luz da tarde pela tua graça, louvamos-te e glorificamos-te, pelo teu Filho Jesus Cristo Nosso Senhor, por quem a ti a glória, o poder e a honra, com o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém. Responderão todos: ─ Amém. Terminada a Ceia, de pé, todos orarão e os meninos e as virgens entoarão salmos. A seguir, o diácono, ao receber o cálice preparado do sacrifício, entoará um desses salmos que possui a palavra "Aleluia". Se o presbítero ordenar, entoará outro salmo do mesmo tipo. Depois que o bispo oferecer o cálice, dirá um dos que a este se referem, tudo com "Aleluia", e todos repetirão. Recitando-os, repetirão sempre "Aleluia", que significa "louvamos Aquele que é Deus", ou também “Glória e louvor Àquele que criou o Universo somente pelo Verbo”. Concluído o salmo, o bispo abençoará o cálice e distribuirá os pedaços de pão aos fiéis.

V. A Ceia
Os fiéis presentes, durante a Ceia, antes de cortarem o seu próprio pão, receberão das mãos do bispo o pedaço de pão que é uma eulogia, e não a Eucaristia, Corpo do Senhor. É preciso que todos tomem o cálice e rendam graças sobre ele antes de beberem. Portanto, com pureza, comam e bebam. Aos catecúmenos será dado o pão de exorcismo e oferecido um cálice. O catecúmeno não participará da Ceia do Senhor. Durante todo o Sacrifício, aquele que se serve deve ser digno de quem o convidou, pois para isso foi chamado a entrar sob o seu teto. Agora, quando comerdes e beberdes, fazei-o com dignidade e não com irresponsabilidade, para que ninguém fique zombando ou para que aquele que te convidou não se entristeça com a vossa afronta, esperando ser digno que os santos entrassem em sua casa porque, diz “vós sois o sal da terra”. Se alguém oferecer a todos aquilo que se chama em grego “apoforeton”, aceitai a vossa parte. Porém, se fordes convidado a comer, fazei-o de forma a sobrar, para que todos comam o suficiente e para que aquele que vos convidou possa mandar algo a quem quiser, como sobras dos santos, e fique feliz com a vossa atenção. Comendo, sirvam-se em silêncio os convidados, sem discussões, falando somente o que for permitido pelo bispo, respondendo-lhe se perguntar algo. Ao falar o bispo, calem-se todos, com discrição e respeito, até que ele volte a fazer perguntas. Se os fiéis comparecerem à Ceia sem o bispo, com a presença de um presbítero ou um diácono, deverão comer com a mesma dignidade e apressar-se a receber o pão bento da mão do presbítero ou diácono. Também o catecúmeno receba o pão do exorcismo. Reunindo-se leigos, procedam com prudência, pois um leigo não pode conferir o pão bento. Comam todos em nome do Senhor, pois agrada a Deus quando todos, iguais e sóbrios, somos ciosos do nosso comportamento, mesmo entre os gentios. As viúvas convidadas para a ceia devem ser de idade madura e devem ser dispensadas antes do final da tarde. Quem não puder convidá-las por causa do cargo que exercem, deve dispensá-las após dar-lhes alimento e vinho que tomarão em casa da forma que lhes agradar.

VI. Frutos oferecidos ao Bispo
Todos devem se apressar a trazer os primeiros frutos da estação ao bispo. Este irá oferecê-los e abençoá-los e, citando quem os oferece, dirá: ─ Graças te damos, ó Deus, e te oferecemos as primícias dos frutos que nos deste para que os tomemos, nutrindo-os pelo teu Verbo, ordenando à terra que os produza com alegria o alimento dos homens e de todos os animais. Por causa disso tudo, te louvamos, ó Deus, e também por tudo que nos proporcionaste, provendo para nós toda a criação dos mais diversos frutos. Por teu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, por quem a ti a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

VII. Bênção dos frutos
Os frutos que podem ser abençoados são a uva, o figo, a romã, a azeitona, a pêra, a maçã, a amora, o pêssego, a cereja, a amêndoa e os damascos. Não podem [ser abençoados] a melancia, o melão, os pepinos, a cebola, o alho ou qualquer outro legume. Pode-se oferecer, às vezes, flores: rosas e lírios, mas não outras. E, sobre todas as coisas, os que as recebem deem graças ao santíssimo Deus, para a sua Glória.

