Capítulo XXIII – Retomada de
Gênesis sobre a tentação e queda de Adão e Eva (cont.)
Portanto, Deus fez o homem no sexto
dia, mas sua modelação foi manifestada no sétimo dia, quando fez também o
jardim, para que estivesse em lugar melhor e local excelente. Que isso seja
verdade, a própria experiência o demonstra. Com efeito, como não considerar a
dor que as mulheres sofrem no parto e como logo se esquecem disso, para que se
cumpra a palavra de Deus que o gênero humano cresça e se multiplique? O mesmo
se diga da condenação da serpente: como nos parece odiosa, arrastando-se sobre
o seu próprio ventre e comendo terra, para que também isso seja demonstração do
que antes foi dito.
Capítulo XXIV – Retomada de
Gênesis sobre a tentação e queda de Adão e Eva (cont.)
Deus ainda fez brotar da terra toda
árvore formosa à vista e boa para comer. De fato, no princípio havia apenas o
que foi criado no terceiro dia: plantas, sementes e ervas; mas o que havia no
jardim nasceu com extrema beleza e formosura, pois se diz que era uma plantação
plantada pelo próprio Deus. Quanto ao resto das plantas, no mundo há
semelhantes. Todavia, há duas árvores, a da vida e a da ciência, que não
existem em nenhuma terra, mas somente no jardim do Éden. Que o jardim seja
terra e esteja plantado sobre a terra, a Escritura diz: “E Deus plantou um
jardim em Éden, ao Oriente, e colocou aí o homem, e Deus ainda fez brotar da
terra toda árvore formosa à vista e boa para comer.” Pelas expressões “ainda da
terra” e “para o Oriente”, a divina Escritura claramente nos ensina que o
jardim estava sob o nosso céu, assim como o Oriente e a terra. O que se chama
Éden em hebraico é traduzido por “delícias”. A Escritura indica que de Éden
saía um rio para regar o jardim e que a partir daí se dividia em quatro braços.
Dois deles são o Fison e o Geon, que regam as partes orientais, principalmente
o Geon, que rega toda a terra da Etiópia e que dizem aparecer no Egito com o
nome de Nilo. Quanto aos outros dois rios, os chamados Tigre e Eufrates, são
bem conhecidos entre nós, pois correm perto de nossas regiões. Como dissemos acima, Deus colocou o
homem no jardim, para que o cultivasse e o guardasse, e mandou que ele comesse
de todos os frutos, portanto também da árvore da vida, e mandou que só não
experimentasse da árvore da ciência. E Deus o transportou da terra da qual fora
criado para ojardim, dando-lhe ocasião de progresso, para que crescendo e
chegando a ser perfeito e até declarado deus, subisse então até o céu,
possuindo a imortalidade, pois o homem foi criado como ser intermédio, nem
completamente mortal nem absolutamente imortal, mas capaz de uma e outra coisa,
assim como seu lugar, o jardim, se considerarmos a sua beleza, é lugar
intermédio entre o mundo e o céu. Quando a Escritura diz “trabalhar”, não
dá a entender outro trabalho, mas a observância do mandamento de Deus, a fim de
que o homem, violando-o, não se perca, como efetivamente aconteceu quando se
perdeu pelo pecado.
Capítulo XXV – A desobediência
expulsa o homem do paraíso
A própria árvore da ciência era boa e
bom era também o seu fruto. Não produziu, como pensam alguns, a árvore da
morte, pois o que produziu esta foi a desobediência. De fato, em seu fruto não
havia outra coisa senão ciência, e a ciência é boa, desde que seja usada
devidamente. Acontece que, por sua idade, Adão era uma criança e por isso ainda
não podia receber de modo digno a ciência. Quando uma criança nasce, não pode
imediatamente comer pão, mas primeiro se alimenta de leite e depois, conforme
vai crescendo em idade, usa-se alimento sólido. Algo parecido aconteceu com
Adão. Não foi também por inveja, como pensam alguns, que Deus lhe proibiu comer
da ciência.
Além disso, Deus queria prová-lo, para
ver se era obediente ao seu mandamento, e também queria que o homem
permanecesse o mais tempo possível simples e inocente na idade de criança. Com
efeito, é coisa santa, não só diante de Deus, mas também diante dos homens, que
os filhos se submetam aos pais em simplicidade e inocência. Portanto, se os
filhos devem se submeter aos pais, quanto mais o homem a Deus, Pai do universo?
Além do mais, não é normal que as crianças pequenas tenham pensamentos acima de
sua idade, pois assim como o crescimento em idade acontece ordenadamente, do
mesmo modo o entender e o sentir. Por outro lado, quando uma lei manda
abster-se de algo e não se obedece, é evidente que não é a lei que nos traz o
castigo, mas a transgressão e a desobediência. Com efeito, se um pai manda seu
filho abster-se de certas coisas e ele não obedece à ordem do pai, este o
açoita e castiga; contudo, não é por isso que se dirá que tais coisas são os
açoites, mas que é a desobediência que acarreta o castigo ao desobediente.
Assim, foi a desobediência que acarretou ao primeiro homem ser expulso do
jardim do Éden; não porque a árvore da ciência tivesse alguma coisa de mau, mas
foi por causa de sua desobediência que o homem atraiu trabalho, dor, tristeza e
caiu finalmente sob o poder da morte.
Capítulo XXVI – A desobediência
expulsa o homem do paraíso (cont.)
Também foi um grande beneficio feito
por Deus ao homem que este não permanecesse sempre em pecado, mas, de certo
modo, como se tratasse de um desterro, o expulsou do paraíso, para que pagasse
por tempo determinado a pena de seu pecado e, assim educado, fosse novamente
chamado. Tendo sido o homem formado neste mundo, misteriosamente se escreve no
Gênesis como se ele tivesse sido colocado duas vezes no jardim. A primeira vez
se realizou quando foi aí colocado; a outra se realizaria depois da
ressurreição e do julgamento. Podemos ainda dizer mais. Do mesmo modo
como um vaso que depois de fabricado tem algum defeito, é novamente fundido e
modelado para que fique novo e inteiro, assim acontece com o homem através da
morte: de certo modo se quebra, para que na ressurreição surja sadio, isto é,
sem mancha, justo e imortal. Quanto ao fato de Deus chamar e dizer:
“Adão, onde estás?”, Deus não o fez como se não soubesse, mas, por causa de sua
longanimidade, oferecia ao homem ocasião de penitência e confissão.
