quarta-feira, 5 de agosto de 2020

144 - Cipriano de Cartago (210-258) A Conduta das Virgens – 5 a 7

Publicada Instrução sobre a Ordo virginum - Província Carmelitana ...

144

Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra

Cipriano de Cartago (210-258)

A Conduta das Virgens – 5 a 7

 


5. A inconveniência de certos ornamentos

O luxo de ornamentos e vestes e a sedução das for mas só convêm às prostitutas e às mulheres impudicas, e ordinariamente não há vestes mais preciosas do que as daquelas cujo pudor é vil. Assim, as Sagradas Escrituras, pelas quais o Senhor quis instruir-nos e admoestar-nos, descrevem a cidade meretriz ricamente ornada e ataviada, destinada a perecer com os seus atavios, ou, antes, por causa deles: “E veio um dos sete

anjos que tinham as sete taças, e se aproximou de mim dizendo: Vem, que te mostrarei a condenação da grande meretriz sentada à beira das grandes águas, com a qual praticaram luxúrias os reis da terra. E conduziu-me em espírito, e vi uma mulher montada numa fera. E a mulher estava revestida de um manto purpúreo e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas, trazendo na mão uma taça de ouro repleta das abominações, da imundície e da fornicação de toda a terra”.[ Ap 17,1-4.]

As castas e modestas virgens fujam do luxo das impuras, do vestuário das impudicas, dos ornatos dos prostíbulos, dos enfeites das meretrizes. Também Isaías exclama, cheio do Espírito Santo, e repreende as filhas de Sião corrompidas pelo ouro, pela prata e pelas vestes, e censura as que possuem em abundância riquezas perniciosas, afastando-se de Deus pelos prazeres do século: “As filhas de Sião se elevaram e andaram com o pescoço emproado, fazendo aceno com os olhos, arrastando as túnicas com andar afetado, e ao mesmo tempo saltitando.

O Senhor humilhará as principais filhas de Sião e lhes arrebatará as vestes. O Senhor tirará a glória das suas vestes e os seus ornamentos, os seus cabelos, os seus cabelos anelados, as lúnulas, as fitas de cabelo, os braceletes, os toucados, as cadeias de ouro, os anéis, os brincos, os vestidos de festa tecidos de ouro e jacinto, e em lugar de cheiro suave, poeira, e por cinta te cingirás de corda e por ornamento áureo da cabeça terás a calvície”. [Is 3,16.]

Isto é o que Deus repreende, isto é o que indica: a corrupção delas consiste em todas essas coisas; é isso que ele declara; esse é o motivo de se afastarem do ornato verdadeiro e divino. Exaltadas, decaíram; pelos seus atavios, mereceram ignominiosa fealdade. Cobertas de seda e púrpura, não podem revestir-se do Cristo; adornadas de ouro, pérolas e joias, perderam os ornatos da alma e do coração.

Quem não abominaria e evitaria o que foi ruína para outros? Quem desejaria e tomaria [para si] o que foi para a morte de outras qual espada e seta mortal? Se depois de tomar uma bebida alguém morresse, saberias ser veneno o que bebeu; se, ao ingerir um alimento alguém sucumbisse, saberias ter sido mortal o que, uma vez recebido, pôde tirar a vida; não ousarias comer nem beber daquilo que, antes, viste matar a outros. Portanto, quanta ignorância da verdade, quanta loucura de espírito em querer o que sempre prejudicou e prejudica e julgar que não hás de perecer onde sabes terem outros encontrado a perdição.

Deus não fez as ovelhas escarlates ou purpúreas, nem ensinou a tingir e colorir a lã com o suco de ervas e púrpuras. Não ensinou a fabricar joias engastando no ouro pedras preciosas ou pérolas numa sucessão compacta e encadeadas por numerosas ligações, para ocultares a cabeça por ele criada, cobrindo-se o que formou no homem e ostentando-se, por cima, o que o demônio inventou. Porventura quis Deus que se fizessem incisões nas orelhas e que por meio delas se torturasse a infância inocente e ainda ignorante do mal deste mundo, a fim de que, em seguida, das cicatrizes e orifícios pendessem pedras preciosas, pesadas ainda que não pelo tamanho, mas pelo seu elevado preço?

Os anjos pecadores e apóstatas exibiram tudo isso por seus artifícios, quando, precipitados nos contágios terrestres, se afastaram da força celeste. Eles ensinaram a pintar os olhos contornando-os de preto, a colorir as faces com falso rubor, a metamorfosear a cabeleira por meio de coloridos falsificados e a destruir toda a verdade da boca e da cabeça pelo ataque de sua corrupção. Neste ponto, pelo temor que a fé nos sugere, pelo amor que a fraternidade exige, julgo dever exortar não só as virgens ou as viúvas, mas também as casadas e todas as [demais] mulheres a não corromperem de modo algum o trabalho de Deus, as suas obras e modelos, aplicando-lhes a cor loura, pó negro ou vermelho, ou qualquer preparado que falsifique os traços naturais.

Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”;[ Gn 1,26.] e alguém ousaria transformar e mudar o que Deus fez! Atacam ao próprio Deus quando se aplicam a reformar e transmutar o que ele formou, ignorando ser obra de Deus tudo o que é natural, e do demônio tudo o que é alterado. Se um artista fixasse numa a fisionomia de alguém, exprimindo adequadamente a [sua] aparência e os [seus] traços, e, uma vez terminado e pronto o trabalho, um outro resolvesse pôr a mão em seu quadro para reformar o que já fora delineado e pintado, como se fosse mais qualificado, essa ação pareceria um grave insulto ao primeiro artista e causa de justa indignação; e crês que cometerás impunemente a tão perversa e temerária audácia de teres ofendido ao Deus criador? Embora por tais disfarces sedutores não sejas impudica e impura em relação aos homens, és pior que uma adúltera, corrompendo, assim, e violando o que é de Deus.

O que pensas ser adorno, o que pensas ser enfeite é atentado contra a obra divina, é prevaricação da verdade. “Lançai fora o velho fermento, para que sejais uma massa nova, como sais ázimos. Porquanto o Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, portanto, a nossa festa, não no fermento velho, nem no fermento da malícia e da iniquidade, mas nos ázimos da sinceridade e da verdade”,[ 1Cor 5,7.] são as palavras de exortação do Apóstolo.

