terça-feira, 14 de junho de 2022

O Evangelho para Francisco de Assis - encontro da OFSE

 

O Evangelho para Francisco de Assis

Como o Evangelho influenciou a vida de São Francisco de Assis?

 


A Conversão

Francisco não foi um ouvinte surdo do Evangelho.

2. Deus de fato infundira no coração do jovem Francisco, juntamente com uma afetuosidade notável, uma generosidade e compaixão extraordinárias pelos pobres. Este sentimento foi crescendo em seu coração de filho a tal ponto que ele decidiu dar o que tivesse a quem quer que lho pedisse por amor de Deus, pois não era um ouvinte surdo do Evangelho. Boaventura LEGENDA MENOR: C.1.

 

Francisco resolveu desapegar-se de todas as suas posses e negociar, segundo o estilo de Deus, as coisas deste mundo com as do Evangelho.

4. Certo dia, ao orar assim na solidão, apareceu-lhe Cristo Jesus crucificado e lhe disse: "Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (Mt 16,24). Esse versículo do Evangelho causou-lhe tão grande impressão, que lhe queimava dentro da alma como um fogo devorador e como um desejo imenso de sofrer com ele. Pois diante do Crucificado sua alma se derretia e a lembrança da paixão de Cristo se gravou no mais íntimo de seu coração, de tal modo que via quase ininterruptamente dentro de si com os olhos da alma as chagas do Senhor crucificado e externamente a muito custo conseguia conter as lágrimas e os suspiros. Abandonara por amor de Cristo Jesus, como bens desprezíveis, sua casa e toda a fortuna que esta lhe reservara, mas sabia perfeitamente que descobrira um tesouro escondido e brilhante pérola preciosa. Ávido de possuí-los, resolveu desapegarse de todas as suas posses e negociar, segundo o estilo de Deus, as coisas deste mundo com as do Evangelho. Boaventura LEGENDA MENOR: C.1

A Missão

Francisco teve a graça de aprender o caminho da perfeição mediante o Evangelho.

1. Havendo terminado sua obra nas três igrejas, Francisco foi viver numa delas dedicada à Santíssima Virgem. ...foi julgado digno de aprender o caminho da perfeição mediante o Evangelho cujo espírito e verdade Deus lhe revelou. Certo dia, durante a missa, lia-se a passagem do Evangelho que relata como o Senhor enviou os discípulos a pregar e como estabeleceu a forma de vida segundo o Evangelho que deveriam observar: não ter nem ouro nem prata, nem dinheiro no cinto, nem sacola para o caminho, nem duas túnicas, nem sapatos, nem bastão (cf. Mt 10,9). Boaventura LEGENDA MENOR: C.2.

 

O Estilo de vida

Francisco tornou-se o arauto do Evangelho.

Chegou a conclusão de que deveria viver para os outros e não exclusivamente para si. Foi então viver numa cabana abandonada perto de Assis, onde poderia levar em comum uma vida de pobreza e rigorosa disciplina religiosa com seus Irmãos e pregar a palavra de Deus ao povo, sempre que tivesse oportunidade, Tornou-se o arauto do Evangelho, pregando de cidade em cidade o reino de Deus "não com estudadas palavras de humana sabedoria, mas pela virtude do Espírito Santo" (1Cor 2,13). Boaventura LEGENDA MENOR: C.2.

 

A pobreza Evangélica

Francisco descobriu o Tesouro do Evangelho.

Por amor à pobreza abandonou pai e mãe e tudo o que possuía. Ninguém era tão ávido de ouro quanto ele da pobreza; ninguém jamais guardou um tesouro com tanto cuidado como ele guardou essa pérola do Evangelho. Boaventura LEGENDA MENOR: C.3.

O Discipulado

Francisco ensinou seus discípulos a viver segundo a forma do Santo Evangelho.

27. A verdade da doutrina anunciada com simplicidade e a autenticidade da vida do bem-aventurado Francisco se tornavam conhecidas de muitos, de modo que, transcorridos dois anos de sua conversão, certos homens começaram a se animar por seu exemplo e penitência e, rejeitando todas as coisas, uniram-se a ele, no hábito e na vida. O primeiro deles foi Frei Bernardo, de santa Memória. Considerando Bernardo a constância e o fervor do bem-aventurado Francisco no serviço divino, o empenho com que reformava as igrejas destruídas levando uma vida austera, apesar das facilidades que tivera no século, propôs em seu coração distribuir aos pobres tudo o que tinha e unir-se firmemente a ele, no hábito e na vida. Assim, certo dia, aproximou-se ocultamente do homem de Deus, revelou-lhe seu propósito e combinou com ele que o procurasse numa determinada noite. O bem-aventurado Francisco, dando graças a Deus, como até então não tivesse nenhum companheiro, muito se alegrou, especialmente porque o senhor Bernardo era homem de vida bem edificante.

