terça-feira, 4 de outubro de 2022

215 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Sexto (Capítulos 44 - 52).

 


215

Hilário de Poitiers (315-368)

O Tratado da Santíssima Trindade

Livro Sexto (Capítulos 44 - 52)

 


Divisão do Tratado

O Tratado está dividido em 12 livros.

O livro I começa autobiografia. Refere-se às heresias e apresenta um plano geral do trabalho.

O livro II é um resumo da doutrina da Trindade.

O livro III trata do mistério da distinção e unidade do Pai e do Filho.

No livro IV o autor apresenta a carta de Ário a Alexandre de Alexandria e demonstra a divindade de Filho a partir de citações tiradas do Antigo Testamento.

O livro V também cita o Antigo Testamento para demonstrar a divindade do Filho, que não é um outro Deus ao lado do Pai.

O livro VI refere-se novamente à carta de Ário e argumenta a partir do Novo Testamento.

 

Capítulo 44.

1.        Nada diferente pregou aquele que, de perseguidor, se tornou Apóstolo e vaso de eleição. Que palavra sua não é uma confissão do Filho? Que epístola não começa pelo mistério desta verdade? Em que nome por ele dito não está contida a indicação desta natureza?

2.        Quando diz: Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho (Rm 5,10), Deus enviou seu Filho na semelhança da carne de pecado (Rm 8,3), Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho (1Cor 1,9), que lugar é deixado aqui para a fraude dos hereges? É seu Filho, não é adoção, não é criatura.

3.        O nome diz a natureza, a propriedade enuncia a verdade, a confissão atesta a fé. Não entendo o que se possa acrescentar à natureza do Filho.

4.        Pois, porque é seu Filho, crê-se ser Ele o seu Pai; não falou de modo pouco claro e sem fundamento aquele que é vaso de eleição, nem deixou o erro de uma doutrina ambígua o Doutor das gentes, o Apóstolo de Cristo.

5.        Sabe quais são os filhos de adoção e os que merecem ser assim chamados pelo mérito de sua fé. Pois diz: Todos quantos são movidos pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus. Pois não recebestes o espírito de servidão para recair no temor, mas recebestes o Espírito de adoção, no qual clamamos: Abba, Pai (Rm 8,14-15).

6.        Este é o nome de nossa fé, pelo sacramento da regeneração. Nossa profissão nos concede a adoção. As obras que realizamos segundo o Espírito de Deus nos dão o nome de filhos de Deus, e nossa exclamação Abba, Pai ultrapassa aquilo que é próprio de nossa natureza porque a função da palavra vai além do que nos é próprio e ser chamado de filhos não é a mesma coisa que ser filhos.

 

Capítulo 45.

7.        Vamos estudar, positivamente, qual seja a fé do Apóstolo sobre o Filho de Deus. Nos discursos que pronunciou diante de toda a Igreja, para sua doutrina, nunca confessou o Pai sem o Filho; contudo, para mostrar, enquanto a palavra humana pode expressar, a verdade do nome, disse: Que diremos, pois, à vista dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Ele, que não poupou o próprio Filho, mas o entregou por nós? (Rm 8,31-32).

8.        Como ainda se falará de adoção onde há o nome da natureza? Querendo o Apóstolo mostrar o amor de Deus por nós, para que se conhecesse a magnificência da dileção de Deus por uma comparação, ensinou que Deus não havia poupado nem seu próprio Filho, entregando-o, não como adotado, pelos que iria adotar, nem, como criatura, pelos que foram criados, mas dando o seu em lugar do estranho, o próprio em lugar dos que receberiam o nome de filhos.

9.        Investiga a força das palavras, para poderes entender a magnitude da caridade. Examina com atenção o que significa próprio, não ignores a verdade. Pois aqui o Apóstolo diz: próprio Filho, quando em relação a muitos iria dizer diversas vezes seu ou dele. E embora, em muitos códices, pela fraca compreensão dos tradutores, neste lugar, em vez de próprio Filho, se encontre seu Filho, em grego, língua falada pelo Apóstolo, diz-se próprio, em vez de seu.

