segunda-feira, 9 de abril de 2018

44 - Atenágoras de Atenas (†180) Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 29 - 37


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44
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Atenágoras de Atenas (†180)
Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 29 - 37


Capítulo XXIX
Também os sábios gregos, poetas e historiadores, contam a respeito de Héracles: “Cruel! Não respeitou a ira dos deuses, nem a mesa que lhe pusera, e depois matou seu próprio hóspede”, isto é, Ifito. Sendo assim, é natural que fosse louco, natural que acendesse uma fogueira e se queimasse vivo. De Asclépio, Hesíodo conta que: “o pai dos homens e dos deuses se irritou, e acertando-o do Olimpo com raio fuliginoso, matou Letoida, perturbando o coração de Tebo”. E Píndaro diz: “Mas até a sabedoria é atada pelo lucro. Também ele foi desviado pelo ouro que apareceu em sua mão por doce recompensa; mas o filho de Cronos, disparando com suas mãos, arrebatou-lhe velozmente o alento do peito, e o ardente raio feriu o insensato”.
Portanto, ou eram deuses e não se comportavam como homens em relação ao ouro: “Ouro, o mais belo presente para mortais, prazer que nem uma mãe ou os filhos ofereceu”. A divindade não tem necessidade, e está acima do desejo. Também não morreram. Ou, sendo homens, foram maus por ignorância e se deixaram dominar pelo dinheiro. Para que falar amplamente, recordando Cástor e Pólux ou Anfiaseu, os quais, sendo, como se diz, homens de ontem ou anteontem, são considerados deuses? A própria Ino, depois de sua loucura e o que nela sofreu, dizem que se transformou em deusa: “aqueles que caminham errantes pelo Ponto, a chamam Leucotéia”, assim como seu filho: “será chamado augusto Palêmon pelos marinheiros”.

2ª PARTE: REFUTAÇÃO DAS ACUSAÇÕES DE IMORALIDADE, INCESTO E REFEIÇÕES BACANAIS

Capítulo XXX - Razões porque a Divindade foi apontada pelo homem
Ora, se pessoas tão abomináveis e odiosas a Deus alcançaram a reputação de ser deuses, e Semíramis, a filha de Derceto, mulher despudorada e criminosa, foi considerada deusa síria, e os sírios, através de Derceto, cultuam os peixes, e através de Semíramis as pombas - é impossível que uma mulher se transforme em pomba; a fábula aparece em Clésias-, o que há de estranho que aqueles que exerceram poder e tirania fossem chamados deuses por seus súditos? A Sibila (Platão também recor da) diz: “Virá então a décima geração de míseros homens, desde que o dilúvio caiu sobre os primeiros mortais, e reinaram Cronos, Titã e Iapeto, filhos poderosos da terra e do céu, que os homens chamaram de Gaia e Urano, dando-lhes nome por terem sido os primeiros entre os míseros homens”; uns por sua força, como Héracles e Perseu; outros por sua arte, como Asclépio.
Portanto, a uns foram os súditos que tributaram honra divina, a outros foram os governantes; uns por medo e outros por respeito tiveram parte no nome divino (o próprio Antínoco, por benevolência de nossos antepassados para com seus súditos, teve a sorte de ser considerado deus). Depois a posteridade os aceitou sem qualquer prova ou exame: “Cretenses sempre mentirosos. Com efeito, ó rei, os cretenses fabricaram o teu sepulcro. Tu, porém, não morreste”.
Calímaco, tu que crês no nascimento de Zeus recusas crer em sua sepultura, e pensando jogar uma sombra sobre a verdade, não fazes senão anunciar um morto mesmo àqueles que não o conhecem. Se olhas a gruta, te lembras do parto de Rea; mas se te fixas no ataúde, lanças uma sombra sobre o morto e já não sabes que só o Deus incriado é eterno.
Concluindo, ou os mitos do vulgo e dos poetas sobre os deuses são indignos de fé, e então é supérfluo o culto que se lhes tributa, porque não existem aquelas personagens sobre as quais essas fábulas tratam; ou se são verdadeiros seus nascimentos, amores, assassínios, roubos, mutilações e fulminações, também não existem, pois deixaram de existir, uma vez que nasceram por não existirem antes. Com efeito, que razão há para crer em alguns relatos e não crer em outros, quando tudo foi contado pelos poetas, com a finalidade de glorificá-los? De fato, os que foram causa de que fossem considerados deuses ao exaltar suas histórias, não mentiriam contando os seus sofrimentos.
Fica portanto demonstrado, segundo minhas forças, embora não conforme a dignidade do assunto, que não somos ateus ao admitir como o Deus, Criador de todo este universo, e o Verbo que dele procede.

Capítulo XXXI –
Além disso, acusam-nos sobre comidas e uniões ímpias, pretendendo com isso encontrar alguma razão para nos odiar. Pensam que, amedrontando-nos, nos afastarão do nosso propósito de vida; ou, com suas acusações exorbitantes, nos exasperarão e arrumarão intrigas com os governantes. Isso para nós é puro jogo, pois sabemos que esse costume é antigo e não inventado só para o nosso caso e que se realiza por uma espécie e razão divina, isto é, que a maldade faça sempre guerra à virtude. Assim, Pitágoras foi queimado pelo fogo com trezentos companheiros; Heráclito e Demócrito foram exilados, um de Efeso e o outro de Abdera, acusados de loucura; os atenienses condenaram Sócrates à morte. Mas se todos esses não perderam a reputação de virtude por causa da opinião do vulgo, a estúpida calúnia de alguns contra nós não faz nenhuma sombra à retidão de nossa vida, pois temos boa fama diante de Deus. Entretanto, quero também enfrentar essas acusações.
Sei que com o que eu disse estou defendido diante de vós. De fato, superando a todos por vossa inteligência, sabeis que aqueles que tomam a Deus como regra de vida, para que cada um de nós esteja sem culpa e sem mancha em sua presença, não podem ter, em pensamento, o mais leve pecado, e acreditássemos que nada existe além desta vida presente, poder-se-ia suspeitar que pecássemos, submetendo-nos à servidão da carne e do sangue ou sendo dominados pelo lucro e pelo desejo. Sabendo, porém, como sabemos, que Deus vigia nossos pensamentos e nossas palavras, tanto de dia como de noite, e que ele é todo luz e vê até dentro do nosso coração; acreditando, como cremos, que, ao sair desta vida, viveremos outra melhor, contando que permaneçamos com Deus e por Deus inquebrantáveis e superiores às paixões, com alma não carnal, mas com espírito celeste, embora na carne; ou acreditando que, se cairmos como os demais, espera-nos uma vida pior no fogo (porque Deus não nos criou como rebanhos ou bestas de carga, de passagem, só para morrer e desaparecer); crendo nisso, dizíamos, não é lógico que nos entreguemos voluntariamente ao mal e nos joguemos a nós mesmos nas mãos do grande juiz para sermos castigados.

Capítulo XXXII 
Não há nada de surpreendente que falem de nós a mesma coisa que contam sobre seus deuses, pois apresentam suas paixões como mistérios. Contudo, se querem apresentar como crime o unir-se livre e indiferentemente, teriam de começar a rejeitar Zeus, que teve filhos com sua mãe Rea e com sua filha Coré e cuja mulher é a própria irmã, ou rejeitar Orfeu, o inventor de todos esses contos, que tornou Zeus mais ímpio e abominável do que Tiestes; com efeito, este se uniu com a própria filha através de um oráculo e pelo desejo de chegar a reinar e vingar-se. Nós, porém, estamos tão longe de ver isso com indiferença que não nos é lícito sequer olhar com intenção de desejo. De fato, a Escritura diz: “Aquele que olha para uma mulher a fim de desejá-la já cometeu adultério em seu coração”. Como não acreditar que são castos os que nada podem olhar além daquilo para o qual Deus formou os olhos, isto é, para que fossem nossa luz, aqueles que consideram adultério o olhar com prazer, pois os olhos foram criados para outra finalidade, e os que serão julgados até pelos seus pensamentos? Nós nada temos a ver com leis humanas, que qualquer malvado pode burlar (desde o começo, ó soberano, vos assegurei que nossa doutrina era ensinamento de Deus), mas temos uma lei e mandamento, que nos deu a nós mesmos e ao nosso próximo como medida de justiça. Por isso, dependendo da idade, consideramos a uns como filhos e filhas, a outros como irmãos e irmãs, e aos mais velhos tributamos honra de pais e mães. Assim, empenhamo-nos para que aqueles aos quais damos nome de irmãos e irmãs e outras qualificações familiares, permaneçam sem ultraje ou corrupção em seus corpos, como nos diz também a palavra divina: “Se alguém, por ter gostado, dá um segundo beijo…” Portanto, é preciso ser muito exato a respeito do beijo e principalmente na adoração, porque por pouco que manchem nossa mente nos colocam fora da vida eterna.

