segunda-feira, 26 de novembro de 2018

74 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 88 - 100)

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74
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 88 - 100)



Salvação no nome de Cristo
88. Depois da Ascensão, [Cristo] foi elevado obre todas as criaturas, e ninguém pode ser comparado ou assimilado a ele. Disse Isaías: “Quem é julgado? Apresente-se. Quem é justificado? Aproxime-se do Filho do Senhor. Ai de vós, que vos consumis como uma roupa e que a traça devorará. Todo homem será humilhado e abatido. Só o Senhor será elevado com aqueles que serão enaltecidos”. Isaías reafirmava que aqueles que servem a Deus serão salvos no final [dos tempos] pela força do seu nome: “Os meus servos terão um nome diferente [novo]. Quem quiser uma bênção neste país, é pelo Deus verdadeiro que há de pedir”. Novamente Isaías anuncia que ele mesmo e em pessoa devia salvar-nos por esta bênção: “Em todas as suas agruras, não foi mensageiro ou anjo, mas a própria face que os salvou. No seu amor e na sua misericórdia, ele mesmo os resgatou: ergueu-se e carregou-os, durante todo o tempo passado”.

O Espírito sobre a face da terra
89. Os que foram, assim, libertados, Deus não quer conduzi-los sob a Lei de Moisés; pois, de fato, a Lei foi cumprida por Cristo, mas [quer] que caminhemos livres na novidade dada pela fé no Filho de Deus, na renovação da Palavra, como disse Isaías: “Não fiqueis a lembrar coisas passadas, não vos preocupeis com acontecimentos antigos. Eis que farei uma coisa nova, ela já vem despontando: não a percebeis? Com efeito, estabelecerei um caminho no deserto, e rios em lugares ermos [...] a fim de dar de beber ao meu povo, o meu eleito. O povo que formei para mim proclamará o meu louvor”. “Deserto” e “terra seca” eram precedentemente o chamado aos gentios, porque o Verbo não havia passado entre eles, nem lhes havia dado a beber o Espírito Santo, que preparou o novo caminho da piedade e da justiça. O Verbo fez brotar rios abundantes, ou seja, disseminou o Espírito Santo sobre a terra, como prometeu por meio dos profetas, que efundiria o Espírito sobre a face da terra até o fim dos tempos.

A vida nova no Espírito
‘90. A nossa vocação, então, vem da “novidade do Espírito, e não da caducidade da letra”, como profetizou Jeremias: “Eis que dias virão – oráculo de Iahweh – em que concluirei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova. Não como a aliança que concluí com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los sair da terra do Egito – minha aliança que eles próprios romperam, embora eu fosse o seu Senhor, oráculo de Iahweh! Porque esta é a aliança que concluirei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Porei minhas leis no fundo de seu ser e a escreverei em seu coração. Então serei seu Deus, e eles serão o meu povo. Eles não terão que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece a Iahweh!’. Porque todos me conhecerão, dos maiores aos menores – oráculo de Iahweh –, porque perdoarei sua culpa e não me lembrarei mais do seu pecado”.

O lugar dos pagãos na Igreja
91. Isaías recordava que essas promessas deviam ser herdadas no tempo do chamado aos gentios, aos quais foi inaugurada uma nova aliança: “Naquele dia o homem atentará para o seu criador e os seus olhos se voltarão para o Santo de Israel. Ele não tornará a atentar para os altares, obra das suas mãos, objeto que os seus dedos fabricaram; ele não voltará a olhar para as estelas sagradas, nem para os altares de incenso”. Evidentemente, isso foi dito àqueles que abandonaram os ídolos e creem em Deus, nosso criador, graças ao Santo de Israel. O Santo de Israel é o Cristo; tendo sido manifestado aos homens – e nós o contemplamos com atenção – não colocamos mais a nossa esperança nos altares, nem nas obras de nossas mãos.
92. Que devesse manifestar-se em meio a nós, que o Filho de Deus se tornasse Filho do homem, que devesse ser encontrado entre nós que antes o ignorávamos, o mesmo Verbo o afirma através de Isaías: “Consenti em ser buscado por aqueles que não perguntavam por mim, consenti em ser encontrado por aqueles que não me procuravam. A uma nação que não invocava o meu nome”.
93. Que esse povo fosse destinado a ser um povo santo, foi predito por Oseias, um dos doze profetas: “Chamarei meu povo àquele que não é meu povo e amada àquela que não é amada. E acontecerá que, no lugar onde lhes foi dito: vós não sois meu povo, lá serão chamados filhos do Deus vivo”. Isso foi repetido por João Batista: “destas pedras, Deus pode suscitar filhos de Abraão”. De fato, depois de serem arrancados pela fé do culto das pedras, os nossos corações veem a Deus, e se tornam filhos de Abraão, “o homem é justificado pela fé”. Por isso, Deus disse pela boca do profeta Ezequiel: “Eu lhes darei um só coração, porei no seu íntimo um espírito novo: removerei do seu corpo o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne, a fim de que andem de acordo com os meus estatutos e guardem as minhas normas e as cumpram. Então serão o meu povo e eu serei o seu Deus”.

A Igreja e a sinagoga
94. Então, com o novo chamado se realiza uma troca dos corações entre os gentios, por meio do Verbo de Deus, que “se encarnou e morou com os homens”, como disse o seu discípulo João: “o Verbo se fez carne e veio morar entre nós”. Por isso a Igreja gera um grande número de salvos, porque não é mais um intercessor, Moisés, ou um enviado, Elias, que nos salvam, mas o Senhor mesmo, que gera mais filhos à Igreja que à sinagoga do passado, como predisse Isaías nestes termos: “Canta, ó estéril, tu que não
mais dás à luz!” – e estéril é a Igreja que, nos primeiros tempos, não deu filhos a Deus – “Entoa alegre canto, ó estéril, que deste à luz; ergue gritos de alegria, exulta, tu que não sentiste as dores de parto, porque mais numerosos são os filhos da abandonada do que os filhos da esposa, diz Iahweh”. E a antiga sinagoga tinha a Lei por marido.

A incorporação dos gentios
95. Moisés disse no Deuteronômio que os gentios estarão à cabeça, e o povo incrédulo à cauda, e ainda: “Provocaram meu ciúme com deus falso, e me irritaram com seus ídolos vazios; pois vou provocar seu ciúme com um povo falso, vou irritá-los com uma nação idiota!”. De fato, abandonaram o verdadeiro Deus, adoraram falsos deuses, mataram os profetas de Deus, e profetizaram por meio de Baal, que era um ídolo dos cananeus; desprezaram o verdadeiro Filho de Deus, escolhendo Barrabás, um bandido preso em flagrante homicídio; renegaram o Rei eterno, reconhecendo César como rei. Por isso, Deus decidiu passar a sua herança aos estultos gentios e àqueles que não eram cidadãos de Deus e não conheciam quem é Deus. Ora, graças a esse chamado, foi-nos dada a vida, e Deus restaurou em nós a fé de Abraão nele, e não devemos voltar
atrás, quero dizer, à legislação precedente. Nós, de fato, acolhemos o Senhor da Lei, o Filho de Deus e, mediante a fé nele, aprendemos a “amar a Deus com todo o coração e o próximo como a nós mesmos”. Ora, o amor a Deus exclui qualquer pecado, e o amor ao próximo não faz mal a ninguém.