28. Na noite combinada, foi o bem-aventurado Francisco ter à casa de Bernardo, com grande alegria no coração, e permaneceu com ele toda aquela noite. Entre outras coisas o Senhor Bernardo disse-lhe: "Se alguém recebesse de seu patrão muito ou pouco, e conservasse esses bens por muitos anos e não quisesse mais retê-los, o que de melhor poderia fazer com eles?" O bem-aventurado Francisco respondeu que deveria devolvê-los ao patrão de quem os recebera. E o Senhor Bernardo disse: "Portanto, meu irmão, todos os meus bens temporais quero distribuir, por amor do meu Senhor, de quem os recebi, conforme te parecerá mais convenientes. O santo disse: "Amanhã, bem cedinho, iremos à igreja, e pelos Evangelhos saberemos como o Senhor ensinou a seus discípulos". No dia seguinte, muito cedo, levantaram-se, e juntos com outro que se chamava Pedro, e também queria ser irmão, foram à igreja de São Nicolau, na praça da cidade de Assis. Entrando para orarem, como eram simples e não sabiam achar a passagem do Evangelho a respeito da renúncia dos bens materiais, devotamente rogavam ao Senhor que se dignasse mostrar-lhes a sua vontade na primeira vez que abrissem o livro.

29. Terminada a oração, o bem-aventurado Francisco, tomando o livro fechado, e de joelhos diante do altar, ao abrir a primeira vez, encontrou este conselho do Senhor: "Se queres ser perfeito, vai e vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu" (Mt 19.21). O bem-aventurado Francisco ficou muito contente e deu graças a Deus. Mas como era um verdadeiro adorador da Santíssima Trindade, quis que isto fosse confirmado com um tríplice testemunho. E abriu o livro pela segunda e pela terceira vez. Ao abri-lo a segunda vez, encontrou o seguinte: "Não leveis nada no caminho... (Lc 9.3)" E na terceira, por fim: "Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo" (Lc 9.23). O bem-aventurado Francisco deu graças a Deus as três vezes que se abriu o livro e se manifestava a vontade divina, confirmando seu propósito e desejo anteriormente concebidos. E disse aos já mencionados irmãos Bernardo e Pedro: "Irmãos, esta é nossa vida e nossa regra e de todos que quiserem unir-se à nossa sociedade. Ide, pois, e fazei como ouvistes". Partiu, pois, o Senhor Bernardo, que era muito rico, vendeu tudo o que possuía, e ajuntando muito dinheiro, distribuiu-o todo aos pobres da cidade. Pedro também, conforme suas posses, cumpriu o conselho divino. Despojando-se de tudo, ambos tomaram o hábito, tal qual usava o santo, após ter deixado o de eremita. Desde então, viveram juntamente com ele, segundo a forma do santo Evangelho, que o Senhor lhes havia manifestado. Foi por isso que São Francisco disse em seu Testamento: "O próprio Senhor revelou-me que deveria viver segundo a forma do santo Evangelho". LEGENDA DOS TRÊS COMPANHEIROS: C.9.

 

Cronologia de Francisco de Assis

1181/82: Nasce em Assis. Batizado com o nome de Giovanni di Pietro (pai) di Bernardone (avô).

1202: Guerra entre Perúsia e Assis. Assis vencida em Collestrada. Francisco, com 20 anos, passa um ano preso em Perúsia. Resgatado pelo pai, devido à doença. Nesse tempo parece que a família de Clara está refugiada em Perúsia; ela com 8/9 anos de idade.

1204/05: Parte para a guerra da Apúlia, no sul. Volta após visão e mensagem de Espoleto. Começo da conversão gradual. Em junho de 1205: Mensagem do crucifixo de São Damião. Conflito com o pai.

1206: Janeiro-fevereiro: questão perante o bispo Dom Guido II. Março-junho: em Gúbio, perto de Assis, cuida dos leprosos.

1208: 24 de fevereiro: ouve o Evangelho da missa de São Matias, na Porciúncula, sobre a missão apostólica. Muda as vestes de eremita e passa a usar as de pregador ambulante, descalço. Início da pregação apostólica. Aqui propriamente começa o estilo de vida franciscana, apostólica, de presença. 16 de abril: recebe em sua companhia os irmãos Bernardo de Quintavalle e Pedro Cattani.

1209: março-junho: Francisco escreve breve Regra e vai a Roma com onze discípulos. Obtém a aprovação do Papa Inocêncio III, só oralmente.

1212: Março: na noite do domingo de Ramos, Clara di Favarone foge de casa e é recebida na Porciúncula.