Porventura a sinceridade e a verdade persistem, quando o que é autêntico é maculado pela adulteração das cores, e o que é verdadeiro se transforma em mentira pelos disfarces dos preparados? O teu Senhor diz: “Não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo”.[ Mt 5,36.] E tu, para sobrepujar a palavra do Senhor, queres ser mais poderosa, ungindo os teus cabelos numa tentativa audaz e com desprezo sacrílego!

Com mau presságio do futuro, já vaticinas teus cabelos vermelho-fogo e pecas – ó crime – contra a tua cabeça, isto é, a parte mais nobre do corpo. Pois está escrito [a respeito] do Senhor: “Tinha a cabeça e os cabelos brancos como a lã ou a neve”;[ Ap 1,14.] e tu abominas as cãs, detestas a brancura que tem semelhança com a cabeça do Senhor! Tu que assim procedes, pergunto, não receias que, quando chegar o dia da ressurreição, o teu Criador não te reconheça? Que, quando vieres para receber os prêmios prometidos, ele te afaste e exclua?

Que, repreendendo-te com energia de censor e juiz, diga: “Isto não é minha obra, nem é nossa imagem”? Sujaste a cútis com falsos preparados, modificaste a cabeleira adulterando-lhe a cor, tua face foi vencida pelo disfarce, teu rosto foi poluído, tornou-se estranho o teu semblante.

Não poderás ver a Deus, porque os teus olhos não são os que Deus fez, mas os que o demônio desfez. Tu o seguiste, imitaste os vermelhos e tingidos olhos da serpente; ornada à custa do teu inimigo, arderás juntamente com ele. Tudo isso, pergunto, não deve ser pensado pelas servas de Deus? Não deve ser temido sempre, dia e noite? Vejam como as esposas, pelo zelo de agradar, se lisonjeiam com a satisfação do marido e, apresentando-o para sua desculpa, o associam à participação de um criminoso consentimento. Por certo, as virgens – a quem no momento se dirigem estas palavras – que se ataviam com tais artifícios não devem ser contadas entre as virgens.

Mas, como ovelhas contaminadas e animais doentes, devem ser afastadas do santo e puro rebanho da virgindade, para que não manchem as demais com seu contágio vivendo em comum, para que as que pereceram não percam as demais.

 

6. Frequentações inconvenientes

E uma vez que buscamos o bem da continência, evitemos tudo quanto lhe é contrário e pernicioso. Não omito aqueles usos que, introduzidos pelo relaxamento, usurparam o título de liceidade, embora contrários aos costumes sóbrios e modestos. A algumas [virgens] não causa vergonha estar entre os consortes e, naquela liberdade de conversações lascivas, travar colóquios torpes, ouvir palavras inconvenientes, dizer o que não é permitido, observar e presenciar discursos desonestos e festins licenciosos, nos quais se inflama o incentivo das paixões, em que a noiva é impelida à tolerância do defloramento e o noivo à petulância [de deflorá-la].

Haverá lugar em [tais] núpcias para aquela cujo propósito não são as núpcias? Ou, que prazer e alegria pode haver aí, quando tão diversos são os gostos e anelos? O que aí se aprende ou o que se vê? Quão mais impudica se retira aquela que chegara pura!

Embora possa permanecer virgem no corpo e no espírito, a virgindade que possuía diminui nos olhos, nos ouvidos e na língua. O que dizer das que frequentam banhos promíscuos, que expõem a olhos curiosos e sensuais os corpos consagrados ao pudor e à pureza? Quando algumas veem torpemente os homens [nus], e por eles são vistas despidas, não apresentam elas mesmas uma sedução para os vícios? Não solicitam e atraem para sua corrupção e desonra os desejos dos presentes? “Veja cada uma”, dizes, “com que disposição vai a tal lugar.

Quanto a mim, vou apenas refrescar e lavar o corpo”. Essa defesa não te purifica, nem desculpa o [teu] pecado de lascívia e descaramento. Essa ablução mancha, não lava; não limpa os membros, macula-os. Podes não olhar a ninguém impudicamente, mas és contemplada impudicamente pelos outros.

Podes não profanar teus olhos em vergonhoso deleite; contudo, te contaminas quando a outros divertes. Fazes do banho um espetáculo; vais a lugares mais indecorosos do que o teatro. Despe-se aí toda a vergonha; juntamente com a veste, se depõe a honra e o pudor do corpo; a virgindade se desnuda a fim de ser observada e contemplada. Considera agora se és pudica entre os homens quando estás vestida, tu a quem a audácia da nudez convida ao despudor.

Assim, pois, frequentemente a Igreja lamenta as suas virgens; assim chora as suas desacreditadas e detestáveis histórias. Assim se extingue a flor das virgens, desaparece a glória e o pudor da continência, é profanada toda honra e dignidade. Assim o inimigo conquistador se insinua por suas astúcias. Assim o demônio, às ocultas, se intromete com enganosas ciladas. Assim, querendo ornar-se com maior luxo, vaguear com mais liberdade, deixam de ser virgens – corrompidas por furtiva desonra, viúvas antes de serem desposadas, adúlteras não em relação ao marido, mas a Cristo – aquelas que tinham sido, como virgens, destinadas a imensas recompensas; e tão grandes suplícios hão de sofrer pela virgindade perdida.

 

7. Exortação à coerência

Ouvi-me, pois, ó virgens, como a um pai. Ouvi, eu vos rogo, aquele que vos reverencia e, ao mesmo tempo, vos admoesta. Ouvi a quem fielmente provê aos vossos interesses e vantagens. Sede tais como Deus criador vos fez. Sede tais como vos plasmou a mão do Pai. Permaneça em vós a face impoluta, a cabeça não adornada, a beleza sem artifício.

Não se abram chagas em vossas orelhas, nem a cadeia preciosa de pulseiras e colares vos aperte os braços ou o pescoço. Estejam os pés livres de áureos grilhões, não se tinjam os vossos cabelos, os olhos sejam dignos de contemplar a Deus. Frequentem-se os banhos em companhia de mulheres entre as quais o banho seja a modéstia para convosco.

Evitem-se as inconvenientes festas nupciais e os banquetes lascivos, cuja participação é perigosa. Tu que és virgem, sê superior às vestes. Tu que vences a carne e o mundo, vence

também o ouro. Não convém ser invencível nas coisas maiores e deixar-se superar nas menores. Áspero e estreito é o caminho que conduz à vida, dura e árdua a estrada que leva à glória.