Capítulo XXVII – O homem é, por
natureza, mortal ou imortal
Poder-se-á dizer: “O homem não foi
criado mortal por natureza?” De jeito nenhum. “Então foi criado imortal?”
Também não dizemos isso. “Então não foi nada?” Também não dizemos isso. O que
afirmamos é que por natureza não foi feito nem mortal, nem imortal. Porque se,
desde o princípio, o tivesse criado imortal, o teria feito deus; por outro
lado, se o tivesse criado mortal, pareceria que Deus é a causa da morte.
Portanto, não o fez mortal, nem imortal, mas, como dissemos antes, capaz de uma
coisa e de outra. Assim, se o homem se inclinasse para a imortalidade,
guardando o mandamento de Deus, receberia de Deus o galardão da imortalidade e
chegaria a ser deus; mas se se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo
a Deus, seria a causa da morte para si mesmo, porque Deus fez o homem livre e
senhor de seus atos. O que o homem atraiu sobre si mesmo por sua negligência e
desobediência, agora Deus o presenteou com isso, através de sua benevolência e
misericórdia, contanto que o homem lhe obedeça. Do mesmo modo como o homem,
desobedecendo, atraiu sobre si a morte, assim também, obedecendo à vontade de
Deus que quer, pode adquirir para si a vida eterna. De fato, Deus nos deu lei e
mandamentos santos, e todo aquele que os cumpre pode salvar-se e, tendo
alcançado a ressurreição, herdar a incorruptibilidade.
·O que desejo destacar no texto?
·Como este texto serviu para a
minha espiritualidade?
Capítulo XVIII – O ensinamento
dos autores sacros sobre antropologia
Quanto à criação do homem, não há
palavra humana que possa expressar a sua grandeza, ainda que a narração da
Escritura divina seja tão breve. Com efeito, o fato de que Deus diga: “Façamos
o homem à nossa imagem e semelhança” dá, antes de tudo, a entender a dignidade
do homem. De fato, tendo Deus feito o universo por sua palavra, considerou tudo
como coisa acessória e julgou como obra eterna digna de sua criação somente a
criação do homem. Além disso, Deus se apresenta como se precisasse de ajuda,
pois diz: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, mas não diz a ninguém
essa palavra “Façamos”, a não ser a seu próprio Verbo e à sua Sabedoria.
Tendo feito o homem e tendo-o abençoado
para que se multiplicasse e enchesse a terra, submeteu a ele todas as coisas
para que o servisse, ordenou que desde o princípio se alimentasse com os frutos
da terra, sementes, ervas e árvores e que os animais fossem seus comensais, os
quais também deveriam comer todas as sementes da terra.
Capítulo XIX – O ensinamento dos
autores sacros sobre antropologia (cont.)
19. Tendo Deus terminado, no sexto dia,
o céu, a terra, o mar e tudo o que nele existe, no sétimo dia descansou de
todas as obras que fizera. Em seguida, a divina Escritura recapitula assim:
“Este é o livro da origem do céu e da terra, quando existiu o dia em que Deus
fez o céu e a terra, toda verdura do campo antes de nascer, toda erva do campo
antes de brotar, pois Deus não havia feito chover sobre a terra e não havia
homem para cultivar a terra”. Com essas palavras nos dá a entender que, naquele
tempo, toda a terra era rega da por uma fonte divina e o homem não tinha
necessidade de cultivá-Ia, pois, por mandamento de Deus, ela brotava
espontaneamente, a fim de que o homem não se fatigasse trabalhando-a.
Para mostrar-nos a formação do homem e
para que não parecesse um problema insolúvel aos homens Deus ter dito: “Façamos
o homem” e não nos ter mostrado sua criação, a Escritura nos ensina, dizendo:
“E uma fonte subia da terra e regava toda a face da terra, e Deus formou o
homem do pó da terra, e lhe insuflou alento de vida em seu rosto, e o homem foi
feito alma vivente. É por isso que a alma é chamada imortal. Depois de ter
formado o homem, Deus escolheu um lugar pelas bandas do Oriente, excelente por
sua luz, iluminado por um ar mais brilhante, adornado com as mais belas
plantas, e aí Deus colocou o homem.
Capítulo XX – Descrição do
paraíso / Criação da mulher
Este é o relato da história sagrada,
conforme a Escritura: “Deus plantou um jardim no Éden, no Oriente, e aí colocou
o homem que formara. E Deus fez brotar da terra toda árvore formosa à vista e
saborosa ao paladar, e a árvore da vida no meio do paraíso, e a árvore da
ciência do bem e do mal. Do Éden saía um rio para regar o jardim e a partir daí
se dividia em quatro braços. Um se chamava Fison e é este aquele que rodeia
toda a terra de Hévila, onde existe o ouro. O ouro dessa terra é bom, e aí
também se encontra o carvão e a pedra ônix. O segundo rio se chama Geon e é
aquele que rodeia toda a terra da Etiópia. O terceiro rio é o Tigre, que corre
diante dos assírios. O quarto rio é o Eufrates. E o Senhor Deus tomou o homem a
quem formara e o colocou no jardim para que o cultivasse: ‘Comerás de toda
árvore do jardim, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, pois no
dia em que dela comerdes, morrereis de morte’. E o Senhor Deus disse: ‘Não é
bom que o homem esteja só; façamos para ele uma ajuda que lhe seja semelhante’.