A superação da Lei
96. Portanto, não temos necessidade da Lei, como pedagogo; eis que nós falamos com o Pai e estamos face a face com ele nos tornando crianças sem malícia, e fortes em toda justiça e honestidade. A Lei, de fato, não dirá mais: “Não cometerás adultério” àquele que não concebeu o desejo pela mulher alheia; ou “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher de teu próximo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo” àquele que não tem interesse pelas coisas da terra, mas faz provisão para o céu; nem “olho por olho e dente por dente” àquele que não tem inimigos e trata todos como próximo, e por isso não levanta as mãos para vingar-se; não exigirá o dízimo de quem consagrou a Deus todos os seus bens e deixou pai, mãe, toda a família, para seguir o Verbo de Deus. Não mandará mais reservar um dia de repouso àquele que todo dia observa o sábado, ou seja, que rende culto a Deus no templo de Deus, que é o corpo do homem, e pratica sempre a justiça. “Porque é amor que eu quero e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos”. Mas [é] ímpio “o que sacrifica um cordeiro ou destronca o pescoço de um cão, o que oferece uma oblação – isto é, sangue de porco”. “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”, e nenhum outro nome foi dado sob o céu, no qual os homens “são salvos”, mas o de Deus, que é Jesus Cristo, Filho de Deus, a quem obedecem também os demônios, os espíritos maus e todas as potências rebeldes.

A invocação do nome de Jesus
97. Pela invocação do nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, Satanás foi afastado definitivamente dos homens. Ali onde existe alguém que, acreditando nele e fazendo a sua vontade, o recordará e o invocará, ele estará ao seu lado e ouve as súplicas de quem o invoca com coração puro. Tendo, assim, obtido a salvação, nós estamos em constante ação de graças a Deus, nosso Senhor, pela sua grande e insondável sabedoria, e arauto da redenção do céu, pela vinda visível de nosso Senhor, isto é, a sua vida humana que, deixados a nós mesmos, não poderíamos conseguir. Mas “As coisas impossíveis aos homens são possíveis a Deus”. A esse propósito, Jeremias disse: “Quem subiu ao céu e apoderou-se dela, e a fez descer do alto das nuvens? Quem atravessou o mar e a encontrou, quem a trará a preço de ouro refinado? Não há quem conheça o seu caminho, nem quem se dê conta da sua vereda. Aquele que sabe todas as coisas, porém, a conhece, pois descobriu-a com a sua inteligência; aquele que preparou a terra para duração eterna e a encheu de animais quadrúpedes; aquele que envia luz e ela parte, que a chama de volta, e ela, tremendo, obedece; brilham em seus postos as estrelas, palpitantes de alegria; ele as chama e elas respondem: ‘Aqui estamos’, cintilando com alegria para aquele que as fez. É ele o nosso Deus, e nenhum outro se contará ao lado dele. Foi ela quem escavou todo o caminho do conhecimento e o mostrou a Jacó, seu servo, e a Israel, seu bem-amado. Depois disso ela apareceu sobre a terra e no meio dos homens conviveu. Ela é o livro dos preceitos de Deus, a Lei que subsiste para sempre: todos os que a ela se agarram destinam-se à vida, e os que a abandonarem perecerão”. Ele chama “Jacó” e “Israel” o Filho de Deus, que recebeu do Pai o poder sobre a nossa vida e, depois de ter recebido a vida, a fez descer sobre nós que estamos longe dele, quando foi visto sobre a terra e conversou com os homens, misturando e unindo o Espírito de Deus Pai com o corpo plasmado por Deus, para que o homem se tornasse imagem e semelhança de Deus.

Conclusão
98. Esta é, meu querido amigo, a pregação da verdade e a imagem de nossa salvação: assim é o caminho da vida que os profetas anunciaram, o que Cristo instituiu, que os apóstolos consignaram e que a Igreja transmite a seus filhos por toda a terra. Deve ser custodiada e com vontade decidida para agradar a Deus com as boas obras e com um modo sadio de pensar.

Os desvios dos hereges
99. Portanto, que ninguém pense que existe outro Deus Pai distinto de nosso Criador, como imaginam os hereges, que depreciam o Deus verdadeiro e fazem de Deus um ídolo, criando um pai acima de nosso Criador e o têm para si. Na verdade, todos esses são ímpios e blasfemam contra o seu Criador e Pai como já demonstramos na Exposição e Refutação da falsa gnose. Outros depreciam a vinda do Filho de Deus e a economia
da sua encarnação transmitida pelos Apóstolos e prevista pelos profetas para a restauração da humanidade, como concisamente demonstramos. Também a essas pessoas temos que contá-las entre os incrédulos. Outros ainda não acolhem os dons do Espírito Santo e rechaçam o carisma profético, por cujo orvalho o homem produz como fruto a vida divina. Deles, disse Isaías: “Pois sereis como terebinto cujas folhas estão murchas, como jardim sem água”. Esses não são de utilidade alguma para Deus, pois não produzem frutos.
100. Com relação aos três artigos do nosso selo, o erro causou muitas divagações distantes da verdade. Por isso, ou desprezam o Pai, ou não acolhem o Filho, falando contra a economia de sua encarnação, ou refutam o Espírito, ou seja, a profecia. De toda essa gente devemos nos esguardar, evitar os seus caminhos, se realmente queremos agradar a Deus e obter a salvação.

Glória a toda a Trindade, único Deus, Pai,
Filho e Espírito Santo, providência universal, para sempre. Amém. Recordem-se no Senhor do divino e beatíssimo senhor arcebispo João, proprietário deste livro, irmão do santo rei; e também do humilde escrivão (copista).

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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

73 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 73 - 87)


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73
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 73 - 87)

Morte e ressurreição
73. Davi tratou assim da morte e da ressurreição de Cristo: “Eu me deito e logo adormeço. Desperto, pois é Iahweh quem me sustenta”. Davi não disse isso de si próprio, porque não ressuscitou depois da morte; mas o Espírito de Cristo, que assim falou pelos profetas, disse pela boca de Davi: “Eu me deito e logo adormeço. Desperto, pois é Iahweh quem me sustenta”. Define a morte como “sono”, porque ressuscitou.

Anúncio da Paixão
74. Com relação à Paixão, disse Davi: “Por que as nações se amotinam e os povos planejam em vão? Os reis da terra se insurgem e, unidos, os príncipes enfrentam Iahweh e seu Messias”. De fato, Herodes, o rei dos judeus, e Pôncio Pilatos, procurador de Cláudio César, se reuniram e condenaram o Cristo a ser crucificado. Herodes, de fato, temia perder o seu reino, como se ele devesse ser um rei terreno, e Pilatos foi constrangido contra a sua vontade por Herodes e pelos judeus, que o forçaram a condená-lo à morte, pelo fato de que não fazer isso seria considerado contra César, libertando um homem ao qual foi dado o título de rei.
75. A propósito da Paixão, disse ainda o mesmo profeta: “Tu, porém, rejeitaste e desprezaste, ficaste indignado com teu ungido. Renegaste a aliança com teu servo, até o chão profanaste sua coroa. Fizeste brechas em seus muros todos, e arruinaste sua fortaleza; todos os que passam no caminho o pilharam, tornou-se opróbrio para seus vizinhos. Exaltaste a direita dos seus opressores, alegraste seus inimigos todos; quebraste sua espada contra a rocha, não o sustentaste no combate. Removeste seu cetro de esplendor, e derrubaste seu trono por terra; encurtaste os dias da sua juventude e o cobriste de vergonha”. O profeta afirma abertamente que o Cristo devia sofrer tudo isso e que tal era a vontade do Pai. Pela vontade do Pai, de fato, o Cristo sofreu a Paixão.