24/25 de dezembro: na noite de Natal, Francisco celebra a festa em Greccio, junto a um presépio.

15 de agosto a 29 de setembro: Francisco, com Frei Leão e Frei Rufino, passa no Alverne, preparando-se com uma quaresma de oração e jejum. Em setembro, tem a visão do Serafim alado e recebe os estigmas.

1226: 3 de outubro, à tarde: Francisco cantando ‘mortem suscepit’ (morreu cantando). No domingo seguinte, 4 de outubro, é sepultado na igreja de São Jorge, na cidade de Assis, mas o cortejo fúnebre passa antes pelo mosteiro de São Damião, para a despedida de Clara.

sábado, 11 de junho de 2022

Credo de Atanásio

 

O Credo de Atanásio*


ORIGEM

O Credo de Atanásio, subscrito pelos três principais ramos da Igreja Cristã, é geralmente atribuído a Atanásio, Bispo de Alexandria (século IV), mas estudiosos do assunto conferem a ele data posterior (século V).  Sua forma final teria sido alcançada apenas no século VIII. O texto grego mais antigo deste credo provém de um sermão de Cesário, no início do século VI.

O credo de Atanasio, com quarenta artigos, é um tanto longo para um credo, mas é considerado “um majestoso e único monumento da fé imutável de toda a igreja quanto aos grandes mistérios da divindade, da Trindade de pessoas em um só Deus e da dualidade de naturezas de um único Cristo.” [1]

TEXTO

1. Todo aquele que quiser ser salvo, é necessário acima de tudo, que sustente a fé universal. [2] 2. A qual, a menos que cada um preserve perfeita e inviolável, certamente perecerá para sempre. 3. Mas a fé universal é esta, que adoremos um único Deus em Trindade, e a Trindade em unidade. 4. Não confundindo as pessoas, nem dividindo a substância. 5. Porque a pessoa do Pai é uma, a do Filho é outra, e a do Espírito Santo outra. 6. Mas no Pai, no Filho e no Espírito Santo há uma mesma divindade, igual em glória e co-eterna majestade. 7. O que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo. 8. O Pai é não criado, o Filho é não criado, o Espírito Santo é não criado. 9. O Pai é ilimitado, o Filho é ilimitado, o Espírito Santo é ilimitado. 10. O Pai é eterno, o Filho é eterno, o Espírito Santo é eterno. 11. Contudo, não há três eternos, mas um eterno. 12. Portanto não há três (seres) não criados, nem três ilimitados, mas um não criado e um ilimitado. 13. Do mesmo modo, o Pai é onipotente, o Filho é onipotente, o Espírito Santo é onipotente. 14. Contudo, não há três onipotentes, mas um só onipotente. 15. Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. 16. Contudo, não há três Deuses, mas um só Deus. 17. Portanto o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, e o Espírito Santo é Senhor. 18. Contudo, não há três Senhores, mas um só Senhor. 19. Porque, assim como compelidos pela verdade cristã a confessar cada pessoa separadamente como Deus e Senhor; assim também somos proibidos pela religião universal de dizer que há três Deuses ou Senhores. 20. O Pai não foi feito de ninguém, nem criado, nem gerado. 21. O Filho procede do Pai somente, nem feito, nem criado, mas gerado. 22. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, não feito, nem criado, nem gerado, mas procedente. 23. Portanto, há um só Pai, não três Pais, um Filho, não três Filhos, um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. 24. E nessa Trindade nenhum é primeiro ou último, nenhum é maior ou menor. 25. Mas todas as três pessoas co-eternas são co-iguais entre si; de modo que em tudo o que foi dito acima, tanto a unidade em trindade, como a trindade em unidade deve ser cultuada. 26. Logo, todo aquele que quiser ser salvo deve pensar desse modo com relação à Trindade. 27. Mas também é necessário para a salvação eterna, que se creia fielmente na encarnação do nosso Senhor Jesus Cristo. 28. É, portanto, fé verdadeira, que creiamos e confessemos que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é tanto Deus como homem. 29. Ele é Deus eternamente gerado da substância do Pai; homem nascido no tempo da substância da sua mãe. 30. Perfeito Deus, perfeito homem, subsistindo de uma alma racional e carne humana. 31. Igual ao Pai com relação à sua divindade, menor do que o Pai com relação à sua humanidade. 32. O qual, embora seja Deus e homem, não é dois mas um só Cristo. 33. Mas um, não pela conversão da sua divindade em carne, mas por sua divindade haver assumido sua humanidade. 34. Um, não, de modo algum, pela confusão de substância, mas pela unidade de pessoa. 35. Pois assim como uma alma racional e carne constituem um só homem, assim Deus e homem constituem um só Cristo. 36. O qual sofreu por nossa salvação, desceu ao Hades, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia. 37. Ascendeu ao céu, sentou à direita de Deus Pai onipotente, de onde virá para julgar os vivos e os mortos. 38. Em cuja vinda, todo homem ressuscitará com seus corpos, e prestarão conta de sua obras. 39. E aqueles que houverem feito o bem irão para a vida eterna; aqueles que houverem feito o mal, para o fogo eterno. 40. Esta é a fé Universal, a qual a não ser que um homem creia firmemente nela, não pode ser salvo. [3]

NOTAS

Extraído de Paulo Anglada, Sola Scriptura : A Doutrina Reformada das Escrituras (São Paulo: Os Puritanos, 1998), 180-82.