Por essa trilha caminham os mártires, adiantam-se as virgens, seguem todos os justos. Evitai os caminhos largos, espaçosos, onde se encontram funestas seduções e mortíferos prazeres: aí o demônio lisonjeia para enganar, sorri para prejudicar, seduz para matar. O primeiro fruto, de cem [por um], é dos mártires; o segundo, de sessenta [por um], é o vosso.[ Cf. Mt 4,3-8.] Assim como não é próprio dos mártires pensar nem na carne nem no mundo, nem é pequeno ou fácil seu combate, assim entre vós, a quem é atribuído o segundo prêmio da graça, haja sempre força à altura do padecimento. Não é fácil a ascensão às grandes coisas.

Quanto suor, quanto trabalho nos custa quando tentamos subir as montanhas e galgar os cumes dos montes! Qual será, então, [o suor] para subirmos ao céu? Se consideras a recompensa prometida, tornar-se-á menor a fadiga. Aos perseverantes é concedida a imortalidade, prometida a vida eterna e oferecido o Reino pelo Senhor. Conservai, ó virgens, conservai o que começastes a ser; conservai o que sereis. Aguarda-vos grande recompensa, o prêmio sublime da virtude, o dom máximo da castidade.

Quereis saber de quanto mal está livre a virtude da continência e quanto bem encerra? “Multiplicarei”, diz Deus à mulher, “as tuas tristezas e os teus gemidos. Na tristeza darás filhos à luz, a paixão te fará buscar o teu esposo e ele te dominará”.[ Gn 3,16.] Quanto a vós, estais livres dessa sentença, não temeis as tristezas e os gemidos das mulheres e nenhum receio tendes pelo nascimento de filhos. Não tendes homem por marido, e, à semelhança e em vez de marido, tendes por Senhor e cabeça o Cristo, cuja sorte e condição partilhais. Esta é palavra do Senhor: “Os filhos deste mundo geram e são gerados.

Aqueles, porém, que forem julgados dignos do outro mundo e da ressurreição dos mortos não se casam nem contraem matrimônio. Nem poderão mais morrer. São iguais aos anjos de Deus, sendo filhos da ressurreição”.[ Lc 20,34-36.] O que seremos, vós já começastes a ser. Já possuís neste mundo a glória da ressurreição; atravessais o mundo sem o contágio do mundo. Perseverando castas e virgens, sois iguais aos anjos de Deus, contanto que a virgindade permaneça sempre intacta e ilesa; e continue sem cessar, com a mesma força do início; sem buscar ornamentos de joias ou de vestes, mas os dos [bons] costumes; contemple a Deus e o céu, e não abaixe para a concupiscência da carne e do mundo os olhos fixos no alto, nem os volva para as coisas terrenas.

O primeiro decreto [divino] mandou crescer e gerar; o segundo aconselhou a continência. Assim, enquanto o mundo ainda estava vazio e inculto, gerando, fomos propagados com copiosa fecundidade e crescemos para aumento do gênero humano. Agora, já que o orbe se acha povoado e o mundo repleto, os que podem assumir [o preceito da] incontinência, vivendo como eunucos, se castram para o Reino.[ Cf. Mt 19,10-12.]

O Senhor, todavia, não o ordena, mas exorta [a assumi-lo]; não o impõe como jugo forçado, visto que permanece o livre-arbítrio da vontade. Tendo, porém, declarado haver muitas moradas na casa de seu Pai,[ Cf. Jo 14,2.] aponta os aposentos da melhor mansão. Essas melhores mansões vós as buscais; reprimindo os desejos da carne, alcançais no céu prêmio de maior graça.

Com efeito, todos os que, pela santificação do batismo, chegam ao dom e à herança divinos, aí se despojam do velho homem pela graça do lavacro de salvação; e, renovados pelo Espírito Santo, purificam-se das máculas do antigo contágio num segundo nascimento. Mas a maior santidade e verdade desse novo nascimento cabem a vós, que já não tendes os desejos da carne e do corpo. Em vós só permaneceu o que se refere à virtude e ao Espírito para a glória.

É palavra do Apóstolo a quem o Senhor chamou instrumento de sua escolha,[ Cf. 2Cor 3,3] enviando-o a promulgar os celestes preceitos: “O primeiro homem”, diz ele, “vem do limo da terra, o segundo homem, do céu; qual o terrestre, tais são os homens terrestres, e qual o celeste, tais os celestes. Assim como trouxemos em nós a imagem do que é terrestre, assim também havemos de trazer a imagem do que é celeste”.[ 1Cor 15,47.]

A virgindade traz em si essa imagem, a integridade a guarda; reproduzem-na a santidade e a verdade; trazem-na em si aquelas que, lembradas da disciplina divina, observam a justiça unida à religião, firmes na fé, humildes no temor, fortes para tudo sofrer, mansas ao suportar as ofensas, propensas a usar de misericórdia, unânimes e concordes em paz fraterna. Deveis observar, amar e praticar cada uma dessas virtudes, ó boas virgens, que, progredindo para o Senhor, vos consagrastes a Deus e ao Cristo e vos antecipais [a nós] na maior e melhor parte.

As mais adiantadas em anos ensinem as mais jovens; as moças estimulem as suas companheiras. Inflamai-vos mutua mente com exortações; rivalizando em provas de virtude, animai-vos à glória. Perseverai corajosamente, progredi espiritualmente, alcançai o feliz termo. Lembrai-vos, porém, de nós, quando se revelar a glória da vossa virgindade.

 

·         O que destaco no texto?

·         Como este texto é útil para a minha espiritualidade?

 


terça-feira, 28 de julho de 2020

143 - Cipriano de Cartago (210-258) A Conduta das Virgens - 1 a 4


Santa Agnes, por Domenichino
Agnes de Roma (291-304)

143
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Cipriano de Cartago (210-258)
A Conduta das Virgens - 1 a 4


Introdução:
Talvez este tratado seja anterior a seu episcopado (248-249). O texto é uma exortação às consagradas a estarem atentas à vaidade e aos vícios pagãos. Uma verdadeira vida ascética manifesta-se no portar-se e no que se porta. A obra é inspirada no De cultu feminarum de Tertuliano.