E Deus plasmou então da terra todas as feras do campo e todas as aves do céu e
as apascentou diante de Adão. O nome com que Adão chamou a toda alma vivente,
esse é o seu nome. E Adão pôs nomes em todos os animais, em todas as aves do
céu e em todas as feras do campo; mas não se achou para Adão ajuda que lhe
fosse semelhante. Então Deus fez cair sobre Adão um êxtase e um sono profundo,
tomou uma de suas costelas e preencheu de carne o lugar vazio. E o Senhor Deus
construiu a costela tirada de Adão em forma de mulher e a apresentou a Adão.
Adão disse: ‘Isto sim é osso de meus ossos e carne de minha carne; esta se
chama mulher, porque foi tirada do homem. Por isso, o homem abandonará seu pai
e sua mãe, juntar-se-á com sua mulher e serão dois em uma só carne’. E os dois,
Adão e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.
Capítulo XXI – Retomada de
Gênesis sobre a tentação e queda de Adão e Eva
A serpente, porém, era a mais astuta de
todas as feras sobre a terra que o Senhor Deus fizera. A serpente disse à
mulher: ‘Como é que Deus disse: Não comas de toda árvore do jardim?’ A mulher
disse à serpente: ‘Nós comemos de toda árvore do jardim; mas a respeito do
fruto da árvore que está no meio do paraíso, Deus nos disse: Não comais dele,
nem o toqueis para que não morrais’. A serpente disse à mulher: ‘Não morrereis
de morte. É que Deus sabia que no dia em que dele comerdes vossos olhos se
abrirão e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.’ E a mulher viu que a
árvore era boa para comer, agradável aos olhos para ver e preciosa para
entender; então, tomando de seu fruto, comeu e deu também a seu marido; eles
comeram e os olhos de ambos se abriram, perceberam que estavam nus, colheram
folhas de figueira e fizeram cinturões para si. Então ouviram a voz do Senhor
Deus, que passeava no jardim depois do meio-dia, e Adão e sua mulher se
esconderam da face de Deus no meio da árvore do paraíso. O Senhor Deus chamou
Adão e lhe disse: ‘Onde estás?’ Adão respondeu: ‘Ouvi tua voz no jardim e temi,
pois estava nu, e me escondi’. Deus disse: ‘Quem te disse que estavas nu, senão
que comeste da única árvore que te mandei não comeres?’ Adão disse: ‘A mulher
que me destes, foi ela que me deu da árvore e eu comi’. Então Deus disse à
mulher: ‘Por que fizeste isso?’ A mulher respondeu: ‘A serpente me enganou e eu
comi’. O Senhor Deus disse à serpente: ‘Porque fizeste isso serás maldita entre
todas as feras da terra. Caminharás sobre teu peito e sobre teu ventre, e
comerás terra todos os dias de tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher,
entre a tua descendência e a descendência dela: ela esmagará a tua cabeça e tu
lhe morderás o calcanhar’. E disse à mulher: ‘Multiplicarei muito as tuas
tristezas e o teu gemido; darás à luz a teus filhos na dor, estarás voltada
para teu marido e ele te dominará’. E disse a Adão: ‘Porque ouviste a voz de
tua mulher e comeste da única árvore que te mandei não comer, a terra será
maldita em teus trabalhos, a cultivarás na tristeza todos os dias de tua vida;
ela produzirá espinhos e cardos para ti e comerás a erva do campo. Comerás o
teu pão com o suor do teu rosto até que voltes para a terra de onde foste
tirado, porque és terra e à terra retornarás”. Esse é o relato da santa
Escritura sobre a história do homem e do jardim.
Capítulo XXII – Retomada de
Gênesis sobre a tentação e queda de Adão e Eva (cont.)
Agora me dirás: “Tu dizes que Deus não
deve estar circunscrito a nenhum lugar. Como agora dizes que Deus passeava no
jardim?” Ouve minha resposta. Deus, o Pai do universo, é imenso e não está
limitado a um lugar, pois não existe lugar para seu descanso. O seu Verbo,
porém, pelo qual ele fez todas as coisas, sendo sua potência e sabedoria,
tomando a figura do Pai e Senhor do universo, foi ele que se apresentou no
jardim em figura de Deus e conversava com Adão. De fato, a própria divina
Escritura nos ensina que Adão disse ter ouvido a sua voz. Que outra coisa é
essa voz senão o Verbo de Deus, que é também seu Filho? Filho não à maneira
como poetas e mitógrafos dizem que nascem filhos dos deuses por união carnal,
mas como a verdade explica que o Verbo de Deus está sempre imamente no coração
de Deus. Porque antes de criar alguma coisa, o tinha por conselheiro, pois era
sua mente e pensamento. E quando Deus quis fazer tudo o que havia deliberado,
gerou esse Verbo proferido, como primogênito de toda criação, não esvaziando-se
de seu Verbo, mas gerando o Verbo e conversando sempre com ele. Por isso, as
santas Escrituras e todos os portadores do espírito nos ensinam, dentre as
quais João diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus”, dando a
entender que no princípio existia apenas Deus e nele o seu Verbo. Depois diz:
“E Deus era o Verbo. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.”
Portanto, sendo o Verbo Deus e nascido de Deus, quando o Pai do universo quer,
ele o envia a algum lugar e, chegando aí, ele é ouvido e visto, pois é enviado
por ele e se encontra em algum lugar.
·O que desejo destacar no texto?
·Como este texto serviu para a
minha espiritualidade?
Ninguém pode explicar de modo digno a obra dos seis
dias, nem traçar sua economia completa, mesmo que tivesse mil bocas e mil
línguas; mesmo que vivesse mil anos na presente vida, nem assim seria capaz de
dizer algo digno dela, por causa da soberana grandeza e riqueza da sabedoria de
Deus, que estão contidas nesta descrição da obra de seis dias. Certamente
muitos escritores a imitaram e quiseram dar-lhe uma explicação; contudo, mesmo
tomando esse ponto de partida, eles não exprimiram senão uma centelha digna da
verdade, seja a respeito do mundo, seja sobre a natureza do homem. As
explicações dos filósofos, historiadores e poetas parecem dignas de crédito
porque estão adornadas de bela expressão; contudo, no fundo, vê-se que são
néscias e vazias, pois contêm apenas uma multidão de bobagens e nelas não é
dito nem sequer uma sombra de verdade. E se parece que dizem algo de
verdadeiro, acha-se misturado com o erro. Como um veneno mortal, ao qual se
mistura mel, vinho ou qualquer outra coisa, torna tudo prejudicial e inútil,
assim também se percebe que a verbosidade deles é pura inanidade, ou melhor,
prejuízo para aqueles que nela crêem.