A captura de Jesus
76. Zacarias assim se expressou: “Espada, levanta-te contra o meu pastor e contra o homem, meu companheiro. Fere o pastor, e as ovelhas sejam dispersadas!”. E isso aconteceu quando o Cristo foi capturado pelos judeus. Então, todos os discípulos o abandonaram por medo de perecer com ele, porque eles não acreditaram firmemente
nele até que o vissem ressuscitado dos mortos.
77. Também se disse, dentre os doze profetas: “Prisioneiro, o apresentaram como um presente”. Pôncio Pilatos era procurador da Judeia e alimentava então um profundo rancor contra Herodes, rei dos judeus. Precisamente por causa dessa situação, Pilatos mandou o Cristo, a quem o haviam enviado, atado a Herodes com o pedido de que o interrogasse para confirmar o que queria fazer com ele. Desse modo, Cristo se converteu em bom pretexto para Pilatos reconciliar-se com o rei.
78. Em Jeremias, ele anuncia a morte e a descida aos infernos, nestes termos: “O Senhor, o Santo de Israel, se recordou dos seus mortos, que no passado dormiram no pó da terra, desceu a eles para anunciar a Boa-Nova da salvação e libertá-los”. Aqui indica os motivos da sua morte; a descida aos infernos era a salvação dos defuntos.
79. Novamente, a propósito da cruz, disse Isaías: “Todos os dias estendi as mãos a um povo rebelde”. Assim prefigurava a cruz. E ainda mais claramente Davi: “Cercam-me cães numerosos, um bando de malfeitores me envolve, como para retalhar minhas mãos e meus pés”. E novamente: “Meu coração está como cera, derretendo-se dentro de mim”. E ainda: “Salva minha vida da espada, e prega a minha carne, pois uma corja de marginais se levantou contra mim”. Nessas passagens se mostra de modo luminoso a sua crucifixão. Moisés disse a mesma coisa ao povo: “Tua vida penderá à tua frente por um fio; ficarás apavorado noite e dia, e não acreditarás mais na vida”.
80. Continua Davi: “Eles me olham, me observam, repartem entre si as minhas roupas, sobre minha túnica tiram a sorte”. Quando o crucificaram, os soldados dividiram as roupas segundo o seu costume: “Os soldados, quando crucificaram Jesus, tomaram suas roupas e repartiram em quatro partes, uma para cada soldado, e a túnica. Ora, a túnica era sem costura, tecida como uma só peça, de alto a baixo. Disseram entre si: ‘Não rasguemos, mas tiremos a sorte, para ver com quem ficará’”.
81. O profeta Jeremias acrescenta: “E tomaram as trinta moedas de prata, o preço do Precioso, daquele que os filhos de Israel avaliaram, e deram-nas pelo campo do Oleiro, conforme o Senhor me ordenara”. De fato, Judas, um dos discípulos de Jesus, tendo-se comprometido com os judeus, tendo selado com eles um pacto – sabia, de fato, que queriam matá-lo – e porque havia sido repreendido por Ele, aceitou as trinta moedas do país, e lhes entregou o Cristo. Em seguida, com remorso pelo que havia feito, jogou o dinheiro aos pés dos chefes dos judeus e se suicidou. Porém, esses não acharam conveniente devolver o dinheiro ao tesouro, porque era preço de sangue, e com ele compraram o campo que pertencia a um oleiro, para lá enterrar os estrangeiros.
82. Depois de ter sido crucificado, quando pediu de beber, lhe deram vinagre misturado com fel. Também isso foi predito por Davi: “Como alimento, deram-me fel, e na minha sede, serviram-me vinagre”.
83. Eis como Davi falou da ascensão ao céu depois da ressurreição dos mortos: “Os carros de Deus são milhares de miríades; o Senhor veio de Sião para o santuário. Subistes às alturas, para pôr fim à escravidão; tomou e deu dons aos homens”. Davi relaciona “escravidão” à destruição do poder dos anjos rebeldes. Fez conhecer o lugar de onde subiria da terra ao céu, dizendo: “o Senhor vem de Sião para o santuário, subistes às alturas”. De fato, no monte das Oliveiras, de frente a Jerusalém, depois da ressurreição dos mortos, [Jesus] reuniu os discípulos e, depois de tê-los instruído sobre o Reino dos Céus, foi elevado sobre os seus olhos, e eles viram como o acolhiam os céus abertos.
84. Davi repetiu a mesma coisa: “Levantai, ó portas, os vossos frontões, elevai-vos, antigos portais, para que entre o rei da glória”. As “portas eternas” são os céus. Porque o Verbo desceu invisível para as criaturas, não foi reconhecido quando desceu. Porém, como se encarnou, se fez visível quando ascendeu aos céus. Quando os principados dos anjos inferiores o viram, gritaram no firmamento: “Levantai, ó portas, erguei-vos portas eternas, para que entre o rei da glória”. Esses, assombrados, se perguntavam: “Quem é este?”, e os que haviam visto testemunhavam pela segunda vez: “O Senhor poderoso e forte é o rei da glória”.
85. Ressuscitado e elevado ao céu, [o Filho de Deus] aguarda à direita do Pai o momento fixado pelo Pai para julgar todos os seus inimigos que serão a ele sujeitados. Os inimigos são aqueles que foram encontrados em estado de rebelião, anjos, arcanjos, principados, tronos, que desprezaram a verdade. Davi afirmava ainda: “Oráculo de Iahweh ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés”. Davi disse, também, que subiu ao lugar de onde havia descido: “Ele sai de um extremo dos céus, e até o outro extremo vai o ser percurso; nada escapa ao seu calor”.

O testemunho dos apóstolos
86. Se os apóstolos predisseram que o Filho de Deus devia manifestar-se sobre a terra, e
predisseram o lugar, a maneira e a forma da sua manifestação sobre a terra, e se o Senhor fez suas todas essas profecias, a nossa fé nele é bem fundada, e é autêntica a Tradição da pregação, isto é, o testemunho dos apóstolos. Esses, enviados pelo Senhor, pregaram pelo mundo inteiro que o Filho de Deus veio para sofrer a Paixão, ele que a
suportou para destruir a morte e vivificar o corpo, e que, cessando a hostilidade contra Deus, isto é, as iniquidades, teremos obtido a sua paz, cumprindo o que é do seu agrado. Assim foi anunciado pelos profetas, nestes termos: “Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas-novas e anuncia a salvação”. E anunciou que esses mensageiros deviam vir da Judeia e de Jerusalém
para anunciar a nós a Palavra de Deus, que para nós é lei, também. Como disse Isaías: “Com efeito, de Sião sairá a Lei, e de Jerusalém a Palavra de Iahweh”. Davi afirmava que haveriam de pregar por toda a terra: “e por toda a terra sua linha aparece, e até os confins do mundo a sua linguagem”.

O primado do amor
87. Não é com a argumentação prolixa da lei que o gênero humano é salvo, mas com a concisão da fé e da caridade. Disse Isaías: “uma palavra concisa e breve na justiça, porque Deus enviará uma palavra concisa, com eficácia, sobre toda a terra”. Igualmente Paulo disse: “a caridade é a plenitude da lei”. De fato, aquele que ama a Deus cumpre a Lei. Quando ao Senhor foi perguntado: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?”, respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração [...] com toda a tua força”; e o segundo é semelhante a esse: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Desses dois mandamentos, disse, “dependem toda a lei e os profetas”. Assim, com a fé nele cresceu o nosso amor por Deus e pelo próximo para fazer-nos mais piedosos, mais justos e bondosos. Por isso, ele mandou uma “palavra breve sobre a terra”.