10.    Para o modo comum de pensar não há muita diferença entre próprio e seu, e o Apóstolo, em outros escritos, empregou a expressão seu Filho, que em grego é tòn eautoû uiòn; neste lugar, porém, aqui diz que não perdoou a seu próprio Filho (os ge toû ídíou Uiou oùk egeisato).

11.    Estas palavras demonstram que Ele é o Deus Unigênito pela verdade da natureza, de modo que, tendo demonstrado antes que muitos eram filhos pelo Espírito de adoção, agora demonstrou ser o Unigênito o Deus Filho por natureza.

 

Capítulo 46.

12.    Este não é um erro humano, nem é fruto da ignorância negar o Filho de Deus, porque não é possível ignorar o que se nega.

13.    O Filho de Deus é chamado de criatura vinda do nada. Isto nem o Pai declarou, nem o Filho atestou, nem o Apóstolo pregou, e no entanto ousaram dizê-lo; isto não é apenas ignorar a Cristo, mas odiá-lo.

14.    Como o Pai diz a respeito de seu Filho: Este é (Mt 3,17), o Filho diz de si mesmo: É este mesmo que fala contigo (Jo 9,37), Pedro confessa: Tu és (Mt 16,16), João afirma: Este é verdadeiro (1Jo 5,21) e Paulo não deixa de pregar que é próprio, não entendo que se negue, a não ser por ódio, quando o erro da imperícia não é escusa do crime.

15.    É isto que diz, claramente, pela vinda de seus profetas e núncios, aquele mesmo que depois irá falar como anticristo, inquietando a salutar profissão de fé com novas investidas, a fim de, primeiro, arrancar de nossa consciência a ideia de Filho segundo a natureza em que cremos, e excluir, em seguida, por ser adotivo, qualquer outro nome.

16.    Pois para aqueles para quem Cristo é criatura, forçoso é que, junto com eles o próprio Cristo seja o anticristo; porque a criatura não tem a natureza de Filho, e Ele mente, dizendo ser o Filho de Deus. Por isso, segundo aqueles que negam o Filho de Deus, deve-se acreditar que Cristo é o anticristo.

 

Capítulo 47.

17.    Que esperanças, ó inútil furor, aguardas tu? E por que confiança na salvação te esforças em provar com lábios blasfemos ser Cristo criatura e não Filho? Seria vantagem para ti conhecer pelos Evangelhos e manter o mistério desta fé. Pois o Senhor, que tudo pode, quis, no entanto, que cada um dos que lhe pediam um efeito de seu poder o experimentasse pelo mérito da confissão. Não que a confissão do pedinte acrescente a sua virtude, a Ele que é a Virtude de Deus, mas é prêmio da fé merecer tal coisa.

18.    Quando, à Marta, que pede por Lázaro, Ele pergunta se crê que não morrerão aqueles que nele crêem, ela, com fé consciente, diz: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, Filho de Deus, que vieste a este mundo (Jo 11,17).

19.    Esta confissão é a própria eternidade, esta fé não morre. Marta, pedindo a vida de seu irmão, ao ser interrogada se assim acreditava, acreditou. Agora pergunto: quem nega isto, de quem, ou para que vida espera, se somente há vida, se assim se crê? Pois é grande este mistério da fé, e a sua perfeita confissão é a bem-aventurança.

 

Capítulo 48.

20.    O Senhor concedera a visão ao cego de nascença, e o Senhor da natureza desfizera o dano natural. E porque este cego assim nascera para a glória de Deus, para que, em Cristo, se pudesse entender a obra de Deus, não se esperava dele a confissão de fé; mas, porque ignorava o autor do grande dom da visão recuperada, mereceu depois conhecer a fé.

21.    Pois a expulsão da cegueira não conferia a vida eterna. Por este motivo, o Senhor, depois de ter sido ele curado e expulso da sinagoga, o interroga, dizendo: Tu crês no Filho de Deus? (Jo 9,35). Que não julgasse um dano estar privado da sinagoga aquele que, pela confissão da fé, readquiria a imortalidade.