Capítulo XXXIII - Indissolubilidade do matrimônio
Como temos esperança na vida eterna, desprezamos as coisas da vida presente e até os prazeres da alma, tendo cada um de nós por mulher aquela que tomou conforme as leis estabelecidas por nós e com a finalidade de procriar filhos. Assim como o lavrador, jogada a semente na terra, espera a colheita e não continua semeando, do mesmo modo, para nós, a medida do desejo é a procriação de fïlhos . E até é fácil encontrar muitos dentre nós, homens e mulheres, que chegaram celibatários à velhice, com a esperança de um relacionamento mais íntimo com Deus. Se o viver na virgindade e castração aproxima mais de Deus e só o pensamento e o desejo separa, se fugimos dos pensamentos, quanto mais não recusaremos as obras? Nossa religião não se mede pelos discursos cuidadosos, mas pela demonstração e ensinamento de obras: ou se permanece como nasceu, ou não se contrai mais do que um matrimônio, pois o segundo é um adultério decente. A Escritura diz: “Quem deixa sua mulher e casa com outra, comete adultério”, não permitindo deixar aquela cuja virgindade desfez, nem casar-se novamente. Quem se separa de sua primeira mulher, mesmo quando morreu, é adúltero dissimulado, transgredindo a mão de Deus, pois no princípio Deus formou um só homem e uma só mulher, desfazendo a comunidade da carne com a carne, segundo a unidade para a união dos sexos.

Capítulo XXXIV
Nós que somos assim (por que devo falar o que não pode ser dito?), temos que ouvir o provérbio: “A prostituta para a casta”. Com efeito, os que fazem mercado de prostituição e constroem para os jovens prostíbulos para todo prazer vergonhoso; os que não perdoam nem aos homens, cometendo atos torpes homens com homens; os que ultrajam de mil modos os corpos mais respeitáveis e mais formosos, desonrando a beleza feita por Deus (pois a beleza não nasce espontaneamente da terra, mas é enviada pela mão e desígnio de Deus); esses nos atiram na cara aquilo de que têm consciência, o que eles chamam de deuses, adúlteros e pederastas insultando aos virgens e monógamos. Eles que vivem como peixes (pois devoram quem lhes cai na boca, o mais forte atacando o mais fraco - isso sim é alimentar-se de carnes humanas - e que, tendo leis estabelecidas por vossos antecessores após maduro exame para toda a justiça, violentam-se os homens contra elas, de modo que não são suficientes os governadores mandados por vós para os julgamentos); esses, dizíamos, acusam os que não podem deixar de se apresentar aos que os golpeiam nem de abençoar os que os amaldiçoam. Para nós não basta ser justos - a justiça consiste em dar o mesmo aos iguais - mas nos é proposto que sejamos bons e pacientes.

3ª PARTE: OS CRISTÃOS NÃO SÃO ANTROPÓFAGOS

Capítulo XXXV - Os cristãos detestam e condenam qualquer crueldade
Quem, em plena razão, poderia dizer que, sendo assim, somos assassinos? Não é possível saciar-se de carne humana, se antes não matamos alguém. Se eles mentem quanto ao primeiro ponto, mentem também quanto ao segundo. Com efeito, se lhes é perguntado se viram o que dizem, não existe ninguém tão sem-vergonha que diga ter visto. Entretanto, temos escravos, alguns mais outros menos, para os quais não é possível ocultar-nos. No entanto, nenhum deles chegou a caluniar-nos com semelhantes coisas. De fato, os que sabem que não suportamos ver uma execução com justiça, como vão nos acusar de matar e comer homens? Quem de vós não se entusiasma em ver os espetáculos de gladiadores ou de feras, principalmente os que são organizados por vós? Nós, porém, que consideramos que ver matar está próximo do próprio matar, nos abstemos de tais espetáculos. Portanto, como podemos matar os que não queremos sequer ver para não contrair mancha ou impureza em nós? Afirmamos que as mulheres que tentam o aborto cometem homicídio e terão que dar contas a Deus por ele 4; então, por que iríamos matar alguém? Não se pode pensar que aquele que a mulher leva no ventre é um ser vivente e objeto, consequentemente, da providência de Deus e em seguida matar aquele que já tem anos de vida; não expor o nascido, crendo que expor os filhos equivale a matá-los, e tirar a vida ao que já foi criado. Não! Nós somos em tudo e sempre iguais e concordes com nós mesmos, pois servimos à razão e não a violentamos.

Capítulo XXXVI
Além disso, quem crê na ressurreição quererá oferecer-se como sepultura dos corpos que hão de ressuscitar? Não é possível alguém acreditar que nossos corpos ressuscitarão e, ao mesmo tempo, os coma, como se não devessem ressuscitar; pensar que a terra devolverá seus próprios mortos e, ao mesmo tempo, pensar que aqueles que engoliu não reclamarão. É mais verossímil o contrário, aqueles que pensam que não se terá de dar conta desta vida, tanto faz se é boa ou má, e que não haverá ressurreição, mas que julgam que com o corpo perece também a alma e esta como que se apaga; é natural, dizíamos, que esses não se abstenham de nenhum atrevimento, creem que nada ficará sem ser examinado diante de Deus e que juntamente com a alma será castigado o corpo que cooperou com seus impulsos e desejos irracionais, quanto a esses não há razão para que cometam o mais leve pecado. Se para alguém parece pura charlatanice que um corpo apodrecido, desfeito e desaparecido torne a organizar-se, não poderia por parte daqueles que não creem na ressurreição imputar-nos maldade, mas ingenuidade. De fato, se nos enganamos a nós mesmos com essas razões, não causamos prejuízo a ninguém. Entretanto, não somos apenas nós que admitimos a ressurreição dos corpos, mas muitos filósofos também estão conosco. Contudo, seria ocioso demonstrar-vos isso agora, a não ser que introduzíssemos raciocínios estranhos ao nosso objetivo, falando do inteligível, do sensível, da constituição de um e de outro, que o incorporal é anterior aos corpos, que inteligível precede o sensível, embora não seja isso o que primeiro encontramos, pois os corpos são constituídos de elementos incorpóreos, conforme a acumulação do inteligível, e o sensível é constituído de elementos inteligíveis. Segundo a doutrina de Pitágoras e de Platão, nada impede que, realizada a dissolução dos corpos, voltem depois a organizar-se com os mesmos elementos dos quais eram constituídos no princípio.

Capítulo XXXVII
Reservemos, porém, para outra ocasião o discurso sobre a ressurreição. Quanto a vós que, em tudo e por tudo, por natureza e educação, sois bons, moderados, humanos e dignos do império, inclinai vossa imperial cabeça diante de quem desfez todas as acusações e demonstrou que somos piedosos, modestos e puros em nossas almas. Quais são os que merecem, com mais justiça, conseguir o que pedem senão nós que rogamos por vosso império, para que o herdeis, como é de estrita justiça, de pai para filho, que cresça e acresça, através da submissão de todos os homens? Isso também redunda em proveito nosso, para que, levando uma vida tranquila e pacífica, cumpramos animadamente tudo quanto nos é mandado.