Alguma coisa ainda sobre o sétimo dia, sobre o qual
todos os homens falam, mas cuja razão a maior parte desconhece. De fato, o que
os hebreus chamam de sábado significa em grego sétimo dia, nome que todo o
gênero humano lhe dá, sem saber, porém, por que assim é chamado. O que o poeta
Hesíodo diz, afirmando que do Caos nasceu o Érebo, a Terra e o Amor, que
domina, segundo ele, a todos, seja deuses, seja homens, é dito de maneira vazia
e fria e totalmente alheia à verdade. Com efeito, Deus não deve se deixar
vencer pelo prazer, quando até os homens temperantes se abstêm de todo prazer
vergonhoso e de todo mau desejo.
Capítulo XIII – Cosmologia bíblica (cont.)
Além disso, ao começar o relato da criação pelas
coisas da terra, aqui de baixo, Hesíodo tem pensamento puramente humano, baixo,
fraco para ser aplicado a Deus. É o homem que, sendo daqui de baixo, começa a
construir pela terra, e logicamente não pode pôr o telhado antes de ter
assentado os alicerces. O poder de Deus, porém, se manifesta antes de tudo em
fazer as coisas do nada e depois fazer como quiser. De fato, o que é impossível
para os homens é possível para Deus. Por isso, o profeta diz que antes foi
criado o céu, que tem forma de teto, dizendo: “No princípio, Deus fez o céu”,
isto é, que o céu foi feito pelo Princípio, conforme dissemos antes. De certo
modo, chama a terra de solo e alicerce, e de abismo à imensidão das águas, e
também de trevas, porque o céu, criado por Deus, cobria como uma tampa tanto as
águas como a terra. O espírito, que se mantinha sobre a água, o qual Deus deu
para animação da criação, como deu a alma ao homem, misturando o sutil com o
sutil- pois o espírito é sutil e a água também o é -, para que o espírito
alimente a água, e a água, com o espírito, alimente a criação, penetrando-a por
todas as partes. Esse único espírito, ocupando o lugar da luz, se mantinha
entre a água e o céu, a fim de que, de certa maneira, as trevas não se
comunicassem com o céu, que está mais próximo de Deus, antes que Deus dissesse:
“Faça-se a luz”. Assim, o céu, como uma abóbada, continha a matéria, semelhante
a uma bola. Com efeito, outro profeta, chamado Isaías, falando a respeito do
céu, disse: “Este é o Deus que fez o céu como uma abóbada e o estendeu como uma
tenda para nele habitar”.
Assim, a ordenação de Deus, isto é, seu Verbo,
brilhando como uma lâmpada em casa fechada, iluminou a terra subceleste por uma
criação fora do mundo. E Deus chamou à luz dia e à noite trevas, pois o homem
certamente não teria sabido chamar à luz dia, nem à noite trevas, como também
não saberia dar nome às demais coisas, se não tivessem recebido seus nomes de
Deus, que as criou. No começo da história e da criação, a Escritura santa não
falou desse firmamento que vemos, e sim de outro céu invisível para nós; só
depois o nosso céu visível se chamou firmamento. Nele está recolhida metade das
águas, para fornecer à humanidade chuvas, tempestades e orvalhos; a outra
metade foi deixada na terra para os rios, fontes e mares. Assim, quando a água
ainda cobria a terra, principalmente nos lugares baixos, Deus fez, através de
seu Verbo, com que a água se reunisse em um só lugar e que a parte seca se
tornasse visível, pois no princípio era invisível. A terra tornada visível
estava ainda informe. Deus lhe deu forma e a adornou com toda espécie de ervas,
sementes e plantas.
Capítulo XIV – Cosmologia bíblica (cont.)
Além disso, considera a diversidade que há nessas
coisas, sua variada beleza e multidão, e como, através deles, se nos manifesta
a ressurreição, sendo prova daquela que um dia se realizará em todos os homens.
De fato, se refletes bem, quem não se admirará que de uma semente minúscula de
figo se forme uma figueira e que de outras peque ninas sementes nasçam árvores
enormes?
O mundo também nos oferece semelhança com ornar.
Assim como o mar teria secado há muito tempo por causa de seu sal se não
houvesse afluência dos rios e fontes que lhe fornecem alimento, de modo
semelhante o mundo, se não tivesse recebido a lei de Deus e os profetas, que
fazem correr para ele fontes de doçura, misericórdia e justiça e mantêm o
ensinamento dos santos mandamentos de Deus, também já teria perecido por causa
da maldade e do pecado que nele se multiplica. Do mesmo modo que no mar existem
ilhas habitáveis, com água e vegetação, enseadas e portos para refúgio durante
as tempestades, assim Deus deu ao mundo, em meio às tormentas e ondas de
pecados, os lugares de reunião, as chamadas igrejas santas, nas quais, como nas
ilhas de portos acolhedores, se encontramos ensinamentos da verdade, nas quais
se refugiam os que querem salvar-se, tornados amantes da verdade e decididos a
fugir da cólera e do julgamento de Deus. Há, porém, outras ilhas rochosas, sem
água nem vegetação, repletas de feras, inabitáveis, para dano dos navegantes e
náufragos, onde os navios atracam e perecem os que e elas descem; do mesmo
modo, há também doutrinas que extraviam, isto é, as das heresias, que levam à
perdição aqueles que aderem a elas. Porque não se guiam pelo Verbo da verdade,
mas à maneira dos piratas que, enchendo os navios, os atracam em recifes para
arruiná-las. Assim acontece com aqueles que se extraviam da verdade, que acabam
perecendo por causa do erro.