22.    E, quando, ainda inseguro, respondeu: Quem é, Senhor, para que nele eu creia?, não querendo que aquele a quem, depois da recuperação dos olhos, seria concedida tão grande inteligência da fé, permanecesse na ignorância, assim diz o Senhor: Tu o viste, é Ele mesmo o que fala contigo.

23.    Acaso o Senhor pede a este, como aos outros que pediam curas, a confissão de fé para merecerem saúde? Claro que não, pois falou ao cego quando já via, somente para que respondesse: Creio, Senhor (Jo 9,38), porque a fé da resposta não serviria para curar a cegueira, mas para dar a vida.

24.    Estudemos com mais empenho a força deste dito. O Senhor interroga: Tu crês no filho de Deus? Se uma confissão qualquer de fé em Cristo fosse bastante, teria sido dito, Tu crês em Cristo? Mas, como para quase todos os heréticos este nome era só uma palavra usada, para confessarem a Cristo, negando o Filho, o que Cristo pede é próprio à fé, isto é, que se creia no Filho de Deus.

25.    Mas para que serve crer no Filho de Deus, quando se crê na criatura e é pedida a fé em Cristo, não criatura de Deus, mas Filho?

 

Capítulo 49.

26.    Será que os demônios desconheciam o sentido próprio deste nome? É digno de hereges serem convencidos, não já pelas doutrinas dos Apóstolos, mas pela boca dos demônios. Pois estes gritam, e gritam muitas vezes: Que há entre mim e ti, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? (Lc 8,28).

27.    A verdade atraía a confissão feita de má vontade, o sofrimento em obedecer atesta o poder da natureza. Pela força são vencidos, quando abandonam corpos por muito tempo possuídos; prestam honra quando confessam a natureza de Deus, e atestam que Cristo é Deus, pelas obras e pelo nome. Entre estas vozes dos demônios a confessarem, donde tiras, ó herege, o nome de criatura e a benevolência da adoção?

 

Capítulo 50.

28.    Quem seja Cristo, aprende ao menos pelos que o desconhecem, para que tua impiedade seja censurada pela confissão que os ignorantes são forçados a fazer. Pois os Judeus, se não conheciam o Cristo encarnado, conheciam, no entanto, ser Filho de Deus Aquele que deveria aparecer como Cristo.

29.    Como falsas testemunhas não apresentassem nenhuma verdade contra Ele, o Sumo Sacerdote o interroga: Tu és o Cristo, o Filho do Bendito? (Mc 14,61). Ignoravam o mistério, mas não a natureza. E não perguntam se Cristo é filho de Deus, mas se este é o Cristo Filho de Deus. Erra-se quanto ao Homem, não quanto a ser Filho de Deus. Pois não há dúvida de que Cristo seja Filho de Deus e por isso, quando se pergunta se é este, não se nega que o Cristo seja Filho de Deus.

30.    E indago, por qual fé tu negas aquilo que não é negado nem mesmo pelos que o desconhecem? A perfeita ciência sobre Cristo é reconhecer ser ele Filho de Deus, que existe antes dos séculos, e é também Filho da Virgem. Os que não sabem que nasceu de Maria não desconhecem ser Filho de Deus. E vê, ao negar o Filho de Deus, a que companhia da judaica impiedade te misturaste. Pois indicam a causa de sua condenação quando dizem: E de acordo com a Lei deve morrer, porque se diz Filho de Deus (Jo 14,7).

31.    E não é também o que a tua palavra ímpia censura: que se diga Filho, aquele a quem tu garantes ser criatura? Ele, dizendo-se Filho de Deus, é por eles julgado digno de morte; e tu, que negas o Filho de Deus, que julgamento mereces? Pois a afirmação sobre Ele desagrada a ti. Pergunto se ainda manténs opinião diversa da deles, dos quais não diverges pela vontade, pois negas com a mesma impiedade que seja Filho de Deus.

32.    A culpa deles é menor, pois ignoram. Não sabem que o Cristo nasceu de Maria, mas não duvidam de que o Cristo seja Filho de Deus. Tu, que não podes desconhecer que o Cristo nasceu de Maria, pregas que Cristo não é Filho de Deus. Porque não sabem, ainda podem ter assegurada a salvação, se acreditarem.