VIII. O jejum de Páscoa
Na Páscoa, ninguém coma antes de se fazer o Sacrifício, pois quem assim proceder não terá seu jejum considerado. Se uma mulher estiver grávida ou não se sentir bem, não podendo jejuar durante os dois dias, jejue pelo menos no sábado, já que é necessário; mas será um jejum de pão e água. Se alguém, por algum problema, se esquecer da Páscoa, jejue após a Quinquagésima. A imagem passou, cessando no segundo mês, mas todo aquele que tiver aprendido a Verdade deverá jejuar.

IX. Os diáconos trabalham com o Bispo
Que cada diácono, com seus subdiáconos, executem suas tarefas junto ao bispo. Também lhes serão recomendados os doentes, para que os visitem, caso seja de agrado do bispo, pois o doente sempre se alegra quando o chefe dos sacerdotes dele se lembra.

X. A oração
Os fiéis de Deus devem orar assim que acordarem e levantarem, antes de tocar qualquer coisa. Somente depois disso é que devem sair para o trabalho. Contudo, se houver instrução pela Palavra, que prefiram ouvir a Palavra de Deus, pois esta é o consolo da alma, e se apressem a ir à Igreja, onde o Espírito floresce.

XI. Comunhão diária
Que todo fiel corra a receber a Eucaristia antes de experimentar qualquer outra coisa. Se receber por causa de sua fé, não se prejudicará, mesmo sendo o homem mortal. Todos devem se esforçar para não permitir que o infiel prove a Eucaristia, nem um rato ou outro animal. Deve-se cuidar para que dela não caia uma migalha e se perca, pois ela é o Corpo de Cristo que deve ser comido pelos fiéis e não pode ser negligenciado. Consagrado o cálice em nome de Deus, que recebestes como a imagem do Sangue de Cristo, não queirais derramá-lo. Que o espírito hostil não venha lambê-lo, desprezando-o, pois serias culpado para com o Sangue, como quem despreza o valor pelo qual foi comprado.

XII. Reunião do Clero
Os diáconos e os presbíteros deverão se reunir diariamente no local determinado pelo bispo. Não se deixem de reunir a menos que a doença impeça. Reunindo-se todos, ensinem os que estão na igreja e, após a oração, dirija-se cada um ao seu trabalho.

XIII. Os cemitérios
Que ninguém encontre dificuldades para sepultar o irmão nos cemitérios, já que estes pertencem aos pobres. Porém, pague-se o salário ao coveiro, bem como o preço dos tijolos. O bispo deve sustentar guardas e zeladores para que nenhuma taxa seja cobrada àqueles que procuram os cemitérios.