1. Vantagens, utilidade e fim da disciplina
A disciplina, guarda da esperança, laço da fé, guia no caminho da salvação, incentivo e alimento da boa índole, mestra da virtude, faz permanecer no Cristo, viver sempre e continuamente para Deus, faz obter as promessas celestes e os prêmios divinos. Segui-la  é salutar; desviar-se dela, negligenciá-la, é mortal. Nos Salmos, diz o Espírito Santo: “Abraçai a disciplina, para que o Senhor não se ire, e não pereçais fora do caminho reto, quando daqui a pouco se incendiar contra vós a sua ira”.[ Sl 2,12.] E, de novo: “Mas ao pecador disse Deus: Por que falas tu dos meus mandamentos, e tens a minha aliança na tua boca? Tu que aborreces a disciplina e rejeitaste as minhas palavras”.[ Sl 50(49),16-17.]
E, mais uma vez, lemos: “É desgraçado aquele que rejeita a disciplina”.[ Sb 3,11.] Também de Salomão recebemos as [mesmas] recomendações de sabedoria: “Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor, nem caias no desânimo quando ele te castiga, porque o Senhor castiga aquele a quem ama”.[ Pv 3,11-12.] Por conseguinte, se Deus castiga a quem ama, e castiga para que se corrija, também os irmãos e, principalmente, os sacerdotes não odeiam, mas amam aqueles mesmos que estes castigam para que se emendem, visto que o próprio Deus, por Jeremias, prenunciou os nossos tempos, quando disse: “E vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com a disciplina”.[ Jr 3,15.]
Se a Sagrada Escritura frequentemente e em diversas passagens recomenda a disciplina, e se o fundamento da religião e da fé começa pela observância e pelo temor, que mais ardentemente desejar, que mais nos convém querer e possuir do que – lançando raízes mais profundas e consolidando as nossas moradas com forte edificação sobre a pedra – permanecermos inabaláveis diante das procelas e tempestades do século e alcançarmos os dons de Deus pela observância de seus preceitos?
Consideremos e reconheçamos que os nossos membros, purificados de todo vestígio do antigo contágio pela santificação do batismo vivificante, são templos de Deus, e que não nos é lícito violá-los ou maculá-los, pois quem os profana será também profanado. Somos os adoradores e os pontífices desses templos; sirvamos àquele de quem já começamos a ser propriedade.
Diz São Paulo em suas epístolas, onde nos instruiu com os divinos ensinamentos para a carreira da vida: “Não pertenceis a vós mesmos: fostes comprados por alto preço; glorificai e trazei a Deus no vosso corpo”.[ 2Cor 6,19-20.]
Glorifiquemos e tenhamos a Deus num corpo imaculado e puro, e com melhores costumes. Remidos pelo sangue de Cristo, obedeçamos ao mandato do Redentor com total submissão e acautelemo-nos para que não se introduza algo de impuro ou profano no templo de Deus, para que ele, ofendido, não venha a abandonar a sua morada. “Olha, que foste curado; não tornes a pecar, para que não te suceda coisa pior”,[ Jo 5,14.] são palavras do Senhor, que salva, ensina, cura e aconselha.
Depois de haver concedido a saúde, dá a vida temente a Deus, a lei da inocência e, ameaçando com mais pesada escravidão, não permite vaguearem a rédeas soltas os que antes sanara. Pois é menor a culpa de teres pecado antes de conhecer a disciplina de Deus, [mas] nem mesmo é possível admitir que se peque depois que se começa a conhecê-lo.
A isto atentem tanto os homens quanto as mulheres, os moços e as moças, qualquer sexo ou idade, e, pela religião e fé devidas a Deus, cuidem em conservar com temor não menos sólido o dom santo e puro recebido da misericórdia do Senhor.

2. A beleza da virgindade
Agora falamos às virgens, a quem devemos tanto maior cuidado quanto mais sublime é a sua glória. São elas a flor da semente da Igreja, beleza e honra da graça espiritual, índole feliz, obra íntegra e incorrupta, digna de louvor e estima, imagem de Deus correspondendo à santidade do Senhor, a mais ilustre porção do rebanho de Cristo.
Alegra-se por elas, e nelas profusamente floresce a gloriosa fecundidade da Igreja, nossa mãe, e quanto mais cresce o número das virgens, tanto maior é o gáudio da mãe. Falamos às virgens, exortamo-las mais por afeto do que em razão de nosso poder; não que, sendo os últimos e os menores, conscientes de nossa abjeção, reivindiquemos algum direito de censurar os abusos, mas porque, quanto mais prudentes somos em nossa solicitude, mais receamos o ataque do demônio.
Não é vã essa precaução, nem inútil esse receio que velam pelo caminho da salvação, guardam os preceitos vivificantes do Senhor, a fim de que aquelas que se dedicaram ao Cristo e – renunciando à concupiscência carnal – consagraram a Deus seu corpo e sua alma consumam a sua obra destinada a grande recompensa.
E, assim, não mais se apliquem a ornar-se, nem a agradar a quem quer que seja, a não ser ao seu Senhor, do qual esperam a recompensa de sua virgindade, porquanto ele mesmo diz: “Nem todos compreendem essa palavra, mas só aqueles a quem foi dado compreendê-la: há eunucos que assim nasceram do seio materno, há eunucos que a isso foram reduzidos pelos homens, e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do reino dos céus”.[ Mt 19,11-12.]
Enfim, o valor da continência é também manifestado por estas palavras do anjo, pregando a virgindade: “Estes são os que não se mancharam com mulheres: são virgens e seguem o Cordeiro aonde quer que ele vá”.[ Ap 14,4.]
E Deus não prometeu a graça da continência somente aos homens, negligenciando as mulheres; mas porque a mulher é uma parte do homem e porque dele é tirada e formada,[ Cf. Gn 2,21-22.] em quase todas as Escrituras Deus se dirige àquele que foi formado primeiro, por serem dois numa só carne,[ Cf. Gn 2,24; Mt 19,6.] e pelo masculino se designa também a mulher.