33.    Para ti, todo caminho para a salvação está fechado, já que negas o que não podes ignorar.

34.    Não ignoras ser Filho de Deus, pois chegas a aceitar o nome de Filho adotivo para dizer com falsidade que é criatura e que, como as demais, é chamado Filho.

35.    Se podes pensar em negar-lhe a natureza, negarias, se te fosse possível, também o nome. E porque isto não te é permitido, não dás ao nome o seu verdadeiro significado, para que não seja verdadeiro Filho de Deus, ao ser chamado de Filho.

 

Capítulo 51.

36.    A confissão daqueles a quem foi devolvida a tranqüilidade, quando o vento estava desencadeado e o mar se agitava, pela ordem de uma palavra, poderia dar-te ocasião de confessá-lo, também, como verdadeiro Filho de Deus, repetindo a palavra deles: Verdadeiramente é Filho de Deus (Mt 14,35).

37.    Mas o mau espírito te arrasta ao naufrágio, te rouba a vida, e domina os movimentos de tua mente, como a procela que irrompe no mar tempestuoso.

 

Capítulo 52.

38.    Se não te parece digna de crédito a fé dos navegantes, porque provém dos Apóstolos, para mim, embora cause menos admiração, tem contudo maior autoridade. Aceita a fé no Filho proclamada até pelos gentios, escuta entre os malvados guardas da cruz, o indômito soldado da coorte romana, movido pela fé. Pois o centurião fala, à vista de tantos prodígios: Verdadeiramente este homem era Filho de Deus (Mt 27,54).

39.    Deram testemunho disto, depois que Jesus entregou o espírito, o véu do Templo rasgado, os mortos ressuscitados, o terremoto, as pedras rachadas, os sepulcros abertos e a confissão de um homem provindo da infidelidade dos gentios.

40.    Reconhece nas obras o poder da natureza divina e proclama, com o nome, a verdade da mesma natureza. A verdade se impõe com tamanha evidência e é tão grande a força da fé que a vontade é vencida pela necessidade da verdade, e nem mesmo o que o tinha crucificado nega que Cristo, Senhor da glória eterna, seja verdadeiramente Filho de Deus.

 

domingo, 18 de setembro de 2022

214 - Hilário de Poitiers (315-368) - O Tratado da Santíssima Trindade - Livro Sexto (Capítulos 34 - 43)

 


214
Hilário de Poitiers (315-368)
O Tratado da Santíssima Trindade
Livro Sexto (Capítulos 34 - 43)
 


Divisão do Tratado

O Tratado está dividido em 12 livros.

O livro I começa autobiografia. Refere-se às heresias e apresenta um plano geral do trabalho.

O livro II é um resumo da doutrina da Trindade.

O livro III trata do mistério da distinção e unidade do Pai e do Filho.

No livro IV o autor apresenta a carta de Ário a Alexandre de Alexandria e demonstra a divindade de Filho a partir de citações tiradas do Antigo Testamento.

O livro V também cita o Antigo Testamento para demonstrar a divindade do Filho, que não é um outro Deus ao lado do Pai.

O livro VI refere-se novamente à carta de Ário e argumenta a partir do Novo Testamento.

 

Capítulo 34.

1.      Os apóstolos aqui não entenderam o ter saído de Deus, no sentido de ter sido enviado por Deus, pois em todo o discurso anterior haviam ouvido muitas vezes que tinha sido enviado. Mas, ouvindo que de Deus saíra, e vendo nele, pelas obras, a natureza de Deus, reconhecem a verdade da natureza divina, pelo fato de ter saído de Deus, e dizem: Agora sim, sabemos que conheces tudo e não tens necessidade de que alguém te interrogue; nisto cremos que saíste de Deus (Jo 16,29).

2.      Pois crêem que saiu de Deus, porque pode e age em relação ao que pertence a Deus. Não por ter vindo do Pai, mas por ter saído de Deus, revela plenamente a natureza de Deus.