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segunda-feira, 2 de abril de 2018

43 - Atenágoras de Atenas (†180) Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 23 - 28


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43
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Atenágoras de Atenas (†180)
Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 23 - 28


Capítulo XXIII
Vós, porém, que superais a todos em inteligência, poderíeis objetar: Então por que alguns ídolos agem, se não existem os deuses em cuja honra erguemos as imagens? Não é verossímil que estátuas inanimadas e imóveis tenham por si mesmas alguma força sem que alguém as mova. Desde já, nós mesmos não negamos que em determinados lugares, cidades e povoados aconteçam algumas operações em nome dos ídolos; entretanto, porque alguns tenham recebido proveito e outros prejuízo, não vamos considerar deuses aqueles que agiram em um ou outro sentido, mas investigamos cuidadosamente o motivo de crerdes que os ídolos têm alguma força e quais são os que agem, usurpando seus nomes. Antes de tudo, porém, já que quais são os que agem nos ídolos e que não são deuses, é preciso trazer como testemunhas também alguns filósofos. Tales, como dizem os que conhecem a fundo suas doutrinas, foi o primeiro que estabeleceu a divisão entre Deus, demônios e heróis. Por Deus, ele entende a mente do mundo; por demônios, as substâncias animadas; por heróis, as almas separadas dos homens, bons as boas, maus as más. Platão, que em outros pontos se mostra reservado, também distingue entre o Deus incriado, os astros fixos ou errantes, criados pelo Incriado, para enfeitar o céu, e os demônios. Ele recusa falar desses demônios, mas quer que se acredite nos que falaram sobre eles: “Falar da multidão de demônios e conhecer as suas origens é tarefa que ultrapassa nossas forças, mas deve-se acreditar nos que falaram anteriormente, já que, como dizem, são descendentes dos próprios deuses, e é de se supor que conheçam exatamente seus ascendentes. Portanto, é impossível não crer nos filhos de Deus, mesmo quando falam sem provas verossímeis ou necessárias, mas, seguindo o costume, deve-se crer neles como em pessoas que nos certificam estar nos contando a história de sua própria família. Dessa forma, seguindo a eles, sirva isso também para nós e digamos que a origem desses deuses é a seguinte: Da terra e do céu nasceram dois filhos: o Oceano e Tétis; desses nasceram Forco, Cronos, Rea e todo o seu séquito; de Cronos e Rea nasceram Zeus e Hera e todos os que sabemos que se dizem seus irmãos, e, por fim, os outros descendentes desses”.
Entretanto, Platão, que compreendeu o Deus eterno apenas pela inteligência e razão exeqüível; ele, que explicou os atributos que lhe convêm: seu ser real, sua unidade de natureza, o bem que dele se derrama, que é a verdade; ele, que falou da “primeira potência”, e disse: “Em torno do rei de todas as coisas está tudo, por causa dele tudo existe e ele é a causa de tudo”; e da segunda e terceira: “O segundo em torno do segundo, e o terceiro em torno do terceiro”; Platão pode considerar empresa superior às suas forças investigar a verdade sobre os que se dizem ter nascido de coisas sensíveis do céu e da terra? Não se pode dizer tal coisa. A verdade é que, como ele entendia ser impossível os deuses gerarem e conceberem, pois o que nasce tem conseqüentemente fim, mais impossível ainda seria mudar a convicção do vulgo, que aceita os mitos sem exame ou prova. Por esse motivo, disse que estava acima de suas forças conhecer e explicar a gênese da multidão dos demônios, pois não podia compreender, nem explicar como os demônios possam ter nascimento. A outra passagem sua, em que diz: “Zeus, o grande guia no céu, lançase à marcha conduzindo o seu carro, e atrás dele segue o exército dos deuses e demônios”, não deve ser entendida de Zeus, o assim chamado filho de Crono, pois com o seu nome quer-se significar o Criador do universo. O próprio Platão deixa isso bem claro. Não tendo outro termo para significar isso, usou o nome popular como pôde, não como nome próprio de Deus, mas por razão de clareza, já que não era possível representar para todos o Deus verdadeiro. Depois acrescentou-lhe o qualificativo de “grande”, para diferenciar o celeste do terreno, o incriado do criado, este mais jovem que o céu e a terra e até mais jovem que os cretenses, que o roubaram para que não fosse devorado por seu pai.

Capítulo XXIV
Que necessidade há de recordar-vos os poetas e examinar também outras opiniões para vós que examinastes toda a doutrina? É suficiente acrescentar apenas uma consideração. Mesmo quando poetas e filósofos não reconheceram que Deus é um só, mas uns pensaram nos deuses como demônios, outros como matéria, outros como tendo sido homens, haveria motivo para perseguir-nos, a nós que, com o nosso raciocínio distinguimos Deus da matéria e as substâncias de um e da outra? De fato, assim como confessamos Deus, o Filho, que é o seu Verbo, e o Espírito Santo, identificados segundo o poder, mas distintos segundo a ordem: o Pai, o Filho e Espírito, porque o Filho é inteligência, Verbo e sabedoria do Pai, e o Espírito, emanação como luz do fogo, também entendemos que existem outras potências que rodeiam a matéria e a penetram, e uma contrária a Deus. Não porque exista algo contrário a Deus, da mesma forma que a discórdia é contrária à amizade, conforme Empédocles, ou a noite contrária ao dia, entre os fenômenos naturais - se alguma coisa se enfrentasse assim com Deus, cessaria completamente de ser, pois a sua substância seria destruída pela potência e força de Deus -; mas porque o Espírito que rodeia a matéria é contrário à sua bondade, atributo que lhe é próprio e que coexiste com ele como o calor com o fogo, sem o qual não pode existir-não que seja parte sua, mas é acompanhamento necessário, identificado e compenetrado, como o vermelho com o fogo e o azul com o céu -; Espésito, dizíamos, criado certamente espírito, por Deus, como foram por ele criados os demais anjos, e ao qual foi confiada a administração da matéria e das formas da matéria. Com efeito, a substância desses anjos foi criada por Deus para providência das coisas por ele ordenadas, de modo que Deus conservaria a providência universal e geral do universo - o domínio e o poder sobre tudo dependeria dele, e ele dirigiria isso sozinho, indeclinavelmente, como um navio, com o timão da sua sabedoria-; mas os anjos por ele ordenados se encarregariam da providência particular. Do mesmo modo, porém, que os homens têm livre-arbítrio podem optar pela virtude e pela maldade - pois se não estivesse em seu poder a maldade e a virtude, não honraríeis os bons nem castigaríeis os maus, quando uns se mostram diligentes e outros desleais naquilo que lhes confiais -, assim tam bém os anjos. Uns, que foram imediatamente criados livres por Deus, permaneceram naquilo que Deus os criara e ordenara; outros se orgulharam tanto de sua natureza, como do império que exerciam, isto é, esse que é príncipe da matéria e das suas formas, e os outros encarregados desse primeiro firmamento-e deveis saber que não afirmamos nada sem testemunhas; expressamos apenas o que foi dito pelos profetas -; estes, por terem caído em desejo pelas virgens e mostrando-se inferiores à carne; aquele, por ter sido negligente e mau na administração que lhe fora confiada. Dos que tiveram relação com virgens nasceram gigantes. Não vos maravilheis, se em parte os poetas também falam dos gigantes, pois a sabedoria humana e a divina distam entre si assim como a verdade dista do verossímil. Uma é celeste e outra é terrena e, segundo o príncipe da matéria, “sabemos dizer muitas mentiras semelhantes à verdade”.

Capítulo XXV
Portanto, esses anjos caídos do céu, que rondam em torno do ar e da terra, e que já não são capazes de subir ao supraceleste, e as almas dos gigantes são os demônios, que andam errantes ao redor do mundo e produzem movimentos semelhantes; os demônios às substâncias que receberam, os anjos aos desejos que sentiram. Quanto ao príncipe da matéria, como se pode ver pela experiência, ele governa e administra de modo contrário à bondade de Deus: “Muitas vezes, uma preocupação atravessou a minha alma. Se é o acaso, se é demônio que domina o humano, pois contra a esperança, contra a justiça, alguns são arrancados de suas casas, sem Deus, e outros são levados à felicidade.” Se o ser feliz ou desgraçado contra a esperança e a justiça deixa mudo Eurípedes, de quem será uma administração das coisas terrenas, diante da qual se pode dizer: “Vendo tudo isso, como diremos que a raça dos deuses existe ou obedeceremos às leis?” Isso também levou Aristóteles a dizer que as partes inferiores do céu não são governadas pela providência, mas a verdade é que a providência eterna de Deus permanece para nós de modo igual: “A terra, queira ou não queira, por força, produzindo erva, engorda os meus rebanhos”, e a providência particular chega de fato e não em aparência para os que são dignos, e os outros são providos conforme a constituição comum das coisas, por lei da razão. O que acontece é que os movimentos demoníacos do espírito contrário e suas operações produzem esses impulsos desordenados que vemos arrastar os homens, uns de um modo, outros de outro, alguns individualmente, outros por nações, alguns parcialmente, outros em comum, segundo a razão da matéria e da simpatia com o divino; movimentos do interior, como do exterior, que obrigaram alguns, cujas opiniões não são desprezíveis, a pensar que todo este universo não está organizado com ordem, mas que tudo anda revirado por um acaso irracional. Eles ignoram que, quanto à constituição do universo, não existe nada desordenado, nem descuidado, mas cada parte sua foi feita com razão e, por isso, nenhuma transgride a ordem que lhe foi marcada. Quanto ao homem, se se olha para o seu Criador, também foi feito ordenadamente: a natureza de sua origem, que tem uma só e comum razão; a organização de sua formação, que não pode transgredir a lei que a rege; e o termo de sua vida, que permanece igual e comum para todos, embora, segundo a razão própria de cada um e a ação do príncipe da matéria que o domina e dos demônios que o acompanham, cada um se dirija e se mova de modo diverso, apesar de todos terem em si o raciocínio comum.