Capítulo XV – Cosmologia bíblica (cont.)
No quarto dia foram criados os luzeiros. Deus, que
sabe tudo de antemão, sabia as bobagens que os vãos filósofos iriam dizer, com
intenção de eliminar a Deus: que tudo quanto nasce na terra se deve ao influxo
dos elementos. Por isso, para que a verdade ficasse clara, as plantas e as
sementes foram criadas antes dos elementos, pois o posterior não pode produzir
o que é anterior.
Os luzeiros contêm o exemplo e símbolo de um grande
mistério, pois o sol é símbolo de Deus e a lua o é do homem. Como o sol difere
muito da lua em poder e glória, assim Deus é muito diferente da humanidade;
como o sol permanece sempre cheio e não diminui, assim Deus permanece sempre
perfeito, repleto de poder, inteligência, sabedoria, imortalidade e de todos os
bens. Em troca, a lua perece cada mês, e de certo modo, morre, e é símbolo de
como é o homem; depois torna a nascer e cresce, para demonstrar a ressurreição
futura.
Igualmente os três dias que precedem a criação dos
luzeiros são símbolo da Trindade, de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria. No
quarto símbolo está o homem, que necessita de luz. Assim temos: Deus, Verbo,
Sabedoria, Homem. É também por isso que os luzeiros foram criados no quarto
dia.
Por outro lado, a disposição dos astros representa
a economia e a ordem dos justos e piedosos, que guardam a lei e os mandamentos
de Deus. Com efeito, os astros mais visíveis e brilhantes representam os
profetas; por isso permanecem fixos, não mudando de um lugar para outro.
Aqueles que ocupam o segundo grau de brilho são tipo do povo dos justos; por
fim, os que mudam e passam de um lugar para outro, os chamados planetas, são
símbolo dos homens que se afastam de Deus, abandonando sua lei e seus
mandamentos.
Capítulo XVI – Cosmologia bíblica (cont.)
No quinto dia foram criados os animais que procedem
das águas, pelas quais e nas quais se mostra a multiforme sabedoria de Deus. De
fato, quem seria capaz de enumerar sua quantidade e a variedade de suas
variadíssimas espécies? Além disso, o que foi criado das águas por Deus foi
abençoado por ele, para que isso servisse de prova sobre o que os homens
deveriam receber: penitência e remissão dos pecados através da água e banho de
regeneração, todos os que se aproximam da verdade, renascem e recebem a bênção
de Deus.
Os monstros marinhos e as aves carnívoras são
símbolo dos avarentos e transgressores. De fato os animais aquáticos e aves,
embora sendo de uma única natureza, alguns permanecem no que é conforme a
natureza, sem prejudicar aos mais fracos, guardam a lei de Deus e se alimentam
das sementes da terra; outros transgridem a lei de Deus, comendo carne, e
prejudicam os mais fracos. De modo semelhante, os justos, guardando a lei de
Deus, não mordem nem causam dano a ninguém, vivendo santa ejustamente; mas os
ladrões, assassinos e ateus assemelham-se aos monstros marinhos, às feras e
aves carnívoras, pois de certo modo engolem os mais fracos.
Capítulo XVII – Cosmologia bíblica (cont.)
No sexto dia, Deus fez os quadrúpedes, as feras e
os répteis da terra, mas não se fala da bênção correspondente, guardando-a para
o homem, que criaria no mesmo sexto dia. Assim, os quadrúpedes e feras se
tornaram tipo de alguns homens que desconhecem a Deus, que são ímpios e não
fazem penitência. De fato, os que se convertem de suas iniqüidades e vivem
justamente voam como aves em sua alma, sentindo as coisas de cima e agradando à
vontade de Deus; mas os que desconhecem a Deus e vivem de modo ímpio são parecidos
com essas aves, que tem asas e não podem voar, nem subir até a altura da
divindade. De modo semelhante, estes se chamam homens, mas sentem o que é baixo
e terreno, pois estão pesados por causa de seus pecados. Quanto às feras, elas
se chamam assim por causa da sua ferocidade, não porque desde o princípio
fossem más ou venenosas, pois nada do que é mau foi criado por Deus desde o
princípio; ao contrário, tudo era bom e até muito bom, mas o pecado do homem as
tornou más. Quando o homem se tornou transgressor, elas também transgrediram. É
como numa casa: se o senhor se comporta bem, os domésticos não têm outro
remédio a não ser comportar-se bem; contudo, se o senhor peca, os servidores
pecam junto com ele. Da mesma forma, quando o homem, que é o senhor, pecou,
também os animais, seus escravos, pecaram com ele. Portanto, quando o homem
voltar a viver conforme a natureza e não agir mal, também os animais serão
estabelecidos em sua mansidão original.
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·Como este texto serviu para a
minha espiritualidade?
IX Reunião da OFSE Biografia de Francisco de Assis
Tomás
de Celano
1Celano
-Segundo Livro - Capítulos 1 - 3
Breve Cronologia de Francisco de Assis
1181/82 - Nascimento de Giovanni di Pietro (Pai) di Bernardone (avô).
1202 - Guerra entre Perusa e Assis.
1204 - Longa doença.
1205 - parte para a guerra na Apúlia, no sul.Volta após visão e
mensagem de Espoleto.
1205 - mensagem do crucifixo de São Damião.
1206 – questão perante o bispo Dom Guido II. Em Gúbio, perto de Assis,
cuida dos leprosos.
1208 - 24 de fevereiro: ouve o evangelho da missa de São Matias, na
Porciúncula, sobre a missão Apostólica.
1209 - Francisco escreve a “forma de vida” a regra que o Senhor o havia
inspirado. Na primavera, viaja a Roma com seus onze companheiros, e o papa
Inocêncio III, aprova de forma verbal seu modo de vida. Regressam a Assis e
permanecem em Rio Torto. Mudam-se depois para a Porciúncula
1212 –na noite do domingo de Ramos, a nobre jovem Clara di Favarone
foge de casa e é recebida na Porciúncula.