3.      Finalmente, isto que agora se ouve pela primeira vez vale para confirmar a fé. Pois, tendo o Senhor dito ambas as palavras: Eu saí de Deus e do Pai vim a este mundo (Jo 16.27,28), estas não lhes causaram admiração porque já com freqüência tinham ouvido: e do Pai vim a este mundo.

4.      A resposta deles, contudo, confirma a fé e a compreensão do dito: Eu saí do Pai. Pois a resposta se refere somente a isto, ao dizerem: Nisto cremos que saíste de Deus, mas não acrescentam: E do Pai vieste a este mundo.

5.      Confessam expressamente uma coisa e calam sobre a outra. A novidade destas palavras é a causa da confissão; foi, porém, a compreensão da verdade que suscitou o testemunho dos que confessavam.

6.      Na verdade sabiam que Ele, como Deus, podia tudo, mas ainda não aceitavam a natividade. Aqueles que sabiam ter sido enviado por Deus ignoravam no entanto que houvesse saído de Deus. Compreendendo, em virtude destas palavras, a inenarrável e perfeita natividade do Filho, agora declaram que não fala mais por parábolas.

 

Capítulo 35.

7.      Deus não nasce de Deus conforme o costume do parto humano, nem segundo os princípios de nossa origem, como sai o homem do homem.

8.      A íntegra, perfeita e incontaminada natividade é mais uma saída de Deus do que um parto. O que é Um procede do que é Um. Não é uma parte, não é separação, não é diminuição, não é derivação, não é extensão, não é passibilidade, mas é natividade de natureza viva, vinda daquele que vive.

9.      É Deus que procede de Deus, não é criatura eleita com o nome de Deus; não começou do nada para existir, mas saiu do que sempre permanece.

10.  Ter saído significa nascimento, não começo. Pois não é a mesma coisa uma substância ter um começo, e ter Deus saído de Deus.

11.  A certeza desta natividade, embora não possa ser explicada com palavras, por ser inenarrável, tem no entanto na doutrina do Filho a segurança da fé, pois Ele revela ter saído de Deus.

 

Capítulo 36.

12.  Não pertence à fé evangélica e apostólica crer que o Filho seja Deus antes pelo nome que por natureza. Se recebeu este nome por adoção e, por conseguinte, não é o Filho que nasceu de Deus, pergunto: donde então o bem-aventurado Simão Bar Jonas teria tirado esta confissão: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo? (Mt 16,16).

13.  Será porque todos têm o poder de nascer como filhos de Deus, pelo sacramento da regeneração? Se é nesse sentido que Cristo é Filho de Deus, indago o que não foi revelado a Pedro, nem pela carne nem pelo sangue, mas pelo Pai que está nos céus?

14.  Que mérito tem a confissão do que é comum a todos? Que glória de revelação advém a Pedro, desta confissão, se ele atribui ao Filho o que é comum aos Santos? Mas a fé apostólica ultrapassa a inteligência humana.

15.  Certamente ouvira muitas vezes: Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou (Mt 10,10). Portanto não ignorava ser Ele enviado; não ignorava quem o enviara, pois o ouvira declarar: Tudo me foi entregue pelo Pai, e ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, nem ao Pai ninguém conhece a não ser o Filho (Mt 11,25).

16.  Que será o que agora o Pai revela a Pedro, e que lhe dá a glória de uma confissão bem-aventurada? Acaso desconhecia os nomes de Pai e de Filho? No entanto, com freqüência os ouvira. Mas fala o que ainda nenhuma voz humana proferira: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo.

17.  Pois, embora estivesse no corpo, confessou ser Filho de Deus; agora, pela primeira vez, a fé apostólica reconhece nele a natureza da divindade. O louvor foi dado a Pedro, não tanto pela confissão da honra quanto pelo reconhecimento do mistério; porque confessou não apenas o Cristo, mas o Cristo Filho de Deus. Dizendo: Tu és, expôs a força e a propriedade da verdadeira natureza. E ao dizer o Pai: Este é o meu Filho (Mt 17,5), revelou a Pedro o: Tu és o Filho de Deus, porque dizer: Este é é uma revelação do que revela, e a resposta: Tu és é o reconhecimento do que confessa.