[1] A. A. Hodge, The Confession of Faith ( Edinburgh & Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1992 ), 7.

[2] O termo universal traduz a palavra católica , a qual também poderia ser traduzida por geral .

[3] Traduzido a partir do inglês de A. A. Hodge, Outlines of Theology ( Edinburgh, & Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1991), 117-118.



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terça-feira, 7 de junho de 2022

203 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Terceiro (Capítulos 15-26).

 

203

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Terceiro (Capítulos 15-26)

 

Divisão do Tratado

O Tratado está dividido em 12 livros.

O livro I começa autobiografia. Refere-se às heresias e apresenta um plano geral do trabalho.

O livro II é um resumo da doutrina da Trindade.

O livro III trata do mistério da distinção e unidade do Pai e do Filho.

 

Capítulo 15.

1.      O Filho glorifica totalmente o Pai no que se segue: Eu te glorifiquei sobre a terra, terminei a obra que me deste a fazer. Todo o louvor do Pai vem do Filho, porque quando o Filho for louvado, o Pai será louvado. Levou a termo tudo o que o Pai quis.

2.      O Filho de Deus nasce como Homem, mas no parto da Virgem está o poder de Deus. O Filho de Deus se manifesta como Homem, mas Deus está nas obras do Homem. O Filho de Deus é crucificado, mas, na cruz, Deus vence a morte do Homem. Cristo, o Filho de Deus, morre, mas toda carne é vivificada em Cristo. O Filho de Deus está no reino dos mortos, mas o Homem é reconduzido ao céu.

3.      Quanto mais estas coisas forem louvadas em Cristo, tanto maior louvor será dado Àquele de quem Cristo recebe o ser Deus. Deste modo, o Pai glorifica o Filho na terra e, diante da ignorância dos povos e da estultice dos séculos, o Filho, pelo poder de suas obras, glorifica Aquele do qual Ele veio.

4.      Esta reciprocidade na glorificação não aumenta sua divindade, mas diz respeito à honra recebida pelo conhecimento dos que antes eram ignorantes. Pois o que não possuía em abundância o Pai, de quem tudo vem? Ou o que faltava ao Filho, em quem se comprazia em habitar toda a plenitude da divindade?

5.      Portanto, o Pai é glorificado na terra, quando a obra que ordena é realizada.

 

Capítulo 16.

6.      Vejamos qual é a glória que o Filho espera do Pai. Está absolutamente claro. Pois em seguida temos: Eu te glorifiquei na terra e concluí a obra que me encarregaste de realizar; e agora, glorifica-me, Pai, junto de ti, com aquela glória que tinha contigo, antes que o mundo existisse. Manifestei teu nome aos homens (Jo 17,4). O Pai foi glorificado pelas obras do Filho, quando foi reconhecido como Deus, quando foi manifestado como Pai do Unigênito, quando quis que, para nossa salvação, o seu Filho nascesse da Virgem como Homem.

7.      Na Paixão se cumpriu tudo aquilo que teve início quando nasceu da Virgem. Porque é Filho de Deus, perfeito em tudo, nascido antes dos tempos na plenitude da divindade, e agora é Homem, por sua origem na carne, pede para ser glorificado junto de Deus, assim como Ele mesmo, na terra, glorificou o Pai porque então o poder de Deus era glorificado, na carne, diante do mundo ignorante.

8.      Qual é, então, a glorificação que espera junto do Pai? Certamente, aquela que possuía junto dele antes que houvesse mundo. Possuía a plenitude da divindade e a tem, pois é Filho de Deus. Mas quem era Filho de Deus, também começou a ser Filho do Homem, pois era o Verbo feito carne.

9.      Não perdeu o que era, mas começou a ser o que não era; não deixou o que era seu, mas assumiu o que é nosso. Pede, para a natureza humana assumida por Ele, a glória que não perdera.