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domingo, 11 de novembro de 2018

72 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 64 - 72)


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72
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 64 - 72)


O Reino eterno
64. Davi disse que o Cristo nasceria da sua posteridade: “Por causa de Davi, teu servo, não rejeites a face do teu messias. Iahweh jurou a Davi uma verdade que jamais desmentirá: ‘É um fruto do teu ventre que eu porei em teu trono’”. Mas nenhum filho de Davi reinou “para sempre”, nem o seu reino durou até a eternidade, porque foi destruído; indica, portanto, um rei nascido de Davi, isto é, o Cristo. Todos esses textos relacionados com a sua vinda no corpo, a estirpe e o lugar do nascimento, dizem claramente que os homens não devem procurar o nascimento do Filho de Deus entre os gentios ou em outro lugar, mas em Belém da Judeia, na descendência de Abraão e de Davi.

A entrada em Jerusalém
65. Como fez a sua entrada em Jerusalém, a capital da Palestina, onde era a sua morada e o Templo de Deus, disse Isaías: “Dizei à Filha (cidade) de Sião: Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho, num potro de jumenta”. Entrou em Jerusalém sentado em um jumento, filho de asno, enquanto a multidão estendia os seus mantos para que passasse em cima. “Filha de Sião” é o nome dado a Jerusalém.
66. Os profetas anunciavam, então, que o Filho de Deus nasceria, como e onde nasceria, e quem é o Cristo, o único rei eterno. Tendo ainda predito que, uma vez feito homem, havia de curar os que curou, de ressuscitar os mortos que ressuscitou, que seria odiado, desprezado, torturado, morto mediante a crucifixão, como foi odiado, desprezado e morto.

Os milagres de Jesus
67. Falemos agora das curas. Disse Isaías: “E no entanto, eram nossos sofrimentos que ele levava sobre si, nossas dores que ele carregava”, isto é, “carregará” e “levará”. Às vezes, o Espírito Santo narra nos profetas como acontecimentos passados, mas que acontecerão no futuro. Isso acontece porque, em Deus, o que está estabelecido, determinado e destinado a existir já é considerado como existente, e o Espírito se expressa tendo em conta o tempo em que se realiza a profecia. Nesses termos, recorda os distintos modos de cura: “Naquele dia, os surdos ouvirão o que se lê, e os olhos dos cegos, livres da escuridão e das trevas, tornarão a ver”. E ainda: “Fortalecei as mãos abatidas, revigorai os joelhos cambaleantes. Dizei aos corações conturbados: ‘Sede fortes, não temais. Eis que vosso Deus vem para vingar-vos, trazendo a recompensa divina. Ele vem para vos salvar’. Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos se desobstruirão. Então o coxo saltará como o cervo, e a língua do mudo cantará canções alegres”. Da ressurreição dos mortos disse: “Os teus mortos tornarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão”. Por essas obras, o Filho de Deus seria acreditado.

A Paixão de Cristo
68. Isaías disse que [o Cristo] devia ser desprezado, torturado e, por fim, morto: “Eis que meu Servo prosperará, ele se elevará, será exaltado, será posto nas alturas. Exatamente como multidões ficaram pasmadas à vista dele – pois ele não tinha mais figura humana e sua aparência não era mais a de homem – assim, agora nações numerosas ficarão estupefatas a seu respeito, reis permanecerão silenciosos ao verem coisas que não lhes haviam sido contadas, e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido. Quem acreditou naquilo que ouvimos, e a quem se revelou o braço de Iahweh? Ele cresceu diante dele como renovo, como raiz em terra árida; não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar.
Era desprezado e abandonado pelos homens, homem sujeito à dor, familiarizado com o sofrimento, como pessoa de quem todos escondem o rosto; desprezado, não fazíamos caso nenhum dele. E no entanto, eram nossos sofrimentos que ele levava sobre si, nossas dores que ele carregava. Mas nós o tínhamos como vítima do castigo, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz caiu sobre ele, sim, por suas feridas fomos curados”. Essas expressões anunciam as suas torturas, como disse também Davi: “Eu fui torturado”. Davi jamais foi torturado, mas sim o Cristo, quando foi ordenada a sua crucifixão. Ainda, o Verbo disse através de Isaías: “Ofereci o dorso aos que me feriam e as faces aos que me arrancavam os fios da barba; não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros”. O profeta Jeremias repete a mesma coisa nestes termos: “Que dê sua face a quem o fere e se sacie de opróbrios”. Tudo isso sofreu o Cristo.
69. Isaías vai mais além: “Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz caiu sobre ele, sim, por suas feridas fomos curados. Todos nós como ovelhas andávamos errantes, seguindo cada um o seu próprio caminho, mas Iahweh fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós”. É claro que, pela vontade do Pai, lhe ocorreram tais coisas
em vista da nossa salvação. Então prossegue: “Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como cordeiro conduzido ao matadouro; como ovelha que permanece muda na presença dos tosquiadores ele não abriu a boca”. Desse modo, declara aceitar livremente a morte. Mas quando o profeta diz que “na humilhação o seu juízo foi eliminado”, fala de seu humilde aspecto externo: segundo o seu aspecto sem honra foi pronunciada a sentença; e, proferida a sentença, conduz alguns à salvação, outros às penas da perdição. Existe, de fato, o que é tomado por uma pessoa, e o que é tomado para uma pessoa. Assim é a sentença: por alguns é sofrida, e esses a tomam sobre si mesmos como própria condenação; para outros, foi eliminada e se salvam. Sofreram sobre si mesmos a sentença aqueles que o crucificaram e, tendo-se comportado assim, não creem nele, pois pela sentença que sofreram serão condenados à perdição com os tormentos; a sentença foi eliminada para aqueles que creem nele e não são mais sujeitos; a sentença, que virá com o fogo, será o extermínio dos incrédulos no fim deste mundo.

O indescritível início
70. Em seguida disse: “Quem narrará o seu nascimento?” Isso foi dito para nos alertar, a fim de que não o desprezássemos como um homem insignificante e de pouco valor por causa dos adversários e das dores de sua paixão. Aquele que sofreu tudo isso possui uma origem inefável. De fato, por “nascimento” se entende a sua origem, ou seja, o seu Pai inefável e indescritível. Reconhece, pois, que essa é a origem daquele que suportou essa paixão, e não o desprezes pela paixão que intencionalmente sofreu por ti. Mas teme-o por sua origem.
A vida à sombra de seu corpo
71. Disse Jeremias, em outra passagem: “O sopro de nossas narinas, o ungido de Iahweh, foi preso nas suas fossas; dele dizíamos: ‘À sua sombra viveremos entre as nações’”. A Escritura diz que Cristo, embora sendo Espírito divino, devia fazer-se homem, submetido ao sofrimento, e revela, de certo modo, surpresa e temor diante da paixão que devia sofrer. Ele, “por cuja sombra foi dito que viveríamos”. “Sombra” significa o seu corpo, porque, como a sombra é criada por um corpo, assim o corpo de Cristo foi criado pelo seu Espírito. Mas a palavra “sombra” significa também a humilhação do seu corpo e a facilidade de ser humilhado. De fato, como a sombra dos corpos erguidos se projeta no solo e é pisada pelos pés, assim o corpo de Cristo, jogado por terra na Paixão, foi, por assim dizer, pisado pelos pés. Chama “sombra” o corpo de Cristo porque se tornou sombra da glória do Espírito que velava. Frequentemente, quando o Senhor passava ao longo do caminho, eram colocadas pessoas com diversas doenças, e aqueles que alcançavam a sua sombra eram curados.