1220 - O Cardeal Hugolino é nomeado o protetor da Ordem.
1220 –Francisco entrega o governo da Ordem a Frei Pedro Cattani, como seu
vigário.
1223 – 29 de novembro : Honório III aprova, com bula papal, a Regra
definitiva, ainda hoje em vigor.
24/25 de dezembro: na noite de Natal, Francisco celebra a festa em
Greccio, junto a um presépio.
1224 – 15 de agosto a 29 de setembro: Francisco, com Frei Leão e Frei
Rufino, passa no Alverne, preparando-se com uma quaresma de oração e jejum. Em
setembro, tem a visão do Serafim alado e recebe os estigmas.
1225 - Recebe a promessa de vida eterna. Depois de uma noite dolorosa,
atormentado pela dor e por ratos, compõe o Cântico do Irmão Sol.
1226 – 3 de outubro, à tarde : Francisco cantando “mortem suscepit”
(morreu cantando).
Começa o segundo livro, que narra apenas os dois últimos
anos e a morte feliz de nosso bem-aventurado
Pai.
CAPÍTULO
1. Teor desta parte. Morte ditosa do Santo. Seu exemplo de perfeição.
88. Na primeira parte de nossa obra, que com a graça
de Deus levamos a bom termo, escrevemos tudo que pudemos para narrar a vida e
os atos de nosso bem-aventurado pai São Francisco até o décimo oitavo ano de
sua conversão.
Nesta parte, consignaremos com brevidade os outros
fatos dos últimos dois anos de sua vida, conforme nos foi possível averiguar.
Queremos anotar só os pontos mais necessários, para que os outros que desejem
contar alguma coisa tenham sempre a possibilidade de fazê-lo.
No ano de 1226 da Encarnação do Senhor, domingo, dia
4 de outubro, em Assis, sua terra, e na Porciúncula, onde fundara a Ordem dos
Frades Menores, tendo completado vinte anos de perfeita adesão a Cristo e de
seguimento da vida apostólica, nosso bem aventurado pai Francisco saiu do
cárcere do corpo e voou todo feliz para as habitações dos espíritos celestiais,
terminando com perfeição o que tinha empreendido.
Seu santo corpo foi exposto e reverentemente
sepultado com hinos de louvor nessa mesma cidade, onde brilha em seus milagres
para a glória do Todo-Poderoso. Amém.
89. Tendo recebido pouca ou nenhuma instrução no
caminho do Senhor e em seu conhecimento desde a adolescência, passou algum tempo
na ignorância natural e no ardor das paixões, mas foi justificado de seu pecado
por uma intervenção da mão de Deus, e pela graça e virtude do Altíssimo foi
cumulado com a sabedoria de Deus mais do que todos os homens que viveram em seu
tempo.
Em meio do aviltamento não parcial mas geral em que
jazia a pregação do Evangelho por causa dos costumes daqueles que o pregavam,
ele foi enviado por Deus como os apóstolos, para dar testemunho da verdade em
todo o mundo. E foi assim que o seu ensinamento mostrou com evidência que a
sabedoria do mundo era loucura, e em pouco tempo, sob a orientação de Cristo,
mudou os homens para a sabedoria de Deus pela simplicidade de sua pregação.
Como um dos rios do paraíso, este novo evangelista
dos últimos tempos irrigou o mundo inteiro com as fontes do Evangelho e pregou
com o exemplo o caminho do Filho de Deus e a doutrina da verdade. Nele e por
ele, o mundo conheceu uma alegria inesperada e uma santa novidade: a velha
árvore da religião viu reflorir seus ramos nodosos e raquíticos. Um espírito
novo reanimou o coração dos escolhidos e neles derramou a unção de salvação ao
surgir o servo de Cristo como um astro no firmamento, irradiando santidade nova
e prodígios inauditos.
Por ele renovaram-se os antigos milagres, quando foi
plantada no deserto deste mundo, com um sistema novo mas à maneira antiga, a videira
frutífera, que dá flores com o suave perfume das santas virtudes e estende por
toda parte os ramos da santa religiosidade.
90. Embora fraco como qualquer um de nós, Francisco
não se contentou com a observância dos preceitos comuns, mas, cheio de ardente
caridade, partiu pelo caminho da perfeição, atingiu o cume da santidade e
contemplou o termo de toda realização.
É por isso que todas as classes, sexos e idades têm
nele uma prova evidente da doutrina salutar e também um exemplo preclaro de todas
as boas obras. Os que pretendem empreender coisas de valor e aspiram aos
carismas melhores do caminho da perfeição podem olhar no espelho de sua vida e
aprender tudo que é melhor. Os que pretendem coisas mais humildes e simples,
com medo das dificuldades e da montanha, também podem encontrar nele conselhos
adaptados ao seu nível. Mesmo os que desejam apenas sinais e milagres podem
buscar sua santidade e alcançarão o que desejam.
Sua vida gloriosa faz brilhar a santidade dos santos
antigos com uma luz mais clara. Prova cabal é seu amor à paixão de Jesus Cristo
e a sua cruz. De fato, nosso pai venerável foi marcado nas cinco partes do
corpo pelo sinal da paixão e da cruz, como se tivesse sido pregado na cruz com
o Filho de Deus. Este sacramento é grande e indica a grandeza de seu particular
amor. Mas acreditamos que exista nesse fato um plano oculto, um mistério
escondido, que só Deus conhece e que o próprio santo só revelou a uma pessoa, e
em parte. Por isso, não adianta insistir muito em elogios, porque seu louvor
vem daquele que é o louvor de todas as coisas, fonte de toda glória e que
concede os prêmios da luz. Bendigamos a Deus que é santo, verdadeiro e
glorioso, e continuemos a história.