Capítulo XVI
Aqueles que os arrastam aos ídolos são esses demônios dos quais falamos, os que andam em torno do sangue das vítimas e o lambem; mas os deuses que agradam o vulgo e dão o seu nome às estátuas foram apenas homens, como se pode averiguar pelas histórias que deles tratam. A prova de que são os demônios que usurpam seus nomes está na operação que cada um exerce. De fato, aqueles que cultuam Rea, mutilam o próprio membro viril; outros, os de Ártemis, fazem cortes ou incisões em si mesmos; a de Tauros mata estrangeiros. Deixo de falar sobre os que se torturam com punhais e correias de ossos, e tantas outras espécies de demônios. Não é próprio de Deus incitar a atos contra a natureza: “Quando um demônio quer fazer mal a um homem, primeiro lhe prejudica a inteligência.” Deus, porém, que é absolutamente bom, é eternamente benéfico.
Que sejam uns que agem e outros em cuja honra se erguem as estátuas, temos uma prova definitiva em Tróia e Pário. A primeira tem estátuas de Nerilino, contemporâneo nosso; Páris tem estátuas de Alexandre e Proteu. Há ainda na ágora ou praça pública o sepulcro e a estátua de Alexandre. Ora, as outras estátuas de Nerilino servem de ornamento público, se é que com tais coisas se orna uma cidade. Crê-se, porém, que uma delas dá oráculos e realiza curas e, por isso, os troianos lhe oferecem sacrifícios, a ungem e a coroam de ouro. Quanto às estátuas de Alexandre e Proteu (não ignorais que este se atirou ao fogo em Olímpia), diz-se também que uma emite oráculos, e a estátua de Alexandre - “Páris malfadado, brava figura, mulherengo” -também são oferecidos sacrifícios e celebradas festas, como a deus propício. De fato, são Nerilino, Proteu e Alexandre que realizam esses prodígios nas estátuas ou é a constituição da matéria? Mas a matéria é puro bronze. Que é que o bronze pode por si mesmo, se se pode transformá-lo em outra figura, como fez Amásis, segundo Heródoto, com a bacia para os pés? E o que é que Nerilino, Proteu e Alexandre têm a ver com os enfermos? O que se diz que a estátua realiza agora, o fazia quando Nerilino vivia e até quando estava enfermo.

Capítulo XXVII
O que pensar, então? Primeiramente, os movimentos irracionais e fantásticos da alma sobre as aparições arrancam da matéria algumas vezes uma imagem, outras vezes outras imagens, e outras são formadas e geradas por eles mesmos. E isso padece a alma principalmente quando recebe o espírito material, com ele, e já não olha para cima, para o celeste e seu Criador, mas para baixo, para o terreno e, para fazê-lo de modo geral, quando se converte em pura carne e sangue e não em espírito limpo. Esses movimentos irracionais e fantásticos da alma geram imagens de frenética idolatria; e quando a alma, delicada e fácil de conduzir, que não ouviu nem tem experiência de sólidas doutrinas, que não contemplou a verdade nem compreendeu o Pai e Criador do universo, se imprime em si essas falsas opiniões sobre si mesma, os demônios que rondam a matéria, gulosos como são de gordura e sangue das vítimas e enganadores dos homens, apoderando-se desses movimentos de falsa opinião das almas do vulgo, fazem que fantasias se infiltrem neles, como se viessem das imagens cujos nomes usurpam, e são eles que colhem a glória do que a alma por si mesma, imortal como é, e se move racionalmente, ora para predizer o futuro, ora para curar o presente.
Capítulo XXVIII
Talvez seja necessário, conforme anteriormente indicado, dizer algo também sobre os nomes. Heródoto e Alexandre, filho de Filipe, na carta à sua mãe-diz-se que tanto um como o outro conversaram com os sacerdotes em Heliópolis, Mênfis e Tebas -dizem ter sabido deles que seus deuses foram homens. Heródoto diz: “Tais demonstraram que eram aqueles que as estátuas representavam, mas muito diferentes dos deuses; antes desses homens, os deuses mandaram no Egito, vivendo junto aos humanos, e era sempre um deles que retinha o poder, e o último rei foi Horo, filho de Osíris, a quem os gregos chamam de Apolo. Este, tendo destronado Tifão, foi o último que reinou no Egito. Osíris, em grego, é Dioniso”.
Assim, portanto, tanto os outros como o último, foram reis do Egito, e os nomes dos deuses vieram dos egípcios para os gregos. Apolo é filho de Dioniso e de Ísis. O próprio Heródoto diz: “Dizem que Apolo e Ártemis são filhos de Ísis e que Leto foi sua nutriz e salvadora”. Daí se vê que os primeiros reis, de origem celeste como eram, seja por ignorância da verdadeira piedade para com a divindade, seja por gratidão para com o seu poder, foram tidos, como deuses junto com suas mulheres. “Agora todos os egípcios sacrificam bois puros, assim como os bezerros; as vacas, porém, não lhes é lícito sacrificá-las, mas estão sacrificadas a Isis. Com efeito, a estátua de Ísis, que representa numa mulher, tem chifres, da maneira como os gregos pintam Io”. E o que se poderia crer melhor ao dizer isso, senão naqueles que por sucessão de família, o filho do pai, herdam o sacerdócio e juntamente a história? De fato, não é verossímil que os guardiães dos templos mintam, que tenham interesse em exaltar seus ídolos, ao apresentá-los como homens.
Se Heródoto disse que os egípcios falam de seus deuses como de homens, quando o próprio Heródoto diz: “Não estou disposto a divulgar os relatos divinos que escutei”, não há a mais leve razão para não crer nele, como se fosse um inventor de mitos. Mas como Alexandre e Hermes, o chamado Trismegisto, e tantos outros mais, não fazendo a enumeração de todos, que uniram suas próprias famílias com os deuses, já não há razão para não pensar que, sendo homens, foram tidos como deuses. Que eles foram homens, o manifestam os mais eruditos entre os egípcios, os quais, ao chamar de deuses o éter, a terra, o sol e a lua, consideram os demais como homens mortais e os templos como seus sepulcros; isso manifesta também Apolodoro em seu tratado sobre os deuses. Além disso, Heródoto chama de mistérios os sofrimentos deles: “Já narrei anteriormente como celebram a festa em honra de Ísis na cidade de Busíris. Todos, homens e mulheres, se golpeiam depois do sacrifício, e a fé que milhares de pessoas ali depositam. Todavia, não é piedoso que eu lhes diga a maneira como se golpeiam”. Se são deuses, são imortais; mas se se golpeiam e seus sofrimentos são mistérios, são homens. O próprio Heródoto diz: “Em Sais, no templo de Atenas, por detrás e seguindo ao longo da parede, está o sepulcro do deus, cujo nome não considero piedoso pronunciar na presente ocasião. Ali há também, junto ao sepulcro, um lago com bordas de pedra, bem trabalhado e circular, ao que me parece com a mesma extensão do que em Delos se chama Trocóides. Nesse lago, durante a noite, fazem-se as representações de seus sofrimentos, que os egípcios chamam de mistérios”. Não só se expõe o sepulcro de Osíris, mas também a sua múmia: “Quando se lhes leva um cadáver, mostramse aos portadores modelos de mortos em madeira, imitados pela pintura; e dizem que a mais exata delas é a do deus, cujo nome não considero piedoso pronunciar na presente ocasião.