4. Os perigos das vaidades
Mas, se a continência segue o Cristo e a virgindade é destinada ao Reino de Deus, o que têm elas a ver com os cuidados mundanos e os ornamentos, pelos quais procuram agradar aos homens e ofendem a Deus? Não refletem na predição [do profeta]: “os que agradam aos homens foram confundidos porque Deus os reduziu a nada”?[ Sl 53(52),6.] Nem na pregação sublime e gloriosa de Paulo: “Se procurasse agradar aos homens, não seria servo do Cristo”?[ Gl 1,10.]
De fato, continência e pureza não consistem apenas na integridade da carne, mas também na dignidade e no pudor dos costumes e dos ornamentos, a fim de que, segundo diz o Apóstolo, a mulher não casada seja santa de corpo e de alma. Ensina São Paulo: “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor e procura agradar a Deus; mas quem contraiu matrimônio cuida das coisas deste mundo e procura agradar à mulher.
Destarte, a virgem e a mulher não casada cuidam das coisas do Senhor e procuram ser santas de corpo e alma”.[ 1Cor 7,32ss.] A virgem não deve simplesmente ser virgem, mas conhecida e acreditada como tal.
Que ninguém, ao ver uma virgem, possa duvidar da sua virgindade. Mostre-se igualmente a integridade em todas as coisas, e os cuidados do corpo não desonrem o bem da alma. Por que se apresenta ornada, ataviada como se tivesse marido ou como se o procurasse?
Se é virgem, antes receie agradar [aos outros pelos ornamentos]; não incorra nesse risco aquela que se guarda para realidades melhores e divinas. Aquela que não tem esposo, a quem pretenda agradar, persevere íntegra e pura, não só corporal, mas também espiritualmente. Não é permitido a uma virgem ornar-se para parecer mais bela ou gloriar-se do corpo e de sua beleza, pois ela não tem luta maior que aquela contra a carne, nem certame mais pertinaz senão para vencer e domar o corpo.
Paulo proclama em alto e bom som: “Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”;[ Gl 6,14.] e a virgem na Igreja se gloria da formosura da carne e da beleza do corpo! Paulo acrescenta: “Os que são de Cristo crucificaram a sua carne com as paixões e as concupiscências”;[1Gl 5,24.] e aquela que professa haver renunciado às concupiscências e vícios da carne é encontrada nessas mesmas coisas a que renunciara! Foste surpreendida, ó virgem, foste descoberta: te vanglorias de uma coisa e procuras outra.
Manchas-te com as nódoas da concupiscência carnal, embora te apresentes à integridade e ao pudor. “Clama”, diz Deus a Isaías, “toda carne é feno e toda sua glória é como a flor do feno! O feno secou, e a flor caiu, mas a palavra do Senhor permanece eternamente”.[Is 40,6ss.] A nenhum cristão convém, muito menos a uma virgem, contar com algum brilho e honra da carne, mas só desejar a palavra de Deus, alcançar os bens que hão de permanecer para sempre.
Se há motivo de gloriar-se na carne, seja então quando ela é atormentada na confissão do nome [do Senhor], quando a mulher se torna mais forte do que os homens que a torturam, quando suporta o fogo, as cruzes, a espada ou as feras, a fim de ser coroada.
Essas são as joias preciosas da carne, são estes os seus melhores ornamentos do corpo. Existem, porém, algumas, ricas e opulentas pela abundância de bens, que ostentam as suas riquezas e afirmam que devem fazer uso delas. Saibam, antes de tudo, que é rico quem o é em Deus, que é opulento quem o é no Cristo; que os verdadeiros bens são os divinos, os espirituais, os celestes, que nos levam a Deus e que permanecem conosco na posse eterna junto dele.
Quaisquer outros bens terrenos, recebidos neste mundo e que hão de ficar com este mundo, devem ser desprezados na mesma medida em que se despreza o mundo, a cujas pompas e delícias já renunciamos quando, por melhor caminho, voltamos a Deus. São João nos desperta e exorta com voz espiritual e celeste, afirmando: “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo.
Quem ama o mundo não tem em si o amor do Pai; porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isso não vem do Pai, mas da concupiscência do mundo.
Passará o mundo e a sua concupiscência, mas quem fizer a vontade de Deus permanece eternamente, como também Deus permanece para sempre”.[ 1Jo 2,15-17.] Por conseguinte, devemos desejar as realidades divinas e eternas, e fazer tudo o que for da vontade de Deus, a fim de seguir os passos e os ensinamentos de nosso Senhor, que advertiu dizendo: “Não desci do céu para cumprir a minha vontade, mas sim a vontade daquele que me enviou”;[ Jo 6,38.] e se o servo não é maior que o seu senhor e se o liberto deve obséquio ao seu libertador, os que desejamos ser cristãos devemos imitar o que o Cristo disse.
Está escrito e lê-se e ouve-se e, para exemplo nosso, repete-se pela boca da Igreja: “Quem afirma estar no Cristo deve também caminhar assim como ele caminhou”.[ 1Jo 11,6.] Devemos caminhar com passos iguais, esforçar-nos por imitar-lhe o andar. Então, à fé expressa corresponderá a sequela da verdade e o prêmio será dado ao crente, se pratica aquilo em que crê.