A morte do justo
72. O mesmo profeta se exprimiu sobre a paixão de Cristo do seguinte modo: “O justo perece e ninguém se incomoda; os homens piedosos são ceifados, sem que ninguém tome conhecimento. Sim, o justo foi ceifado, vítima da maldade, mas ele alcançará a paz”. Qual outro é “justo” além do Filho de Deus, que torna perfeitamente justos aqueles que nele creem, e que, como ele, são perseguidos e mortos? Quando diz: “a sua sepultura será paz”, narra como foi morto para a nossa salvação, que está na paz da salvação, e que, com a sua morte, “aqueles que eram seus adversários e inimigos”, crendo concordemente nele, estarão em paz entre eles, dando e recebendo sinais de amizade por sua fé comum nele. Uma vez morto e ressuscitado, devia permanecer imortal, como disse o profeta: “Ele te pediu a vida, e tu lhe concedeste dias sem fim para
sempre”. Por que diz “te pediu a vida” se devia morrer? Era para proclamar a sua ressurreição dos mortos e, ressuscitado dos mortos, ser imortal; então, recebeu a “vida” para ressurgir, e “longos dias para sempre, sem fim” para ser incorruptível.

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domingo, 4 de novembro de 2018

71 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 56 - 63)


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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 56 - 63)


A soberania sem limites
56. Diz ainda Isaías: “[...] serão queimadas, serão devoradas pelo fogo. Porque um
menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre seus ombros e lhe foi dado este nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe-da-paz, para que se multiplique o poder, assegurando o estabelecimento de uma paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, firmando-o, consolidando-o sobre o direito e sobre a justiça. Desde agora e para sempre”. Com esses termos é anunciado o nascimento do Filho de Deus e a eternidade de seu reino. Mas as palavras “vão para a fogueira” se referem àqueles que não creem nele e que lhe fizeram o que lhe fizeram.
No juízo repetirão: “Oxalá tivéssemos sido queimados antes do nascimento do Filho de Deus, do que não crer nele depois que nasceu!”. Com efeito, aqueles que estão mortos antes da manifestação do Cristo têm esperança de obter a salvação no juízo do Ressuscitado. Dessa categoria fazem parte aqueles que temem a Deus e morreram na justiça e possuem o Espírito de Deus, como os patriarcas e os justos. Mas para aqueles que depois do Cristo não acreditaram nele, será inexorável a vingança no juízo. O dito “ele recebeu o poder sobre seus ombros” alude alegoricamente à cruz, à qual teve os braços pregados, quando foi crucificado. A cruz, que era e é uma infâmia, é sinal de sua soberania. Chama-o “Anjo do grande conselho” do Pai, que ele revelou.

A estirpe de Israel
57. Por tudo o que foi dito e exposto com a ajuda dos profetas, está claro que o Filho devia nascer, de que maneira nascer, e que se daria a conhecer como Cristo. Foi, inclusive, predito em que país e entre que homens devia nascer e dar-se a conhecer. Assim o deu a entender Moisés no Gênesis: “O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão do chefe de entre seus pés, até que o tributo lhe seja trazido e que lhe obedeçam os povos [...], lava sua roupa no vinho, seu manto no sangue das uvas”. Porém, Judá, filho de Jacó, é o antepassado dos judeus, de quem esses tomaram o nome. Até a
vinda de Cristo não lhes faltou, nem príncipe, nem chefe. Porém, depois de sua vinda, lhe foram tiradas as flechas da aljava, o país dos judeus foi submetido pelos romanos, e não voltou a ter um príncipe ou um rei próprio. Era, de fato, chegado aquele ao qual era reservada uma soberania nos céus, que “lava no vinho a veste e no sangue da uva o manto”. A “veste”, como também o “manto” são aqueles que nele creem, que ele purificou quando nos salvou com o seu sangue. O seu sangue foi chamado “sangue de uva”, porque, como não foi feito pelo homem o sangue da uva, mas é Deus que alegra os que o bebem, assim o seu ser corpo e sangue não é obra do homem, mas de Deus. O Senhor mesmo deu o sinal da Virgem, ou seja, o Emanuel, nascido da Virgem, e alegra os ânimos daqueles que o bebem, ou seja, daqueles que recebem o seu Espírito, alegria eterna. Por isso, ele é também o “esperado das nações”, das nações que esperam nele. Também nós esperamos dele a restauração do Reino.

A estrela de Jacó
58. Quando Moisés escreve: “Um astro procedente de Jacó se torna chefe, um cetro se levanta, procedente de Israel”, anuncia explicitamente que a economia da sua encarnação se realizará entre os hebreus, e que aquele que, descendo dos céus, nascerá de Jacó e da estirpe judaica se submeteu a essa economia. Porque uma estrela apareceu no céu, e, se chama chefe a um rei, é porque apareceu no seu nascimento aos Magos, que habitam no Oriente, e por seu intermédio tiveram conhecimento do nascimento de Cristo. Guiados pela estrela, vieram à Judeia, até que a estrela chegou a Belém, onde Cristo nasceu, e, entrando na casa onde estava deitado o menino envolto em faixas, se deteve em cima de sua cabeça, indicando aos Magos o Filho de Deus, o Cristo.
59. O mesmo Isaías disse ainda: “Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o espírito de Iahweh, espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Iahweh: no temor de Iahweh estará a sua inspiração. Ele não julgará segundo a aparência. Ele não dará sentença apenas por ouvir dizer. Antes, julgará os fracos com justiça, com equidade pronunciará sentença em favor dos pobres da terra. Ele ferirá a terra com o bastão da sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio. A justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade, o cinto dos seus rins. Então o lobo morará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito. O bezerro, o leãozinho e o gordo novilho andarão juntos e um menino pequeno os guiará. A vaca e o urso pastarão juntos, juntas se deitarão as suas crias. O leão se alimentará de forragem como o boi. A criança de peito poderá brincar junto à cova da áspide, a criança pequena porá a mão na cova da víbora. [...] Naquele dia, a raiz de Jessé, que se ergue como um sinal para os povos, será procurada pelas nações, e a sua morada se cobrirá de glória”. Com essas palavras, quis dizer que nascerá daquela que descende de Davi e de Abraão. Com efeito, Jessé
descendia de Abraão e era pai de Davi. Desse modo, a Virgem, que concebeu a Cristo, era o broto. Por isso, Moisés fazia seus prodígios diante do faraó, servindo-se de um bastão. Entre os homens, o bastão é sinal de poder. Chama flor o seu corpo, que floresceu sob a ação do Espírito, como antes indicamos.