10.  Portanto, já que o Verbo é o Filho, e o Verbo se fez carne, e o Verbo era Deus e estava no princípio junto de Deus, e o Verbo era Filho antes da criação do mundo, o Filho, agora feito carne, orava para que esta carne começasse a ser para o Pai o mesmo que era o Verbo; para que o que tinha começado no tempo, recebesse a glória da claridade daquele que está fora do tempo, para que, transformada no poder de Deus e na incorrupção do Espírito, a carne fosse libertada da corrupção.

11.  Por conseguinte é esta a prece a Deus, é isto que o Filho pede ao Pai, é esta a súplica da carne, desta carne na qual, no dia do juízo, trazendo em si as feridas e as marcas da cruz, todos o verão, na glória prefigurada no monte, na qual foi elevado aos céus, na qual se assentou à destra de Deus, na qual foi visto por Paulo, na qual foi glorificado por Estêvão.

 

Capítulo 17.

12.  O Senhor pediu estas coisas depois de ter manifestado aos homens o nome do Pai. Qual é este nome? Acaso se ignorava o nome de Deus? Moisés ouviu-o na sarça, o Gênesis o anunciou no início do relato da criação do orbe, a Lei o expôs, os profetas o apresentaram, os homens o entenderam pelas obras deste mundo, os povos o veneravam, ainda que falsamente. Assim sendo, o nome de Deus não era ignorado.

13.  Contudo, ignoravam-no completamente, pois ninguém conhece a Deus, a menos que confesse também o Pai do Filho Unigênito, que não é parte, dilatação ou emanação, mas é nascido dele de modo inenarrável e incompreensível, como Filho que procede do Pai, possuindo a plenitude da divindade, pela qual e na qual nasceu, verdadeiro, infinito e perfeito Deus.

14.  Esta é a plenitude de Deus. Pois se algo lhe faltasse, já não haveria a plenitude que aprouve a Deus que nele habitasse (cf. Cl 1,19). Isto foi declarado pelo Filho e manifestado aos ignorantes.

15.  O Pai é glorificado pelo Filho, quando é reconhecido como o Pai de tal Filho.

 

Capítulo 18

16.  Desejando suscitar em nós a fé em sua natividade, o Filho deu-nos o exemplo de suas obras, para que, pela eficácia inenarrável de suas inenarráveis ações, aprendêssemos qual é o poder inenarrável do seu nascimento.

17.  Quando a água foi transformada em vinho, quando, com cinco pães, foram saciados cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças, e as sobras encheram doze cestos, vê-se, mas não se entende o fato, acontece, mas não se compreende o motivo pelo qual acontece. O resultado, no entanto, se impõe.

18.  É estultice procurar compreender por meio de falsas indagações aquilo que, por sua natureza, não pode ser compreendido. Assim como o Pai é indescritível por ser ingênito, também não se pode falar do Filho que é unigênito, porque o que foi gerado é imagem do Ingênito.

19.  É necessário compreender a imagem, com a inteligência e as palavras, para poder alcançar Aquele de quem é imagem. Nós, porém, vamos atrás de coisas invisíveis, buscamos o incompreensível, com nossa inteligência limitada por coisas visíveis e corpóreas.

20.  Não nos envergonhamos da estultice, não nos acusamos de impiedade, ao usar da má-fé em relação aos arcanos de Deus e seus poderes.

21.  Indagamos: como é o Filho? De onde provém o Filho? Com que prejuízo para o Pai, ou de que parte nasceu? Terás o exemplo dos milagres para acreditar que Deus pode realizar o que não podes compreender.

 

Capítulo 19.

22.  Perguntas como o Filho nasceu segundo o Espírito, e eu te interrogo sobre coisas corpóreas. Não indago como nasceu da Virgem nem se sua carne sofreu detrimento, gerando uma carne perfeita.

23.  Certamente não recebeu o que deu à luz, mas sua carne, sem aquilo que envergonha a nossa natureza, gerou Aquele que é perfeito e não sofreu

24.  diminuição no seu ser. Por conseguinte, sabemos que é justo julgar não ser impossível em Deus o que, pelo poder divino, foi possível no homem.

 

Capítulo 20.

25.  Consulto a ti, quem quer que sejas, que procuras investigar o que não pode ser investigado, grave árbitro dos segredos e dos poderes divinos, para que a mim, ignorante, que apenas creio que todas as coisas são como Deus as disse, talvez me apresentes o motivo destes fatos.

26.  Escuto o Senhor e, porque creio naquilo que está escrito, sei que, depois da ressurreição, com frequência se deixou ver no corpo, por muitos descrentes.

27.  Certamente deixou-se ver por Tomé, que, se não tocasse em suas chagas, não acreditaria, como disse: A não ser que eu veja em suas mãos o lugar dos cravos, e ponha a mão em seu lado, não acreditarei (Jo 20,25).