5. As vaidades alimentadas pela riqueza
Dizes que és rica e opulenta; mas Paulo opõe-se às tuas riquezas e com sua própria voz ordena que os teus cuidados e adornos devem ser moderados por um justo limite. “As mulheres” – diz ele – “ataviem-se com recato e modéstia, e não venham com cabelos frisados, adereços de ouro, pérolas e vestidos de luxo; mas com boa conversação, como convém a mulheres que fazem profissão de castidade”.[ 1Tm 3,9-10.]
Concordando com os mesmos preceitos, diz também Pedro: “Que não haja na mulher um adorno exterior de ouro ou de vestuário, mas antes o ornato do coração”.[ 1Pd 3,3.4.] Se eles advertem que devem ser corrigidas e levadas à disciplina eclesiástica por um viver religioso as mulheres que costumam apresentar o marido como desculpa dos seus cuidados exagerados, quanto mais justo é que a virgem o observe.
No seu caso, os atavios não encontram desculpa, nem o disfarce da culpa pode ser atribuído a outrem, mas permanece ela sozinha no delito. Dizes que és rica e opulenta; mas nem tudo o que se pode deve-se fazer, nem os desejos fúteis ou provenientes de ambição mundana devem ultrapassar a honra e o pudor da virgindade, porque está escrito: “Tudo é permitido, mas nem tudo convém. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica”.[ 1Cor 10,23.]
De resto, se tu te penteias luxuosamente, se andas em público com ostentação, se seduzes os olhares dos jovens, se atrais os suspiros dos adolescentes, se nutres a paixão, se inflamas os incentivos do desejo, de modo que, embora não te percas, leves outros à perdição, oferecendo-te como gládio e como veneno aos que te contemplam, não te podes desculpar como sendo casta e pudica em espírito.
O luxo inconveniente e o ornato impudico acusam-te [de falsidade]. Já não podes ser contada entre as donzelas e virgens de Cristo, pois vives de modo a poder suscitar paixão. Dizes que és rica e opulenta; mas não convém à virgem gabar-se de suas riquezas, porquanto diz a Sagrada Escritura: “De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas?
Todas elas passaram como sombra”,[ Sb 5,8.] e o Apóstolo, além disso, adverte: “E os que compram sejam como se não comprassem, os que possuem como se não possuíssem, e os que usam deste mundo como se não usassem; porque passa a figura deste mundo”.[ 2Cor 7,30,] Pedro, por sua vez – a quem o Senhor confia o pastoreio e a guarda de suas ovelhas, sobre quem firmou e fundou a Igreja –, afirma não possuir ouro nem prata, porém ser rico da graça do Cristo, opulento na fé e na força dele, pelas quais milagrosamente faria numerosos prodígios, pelas quais abundaria em bens espirituais para a graça da glória.
Não pode possuir tais bens e riquezas aquela que prefere ser rica para o mundo a sê-lo para o Cristo. Dizes que és rica e opulenta, e julgas que deves usar das posses que Deus te concedeu. Usa-as, mas em coisas proveitosas. Usa-as, mas em boas obras. Faze uso delas, mas para o fim que Deus ordenou e que o Senhor manifestou: que os pobres reconheçam que és rica; os indigentes reconheçam que és opulenta; de teu patrimônio empresta a Deus com juros, alimenta o Cristo.[ Cf. Mt 25,34ss.]
Para que possas conservar até o fim a glória da virgindade e chegues a obter a recompensa do Senhor, roga com as orações de muitos. Deposita os teus bens lá onde nenhum ladrão os desenterre, onde nenhum salteador de emboscada faça irrupção. Junta de preferência riquezas celestiais, cujos lucros perenes, inesgotáveis e livres de qualquer influência prejudicial do século a ferrugem não gasta, o granizo não fere, o sol não queima, nem a chuva faz apodrecer. Pois pecas, e contra Deus, se julgas que ele te concedeu as riquezas para que delas fizesses um uso que não fosse salutar.
Com efeito, foi Deus quem deu a voz ao homem, mas nem por isso se deve cantar coisas dissolutas ou indignas. Deus quis que o ferro existisse para a cultura da terra e nem por isso se devem cometer homicídios. Ou, então, porque Deus criou o incenso, o vinho e o fogo deveis sacrificar aos ídolos? Ou imolar vítimas e holocaustos aos deuses porque abundam os rebanhos de ovelhas nos teus campos?
Na verdade, um grande patrimônio é uma tentação, se a fortuna não servir para boas obras, de modo que, cada qual, quanto mais rico for, tanto mais deve resgatar os pecados com o seu patrimônio, em vez de aumentá-los.

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terça-feira, 21 de julho de 2020

A vida de Francisco de Assis a partir de Tomás de Celano - Ir. Edson Cortasio Sardinha Partes 3 e 4 Aprovação da Igreja e Viagens e Expansão


A vida de Francisco de Assis a partir de Tomás de Celano
Ir. Edson Cortasio Sardinha
Partes 3 e 4

Aprovação da Igreja e Viagens e Expansão

Franciscanos - Província São Maximilliano Maria Kolbe - Quem é São ... 


3. Aprovação da Igreja
            Francisco desejava viver integralmente o Evangelho. Como o número de discípulos aumentava, “escreveu para si e para seus irmãos, presentes e futuros, com simplicidade e com poucas palavras, uma forma e Regra de vida, usando, principalmente, expressões do santo Evangelho” (1Cel 13.32.1). Depois da Regra pronta, levou-a, com os seus discípulos, a Roma, para que o Papa Inocêncio III a aprovasse. Era o ano de 1209.
Nesta época, o amigo e bispo de Assis, Guido, estava em Roma; num primeiro momento, Guido não “gostou” da presença de Francisco e seus amigos em Roma, pois achava que estavam abandonando Assis. Para Tomás de Celano, o motivo do desagrado estava no fato de que o bispo desejava muito o trabalho de Francisco e seus discípulos em Assis (1Cel 13.32.5,6): “Gostava muito de ter esses homens de valor em sua diocese e esperava muito de sua vida e de seus bons costumes”. Contudo, quando soube o motivo da ida a Roma, ficou alegre e prometeu “seu apoio e influência”. Francisco também teve o apoio do bispo de Sabina, João de São Paulo, homem que se destacava de “entre os outros príncipes e dignitários da Cúria Romana”; contudo, Bispo João também tentou persuadi-lo a passar para a vida monástica ou eremítica...
Como Francisco permaneceu firme em seu propósito, “procurou apoiar sua causa diante do Papa” (1Cel 13.33.4). No primeiro encontro com o Papa, este achou sua vida muito dura e difícil e lhe disse: “Meu filho, pede a Cristo que nos manifeste sua vontade, para que, conhecendo-a, possamos concordar com maior segurança com os teus piedosos desejos” (2Cel 16.1). Francisco foi orar e Deus lhe deu uma parábola para falar ao Papa:

Francisco, dirás isto ao Papa: uma mulher pobrezinha, mas bonita, morava em um deserto. Um rei se apaixonou por ela por causa de sua grande formosura, desposou-a todo feliz e teve com ela filhos belíssimos. Quando já estavam adultos e nobremente educados, a mãe lhes disse: “Não vos envergonheis, meus queridos, porque sois pobres, pois sois todos filhos daquele grande rei. Ide com alegria para sua corte, e pedi-lhe tudo que precisais’. Apresentaram-se ousadamente ao rei, sem temer o rosto que era parecido com o deles.  Vendo neles essa semelhança, o rei perguntou, admirado, de quem eram filhos.  Quando disseram que eram filhos daquela mulher pobrezinha do deserto, o rei os abraçou dizendo: ‘Sois meus filhos e meus herdeiros, não tenhais medo!  Se até estranhos comem à minha mesa será muito mais justo que eu alimente aqueles a quem está destinada por direito a minha herança toda’. Por isso o rei mandou que a mulher levasse todos os seus filhos para serem alimentados em sua corte (2Cel 16.4-13).

             Quando o Papa recebeu esta palavra, lembrou-se de um sonho que teve, onde tinha visto a Basílica de Latrão prestes a ruir, mas sendo sustentada por um religioso, homem pequeno e desprezível, que a sustentava com seu ombro para não cair. “E disse: ‘Na verdade, este é o homem que, por sua obra e por sua doutrina, haverá de sustentar a Igreja’” (2Cel 17.5). O Papa entendeu que a obra era de Cristo e confirmou a Regra de Vida de Francisco.