Justo Juiz
60. Dizendo: “Ele não julgará segundo a aparência. Ele não dará sentença apenas por ouvir dizer. Antes, julgará os fracos com justiça, com equidade pronunciará sentença em favor dos pobres da terra”, dá a entender com maior firmeza a sua divindade. Pois julgará imparcialmente e sem acepção de pessoas, sem louvar o ilustre e outorgando ao pobre o que merece com igualdade e imparcialidade, o que corresponde à suprema e celeste justiça de Deus. Deus, de fato, não se deixa influenciar por nada, e só se compadece pelo justo. Ter misericórdia é próprio e peculiar daquele Deus, aquele que com a misericórdia pode salvar. E: “Ele ferirá a terra com o bastão da sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio” é próprio de Deus, que tudo realizou através do Verbo. Contudo, dizendo: “A justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade, o cinto dos seus rins”,[160] anuncia a sua forma externa humana e a sua verdadeira e suprema justiça.

Pacificação universal
61. Quanto ao entendimento, à concórdia e à tranquilidade entre os animais das diversas espécies, ou por natureza opostos e hostis uns aos outros, os presbíteros dizem que será verdadeiramente assim à vinda de Cristo, quando reinará sobre todo o universo. Daqui simbolicamente se anuncia que homens de diferentes estirpes, mas de similares costumes, serão recolhidos juntos, pacificamente, em virtude do nome de Cristo. De fato, os justos reunidos, comparados a novilhos, a cordeiros e a cabritos, e as crianças não sofrerão quaisquer danos por parte daqueles que, homens e mulheres, em uma época anterior, foram modelados por cupidez com relação ao comportamento dos animais selvagens, a ponto de que alguns se assemelhavam a lobos ou a leões, ao rapinar os fracos e ao lutar com os seus pares; as mulheres, semelhantes a leopardos ou víboras, recorrendo a venenos mortais, chegavam a matar os seus amantes, ou sob a ação da paixão. Reunidos em um só nome, alçados pela graça de Deus, hão de adquirir os costumes dos justos, mudando a sua natureza selvagem e feroz. Isso aconteceu, pois aqueles que antes eram cruéis a tal ponto de não recuarem de algum ato ímpio, quando conheceram a Cristo, e acreditando nele, mal acreditaram e se mudaram, para que não se prendessem diante de um supremo ato de justiça. Assim radicais são as mudanças que a fé em Cristo, Filho de Deus, opera naqueles que nele creem. Ele disse: “foi levado para exercitar o poder às nações”, porque, uma vez morto, deve ressuscitar, ser proclamado e acreditado como Filho de Deus e rei; por isso diz: “o seu erguer-se será uma honra”, isto é, uma glória, porque o momento no qual foi glorificado como Deus foi o momento de sua ressurreição.

A tenda de Davi, símbolo do Corpo de Cristo
62. Por isso, o profeta, quando disse: “Naquele dia, a raiz de Jessé, que se ergue como um sinal para os povos”, afirma claramente que o Corpo de Cristo, nascido de Davi, como dissemos antes, depois da morte, ressuscitou dos mortos. Chama “tenda” o seu corpo. E, com efeito, por essas palavras disse também que Cristo – o qual, segundo a carne, descende de Davi – será Filho de Deus, e depois de sua morte ressuscitará, e será
homem por aspecto externo, porém Deus pelo poder; será juiz do universo e o único justo e Redentor. Tudo isso se encontra na Escritura.

A profecia de Belém
63. Por sua vez, o profeta Miqueias indica o lugar do nascimento de Cristo, isto é, Belém da Judeia: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és o menor entre os clãs de Judá, pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo”. Belém é também a pátria de Davi. Assim, pertence à posteridade, não apenas pela Virgem que o deu à luz, mas também por ter nascido em Belém, pátria de Davi.


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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

70 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 47 - 55)


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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 47 - 55)


Trindade e criação
47. O Pai, então, é Senhor, e o Filho é Senhor, Deus o Pai e Deus o Filho, porque aquele que é nascido de Deus é Deus. Assim, segundo a essência do seu ser e de seu poder, aparece um só Deus; mas, contemporaneamente, na administração da economia da nossa redenção, Deus aparece como Pai e como Filho. E como o Pai do universo é invisível e inacessível aos seres criados, é através do Filho que os destinados a aproximarem-se de Deus devem conseguir o acesso ao Pai. Davi, com clareza e evidência, assim se exprimiu a propósito do Pai e do Filho: “Teu trono é de Deus, para sempre e eternamente! O cetro do teu reino é cetro de retidão! Amas a justiça e odeias a impiedade. Eis por que Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo da alegria, como a nenhum dos teus companheiros”. Isso significa que o Filho, enquanto Deus, recebe do Pai, isto é, de Deus, o trono de um reino eterno e o óleo da unção, mais que os seus companheiros. O óleo é a unção do Espírito Santo com a qual é ungido, e os seus “iguais” são os profetas, os justos, os apóstolos, e todos os que participam do Reino.

O primado e a realeza de Cristo
48. Davi disse, por sua vez: “Oráculo de Iahweh ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés’. De Sião Iahweh estende teu cetro poderoso para dominares teus inimigos. A ti o principado no dia do teu nascimento, as honras sagradas desde o seio, desde a aurora da tua juventude; Iahweh jurou e jamais desmentirá: ‘Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec’. O Senhor está à tua direita, ele esmaga os reis no dia da sua ira. Ele julga as nações, amontoa cadáveres, esmaga cabeças pela imensidão da terra. A caminho ele bebe da torrente, e por isso levanta a cabeça”. Assim, com essas palavras, declarou que primeiro veio à existência, que dominava as nações, que julga todos os homens e os reis que o odeiam agora e perseguem o seu nome, e que são os seus inimigos. Chamando-o “sacerdote para sempre” de Deus, declara a sua imortalidade. Tendo dito: “A caminho ele bebe da torrente, por isso levanta a cabeça”, se referia à exaltação gloriosa, depois da sua condição humana, da humilhação e da abjeção.
49. Por sua vez, o profeta Isaías afirma: “Assim diz Iahweh ao seu ungido, a Ciro que tomei pela destra, a fim de subjugar a ele nações”. Quanto ao fato de que o Filho de Deus é chamado “Ungido” e rei das nações, isto é, de todos os homens, Davi repete que Ele é, e é chamado Filho de Deus e rei de todos, nestes termos: “Ele me disse: ‘Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei. Pede, e eu te darei as nações como herança, os confins da terra como propriedade’”. Essas palavras não foram pronunciadas referindo-se a Davi, porque não governou todas as nações, nem toda a terra, mas somente os judeus. É, portanto, evidente que a promessa feita ao Ungido de reinar sobre toda a terra se refere ao Filho de Deus, que o próprio Davi reconhece seu Senhor: “Disse o Senhor ao meu Senhor: ‘senta-te à minha direita...’”, como já nos referimos. Com efeito, isso significa que o Pai conversava com o Filho, como acima demonstramos a propósito de Isaías, que dizia: “Assim fala o Senhor ao Ungido, meu Senhor: ‘As nações lhe obedeçam’”. Idêntica promessa aparece em ambos os profetas: “Ele será rei”. Consequentemente, a uma só e mesma Pessoa são dirigidas as palavras de Deus, ou seja, a Cristo, o Filho de Deus. Do momento em que Davi disse: “O Senhor me disse”, é necessário afirmar que nem Davi, nem outro profeta falam por iniciativa própria, pois não é um homem que profere as profecias, mas o Espírito de Deus, o qual, tomando figura e forma semelhante às pessoas interessadas, falava através dos profetas e discorria ora em nome do Filho, ora em nome do Pai.