18.  Portanto, sobre esta pedra da confissão está edificada a Igreja.

19.  A carne e o sangue não revelam o sentido do que é confessado. O mistério da divina revelação não está só em proclamar Cristo Filho de Deus, mas em crer.

20.  Acaso foi revelado a Pedro antes o nome do que a natureza? Se já ouvira o nome, várias vezes, do Senhor, que se confessava Filho de Deus, em que consiste então a glória da revelação?

21.  Na proclamação da natureza, sem dúvida, não do nome, já que a declaração do nome era freqüente.

 

Capítulo 37.

22.  Esta fé é o fundamento da Igreja; por esta fé, são fracas as portas do inferno contra ela. Esta fé tem as chaves do reino celeste. O que esta fé ligar ou desligar na terra será ligado ou desligado nos céus (cf. Mt 16,18 e 19). Esta fé é dom da paterna revelação: não imaginar de modo algum Cristo como criatura, mas confessar o Filho de Deus, segundo a sua natureza.

23.  Ó infeliz e ímpio furor da estultice, que não entendes o testemunho da bem-aventurada senectude (velhice, idade) e da fé do mártir Pedro, por quem se rogou ao Pai para que não deixasse sucumbir sua fé pela tentação, que, depois da reiterada profissão de seu amor a Deus, diante da pergunta, como se fosse considerado ainda duvidoso e indeciso, gemeu à terceira interrogação (cf. Jo 23,17) e por isso, depois da terceira purificação da fraqueza, mereceu ouvir do Senhor por três vezes: Apascenta minhas ovelhas.

24.  Em meio ao silêncio de todos os apóstolos, reconheceu o Filho de Deus, pela revelação do Pai, e mereceu supereminente glória que supera toda a fraqueza humana por feliz confissão de sua fé!

25.  Interpretando agora sua palavra, a que conclusão somos levados? Ele confessou a Cristo Filho de Deus, e tu, hoje, falso e mentiroso sacerdote de recente apostolado, vens obrigar-me a considerá-lo criatura vinda do nada.

26.  Que força atribuis aos gloriosos ditos? Pedro confessou o Filho de Deus, por isso é bemaventurado. Esta é a revelação do Pai, este é o fundamento da Igreja, esta, a certeza da eternidade.

27.  Por isso existem as chaves do reino dos céus. Por isso seus juízos terrenos são juízos celestes. Aprendeu pela revelação o mistério oculto desde séculos, expressou a fé, declarou a natureza, confessou o Filho de Deus.

28.  Por isso, quem nega e prefere confessar a criatura será o primeiro a negar a Pedro o apostolado, a fé, a bemaventurança, o sacerdócio, o martírio; e depois de tudo, saiba estar longe de Cristo, porque Pedro, ao confessar o Filho, mereceu tudo isso.

 

Capítulo 38.

29.  E tu, quem quer que sejas, infeliz herege, julgas, hoje, que Pedro teria sido mais feliz se dissesse: Tu és Cristo, perfeita criatura de Deus, criação supereminente a todas as outras, que começaste do nada e, por bondade de Deus, o único bom, mereceste o nome de filho por adoção e não nasceste de Deus?

30.  Pergunto a ti o que teria ele escutado se dissesse essas palavras, ele que, tendo ouvido o anúncio da paixão, e respondido: Deus tal não permita, Senhor, não te sucederá isto (Mt 16,22), ouviu-o dizer: Retira-te de mim, Satanás, tu és para mim uma pedra de escândalo (Mt 16,23)?

31.  Mas a humana ignorância não foi o que levou Pedro à culpa, pois o Pai ainda não lhe revelara todo o mistério da paixão; mas sua pouca fé recebeu a sentença de condenação.

32.  Por que então o Pai não revelou a Pedro esta fé de tua confissão, de que Ele é criatura, Filho por adoção? Penso que aqui Deus tenha recusado a Pedro esta revelação, porque, ocultando-a para tempos futuros, reservaria para vós, agora, esta nova pregação.

33.  Haja outra fé, se são outras as chaves do reino dos céus. Haja outra fé, se houver outra Igreja, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão. Haja outra fé, se houver outro apostolado, ligando e desligando no céu o que ligou e desligou na terra. Haja outra fé, se Cristo for pregado como outro filho de Deus, diferente do que é.