Aceitou o pedido e deu-lhe despacho. Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus irmãos e lhes disse: “Ide com Deus, irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirar-vos, pregai a todos o arrependimento. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais do que agora e, com maior segurança, vos confiarei encargos maiores” (1Cel 13.33.7,8). 

            Mais tarde, Francisco teve um sonho, que entendeu ser uma revelação de Deus. No Senhor, ele crescia e ficava da altura de uma árvore de grande porte. Uma árvore bela e forte, grossa e muito alta. Francisco, com suas mãos, conseguia “vergá-la facilmente até o chão”. Ele entendeu que esta árvore era o Papa Inocêncio III que, sendo poderoso, se inclinou com benignidade e atendeu à sua vontade. Em Roma, aproveitaram para visitar o Túmulo de São Pedro e, depois, retornaram para o Vale de Espoleto. No caminho, discutiam sobre a vida da nova Ordem que nascia, de acordo com o Evangelho. Chegaram a um lugar solitário e não tinham nada para comer. Um homem os encontrou e lhes deu pão e se foi. Viram este gesto como um milagre da providência divina. Finalmente, chegaram a um lugar perto de Orte, e “ali ficaram quase quinze dias”. Para terem o que comer, iam à cidade e pediam, de porta em porta, alimentos. Os alimentos que sobravam guardavam em um sepulcro para comerem depois (1Cel 14.34). 
            Essas experiências levaram os discípulos e Francisco a louvarem a Deus por nada possuírem: a pobreza era uma liberdade espiritual. “Pondo de lado toda solicitude pelos bens terrenos, só lhes interessava a consolação de Deus. Por isso, resolveram, com firmeza, não se apartar dos braços da pobreza, por maiores que fossem as tribulações e tentações” (1Cel 14.35). Certa vez, tentou destruir uma casa em Porciúncula, que estava sendo levantada para a reunião do Capítulo dos Irmãos Menores.

Quando o santo voltou e viu a casa, levando a mal, não sofreu pouco. Levantou-se para ser o primeiro a eliminar o edifício. Subiu ao telhado e pôs abaixo telhas e cobertura com mão forte. Mandou os frades subirem também para acabar de uma vez com aquele monstro contrário à pobreza. Porque dizia que logo se haveria de espalhar pela Ordem e ser tomado por exemplo tudo que se visse de mais pretensioso naquele lugar. Teria acabado de uma vez com o prédio se os soldados que lá estavam não tivessem feito frente ao seu fervor dizendo que ele pertencia à comuna e não aos frades. (2Cel 57.1-6).

            Com a autorização de Roma, Francisco teve mais vigor para pregar o Evangelho e exortar o povo cristão à conversão. Sua pregação era direta e vigorosa.

Valoroso soldado de Cristo, Francisco percorria as cidades e povoados anunciando o reino de Deus, proclamando a paz, pregando a salvação e a penitência para a remissão dos pecados, sem usar os argumentos da sabedoria humana, mas a doutrina e a força do Espírito. Apoiado na autorização apostólica que lhe fora concedida, agia em tudo destemidamente, sem adular nem tentar seduzir ninguém com moleza. Não sabia lisonjear as culpas de ninguém, mas pungi-las. Não tentava desculpar a vida dos pecadores, mas atacava-os com áspera reprimenda, tanto mais que tinha posto primeiro em prática as coisas que aconselhava aos outros. Sem medo de que o repreendessem, anunciava a verdade destemidamente, de maneira que até os homens mais letrados, que gozavam de renome e dignidade, admiravam seus sermões e em sua presença sentiam-se possuídos de temor salutar. (1Cel 15.36.1-3)

            Não apenas leigos, mas também clérigos, procuravam ouvir os sermões de Francisco. Tinha tanta persuasão, que suas mensagens pareciam “fluir de uma luz” vinda de Deus. “Brilhava como uma estrela fulgente na escuridão da noite e como a aurora que se estende sobre as trevas” (1Cel 14.37). Ocorreram, assim, muitas conversões em toda a região, de nobres e plebeus, sacerdotes e leigos, homens e mulheres – pessoas de toda parte desejavam seguir este novo modo de vida.
A Ordem cresceu e passou a ser chamada de “Ordem dos Frades Menores”: foi o próprio Francisco que lhe deu o nome. “Quando estavam escrevendo na Regra: ‘e sejam menores’, ao ouvir essas palavras disse: ‘Quero que esta fraternidade seja chamada Ordem dos Frades Menores’ (1Cel 14.38). O nome “Menor” estava ligado ao fato de que a espiritualidade da Ordem foi baseada na verdadeira humildade: sempre procurava os piores lugares e fazer o que os outros detestavam. O carisma da Ordem era servir a Deus e ao próximo com um coração verdadeiramente pobre. A Ordem estava baseada na alegria, na comunhão de seus membros e na obediência. Não tinham nada e nada desejavam:  eram contentes com suas únicas túnicas – algumas vezes, remendadas por dentro e por fora. “Cingiam-se com uma corda e usavam calças de pano rude” (1Cel 14.39.7). Não possuíam abrigos contra o frio; durante o dia, trabalhavam e serviam aos leprosos. Preferiam trabalhar em lugares onde eram perseguidos. “Foram muitas vezes cobertos de opróbrios e de ofensas, despidos, açoitados, amarrados, encarcerados, sem recorrer à proteção de ninguém, e suportavam tudo varonilmente, vindo à sua boca apenas a voz do louvor e da ação de graças” (1Cel 14.40).
            Para permanecerem em oração durante a noite, se apoiavam em cordas suspensas; uns usavam cilícios de metal e outros amarravam madeiras na cintura para mantê-los alertas. Lutavam, também, contra os apelos da carne: “Punham tanto esforço em reprimir as tentações da carne, que, muitas vezes, não se horrorizavam de despir-se no gelo mais frio, nem de molhar o corpo todo com o sangue derramado por duros espinhos” (1Cel 14.40).