28.  O Senhor se acomoda totalmente à fraqueza de nossa inteligência e, para satisfazer as dúvidas dos infiéis, faz atuar o segredo do poder invisível.

29.  Expõe a razão deste fato, perscrutador das coisas celestes, quem quer que sejas.

30.  Estavam os discípulos fechados em casa, depois da paixão do Senhor, assentados em segredo. O Senhor aparece para confirmar a fé de Tomé e, nas mesmas condições por este impostas, oferece a possibilidade de apalpar o corpo e de tocar as chagas. Na verdade, Aquele que fora ferido devia ser reconhecido por suas feridas. Precisava mostrar seu corpo ferido.

31.  Pergunto então: por que parte da casa fechada entrou com o seu corpo? Com todo o cuidado expressou-se o Evangelista: Chegou Jesus, estando fechadas as portas, e pôs-se no meio deles (Jo 20,26).

32.  Porventura foi penetrando a solidez das paredes e a espessura da madeira que atravessou o que por natureza é impenetrável? Pois achou-se de pé, com seu próprio corpo, não com um corpo fictício ou enganoso.

33.  Sigam, portanto, os olhos de tua mente o ingresso de Cristo que entra e, com Ele, entre na casa fechada o olhar de tua mente.

34.  Tudo está completamente fechado, mas aparece, no meio deles, Aquele por cujo poder todas as coisas estão abertas. Inventas coisas falsas sobre o que é invisível. Eu te peço com instância a razão das visíveis. Nada do que é sólido cede, nem, por sua natureza, a madeira e as pedras deixam passar algo, como por uma abertura invisível.

35.  O corpo do Senhor não desaparece para logo retornar do nada; então de onde vem o que está de pé no meio deles? Diante disto, calam-se o pensamento e a palavra.

36.  A verdade do acontecido supera a razão humana. Portanto, se nos enganamos ao falar de natividade, também podemos mentir acerca da entrada do Senhor.

37.  Digamos que não aconteceu este fato, porque não compreendemos o seu sentido. Se nossa compreensão falha, deixará também de existir o acontecido. Mas a confiança na autenticidade do que aconteceu vence nossa mentira.

38.  O Senhor, na casa fechada, achou-se no meio dos discípulos; também o Filho nasceu do Pai. Não negues que Ele ali estivesse, porque, devido à fraqueza da inteligência, não consegues entender a sua entrada através das paredes.

39.  Não queiras ignorar que, do ingênito e perfeito Deus Pai, nasceu o unigênito e perfeito Deus Filho, porque o poder pelo qual se deu esse nascimento excede o entendimento e a palavra.

 

Capítulo 21.

40.  Todas as obras que estão no mundo poderiam servir de testemunha, para que nós crêssemos, sem duvidar, no poder de Deus. Mas nossa infidelidade opõe-se à verdade, e arremessamo-nos contra ela, com violência, querendo opor-nos ao poder de Deus. Se nos fosse possível, elevaríamos ao céu os corpos e as mãos, perturbaríamos os limites anuais do curso do sol e dos outros astros, misturaríamos o fluxo e o refluxo do oceano, impediríamos as fontes de fluir, alteraríamos a natureza dos rios, abalaríamos os fundamentos da terra, e, com furor mortal, nos revoltaríamos contra as obras de Deus.

41.  Felizmente, a natureza dos corpos nos retém pela necessidade de moderação.

42.  Certamente não nos enganamos. Se pudéssemos, iríamos fazer tudo isso, pois, já que nos é possível, arruinamos a natureza da verdade e fazemos guerra às palavras de Deus, pela audácia da vontade profana.

 

 

Capítulo 22.

43.  Disse o Filho: Pai, manifestei teu nome aos homens (Jo 17,6). Que inventaremos contra isto? Por que nos indignamos? Tu negas o Pai? Mas se foi esta a máxima obra do Filho, que conhecêssemos o Pai! Tu o negas totalmente quando dizes que o Filho não nasceu dele. E por que é dito Filho, se foi feito por um ato de vontade como todo o resto?

44.  Posso admirar o Deus criador do Cristo que cria o mundo. É poder digno de Deus ter criado o criador dos arcanjos e dos anjos, das coisas visíveis e invisíveis, do céu e da terra, de tudo o que pertence a esta criação.

45.  Que tu percebas que Deus tem o poder de criar todas as coisas não é a obra do Senhor, mas sim, que tu saibas ser Deus o Pai deste Filho que fala.

46.  São muitas as eternas e eficientes virtudes do céu, mas é um só o Filho Unigênito, que não difere dos outros apenas pelo poder, porque por Ele tudo foi feito, mas porque é o verdadeiro Filho Unigênito, que não pode ser rebaixado, como se tivesse nascido do nada.