34.  Mas, se, ao contrário, somente esta fé, que confessa a Cristo Filho de Deus, mereceu para Pedro a glória de todas as bemaventuranças, é forçoso que aquela Igreja que prefere confessar a criatura vinda do nada não consiga as chaves do reino dos céus e, estabelecida fora da fé e da virtude apostólicas, nem seja Igreja, nem de Cristo.

 

Capítulo 39.

35.  Citemos então todas as profissões de fé apostólicas que, confessando o Filho de Deus, não lhe atribuem um nome de adoção, mas afirmam a propriedade da natureza; não afirmam a ignomínia da criação, mas a glória do nascimento.

36.  Fale-nos João, que permanece assim até o advento do Senhor e, pelo mistério da divina vontade, foi deixado e designado, quando não foi dito: não morrerá, mas: há de permanecer.

37.  Fale-nos, portanto, sua voz, como de costume: Jamais ninguém viu a Deus a não ser o Filho Unigênito que está no seio do Pai (Jo 1,18). A fé na natureza não estará bastante explicada, ao que parece, pelo nome de Filho, se não se acrescentar o poder que lhe é próprio, mencionando sua singularidade.

38.  Pois, designando-o, além de Filho, Unigênito, afastou totalmente toda suspeita de adoção; com a verdade do nome, concorda a natureza do Unigênito.

 

Capítulo 40.

39.  Ainda não pergunto o que seja: Que está no seio do Pai; esta pergunta virá em sua ordem; pergunto o que exige a significação de Unigênito. E vejamos se é assim como defendes, isto é, criatura de Deus perfeita, de modo que perfeita pertença ao Unigênito, e criatura se refira ao Filho.

40.  Mas João disse: Unigênito Deus Filho, e não criatura perfeita. Não ignorava estes nomes de blasfêmia ao dizer: Que está no seio do Pai e ouvindo de seu Senhor: Deus tanto amou o mundo, que lhe entregou seu Filho Unigênito, a fim de que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16).

41.  Amando Deus ao mundo, assim testemunhou sua dileção: doando seu Filho Unigênito. Se dá testemunho deste amor, conceder a criatura às criaturas e dar, pelo mundo, o que é do mundo e ser remido o que vem do nada pela criatura vinda do nada, não merecem muita confiança estas vis e desprezíveis mercadorias.

42.  Pelo contrário, tem grande valor o que mostra a caridade, e o que é grande só se pode medir pelo que é grande. Deus, amando o mundo, não deu o Filho adotivo, mas o seu, o Unigênito.

43.  Aqui há a natureza, o nascimento, a verdade, não a criação, não a adoção, não a falsidade. Daí a fé na dileção e na caridade, que dá ao mundo a salvação, dando o Filho, o seu Filho, o Unigênito.

 

Capítulo 41.

44.  Deixo de mencionar todas as denominações do Filho. Não há culpada dissimulação, onde, pela grande quantidade, se faz necessária uma escolha.

45.  O progresso de algo sempre vem de uma causa, e toda obra manifesta o motivo pelo qual foi empreendida. Ao escrever os Evangelhos, devia o Autor apresentar os seus motivos, e vejamos o que quis demonstrar: Tudo isto foi escrito para que creiais que Jesus é o Cristo, Filho de Deus (Jo 20,31).

46.  Ao escrever o Evangelho, não apresentou outro motivo a não ser que todos cressem ser Jesus o Cristo, Filho de Deus. Se, para a salvação, basta crer em Cristo, por que acrescentou Filho de Deus? Se crer em Cristo é suficiente para a fé, mas não apenas em Cristo, em Cristo, Filho de Deus, o nome de Filho dado ao Cristo Deus Unigênito não vem da adoção comum, porque é próprio para a salvação.

47.  Portanto, se a salvação está na confissão deste nome, então, por que não é verdadeiro este nome? Se no nome está a realidade, com que autoridade se pode dizer criação, já que professar a criação não basta para a salvação, mas é preciso proclamar que é Filho?