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sábado, 24 de março de 2018

Estudo Especial para a Páscoa 2018

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Especial de Páscoa

Santo Agostinho, Bispo de Hipona (354-430)
Sermões para a Vigília Pascal e para o Dia da Ressurreição de Cristo




«Na Vigília da Páscoa»
O bem-aventurado apóstolo Paulo, exortando-nos a que o imitemos, dá entre outros sinais de sua virtude o seguinte: "freqüente nas vigílias" 1.
Com quanto maior júbilo não devemos também nós vigiar nesta vigília, que é como a mãe de todas as santas vigílias, e na qual o mundo todo vigia?
Não o mundo, do qual está escrito: "Se alguém amar o mundo, nele não está a caridade do Pai, pois tudo o que há no mundo é concupiscência dos olhos e ostentação do século, e isto não procede do Pai" 2.
Sobre tal mundo, isto é, sobre os filhos da iniqüidade, reinam o demônio e seus anjos. E o Apóstolo diz que é contra estes que se dirige a nossa luta: "Não contra a carne e o sangue temos de lutar, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores do mundo destas trevas" 3.
Ora, maus assim fomos nós também, uma vez; agora, porém, somos luz no Senhor. Na Luz da Vigília resistamos, pois, aos dominadores das trevas.
Não é, portanto, esse o mundo que vigia na solenidade de hoje, mas aquele do qual está escrito: "Deus estava reconciliando consigo o mundo, em Cristo, não lhe imputando os seus pecados" 4.
E é tão gloriosa a celebridade desta vigília, que compele a vigiarem na carne mesmo os que, no coração, não digo dormirem, mas até jazerem sepultos na impiedade do tártaro. Vigiam também eles esta noite, na qual visivelmente se cumpre o que tanto tempo antes fora prometido: "E a noite se iluminará como o dia" 5. Realiza-se isto nos corações piedosos, dos quais se disse: "Fostes outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor". Realiza-se isto também nos que zelam por todos, seja vendo-os no Senhor, seja invejando ao Senhor. Vigiam, pois, esta noite, o mundo inimigo e o mundo reconciliado. Este, liberto, para louvar o seu Médico; aquele, condenado, para blasfemar o seu Juiz. Vigia um, nas mentes piedosas, ferventes e luminosas; vigia o outro, rangendo os dentes e consumindo-se. Enfim, ao primeiro é a caridade que lhe não permite dormir, ao segundo, a iniqüidade; ao primeiro, o vigor cristão, ao segundo o livor diabólico. Portanto, pelos nossos próprios inimigos sem o saberem eles, somos advertidos de como devamos estar hoje vigiando por nós, se por causa de nós não dormem também os que nos invejam.
Dentre ainda os que não estão assinalados com o nome de cristãos, muitos são os que não dormem esta noite por causa da dor, ou por vergonha. Dentre os que se aproximam da fé, há os que não dormem por temor. Por motivos vários, pois, convida hoje à vigília a solenidade (da Páscoa). Por isso, como não deve vigiar com alegria aquele que é amigo de Cristo, se até o inimigo o faz, embora contrariado? Como não deve arder o cristão por vigiar, nessa glorificação tão grande de Cristo, se até o pagão se envergonha de dormir? Como não deve vigiar em sua solenidade, o que já ingressou nesta grande Casa, se até o que apenas pretende nela ingressar já vigia?
Vigiemos, e oremos; para que tanto exteriormente quanto interiormente celebremos esta Vigília. Deus nos falará durante as leituras; falemos-lhe também nós em nossas preces. Se ouvimos obediente as suas palavras, em nós habita Aquele a. quem oramos.
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NOTAS:
1 2Cor 11,27 / 2 1]0 2,15 / 3 Ef 6,12 / 4 2Cor 5,19
5 SI 138,12.