CAPÍTULO
2. O maior desejo de São Francisco. Compreende a vontade de Deus a seu respeito
ao abrir o livro
91. Certa ocasião, o bem-aventurado e venerável pai
São Francisco afastou-se das multidões que todos os dias acorriam cheias de devoção
para vê-lo e ouvi-lo e procurou um lugar calmo, secreto e solitário para poder
se entregar a Deus e limpar o pó que pudesse ter adquirido no contacto com as
pessoas.
Costumava dividir o tempo que tinha recebido para
merecer a graça de Deus e, conforme a oportunidade, consagrar uma parte ao
auxílio do próximo e outra à contemplação no retiro.
Por isso levou consigo muito poucos companheiros, os
que melhor conheciam sua vida santa, para que o protegessem da invasão e da perturbação
das pessoas, e para que preservassem com amor o seu recolhimento.
Passado algum tempo nesse lugar e tendo conseguido,
por uma oração contínua e uma contemplação frequente, uma inefável familiaridade
com Deus, teve vontade de saber o que o Rei eterno mais queria ou podia querer
dele. Buscava com afã e desejava com devoção saber de que modo, por que caminho
e com que desejos poderia aderir com maior perfeição ao Senhor Deus segundo a inspiração
e o beneplácito de sua vontade. Essa foi sempre a sua mais alta filosofia, seu
maior desejo, em que ardeu enquanto durou sua vida: gostava de perguntar aos
simples e aos sábios, aos perfeitos e aos imperfeitos como poderia chegar ao
caminho da verdade e atingir metas cada vez mais elevadas.
92. Embora fosse perfeitíssimo entre os mais
perfeitos, não o reconhecia e se julgava absolutamente imperfeito. Já tinha
provado e visto como é doce, suave e bom o Deus de Israel para os que são retos
de coração e o procuram na verdadeira simplicidade.
Doçura e suavidade, que a tão poucos são dadas mas
que a ele tinham sido infundidas do alto, arrancavam-no de si mesmo e lhe davam
tanto prazer que desejava de qualquer maneira passar de uma vez para o lugar
onde uma parte dele já estava vivendo.
Possuindo o espírito de Deus, estava pronto a
suportar todas as angústias, a tolerar todas as paixões, contanto que lhe fosse
dada a possibilidade de cumprir-se nele, misericordiosamente, a vontade do Pai
celestial.
Dirigiu-se um dia ao altar construído na ermida em
que estava e, com toda a reverência, depositou sobre ele o livro dos
Evangelhos.
Depois, prostrado em oração, não menos com o coração
do que com o corpo, pediu humildemente que o Deus de bondade, Pai das misericórdias
e Deus de toda consolação, se dignasse mostrar-lhe sua vontade. E para poder
levar a termo perfeito o que tinha começado com simplicidade e devoção,
suplicou a Deus que lhe indicasse o que era mais oportuno fazer logo que
abrisse o livro pela primeira vez. Imitava, assim, o exemplo de outros homens
santos e perfeitos que, conforme lemos, levados por sua devoção no desejo da
santidade, tinham procedido semelhantemente.
93. Terminada a oração, levantou-se com espírito
humilde e ânimo contrito, fez o sinal da santa cruz, tomou o livro do altar e o
abriu com reverência e temor. A primeira coisa que se lhe deparou ao abrir o
livro foi a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, no ponto que anunciava as
tribulações por que deveria passar. Mas, para que ninguém pudesse suspeitar de
que isso tivesse acontecido por acaso, abriu o livro mais duas vezes, e
encontrou a mesma coisa ou algo parecido. Cheio do Espírito Santo, compreendeu
que deveria entrar no reino de Deus depois de passar por muitas tribulações, muitas
angústias e muitas lutas.
Mas o valente soldado não se perturbou com a guerra
iminente nem desanimou de enfrentar os combates do Senhor nas fortalezas deste mundo.
Não temeu sucumbir ao inimigo, ele que não cedia nem a si mesmo, apesar de ter
sustentado por muito tempo fadigas superiores a todas as forças humanas. Estava
cheio de fervor e, se houve no passado alguém que o igualasse nos bons
propósitos, ainda não se encontrou ninguém que o igualasse no desejo. Porque também
tinha mais facilidade para fazer as coisas perfeitas do que para louvá-las, e
empenhou esforço e ação nas boas obras, não apenas nas palavras. Por isso
estava sempre alegre e tranquilo, entoando no coração cânticos de júbilo para
si mesmo e para Deus.
Também mereceu uma revelação maior, ele que tanto se
alegrara com coisas bem menores, como o servo fiel nas coisas pequenas que foi
colocado acima de outras maiores.
CAPÍTULO
3. Aparição do Serafim crucificado
94. Dois anos antes de entregar sua alma ao céu, estando
no eremitério que, por sua localização, tem o nome de Alverne, Deus lhe deu a
visão de um homem com a forma de um Serafim de seis asas, que pairou acima dele
com os braços abertos e os pés juntos, pregado numa cruz. Duas asas elevavam-se
sobre a cabeça, duas abriam-se para voar e duas cobriam o corpo inteiro.
Ao ver isso, o servo do Altíssimo se encheu da mais
infinita admiração, mas não compreendia o sentido. Experimentava um grande
prazer e uma alegria enorme pelo olhar bondoso e amável com que o Serafim o
envolvia. Sua beleza era indizível, mas o fato de estar pregado na cruz e a
crueldade de sua paixão atormentavam-no profundamente.
Levantou-se triste e alegre ao mesmo tempo, se isso
se pode dizer, alternando em seu espírito sentimentos de gozo e de padecimento.
Tentava descobrir o significado da visão e seu
espírito estava muito ansioso para compreender o seu sentido. Estava nessa
situação, com a inteligência sem entender coisa alguma e o coração avassalado
pela visão extraordinária, quando começaram a aparecer-lhe nas mãos e nos pés
as marcas dos quatro cravos, do jeito que as vira pouco antes no crucificado.