47.  Ouves o Filho; acredita que é verdadeiramente Filho. Ouves a palavra Pai; lembra-te de que é Pai. Para que entremeias estes nomes com suspeitas, malícia, ousadia? Segundo a compreensão natural, são nomes adaptados ao que é divino.

48.  Por que forças a significação das palavras? Ouves Pai e Filho; não duvides de que eles são o que estas palavras significam.

49.  O essencial da obra de salvação do Filho é que tu conheças o Pai. Por que anulas a obra dos Profetas, a encarnação do Verbo, o parto da Virgem, o poder dos milagres, a cruz de Cristo? Foi em teu favor que tudo isso custou trabalho.

50.  Tudo foi concedido para que, por essas coisas, te fosse manifestado o Pai e também o Filho. Agora inventas vontade, criação, adoção. Observa a missão e o serviço de Cristo. Pois Ele exclama: Pai, manifestei teu nome aos homens (Jo 17,6); não ouves: criaste o criador dos seres celestes; não ouves: fizeste o que fez as coisas terrestres; mas ouves: Pai, manifestei teu nome aos homens. Usa do dom de teu Salvador.

51.  Fica sabendo que é Pai Aquele que gerou, é Filho o que nasceu daquele que é Pai na verdade da natureza. Lembra-te de que não te foi manifestado que o Pai é Deus, mas sim que Deus é Pai.

 

 

Capítulo 23.

52.  Ouves: Eu e o Pai somos Um (Jo 14,30); por que divides e separas o Filho do Pai? São uma só coisa, o que quer dizer que são Aquele que é e Aquele que nasceu dele e que nada tem que não esteja também naquele de quem recebe o ser. Quando ouves o Filho dizer: Eu e o Pai somos Um, ajusta a realidade às pessoas, permite ao que gera e ao que é gerado declarar a sua condição. Que sejam Um, como o que gera e o que é gerado.

53.  Por que repeles a unidade da natureza? Por que destróis a verdade? Escutas: O Pai está em mim e eu no Pai (Jo 14,38); e as obras do Filho atestam isto a respeito do Pai e do Filho. Não vamos introduzir, com nosso modo de raciocinar, um corpo dentro de outro corpo. Não o derramaremos como água no vinho, mas em ambos confessaremos a mesma semelhança no poder e a mesma plenitude da divindade.

54.  Pois o Filho tudo recebe do Pai e é a forma de Deus e a imagem de sua substância (cf. Hb 1,3). A expressão imagem da substância distingue o que recebe seu ser daquele que é, no que diz respeito à fé na sua subsistência pessoal, mas não deve dar a entender uma diversidade de natureza.

55.  Que o Pai esteja no Filho, e o Filho no Pai, significa que em ambos a plenitude da divindade é perfeita. O Filho não causa uma diminuição no Pai, o Filho não nasceu imperfeito do Pai.

56.  A imagem não existe sozinha, e a semelhança não se refere a si mesma. Nada pode ser semelhante a Deus, a não ser Aquele que provém dele mesmo. Não provém de outra parte o que em tudo é semelhante a Ele, e a semelhança não permite que se admita nenhuma diversidade entre os dois.

57.  Não mistures os semelhantes nem separes os que estão verdadeiramente unidos, porque Aquele que disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gn 1,26) mostra serem semelhantes um ao outro, por ter dito nossa semelhança. Não pegues, não toques, não corrompas. Mantém os nomes da natureza, mantém a profissão de fé no Filho.

58.  Não quero que te entregues à adulação, louvando o Filho com tuas próprias palavras. Basta que te contentes com as que foram escritas.

 

 

Capítulo 24.

59.  Ninguém deve confiar tanto na prudência humana a ponto de julgar perfeito aquilo que pensa e estar convencido de que contém em si o supra-sumo de toda razão, porque, refletindo consigo mesmo, está certo de possuir sempre a justa opinião sobre a verdade.

60.  O que é imperfeito não concebe o perfeito, e o que subsiste por outro não pode absolutamente alcançar a compreensão de seu Criador ou de si mesmo. A respeito de si mesmo, só percebe que existe.

61.  Quanto ao mais, a natureza que o constitui não lhe permite ir além dos limites de sua mente, pois não deve seu movimento a si mesmo, mas ao seu Autor. Por isso, aquele que recebe sua existência do seu Autor é imperfeito em si mesmo, enquanto recebe do exterior sua existência e é forçoso que, na medida em que se julga perfeito no saber, se engane.