«Sobre a Ressurreição de Cristo, segundo São Marcos»
A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo lê-se estes dias, como é costume, segundo cada um dos livros do santo Evangelho. Na leitura de hoje ouvimos Jesus Cristo censurando os discípulos, primeiros membros seus, companheiros seus: porque não criam estar vivo aquele mesmo por cuja morte choravam. Pais da fé, mas ainda não fiéis; mestres - e a terra inteira haveria de crer no que pregariam, pelo que, aliás, morreriam - mas ainda não criam. Não acreditavam ter ressuscitado aquele que haviam visto ressuscitando os mortos. Com razão, censurados: ficavam patenteados a si mesmos, para saberem o que seriam por si mesmos os que muito seriam graças a ele.
E foi deste modo que Pedra se mostrou quem era: quando iminente a Paixão do Senhor, muito presumiu; chegada a Paixão, titubeou. Mas caiu em si, condoeu-se, chorou, convertendo-se a seu Criador.
Eis quem eram os que ainda não criam, apesar de já verem. Grande, pois, foi a honra a nós concedida por aquele que permitiu crêssemos no que não vemos! Nós cremos pelas palavras deles, ao passo que eles não criam em seus próprios olhos.
A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo é a vida nova dos que crêem em Jesus, e este é o mistério da sua Paixão e Ressurreição, que muito devíeis conhecer e celebrar. Porque não sem motivo desceu a Vida até a morte. Não foi sem motivo que a fonte da vida, de onde se bebe para viver, bebeu desse cálice que não lhe convinha. Por que a Cristo não convinha a morte.
De onde veio a morte?
Vamos investigar a origem da morte. O pai da morte é o pecado.
Se nunca houvesse pecado ninguém morreria. O primeiro homem recebeu a lei de Deus, isto é, um preceito de Deus, com a condição de que se o observasse viveria e se o violasse morreria. Não crendo que morreria, fez o que o faria morrer; e verificou a verdade do que dissera quem lhe dera a lei. Desde então, a morte. Desde então, ainda, a segunda morte, após a primeira, isto é, após a morte temporal a eterna morte. Sujeito. a essa condição de morte, a essas leis do inferno, nasce todo homem; mas por causa desse mesmo homem, Deus se fez homem, para que não perecesse o homem. Não veio, pois, ligado às leis da morte, e por isso diz o Salmo: "Livre entre os mortos" 1.
Concebeu-o, sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu. Ele viveu sem culpa, não morreu por motivo de culpa, comungava conosco no castigo mas não na culpa. O castigo da culpa é a morte. Nosso Senhor Jesus Cristo veio morrer, mas não veio pecar; comungando conosco no castigo sem a culpa, aboliu tanto a culpa como a castigo. Que castigo aboliu? O que nos cabia após esta vida. Foi assim crucificado para mostrar na cruz o fim do nosso homem velho; e ressuscitou, para mostrar em sua vida, como é a nossa vida nova. Ensina-o o Apóstolo: "Foi entregue por causa dos nossos pecados, ressurgiu por causa da nossa justificação" 2.
Como sinal disto, fora dada outrora a circuncisão aos patriarcas: no oitavo dia todo indivíduo do sexo masculino devia ser circuncidado. A circuncisão fazia-se com cutelos de pedra: porque Cristo era a pedra. Nessa circuncisão significava-se a espoliação da vida carnal a ser realizada no oitavo dia pela Ressurreição de Cristo. Pois o sétimo dia da semana é o sábado; no sábado o Senhor jazia no sepulcro, sétimo dia da semana. Ressuscitou no oitavo. A sua Ressurreição nos renova. Eis por que, ressuscitando no oitavo dia, nos circuncidou.
É nessa esperança que vivemos. Ouçamos o Apóstolo dizer: "Se ressuscitastes com Cristo..." 3 Como ressuscitamos, se ainda morreremos? Que quer dizer o Apóstolo: "Se ressuscitastes com Cristo?" Acaso ressuscitariam os que não tivessem antes morrido? Mas falava aos vivos, aos que ainda não morreram... os quais, contudo, ressuscitaram: que quer dizer?
Vede o que ele afirma: "Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do alto, não o que está sobre a terra. Porque estais mortos!"
É o próprio Apóstolo quem está falando. Ora, ele diz a verdade, e, portanto, digo-a também eu... E por que também a digo? "Acreditei e por causa disto falei" 4.
Se vivemos bem, é que morremos e ressuscitamos. Quem, porém, ainda não morreu, também não ressuscitou, vive mal ainda; e se vive mal, não vive: morra para que não morra. Que quer dizer: morra para que não morra? Converta-se, para não ser condenado.
"Se ressuscitastes com Cristo", repito as palavras do Apóstolo, "procurai o que é do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus, saboreai o que é do alto, não o que é da terra. Pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, aparecer, então também aparecereis com ele na glória". São palavras do Apóstolo. A quem ainda não morreu, digo-lhe que morra; a quem ainda vive mal, digo-lhe que se converta. Se vivia mal, mas já não vive assim, morreu; se vive bem, ressuscitou.
Mas, que é viver bem? Saborear o que está no alto, não o que sobre a terra. Até quando és terra e à terra tornarás? Até quando lambes a terra? Lambes a terra, amando-a, e te tornas inimigo daquele de quem diz o Salmo: "os inimigos dele lamberão a terra" 5.
Que éreis vós? Filhos de homens. Que sois vós? Filhos de Deus.
O filhos dos homens, até quando tereis o coração pesado? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?
Que mentira buscais? O mundo.
Quereis ser felizes, sei disto. Dai-me um homem que seja ladrão, criminoso, fornicador, malfeitor, sacrílego, manchado por todos os vícios, soterrado por todas as torpezas e maldades, mas não queira ser feliz. Sei que todos vós quereis viver felizes, mas o que faz o homem viver feliz, isso não quereis procurar. Tu, aqui, buscas o ouro, pensando que com o ouro serás feliz; mas o ouro não te faz feliz. Por que buscas a ilusão? E com tudo o mais que aqui procuras, quando procuras mundanamente, quando o fazes amando a terra, quando o fazes lambendo a terra, sempre visas isto: ser feliz. Ora, coisa alguma da terra te faz feliz. Por que não cessas de buscar a mentira? Como, pois, haverás de ser feliz? "O filhos dos homens, até quando sereis pesados de coração, vós que onerais com as coisas da terra o vosso coração?" 6 Até quando foram os homens pesados de coração? Foram-no antes da vinda de Cristo, antes que ressuscitasse o Cristo. Até quando tereis o coração pesado? E por que amais a vaidade e procurais a mentira? Querendo tornar-vos felizes, procurais as coisas que vos tornam míseros! Engana-vos o que desejais, é ilusão o que buscais.
Queres ser feliz? Mostro-te, se te agrada, como o serás. Continuemos ali adiante (no versículo do Salmo): "Até quando sereis pesados de coração? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?" "Sabei" - o quê? - "que o Senhor engrandeceu o seu Santo" 7.
O Cristo veio até nossas misérias, sentiu a fome, a sede, a fadiga, dormiu, realizou coisas admiráveis, padeceu duras coisas, foi flagelado, coroado de espinhos, coberto de escarros, esbofeteado, pregado no lenho, transpassado pela lança, posto no sepulcro; mas no terceiro dia ressurgiu, acabando-se o sofrimento, morrendo a morte. Eis, tende lá os vossos olhos na ressurreição de Cristo; porque tanto quis o Pai engrandecer o seu Santo, que o ressuscitou dos mortos e lhe deu a honra de se assentar no Céu à sua direita. Mostrou-te o que deves saborear se queres ser feliz, pois aqui não o poderás ser. Nesta vida não podes ser feliz, ninguém o pode.
Boa coisa a que desejas, mas não nesta terra se encontra o que desejas. Que desejas? A vida bem-aventurada. Mas aqui não reside ela.
Se procurasses ouro num lugar onde não houvesse, alguém, sabendo da sua não existência, haveria de te dizer: "Por que estás a cavar? Que pedes à terra? Fazes uma fossa na qual hás de apenas descer, na qual nada encontrarás!"
Que responderias a tal conselheiro? "Procuro ouro". Ele te diria: "Não nego que exista o que desejas, mas não existe onde o procuras".
Assim também, quando dizes: "Quero ser feliz" . Boa coisa queres, mas aqui não se encontra. Se aqui a tivesse tido o Cristo, igualmente a teria eu. Vê o que ele encontrou nesta região da tua morte: vindo de outros paramos, que achou aqui senão o que existe em abundância? Sofrimentos, dores, morte. Comeu contigo do que havia na cela de tua miséria. Aqui bebeu vinagre, aqui teve fel. Eis o que encontrou em tua morada.
Contudo, convidou-te à sua grande mesa, à mesa do Céu, à mesa dos anjos, onde ele mesmo é o pão. Descendo até cá, e tantos males recebendo de tua cela, não só não rejeitou a tua mesa, mas prometeu-te a sua.
E que nos diz ele?
"Crede, crede que chegareis aos bens da minha mesa, pois não recusei os males da vossa".
Tirou-te o mal e não te dará o seu bem? Sim, da-lo-á. Prometeu-nos sua vida, mas é ainda mais incrível o que fez: ofereceu-nos a sua morte. Como se dissesse: "À minha mesa vos convido. Nela ninguém morre, nela está a vida verdadeiramente feliz, nela o alimento não se corrompe, mas refaz e não se acaba. Eis para onde vos convido, para a morada dos anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para a ceia eterna, para a fraternidade comigo; enfim, a mim mesmo, à minha vida eu vos conclamo! Não quereis crer que vos darei a minha vida? Retende, como penhor a minha morte".
Agora, pois, enquanto vivemos nesta carne corruptível, morramos com Cristo pela conversão dos costumes, vivamos com Cristo pelo amor da justiça.
Não haveremos de receber a vida bem-aventurada senão quando chegarmos àquele que veio até nós, e quando começarmos a viver com aquele que por nós morreu.
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NOTAS:
1 SI 87 / 2 Rm 4,25 / 3 Cl 3,1 / 4 SI 115 / 5 SI 71,9 /
6 SI 4,3 / 7 Ibid
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FONTE:

GOMES, C. Folch Antologia dos Santos Padres. São Paulo- Ed. Paulinas 1979

terça-feira, 20 de março de 2018

42 - Atenágoras de Atenas (†180) Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 17 - 22


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42
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Atenágoras de Atenas (†180)
Apelo a favor dos Cristãos – Capítulos 17 - 22


Capítulo XVII  - Peço-vos considereis brevemente este ponto. (E preciso que fazendo a nossa defesa, como estou, eu apresenteargumentos mais precisos, tanto sobre os nomes, para demonstrar que são recentes, como sobre as imagens, para ver que procedem, como se diz, de ontem e anteontem; e isso vós o sabeis melhor do que ninguém, pois sois versados nos antigos a respeito de todo assunto e em grau superior a todos). Portanto, digo que Orfeu, Homero e Hesíodo são os que estabeleceramas famílias e deram os nomes aos que por eles são chamados deuses. O próprio Heródoto o confirma: “Considero Hesíodo e Homero quatrocentos anos mais antigos do que eu, não mais, e foram eles que estabeleceram a Teogonia para os gregos, que deram suas denominações aos deuses, distribuindo suas honras e ofícios e explicando suas formas.” Quanto às suas imagens, enquanto não existiam a pintura, a plástica e a escultura, não eram sequer concebíveis. Foi na época de Sáurio de Samos, de Cráton de Sicião, de Cleantes de Corinto e de uma moça coríntia que foi inventada a representação das figuras, quando Sáurio delineou um cavalo ao sol; a pintura foi quando Cráton recobriu de cor, em uma tábua branca, as figuras de um homem e de uma mulher. A fabricação de bonecos foi inventada pela moça: enamorada por um homem, delineou, enquanto dormia, a figura dele na parede; depois, o seu pai, satisfeito com a exata semelhança (sabe-se que ele trabalhava com argila), a esculpiu, enchendo o contorno de barro. A imagem ainda é conservada em Corinto. A esses sucederam Dédalo, Teodoro e Smilis, que inventaram a escultura e a plástica. Na verdade, as imagens e fabricação dos ídolos têm tão pouco tempo que é possível indicar o artífice de cada deus. Assim, foi Endoio, discípulo de Dédalo, que fabricou a estátua de Ártemis em Éfeso, a de Atenas (ou melhor, de Atela, pois assim a chamam os que falam misteriosamente… falo, portanto, da antiga estátua de oliveira), e até da Sentada; Apolo Pítio é obra de Teodoro e de Télecles; Délio e Ártemis são arte de Tecteu e de Angelião; a Hera de Argos e a de Samos saíram das mãos de Smilis; os demais ídolos são de Fídias; a segunda Afrodite é obra de Praxíteles; o Asclépio de Epidauro é obra de Fídias. Numa palavra, nenhum dos ídolos pode escapar de ser fabricado por homens. Ora, se são deuses, como não existiam desde o princípio? Como são mais recentes que aqueles que os fabricaram? Que necessidade tinham, para nascer, dos homens e da arte? Tudo isso, porém, é apenas terra, pedras, matéria e arte supérflua.