95. Suas mãos e seus pés pareciam atravessados bem
no meio pelos cravos, sobressaindo as cabeças no interior das mãos e em cima
dos pés, e as pontas do outro lado. Os sinais eram redondos nas palmas das mãos
e longos no lado de fora, deixando ver um pedaço de carne como se fossem pontas
de cravo entortadas e rebatidas, saindo para fora da carne. Havia marcas dos
cravos também nos pés, ressaltadas na carne. No lado direito, que parecia atravessado
por uma lança, estendia-se uma cicatriz que frequentemente soltava sangue, de
maneira que sua túnica e suas calças estavam muitas vezes banhadas naquele
sangue bendito.
Infelizmente, foram muito poucos os que mereceram
ver a ferida sagrada do seu peito, enquanto viveu crucificado o servo do Senhor
crucificado!
Feliz foi Frei Elias, que teve algum jeito de vê-la
durante a vida do santo. Não menos afortunado foi Frei Rufino, que a tocou com
suas próprias mãos. Porque, num dia em que lhe friccionava o peito, sua mão
escorregou casualmente para o lado direito e tocou a preciosa cicatriz. A dor
que o santo sentiu foi tão grande que afastou a mão e gritou pedindo a Deus que
o poupasse.
Pois tinha muito cuidado em esconder essas coisas
dos estranhos, e ocultava-as mesmo dos mais chegados, de maneira que até os irmãos
que eram seus companheiros e seguidores mais devotados não souberam delas por
muito tempo.
E o servo e amigo do Altíssimo, embora se visse
ornado com joias tão importantes como pedras preciosíssimas e assim destacado espetacularmente
acima da glória e da honra de todos os homens, não se desvaneceu em seu coração
nem procurou por causa disso comprazer-se em alguma vanglória. Pelo contrário,
para que o favor humano não lhe roubasse a graça recebida, procurou escondê-la
de todos os modos possíveis.
96. Tinha decidido não revelar a quase ninguém o seu
segredo extraordinário, temendo que, como costumam fazer os privilegiados, contassem
a outros para mostrar como eram amigos, e isso resultasse em detrimento da
graça que tinha recebido. Por isso guardava sempre em seu coração e repetia
aquela frase do profeta: "Escondi tuas palavras em meu coração, para não
pecar contra ti".
Tinha até combinado um sinal com seus irmãos e
filhos: quando queria interromper a conversa de pessoas de fora que o
visitavam, recitava aquele versículo e eles tratavam de despedi-las delicadamente.
Sabia por experiência como fazia mal contar tudo a
todos e que não pode ser homem espiritual quem não possui em seu coração outros
segredos, mais profundos do que os que podem ser lidos no rosto e julgados por
qualquer pessoa. Tinha percebido que algumas pessoas concordavam com ele por
fora e discordavam por dentro, aplaudiam na frente e riam-se por trás,
levando-o a julgar os outros e até a suspeitar de pessoas irrepreensíveis.
Infelizmente, muitas vezes deixamos de acreditar na
sinceridade de poucos porque a maldade procura denegrir o que é puro e porque a
mentira se tornou natural para a maioria.
CAPÍTULO
4. Fervor de São Francisco. Sua doença dos olhos.
97. Por esse tempo, seu corpo começou a padecer
diversas doenças, mais graves do que as que já sofrera. Ele sempre tivera alguma
enfermidade, pois tinha castigado duramente o corpo, por muitos anos, para
reduzi-lo à servidão. Durante dezoito anos completos, seu corpo não tivera
quase nenhum descanso, pois tinha andado por várias e extensas regiões,
lançando por toda parte as sementes da palavra de Deus com aquele espírito
decidido, devoto e fervente que nele residia. Tinha enchido a terra inteira com
o Evangelho de Cristo: num só dia chegava a passar por quatro ou cinco
povoados, ou mesmo cidades, anunciando a todos o Reino de Deus, e edificando os
ouvintes tanto pela palavra como pelo exemplo, pois toda a sua pessoa era uma
língua que pregava.
Sua carne estava tão de acordo e obedecia de tal
forma ao seu espírito que, enquanto ele procurava atingir a santidade, o corpo
não só não impedia mas até corria na frente, de acordo com o que está escrito:
"Minha alma teve sede de vós, e o meu corpo mais ainda". A sujeição
já era tão costumeira que se tornara voluntária, e pela humilhação diária tinha
conquistado toda essa virtude, porque muitas vezes o hábito passa a ser uma
segunda natureza.
98. Mas, como é uma lei inelutável da natureza e da
condição humana que o homem exterior vá perecendo cada dia, enquanto a interioridade
se renova sem cessar, aquele vaso preciosíssimo, em que estava o tesouro
escondido, começou a ceder por todos os lados e a se ressentir da perda de
forças. Entretanto, "quando o homem crê estar no fim, é então que
começa", seu espírito se tornava mais disposto na medida em que a carne
estava mais fraca.
Tão vivo era seu zelo pela salvação das almas e tão
grande sua sede pelo bem do próximo que, quando não podia mais andar, percorria
as terras montado num jumento.
Os frades lhe pediam constantemente que desse um
pouco de alívio ao corpo enfermo e tão debilitado, recorrendo ao auxílio dos médicos.
Mas ele, com seu nobre espírito voltado para o céu, desejando apenas
dissolver-se para estar com Cristo, recusava-se terminantemente a isso.
Entretanto, como não tinha completado em sua carne o que faltava na paixão de
Cristo, embora carregasse no corpo os seus estigmas, teve uma grave moléstia
dos olhos, como se nele Deus quisesse multiplicar sua misericórdia.
A doença crescia cada vez mais e parecia aumentar
dia a dia pela falta de cuidado. Frei Elias, a quem escolhera como sua mãe e
colocara como pai dos outros frades, acabou obrigando-o a aceitar o remédio pelo
nome do Filho de Deus, por quem tinha sido criado, de acordo com o que está
escrito: "O Senhor fez sair da terra os remédios, e o homem sensato não os
rejeita". Então o santo pai acedeu de bom grado e obedeceu com humildade
aos que o aconselhavam.