A preexistência de Cristo
50. A propósito, Cristo afirma, por meio de Davi, que o Pai se dirige a ele, e por meio dos profetas disse o mesmo, como, por exemplo, em Isaías, que escreveu: “Mas agora disse Iahweh, aquele que me modelou desde o ventre materno para ser seu servo, para reconduzir Jacó a ele, para que a ele se reúna Israel; assim serei glorificado aos olhos de Iahweh, meu Deus será minha força! Sim, ele disse: ‘Pouca coisa é que sejas o meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os sobreviventes de Israel. Também te estabeleci como luz das nações, a fim de que a minha salvação chegue até as extremidades da terra”.

51. Antes de tudo, do colóquio do Pai com o Filho resulta a preexistência do Filho de Deus, e o fato de que, ainda antes do nascimento, o Pai o fez visível aos homens; depois, antes de nascer, que seria tornado homem nascido de homens, que Deus mesmo o teria plasmado no seio, isto é, que seria nascido pelo Espírito de Deus, que é Senhor de todos os homens e Salvador daqueles que nele creem, dos judeus e dos outros. “Israel”, de fato, é o nome do povo judeu em língua hebraica, nome que vem do patriarca Jacó, que antes fora chamado “Israel”. Chama “gentios” a todos os outros homens. O Filho chama a si próprio servo do Pai por causa da sua obediência ao Pai, pois todo filho, também entre os homens, é servo de seu pai.
52. Que o Cristo, Filho de Deus existente antes do mundo, seja com o Pai e junto do Pai e, contemporaneamente, seja vizinho aos homens e em íntima comunhão com eles, rei do universo, pois o Pai lhe submeteu tudo, e o fez Salvador daqueles que nele creem, é a mensagem de semelhantes textos da Escritura. Porque não é nossa intenção, e não está nas nossas possibilidades, pôr em concordância todos os textos bíblicos, mas, com o auxílio daqueles citados, poderá compreender também os demais que falam da mesma maneira, a fim de que creia em Cristo e peça a Deus a sabedoria e a inteligência para compreender o que foi dito pelos profetas.

O sinal profético de Acaz
53. Que esse Cristo, que estava junto do Pai, sendo o Verbo do Pai, deveria encarnar-se, tornar-se homem, submeter-se à geração e ao nascimento de uma Virgem e viver entre os homens, intervindo também o Pai do universo para realizar a sua encarnação, é o que expressa Isaías: “Pois sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis que a jovem está grávida e dará à luz um filho e dar-lhe-á o nome de Emanuel. Ele se alimentará de coalhada e de mel, até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem. Com efeito, antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, por cujos dois reis tu te apavoras, ficará reduzida a ermo”. Indicou que nasceria de uma virgem. Significou que seria verdadeiro homem pelo fato de comer, por ser chamado “criança” e por receber um nome. Tudo isso se refere ao recém-nascido. Em língua hebraica, possui um duplo nome: Messias-Cristo e Jesus Cristo. Esses dois nomes indicam as obras que haveria de realizar. Com efeito, recebeu o nome de Cristo (Ungido) porque o Pai, por seu intermédio e em vista de sua vinda como homem, ungiu e ordenou cada coisa, porque foi ungido pelo Espírito de Deus, seu Pai, como disse, falando de si próprio, em Isaías: “O Espírito do Senhor Iahweh está sobre mim, porque Iahweh me ungiu. Enviou-me a anunciar a Boa-Nova aos pobres”.[143] E o nome de “Salvador”, porque é a causa de salvação para todos os que, desde então, foram libertados por ele de toda enfermidade e da morte; e para os que haveriam de crer depois deles, é também o doador da salvação eterna.

O Emanuel
54. Eis por que é chamado “Salvador”. “Emanuel” se traduz por “Deus-conosco”, ou como expressão de bom desejo formulado pelo profeta “Deus esteja conosco”. Desse modo, Ele é a interpretação e a revelação da “Boa-Nova”. Por isso disse: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho”. É ele que, sendo Deus, tem o destino de estar conosco. É, ao mesmo tempo, maravilhado por tal acontecimento; [Isaías] anunciou o que acontecerá, ou seja, que “Deus estará conosco”. E também, com relação a seu nascimento, o mesmo profeta diz em outra passagem: “Antes de sentir as dores do parto, ela deu à luz; antes de lhe sobrevirem as contrações, ela pôs no mundo um menino”, proclamando assim o caráter inesperado e paradoxal do nascimento da Virgem. O mesmo profeta repetiu: “Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe da paz”.

O conselheiro admirável
55. [Isaías] o chama “conselheiro admirável”, também ao Pai, indicando assim que o Pai criou com ele todas as coisas, como se diz no primeiro livro de Moisés, intitulado “Gênesis”: “Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança”. Aqui visivelmente fala o Pai ao Filho, como seu conselheiro admirável. Ele é também nosso conselheiro; fala e não nos obriga, como Deus, embora seja também “Deus forte”. Ele nos ajuda a abandonar a ignorância e adquirir o conhecimento, a nos afastar do erro para caminhar até a verdade, a rechaçar a corrupção para obter a incorruptibilidade.

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terça-feira, 23 de outubro de 2018

69 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 39-46)


69
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 39-46)

Cristo, Primogênito de toda a criação
39. Assim, se não é nascido, também não é morto; e se não é morto, não é ressuscitado dos mortos;[99] e se não é ressuscitado dos mortos, não triunfou sobre a morte, nem destruiu o seu reino; e se a morte não foi vencida, como subiremos até a vida, nós que desde o início fomos caídos sob o império da morte? Quem nega a redenção do homem e não crê que Deus o ressuscitará dos mortos despreza também o nascimento de Nosso Senhor, pelo qual o Verbo de Deus se sujeitou por nós, para se tornar homem a fim de manifestar a ressurreição da carne e obter o primado sobre tudo nos céus: como primogênito do pensamento do Pai, o Verbo perfeito dirige pessoalmente cada coisa e legisla na terra; como primogênito da Virgem, homem justo e santo, servo de Deus, bom, aceito por Deus, perfeito em tudo, livra dos infernos todos os que o seguem; como “primogênito dos mortos”, é origem e sinal da vida de Deus.

De Moisés aos apóstolos
40. Assim, pois, o Verbo de Deus ostenta o primado sobre todas as coisas, porque é o verdadeiro homem e “Conselheiro-Maravilhoso, Deus-forte”, que chama novamente, com a ressurreição, o homem à comunhão com Deus, para que, por meio da comunhão, com ele participemos da incorruptibilidade. Ele, que foi anunciado por Moisés e pelos profetas do Deus altíssimo e onipotente, Pai do universo, origem de tudo, que conversou com Moisés, veio à Judeia, gerado por Maria, que era da estirpe de Davi e de Abraão, Jesus, o Ungido de Deus, que revelou a si mesmo como o que foi predito pelos profetas.
41. João Batista, o precursor, quando preparava e dispunha o povo para receber o Verbo da vida, fez saber que esse era o Cristo sobre quem o Espírito de Deus havia deitado e unido à sua carne. Os discípulos e testemunhas de suas boas obras, de seu ensinamento, de sua paixão, de sua morte, de sua ressurreição, da ascensão ao céu depois da ressurreição corporal, ou seja, os apóstolos, com o poder do Espírito Santo enviados por ele por toda a terra, convocaram os gentios, ensinando aos homens o caminho da vida, para afastá-los dos ídolos, da fornicação e da avareza, purificando as suas almas e seus corpos com o batismo na água e no Espírito Santo, distribuindo e subministrando aos crentes esse Espírito Santo que haviam recebido do Senhor. Assim, instituíram e fundaram a Igreja. Com a fé, a caridade e a esperança, [os apóstolos] confirmaram o chamado aos gentios que, preanunciado pelos profetas, lhes foi dirigido segundo a misericórdia de Deus manifestada com o seu ministério, acolhendo-os na promessa feita aos patriarcas, ou seja, àqueles que creram e amaram a Deus; e aos que vivem na santidade, na justiça e na paciência, o Deus de todos outorgará, por meio da ressurreição dos mortos, a vida eterna. Graças àquele que morreu e ressuscitou, Jesus Cristo, a quem confiou a realeza sobre todos os seres da terra, a autoridade sobre os vivos e os mortos, e o juízo. Os apóstolos, com a palavra da verdade, exortaram os gentios a guardar o seu corpo sem mancha para a ressurreição, e a alma ao abrigo da corrupção.