XIV. A oração (II)
Todo fiel, homem ou mulher, ao acordarem, lavem as mãos e rezem a Deus antes de tocar qualquer coisa. Só após isto, dirijam-se ao trabalho. Havendo instrução da Palavra de Deus, prefiram encaminhar-se ao local recordando que, na verdade, estão ouvindo a Deus na pessoa daquele que prega. Todo aquele que orar na Igreja vencerá a maldade do dia; aquele que teme a Deus considerará um grande mal não ter ido à instrução, principalmente se souber ler ou sabendo que o catequista estava presente. Que nenhum de vós se atrase para ir à igreja, lugar onde se ensina! Ao que fala, será concedido dizer o que é útil a cada um. Ouvirás coisas nas quais não imaginas e tirarás proveito do que o Espírito Santo vos disser pelo catequista. Vossa fé será reforçada com aquilo que ouvirdes. Aí também será dito o que deveis fazer em casa. Por isso, cada um deve se preocupar em ir à Igreja, onde o Espírito Santo floresce. Nos dias em que não houver instrução, cada um em sua casa tome o Santo Livro e leia o que lhe parecer proveitoso. Se estiverdes em casa, orai e bendizei a Deus na hora terceira ( 9 horas). Se estiverdes num outro local, orai a Deus no coração, pois foi nessa hora que Cristo se viu pregado no madeiro. Também por essa razão, a Lei do Antigo Testamento prescreve que se ofereça o pão da proposição, como imagem do Corpo e Sangue de Cristo, e a imolação do Cordeiro, como imagem do Cordeiro perfeito: Cristo é o Pastor e o Pão que desceu do céu. Orai, igualmente, na hora sexta (12 horas) pois, quando Cristo foi pregado na cruz, o dia se dividiu e as trevas surgiram. Nessa hora, todos orarão uma oração fervorosa, imitando a voz Daquele que, ao orar, cobriu de trevas toda a Criação perante os judeus incrédulos. Façam, ainda, uma grande prece exaltando o Senhor por volta da hora nona (15 horas), para sentirem como a alma dos justos glorifica a Deus, que não é mentiroso e lembra dos seus santos, enviando seu Verbo para iluminá-los. Foi nessa hora que Cristo, ferido no lado, verteu água e sangue, e iluminou o resto do dia até o final da tarde. Começando a dormir, Cristo originou o dia seguinte e concluiu a imagem da ressurreição. Orai ainda antes de dormir. Por volta da meia-noite, levantai, lavai as mãos com água e orai. Se vossa mulher estiver presente, ore ambos; se ainda não for batizada, retirai-vos para outro quarto, orai e voltai para a cama. Não hesitai, porém, de orar, pois aquele que se encontra casado não está manchado. Em verdade, os que já tomaram banho não precisam tomar outro pois encontram-se limpos. Fazei o sinal da cruz com o sopro úmido, recolhendo a saliva com a mão, e o vosso corpo será purificado até os pés, pois o dom do Espírito e a água do banho, oferecidos por um coração puro como se saíssem de uma fonte, purificam todo aquele que crê. Assim, é necessário orar nesse momento. Os antigos, que nos deixaram a Tradição, ensinaram-nos que nessa hora toda criatura descansa um momento para louvar o Senhor. Até mesmo as estrelas, as árvores e as águas param por um instante e, com toda a milícia dos anjos que servem a Deus, e junto com as almas dos justos, glorificam a Deus. Por esse motivo, todos os que creem devem se apressar para orar nessa hora. Para dar testemunho disso, assim diz o Senhor: "Eis que por volta da meia noite ouviu-se o clamor dos que diziam: 'Aí vem o Noivo. Saiam ao seu encontro'. E concluiu, dizendo: 'Vigiai, pois não sabeis a hora em que Ele virá'". Quando o galo cantar, levantai e orai, pois nessa hora, ao cantar do galo, os filhos de Israel negaram a Cristo, que conhecemos pela fé, confiantes na esperança da eterna luz da ressurreição dos mortos; temos os olhos fixos nesse dia. Fiéis: procedendo dessa forma, respeitando a Tradição, instruindo-vos mutuamente e exortando os catecúmenos, não sereis tentados nem perecereis, pois o Cristo estará sempre presente na lembrança.

XV. O Sinal da Cruz
Durante a tentação, fazei piedosamente na fronte, o Sinal da Cruz, pois este é o sinal da Paixão, reconhecidamente provado contra o demônio, desde que feito com fé e não para vos exibir diante dos homens, servindo eficazmente como um escudo. O Adversário, vendo quão grande é a força que sai do Coração do homem que serve o Verbo (pois mostra o sinal interior do Verbo projetado no exterior), fugirá imediatamente, repelido pelo Espírito que está no homem. Era isso que o profeta Moisés representava através do cordeiro morto na Páscoa e ensinava ao aspergir o sangue nos batentes das portas: simbolizava a fé que agora se encontra em nós, ou seja, a fé no Cordeiro perfeito. Ora, persignando-nos na fronte e nos olhos com a mão, afastamos tudo aquilo que tenta nos destruir.

PARTE 4: FINAL
Se estes ensinamentos forem recebidos com gratidão e Fé ortodoxa, permitirão a edificação da Igreja e a Vida eterna àqueles que crerem. Aconselho que [estes ensinamentos] sejam guardados por todos que tiverem o coração puro. Se todos ouvirem e seguirem a Tradição dos Apóstolos, nenhum herege (nenhum mesmo!) poderá vos afastar do reto Caminho. Na verdade, muitas heresias se desenvolveram porque os chefes não quiseram aprender a Doutrina dos Apóstolos mas, seguindo a própria fantasia, fizeram o que quiseram, isto é, o que não deveriam fazer. Amados, se omitimos algo, Deus revelará [a Verdade] aos que forem dignos, dirigindo a Igreja para que atraque no porto da Paz.

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