 

Capítulo 42.

48.  É esta a verdadeira salvação, é este o mérito da perfeita fé: crer em Jesus Cristo, Filho de Deus. Em nós não há dileção de Deus Pai a não ser pela fé no Filho. E ouçamos o que diz João na Epístola: Todo aquele que ama o Pai, ama o que dele nasceu (1Jo 5,1).

49.  Que quer dizer, indago, nascer dele? Acaso será o mesmo que ser criado por Ele? Por que o evangelista iria mentir ao dizer nascido dele, daquele que os hereges ensinam ser antes criado por Ele? Ouçamos todos o que este doutor tem a dizer: É o anticristo aquele que nega o Pai e o Filho (1Jo 2,22).

50.  Que pretendes tu, defensor da criatura e novo criador de Cristo a partir de não existentes? Se manténs a tua afirmação, reconhece o nome do que a faz.

51.  Quando pregas serem criador e criatura, o Pai e o Filho, pensas ser excluído, de forma a não ser tido como anticristo, simulando outras significações dos nomes? Se, em tua fé, o Pai o é por natureza, também por natureza é o Filho.

52.  Caluniador serei eu, por atribuir-te o opróbrio de um nome falso. Mas, se tudo é simulado e trata-se, antes, de um nome do que da realidade, aprende do Apóstolo qual seja o cognome de tua fé, e escuta a fé no Filho que te foi transmitida: O que nega o Filho, também não tem o Pai; quem confessa o Filho, tem o Filho e o Pai (1Jo 2,23).

53.  Quem nega o Filho não tem o Pai. Quem confessa o Filho e o tem, tem também o Pai. Pergunto que lugar há aqui para nomes de adoção. Acaso tudo isto não pertence à natureza? Aceita o que pertence à natureza.

 

Capítulo 43.

54.  Diz ainda o Apóstolo: Porque sabemos que o Filho de Deus veio (1Jo 5,20), e se encarnou por nossa causa e sofreu e, ressurgindo dos mortos, nos assumiu e nos deu o entendimento, para que conheçamos o verdadeiro Deus e estejamos no seu verdadeiro Filho Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna, e nossa ressurreição (cf. 1Jo 5,20-21).

55.  Ó miserável inteligência, carente do espírito de Deus, que te aproprias do espírito e do nome do anticristo. Desconheces o mistério de nossa salvação, pelo qual o Filho de Deus veio e, por isso, indigno desta compreensão sublime, afirmas que Jesus Cristo é criatura, pelo nome de adoção, e não o verdadeiro Filho de Deus. Por quem foste instruído nestes segredos dos ocultos mistérios? Quem é, hoje, o novo autor desta tua ciência? Não seria, por teres reclinado no peito, pela familiaridade do amor, que o Senhor te mostrou este segredo? (Cf. Jo 19,27.) Ou foste o único que o seguiu até a cruz e, tendo recebido Maria como Mãe, também recebeste isto, além de outras coisas, como prova de seu amor por ti? Ou por teres corrido mais do que Pedro, chegando primeiro ao sepulcro, recebeste isto? (Cf. Jo 20,4.) Ou, no meio dos coros angélicos, dos indissolúveis selos dos livros assinalados, das multiformes potestades, dos sinais celestes dos novos e incompreensíveis cânticos dos hinos sempiternos, foi-te revelada, pelo Cordeiro que te conduzia, esta tão piedosa doutrina: que o Pai não é Pai, o Filho não é Filho, a natureza não é natureza, nem a verdade é verdade? (Cf. Ap 5,1-4.)

56.  Tudo isto é transformado por ti em falsidade. O Apóstolo, devido à inteligência a ele concedida, declara ser verdadeiro o Filho de Deus; tu afirmas a criação, pregas a adoção, negas a natividade.

57.  E, como o verdadeiro Filho de Deus é, para nós, a vida eterna e a ressurreição, não é, nem vida eterna nem ressurreição, para quem nega que seja verdadeiro. E é isso o que diz João, o dileto discípulo do Senhor.

 

O que você destaca no texto e colo ele serve para sua espiritualidade?