II – A Demonstração Profética (cc. 42-97)

A obra do Espírito Santo
42. Com efeito, assim devem comportar-se os crentes, pelo fato de que neles habita permanentemente o Espírito Santo, doado pelo Senhor no batismo e custodiado por aquele que [o] recebe, se é que vive na verdade e na santidade, na justiça e na paciência. De fato, a ressurreição dos crentes é também obra do Espírito quando o corpo acolhe novamente a alma, e com ela ressuscita pela força do Espírito Santo e é introduzido no Reino de Deus. O fruto da bênção de Jafé se manifestou na Igreja no chamado aos gentios que vivem em contínua obediência para poder habitar na casa de Sem, segundo a promessa de Deus. Que essas coisas deveriam ocorrer, o Espírito Santo predisse pelos profetas, a fim de que aqueles que servem a Deus na verdade tenham fé firme sobre elas. Na verdade, todos esses fatos impossíveis à natureza humana e, portanto, pouco credíveis aos homens, Deus, por meio dos profetas, os predisse muito tempo antes – e se realizaram a seu tempo, como se anunciou – para que, pelo fato de terem sido profetizados muito tempo antes, conhecêssemos que era Deus que, desde o princípio, havia preanunciado a nossa salvação.

A identidade entre o Verbo e o Filho de Deus
43. Deve-se crer em tudo de Deus, porque é veraz em tudo. Ora, que existe um Filho em Deus e que esse Filho existia não apenas antes de sua aparição no mundo, mas também antes da criação do mundo, Moisés foi o primeiro a profetizar, quando escreveu em hebraico: “Beresith bara elovim basan benowam samenthares”, que se traduz: “Um filho, no princípio, Deus estabeleceu; em seguida, Deus criou o céu e a terra”. O profeta Jeremias o testemunhou quando disse: “Antes da estrela da manhã eu te gerei e antes do sol é o teu nome”, isto é, antes da criação do mundo e antes das estrelas criadas com o mundo. Diz ainda: “Bem-aventurado aquele que era antes de se tornar homem”. Por Deus, de fato, o Filho existe desde o início, antes da criação do mundo; porém, para nós não existe mais que desde agora, ou seja, desde quando se manifestou. Antes, então, não existia para nós porque não o conhecíamos. Por isso, o seu discípulo João, explicando quem é o Filho de Deus que era junto do Pai antes que o mundo fosse formado, e que por obra dele foram criadas todas as coisas, disse: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. No princípio, ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito”. Demonstra, assim, de modo claro, que todas as coisas foram criadas por meio do Verbo, o qual, desde o início, era com o Pai, isto é, seu Filho.

Colóquio do Filho com Abraão
44. Disse ainda Moisés que o Filho de Deus se aproximou de Abraão para entreter-se com ele: “Iahweh lhe apareceu no carvalho de Mambré [...] no maior calor do dia. Tendo levantado os olhos, eis que viu três homens de pé, perto dele; logo que os viu, correu da entrada da tenda ao seu encontro, e se prostrou por terra. E disse: Meu Senhor, eu te peço, se encontrei graça aos teus olhos...”. Em seguida, ele falava com o Senhor, e o Senhor com ele. Ora, dois dos três eram anjos; o terceiro, ao invés, o Filho de Deus. Com Ele, Abraão falou ainda suplicando pelos habitantes de Sodoma, para que não fossem exterminados se fossem encontrados ao menos dez justos. Enquanto conversavam, os dois anjos que desceram a Sodoma foram recebidos por Ló. A Escritura diz então: “Iahweh fez chover, sobre Sodoma e Gomorra, enxofre e fogo vindos de Iahweh”. Isso quer dizer que o Filho, o mesmo que conversava com Abraão, sendo “Senhor”, recebeu o poder de punir os habitantes de Sodoma “pelo Senhor, do alto do céu”, pelo Pai, que é o Senhor do universo. Abraão, então, era profeta e viu o que aconteceria no futuro; isto é, viu o Filho de Deus sob a aparência humana conversar com os homens, comer com eles, e depois exercer o ofício de julgar pelo fato de ter recebido do Pai, Senhor do Universo, a autoridade de punir os habitantes de Sodoma.



Aparição a Jacó
45. Jacó, durante a viagem à Mesopotâmia, viu o Verbo em sonho, de pé, em cima da escada, ou seja, no lenho fixado do céu à terra. Por isso, o lenho dos que creem nele sobe ao céu, porque a sua paixão é a nossa ascensão. Todas as visões desse tipo apontam o Filho de Deus que conversa com os homens e entre eles. Não é o Pai do universo, invisível ao mundo e criador de tudo que diz: “O céu é o meu trono, a terra o escabelo dos meus pés. Que casa me haveis de fazer, que lugar para meu repouso?” e “Quem pode medir as águas do mar na concha da mão? Quem conseguiu avaliar a extensão dos céus a palmos, medir o pó da terra com o alqueire e pesar os montes na balança e os outeiros nos seus pratos?” Não é certo que Ele (o Pai) estava de pé sobre um pequeno espaço e conversava com Abraão, mas o Verbo de Deus que sempre esteve presente no gênero humano, antecipava o conhecimento das coisas futuras e instruía os homens sobre as coisas de Deus.

O Filho de Deus conversa com Moisés
46. Foi Ele (o Verbo) que, na sarça ardente, conversou com Moisés e disse: “Eu vi, eu vi a miséria de meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci, a fim de libertá-lo da mão dos egípcios”. Ele subia e descia para libertar os oprimidos, arrancando-os do poder dos egípcios, ou seja, de toda sorte de idolatria e impiedade; salvando-os do mar Vermelho, isto é, liberando-os das turbulências homicidas dos gentios, e das águas amargas de suas blasfêmias. Esses acontecimentos eram contínua repetição do que a nós se refere, no sentido de que o Verbo de Deus mostrava antecipadamente as coisas futuras, mas liberando realmente da servidão cruel dos gentios. No deserto fez brotar com abundância um rio de água, uma rocha. Essa rocha é ele mesmo. Produziu doze fontes, ou seja, a doutrina dos doze apóstolos. E aos recalcitrantes e incrédulos, os fez morrer e desaparecer no deserto, e aos que creram nele, feitos crianças pela maldição, os introduziu na herança dos pais que recebeu e distribuiu, não a Moisés, mas a Jesus; os liberou de Amalec estendendo as suas mãos, e nos conduz e nos faz subir ao Reino do Pai.

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