Capítulo XVIII - Há aqueles que dizem que isso são apenas estátuas, mas é aos deuses que elas se referem, que as procissões que a elas se fazem e os sacrifícios que se lhes oferecem terminam nos deuses e a eles se dirigem, que não existe, enfim, outro meio de aproximar-se dos deuses sem este: “os deuses são difíceis de aparecer claramente”. E que isso seja assim, apresentam como prova as atividades de alguns ídolos. Se vos agrada, examinemos o poder que existe em seus nomes. Antes de iniciar o meu discurso, eu vos rogo, ó máximos imperadores, que me perdoeis se apresento apenas raciocínios verdadeiros. O meu propósito não é refutar os ídolos, e sim desfazer as calúnias contra nós e oferecer-vos a razão de nossa religião. Ora, vós, por vós mesmos, poderíeis examinar o império celeste. Com efeito, como a vós, pai e filho, vos foi posto tudo na mão ao receber o império de cima: “Porque a alma do rei está nas mãos de Deus”, diz o Espírito profético, do mesmo modo está submetido a um só Deus e ao Verbo que dele procede seu filho concebido como seu inseparável. Antes de tudo, eu vos peço, portanto, que considereis este ponto. Os deuses não existiram, conforme dizem, desde um princípio, mas cada um deles nasceu do mesmo modo que nascemos. Nisso todos concordam, pois Homero diz: “Ao Oceano, origem dos deuses, e à mãe Tétis”.
Orfeu, que foi o primeiro a inventar os seus nomes e explicou suas genealogias, que contou as façanhas de cada um, e que se acredita entre o vulgo ser o mais veraz teólogo, a quem geralmente Homero segue mais do que ninguém em assunto de deuses, Orfeu, como dizia, também estabelece a primeira origem deles na água: “O Oceano, que é a origem de todos.” Com efeito, segundo ele, a água foi o princípio de tudo e da água formou-se um lodo e de ambos foi gerado um animal, um dragão que tinha unidas uma cabeça de leão e outra de touro, e entre as duas, um rosto de deus, cujo nome é Héracles e Crono. Héracles gerou um enorme ovo que, cheio da força daquele que o havia gerado, rompeu-se em dois por atrito. A parte superior transformou-se no Céu, a debaixo na Terra, e surgiu um deus de duplo corpo. O Céu, unido com a Terra, gerou as mulheres Cloto, Láquesis e Atropo, os homens centímanos: Coto, Giges, Briareu, e os ciclopes Brontes, Estetopes e Arges. Mas como ficou sabendo que seria derrubado de seu império por seus próprios filhos, acorrentou-os e atirou-os na profundeza do Tártaro. Irritada com isso, a Terra gerou os titãs: “A augusta Gaia gerou os filhos de Urano que chamam pelo sobrenome de titãs, pois eles se vingaram do grande Urano estrelado”.

Capítulo XIX - Tal é o princípio da gênese, não só daqueles que eles consideram deuses, mas do universo todo. Considerai, portanto, este ponto: cada um desses aos quais se atribui a divindade, como princípio, também é forçoso que seja corruptível. De fato, se nasceram não existindo, como dizem os que teologizam sobre eles, não existem, porque uma coisa ou é incriada e, por conclusão, eterna, ou é criada e, por conseguinte, corruptível. Não falo diferentemente dos filósofos: “O que é que é sempre e não tem princípio? O que é que começa e não é nunca? Platão, discorrendo sobre o inteligível e o sensível, ensina que aquilo que é sempre, o inteligível, é o incriado; e aquilo que não é, o sensível, criado, que começa a ser e deixa de ser. Por isso, também os estóicos dizem que tudo há de perecer numa conflagração, e voltar a ser de novo, readquirindo princípio. Ora, se, conforme eles, existem duas causas, a eficiente, que é aquela que manda, como a providência, e a passiva, que é aquela que muda, como matéria, e é impossível que, mesmo governado pela providência, o mundo permaneça em um ser, desde o momento que tem princípio, como permanecerá a constituição desses que não existem por natureza, mas que nascem? Em que são superiores à matéria deuses que têm a sua constituição a partir da água? Mas nem mesmo a água, segundo eles, é princípio de tudo. (Com efeito, o que é que poderia constituir-se de elementos simples e uniformes? Além disso, a matéria sempre necessita de artífices e o artífice necessita da matéria. De fato, como poderiam ser feitas as imagens sem matéria ou sem artífice?) Não há razão alguma para que a matéria seja mais antiga do que Deus, pois é forçoso que a causa eficiente seja anterior ao que tem princípio.

Capítulo XX - Ora, se o absurdo de sua teologia ficasse na afirmação de que os deuses nascem e se constituem da água, uma vez que demonstrei que não existe nada criado que não seja também dissolúvel, poderia passar às outras acusações que nos fazem; de uma parte, porém, descreveram os corpos dos deuses: um Héracles, o qual dizem que era um dragão retorcido; os deuses de cem mãos; a filha de Zeus, que ele teve com sua mãe Rea, também chamada Deméter, que tinha dois olhos no lugar natural e outros dois na fronte, além de chifres e a face de animal na parte posterior do pescoço, com o que, espantada com aquele monstro de filha, Rea fugiu sem dar-lhe o peito. É daí que misticamente se chama Atela, ao passo que comumente se lhe dá o nome de Perséfone e Coré, que não é a mesma que Atenas, à qual também se chama Core, por causa de sua virgindade. Por outro lado, também nos contaram suas façanhas exatamente conforme eles pensam: Cronos, que cortou o membro viril de seu pai e ele próprio o atirou de seu carro, e que matava seus filhos, devorando os varões. Zeus, que amarrou seu pai e o atirou na profundeza do Tártaro, como já fizera Urano com seus filhos, que lutou contra os titãs pela supremacia e perseguiu sua mãe Rea, que recusava unir-se com ele, convertendo-se ela em dragão, ele também em dragão e, amarrando-o com o chamado nó de Héracles, finalmente uniu-se com ela (o símbolo da figura da união é o bastão de Hermes). Depois Urano também se uniu com sua filha Perséfone, forçandoa sob a forma de dragão, e dela nasceu o filho Dioniso. Tudo isso me força a dizer o seguinte: o que há de importante ou de útil nessa história, para que acreditemos que Cronos, Zeus, Coré e os outros sejam deuses? As configurações de seus corpos? Contudo, que homem discreto e formado na contemplação filosófica pode acreditar que um deus tenha gerado uma víbora? Assim diz Orfeu: “Fanes, porém, espantosa à vista; de sua cabeça pendem os cabelos e o seu rosto é belo de se ver, mas nas partes restantes ela é dragão espantoso desde a altura do pescoço…”
Quem poderá admitir que o próprio Fanes, que é o deus primogênito (pois este é o que saiu do ovo derramado), tenha corpo ou figura de dragão ou que tenha sido devorado por Zeus, a fim de que este se tornasse imenso? Com efeito, se em nada se diferenciam dos mais vis animais (e é evidente que a divindade deve diferenciar-se de todo terreno e até daquilo que é separado da matéria), não são deuses. Por que aos que nascem com forma semelhante à dos animais, têm forma de animais e aspecto horrível?