4. Viagens e Expansão
                Francisco e seus discípulos se recolheram em um lugar perto de Assis, chamado Rivotorto, no ano de 1210. Passaram a viver numa cabana abandonada e, neste lugar, viveram muitas privações. Esta casa passou a ser um lugar de discipulado e busca da perfeição cristã para Francisco e seus discípulos. A “cabana dos Irmãos Menores” ficava na beira da estrada; o Imperador Otão passou em frente à cabana para receber a coroa do Império e, “apesar do enorme ruído e pompa, o santo pai e seus companheiros, cuja cabana ficava à beira do caminho, nem saíram para vê-lo, nem permitiram que ninguém olhasse, a não ser um, a quem mandou para anunciar-lhe repetidamente que sua glória ia durar pouco” (1Cel 16.44).  Francisco “sentia-se investido de autoridade apostólica e, por isso, se recusava absolutamente a bajular reis e príncipes”.
            A cabana era muito estreita e Francisco teve que escrever o nome dos irmãos nos caibros da cabana, para que cada um soubesse seu lugar, “quando quisesse orar ou repousar, e não se perturbasse o silêncio espiritual pela estreiteza do ambiente”. Certa vez, apareceu um camponês que intencionava reformar a cabana e construir casas para os frades. Francisco ficou tão chocado com a ideia, que resolveu abandonar o lugar.  Deixou Rivotorto e foi morar em Porciúncula, onde havia reparado uma igreja. Francisco entendia que, para possuir tudo no Senhor, em maior plenitude, precisava abrir mão de tudo e não possuir propriedade nenhuma. Em Porciúncula, os discípulos de Francisco pediram para que ele os ensinasse a orar e Francisco respondeu-lhes: “Quando orardes, dizei: ‘Pai nosso’ e ‘Nós vos adoramos, ó Cristo, em todas as vossas igrejas que estão pelo mundo inteiro, e vos bendizemos, porque por vossa santa cruz remistes o mundo” (1Cel 17.45). Esta oração passou a ser praticada pelos seus frades diariamente: em qualquer lugar onde houvesse uma igreja, mesmo que não entrassem nela, contanto que a pudessem ver de longe, prostravam-se por terra na sua direção e, inclinados de corpo e alma, adoravam o Todo-Poderoso, dizendo: “Nós vos adoramos, ó Cristo, em todas as vossas igrejas, porque pela sua santa cruz remistes o mundo”. “E, o que não é menos para se admirar, faziam o mesmo onde quer que vissem uma cruz ou seu sinal: no chão, numa parede, nas árvores ou nas cercas do caminho” (1Cel 17.45).
            Em Porciúncula, existia um padre de má fama. Eles procuravam o padre regularmente, para confessarem seus pecados. Apesar de serem alertados pela população sobre a conduta má do padre, eles, simplesmente, se recusaram a acreditar e continuaram honrando o padre e confessando a ele seus pecados. Certa noite, durante a oração do Pai Nosso cantada, Francisco teve um êxtase: quando chegou a meia noite, “entrou pela pequena porta um rutilante carro de fogo, deu duas ou três voltas para cá e para lá na casa, tendo, sobre ele, um globo enorme, que era parecido com o sol, e iluminou a noite” (1Cel 18.47). Os frades entenderam que era uma graça especial de Deus concedida a Francisco, que estava em êxtase de oração.
Francisco recebeu de Deus o dom da revelação e da profecia: Deus lhe revelava a vida secreta dos frades e anunciava eventos vindouros; com isso, podia orientar seus discípulos com relação à disciplina cristã. Passou a ter uma vida com muito rigor ascético: proibia seus discípulos de possuir objetos – até mesmo um prato ou uma caneca. Quando ia dormir na casa de alguém, recusava cobertores e preferia dormir no chão. Certa vez, doente, comeu carne de galinha; ao se recuperar da doença, foi até Assis e, chegando à porta da cidade, mandou o frade que o acompanhava que lhe amarrasse uma corda no pescoço e o conduzisse assim, feito um ladrão, por toda a cidade, clamando como um pregoeiro:

 ‘Vejam o comilão, que engordou com carne de galinha, que comeu sem vocês saberem’ ” (1Cel 19.52). Este gesto estranho causou a conversão de muitas pessoas em Assis. Francisco “sentia uma dor imensa quando era venerado por todos e, para se livrar da consideração humana, encarregava alguém de o insultar” (1Cel 19.53).

Quando cometia alguma falta, confessava-a publicamente, durante sua pregação.
            No sexto ano de sua conversão, desejando o martírio, navegou para a Síria com a intenção de pregar o Evangelho aos sarracenos. Contudo, por causa da tempestade no mar, foi parar na Esclavônia. Soube que alguns marinheiros iriam para Ancona e aproveitou para embarcar junto; como não poderia pagar e não conseguiu a passagem, resolveu, em oração, entrar escondido no navio com um companheiro. Um desconhecido passou a dar as provisões necessárias para a viagem, sem que ninguém soubesse. O navio enfrentou uma grande tempestade e a provisão que Francisco recebeu foi multiplicada, ao ponto de suprir a necessidade de todos. Quando chegaram em Ancona, os marinheiros descobriram que foi por causa da intercessão de Francisco que o navio não naufragou e agradeceram a Deus.
Ao chegar em Ancona, Francisco pregou o Evangelho e aconteceram muitas conversões entre leigos e clérigos. Algum tempo depois, empreendeu uma viagem a Marrocos, para pregar o Evangelho de Cristo ao Miramolim e a seus sequazes. “Seu entusiasmo era tanto, que, às vezes, deixava para trás seu companheiro de viagem, na pressa de realizar seu intento, com verdadeira embriaguez espiritual” (1Cel 20.56). Mas, por causa de uma doença, foi impedido de seguir viagem; nesta ocasião, encontrou seu discípulo e primeiro biógrafo Tomás de Celano. Este diz:

Mas o bom Deus lembrou-se, em sua misericórdia, de mim e de muitos outros, e se opôs frontalmente a ele quando já tinha chegado à Espanha, impedindo-o de continuar o caminho, por uma doença que o fez voltar atrás. Não fazia muito tempo que tinha voltado a Santa Maria da Porciúncula, quando alguns homens de letras e alguns nobres juntaram-se a ele com grande satisfação. A estes, sempre educado e discreto, tratou com respeito e dignidade, servindo piedosamente a cada um, conforme lhe cabia (1Cel 20.56 e 57).

            Francisco retornou para Porciúncula e, no décimo terceiro ano de sua conversão, foi para a Síria. Nesta época, estava ocorrendo uma grande batalha entre os cristãos e os mulçumanos; contudo, não teve medo de se apresentar ao sultão dos sarracenos, levando um companheiro. Francisco foi açoitado, mas permaneceu sereno. O Sultão o recebeu muito bem; tentou lhe dar presentes, mas, quando percebeu que Francisco recusava tudo, ficou muito admirado e honrou Francisco. Não ocorreram conversões, mas testemunharam o Evangelho. Logo após, Francisco retornou para sua terra.

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