62.  Não governando a indigência de sua natureza e julgando que tudo está contido nos limites de sua fragilidade, se enche de soberba, com o falso nome da sabedoria. Porque não lhe é permitido saber aquilo que ultrapassa sua inteligência, é tão fraco no seu entendimento quanto na sua capacidade de subsistir. Por causa deste modo falso de entender, gloriando-se de obter pela natureza imperfeita a sabedoria da inteligência perfeita, torna-se ridículo pelo opróbrio que corresponde à estulta sabedoria, como diz o Apóstolo: Não foi para batizar que Cristo me enviou, mas para anunciar o Evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo. Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus. Pois está escrito: destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o homem culto? Onde está o argumentador deste século? Deus não tornou louca a sabedoria deste século? Com efeito, visto que o mundo por meio da sabedoria não reconheceu a Deus na sabedoria de Deus, aprouve a Deus pela loucura da pregação salvar aqueles que crêem. Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca da sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens (1Cor 1,17-25).

63.  Portanto, toda falta de fé é insensatez, porque emprega a sabedoria de sua mente imperfeita e, enquanto mede tudo pela fraqueza de sua opinião, julga não poder existir o que não entende. A causa da falta  de fé na palavra vem da fraqueza de quem não crê que possa ser feito aquilo que decreta não poder ser feito.

 

Capítulo 25.

64.  Por este motivo, o Apóstolo, conhecendo a imperfeição do pensamento, própria da natureza humana, que somente julga ser verdade aquilo que entende, diz não pregar com palavras de sabedoria, para que não se torne vã a pregação. Mas, para que não fosse tido como pregador da loucura, acrescentou que a palavra da cruz é loucura para os que perecem, porque os infiéis pensavam existir somente aquela sabedoria que podiam entender. Porque não entendiam senão o que permanecia dentro dos limites de sua frágil natureza, julgavam ser insensatez a única e perfeita sabedoria de Deus.

65.  Com isto se enganavam, ao fundamentar-se na opinião de sua fraca sabedoria. Por isso mesmo, o que é loucura para os que se perdem é, para os que se salvam, poder de Deus, pois estes nada avaliam segundo a fraqueza natural de sua inteligência, mas avaliam a força do poder divino segundo a infinidade de sua força celeste.

66.  Deus reprova a sabedoria dos sapientes e a inteligência dos inteligentes, porque a salvação é dada aos fiéis por aquilo que a opinião humana julga ser insensatez.

67.  Os infiéis pensam que é estulto o que excede o seu entendimento, já os fiéis confiam no poder de Deus que lhes concederá com abundância os mistérios da salvação. Não são estultas as coisas de Deus. Tola é a prudência da natureza humana, que pede sinais ou sabedoria a seu Deus para ter fé.

68.  Aos judeus é próprio pedir sinais, porque, pela familiaridade com a Lei, não são totalmente ignorantes no que se refere a Deus e estão abalados pelo escândalo da cruz.

69.  É próprio aos gregos pedir a sabedoria, porque, pela sua inépcia de gentios e prudência humana, querem saber a razão de ter sido Deus elevado na cruz.

70.  Estas coisas estão ocultas no mistério, por causa de nosso fraco entendimento. A insensatez torna-se incredulidade porque o que a mente, imperfeita por natureza, não pode conceber, ela mesma declara estranho à sabedoria.

71.  Por causa desta imprudente sabedoria, que não reverenciou a sabedoria de seu Criador na magnificência do mundo, tão sabiamente ornado pelo plano do Autor, foi do agrado de Deus salvar, pela loucura da pregação, os crentes, isto é, pela fé na cruz, conduzir até a imortalidade os mortais, para que, confundido o modo de pensar humano, se encontrasse a salvação no que se pensava ser loucura.

72.  Cristo, que é loucura para os gentios e escândalo para os judeus, é poder de Deus e sabedoria de Deus, porque o que pelo julgamento humano é considerado fraqueza e loucura, no que se refere a Deus, sobrepuja a prudência e a força terrenas com a sabedoria e o poder da verdade.

 

Capítulo 26.

73.  No que se refere à ação divina, nada deve ser tratado segundo a opinião da mente humana, e a criatura, que é sua obra, não deve julgar o Criador. Temos de assumir a loucura para receber a sabedoria, não com juízo imprudente, mas com o reconhecimento de nossa natureza, de modo que aquilo que o pensamento terreno não concebe, a razão do divino poder faça penetrar em nós.

74.  Quando, depois de termos reconhecido a estultice de nosso entendimento, sentirmos em nós a inexperiência e a ignorância próprias de nossa natureza, seremos impregnados com a sabedoria de Deus pela prudência da divina sabedoria.

75.  Quando não mais medirmos a força e o poder de Deus e não encerrarmos dentro das leis naturais o Senhor da natureza, então compreenderemos que só devemos crer, a respeito de Deus, aquilo que Ele mesmo testemunhou e ensinou que devemos crer.

 

O que você destaca no texto e colo ele serve para sua espiritualidade?