Capítulo XXI  - Na verdade, se dissessem apenas que seus deuses são carnais, que têm sangue, esperma, paixões de ira e desejo, já seria o bastante para qualificar todos esses relatos de charlatanice e coisa ridícula; de fato, em Deus não há ira, desejo, instinto ou sêmen gerador. Podem ser de carne, mas superiores ao fastio e à colera, e não vejamos Atenas “irritada contra Zeus Pai, pois uma cólera feroz a arrebatara”, e não contemplemos Hera, a quem “a cólera não lhe cabia no peito e disse”; também superiores à tristeza: “Que dor! Estou vendo com meus olhos o homem verdadeiramente querido perseguido em torno da muralha, e meu coração se entristece”. De minha parte, considero como homens deseducados e torpes aqueles que cedem à cólera e à tristeza. Com efeito, quando o “pai de homens e deuses” se lamenta por seu filho: “Ai de mim! Pois Sarpedon, o mais querido dos homens, foi decretado pelo destino que ele seja domado por Pátroclo, filho de Menécio” e, com todos os seus lamentos, é incapaz de livrá-lo do perigo: “Sarpedon, filho de Zeus, e este nem a seu filho socorre”.
Quem não chamará de ignorantes aqueles que se mostram amadores dos deuses com tais fábulas, quando, na realidade, são ateus? Podem ser carnais, mas que Afrodite não seja ferida nem no corpo por Diomedes: “Feriu-me o filho de Tideu, o soberbo Diomedes”, nem por Ares na alma: “Por ser coxo, Afrodite, a filha de Zeus, sempre me despreza e ama o horrível Hares”. Nem Hares pelo próprio Diomedes: “E lhe arrancou a bela pele”. Ares, o espantoso nas batalhas e aliado de Zeus contra os titãs, aparece mais fraco que Diomedes: “Ia furioso, como quando Ares brande a sua lança”. Cala-te, Homero, pois Deus não se enfurece; tu és aquele que me apresentas Deus como manchado de sangue e funesto para os mortais: “Ares, Ares, destruição de mortais, manchado de sangue”, e nos contas o seu adultério e acorrentamento: “Os dois, tendo subido ao leito, adormeceram, mas ao redor deles estenderam-se as hábeis correntes do engenhoso Héfesto, e já não era possível mover os membros”.
Como não rejeitar todo esse interminável charlatanismo sobre os deuses? Urano foi castrado, Cronos foi acorrentado e jogado no Tártaro, os titãs se rebelam, Estígia morre no decorrer da batalha (até como mortais nos apresentam os deuses), uns se enamoram pelos outros e também se enamoram pelos homens: “Éneas, que foi concebido pela divina Afrodite nos braços de Asquises, nas quebradas do Ida, uma deusa deitada com um mortal”. Os deuses, porém, não amam, nem têm paixões, porque se são deuses não são afetados pelo desejo… E se Deus toma carne, segundo a divina economia, torna-se escravo do desejo?
“Com efeito, jamais o amor de deusa ou de mulher domou o meu coração dentro do peito em torno derramado, nem quando amei a esposa de Ixião; nem quando amei Dânae, a de belos tornozelos, a de Acrísio; nem quando amei a filha do ilustre Fênix, nem quando amei Sêmele ou Alcmena em Tebas, nem quando amei Deméter, a rainha de belas tranças, nem quando amei a gloriosa Seto, nem a ti mesma”. Se um ser é criado, ele é corruptível, e nada tem de Deus. E chegam a servir os homens como diaristas: “O palácios de Admeto, em que eu tive que suportar e aceitar a mesa de diarista sendo um deus.” Também são boiadeiros: “Vindo eu a esta terra, apascentei os bois de meu hóspede e salvei esta casa”. Portanto, Admeto é superior ao deus. Ó adivinho e sábio, que predizes o futuro para os outros! Tu não foste capaz de adivinhar a morte do teu amado, mas com a tua própria mão mataste o teu amigo. E Esquilo censura Apolo como falso adivinho: “Eu acreditava que a boca divina de Febo era infalível, pois dela brota a arte da adivinhação; e ele próprio, que entoava o hino, presente ao convite e que me predissera isso, foi ele que matou o meu filho”.

Capítulo XXII - Talvez se diga que tudo isso são fantasias poéticas, e que existe uma explicação física para tudo isso. Como diz Empédocles: “Esplêndido Zeus, e Hera que dá a vida, Aidoneu e Néstis, que banha de lágrimas os olhos mortais”. Contudo, se Zeus é o fogo, Hera a terra, Aidoneu o ar e Néstis a água, e tudo isso são elementos-fogo, água, ar -, nenhum deles é Deus: nem Zeus, nem Hera, nem Aidoneu, pois a constituição e origem de todos provém da matéria separada por Deus: “Fogo, água e terra, a benigna altura do ar, e a amizade entre eles”.
Aquele que não pode permanecer sem a amizade, pois está confundido pela discórdia, quem poderá dizer algo de Deus? Conforme Empédocles, a amizade é o que manda, e os compostos são o mandado, e o que manda é o principal. De modo que, se julgamos ser uma e a mesma a potência do que manda e do mandado, não nos damos conta de estar tributando honra igual à matéria corruptível do ser mutante e a Deus incriado, eterno e sempre concorde consigo mesmo.
Segundo os estóicos, Zeus é a substância fervente; Hera, que é o ar, pois o próprio nome concorda com o som, enlaça-se consigo mesmo; Posêidon é a bebida. Outros dão outras explicações naturais. Com efeito, uns dizem que Zeus é o ar de dupla natureza, hermafrodita; outros dizem que ele é a ocasião que muda o tempo em boa temperatura e que, por isso, foi o único que escapou de Cronos. Contudo, é preciso dizer contra os estóicos: se considerais o Deus dupremo como um só, incriado e eterno, e que são compostas as coisas onde se processa a mudança da matéria, e afirmais que o espírito de Deus, que penetra através da matéria, recebe um ou outro nome conforme sua mudança, então as formas da matéria se converterão em corpo de Deus e, corrompendo-se os elementos pela conflagração, forçosamente também os nomes se corromperão junto com as formas, permanecendo unicamente o espírito de Deus. Entretanto, quem é que considerará como deuses corpos corruptíveis e mutáveis conforme a matéria?
Quanto aos que dizem que Cronos é o tempo e Rea a terra; que esta concebe de Cronos e gera e que, por isso, é chamada mãe de todos; que ele gera e devora; que a mutilação de seus órgãos sexuais é a união do macho e da fêmea que corta e joga o sêmen na matriz e gera o homem que tem dentro o desejo, isto é, Afrodite; que a loucura de Cronos é o giro do tempo, consumindo o animado e o inanimado; que as correntes e o Tártaro são o tempo que muda e se torna invisível pelas estações; contra esses dizemos: se Cronos é o tempo, então muda; se é a estação, gira; se é as trevas, o gelo ou sua substância úmida, nada disso permanece; a divindade, porém, é imortal, imóvel e imutável. Portanto, nem Cronos, nem o ídolo que o representa, é deus. Quanto a Zeus, se ele é o ar gerado de Cronos”, cujo elemento masculino é Zeus e o feminino Hera (daí que ela seja sua esposa e irmã), é mutável; se ele é a estação, gira; o divino, porém, não muda, nem decai.
Contudo, para que continuar importunando-vos com novas explicações, se vós sabeis melhor as explicações que deram todos aqueles que sobre isso especularam? O que entenderam sobre os deuses aqueles que, por exemplo, escreveram sobre Atena, dizendo que ela é a inteligência que tudo penetra? Ou sobre Ísis, que chamam de natureza da eternidade, da qual todos nasceram e pela qual todos existem? Ou sobre Osíris, seu irmão, morto por Tifão, perto de Pelúsio, cujos membros ela vai buscar junto com o seu filho Horo e, tendo-os encontrado em um sepulcro,que até hoje se chama tumba de Osíris? Com efeito, resolvendo para cima e para baixo as formas da matéria, o que fazem é desviar-se de Deus, que se contempla pela razão, e divinizar os elementos e suas partes, pondo-lhes diversidade de nomes. Por exemplo: a semeadura de trigo, Osíris (do qual dizem que nos mistérios se clama a Ísis por causa do achado dos membros ou dos frutos: “Encontra mos, nos alegramos”); o fruto da vinha, Dioniso; a própria vinha Sêmele, raio, ao calor do sol. Na verdade, os que explicam alegoricamente os mitos, divinizando os ele mentos, nos dão qualquer coisa, menos explicações do divino, pois não se dão conta de que com aquilo que tentam defender seus deuses, confirmam ainda mais os raciocínios contra eles. O que é que Europa e o touro, o cisne e Leda têm a ver com a terra e o ar, para que nos venham dizer que o abominável tratamento de Zeus para com elas representa a união da terra e do ar? Desviando-se da grandeza de Deus e incapazes de remontar pelo raciocínio, pois não sentem simpatia pelo lugar celeste, se consomem e se afundam nas formas da matéria, divinizam as mudanças dos elementos, tão absurdo como alguém confundir o navio em que viaja com o piloto que o dirige. Mas como o navio nada vale, mesmo com todos os seus apetrechos, se não tem piloto, igualmente de nada vale a ordem dos elementos sem a providência de Deus. De fato, nem o navio navegará por si mesmo, nem os elementos se movimentarão sem um criador.

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