terça-feira, 29 de outubro de 2019

116 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 28)


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116
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 28)


HOMILIA 28 - Lc 3.23-28; Mt 1.1-17.
Sobre a genealogia do Salvador e as divergências entre Mateus e Lucas a respeito dos ancestrais de Cristo.

As genealogias do Cristo
Muito mais superior a Melquisedec, cuja genealogia a Escritura não registrou, foi Nosso Senhor e Salvador, nascido de uma linhagem de ancestrais que a Escritura nos reporta.
Ora, como a sua divindade não está submetida a um nascimento humano, é por causa de ti, que nasceste na carne, que ele quis nascer.
Todavia, a sua genealogia não é narrada de modo igual pelos evangelistas, situação que a muitos intensamente conturbou.
Mateus, com efeito, começando a compor a série de sua ancestralidade a partir de Abraão até chegar àquele versículo em que diz: “O nascimento de Jesus, porém, aconteceu deste modo”, descreve não aquele que foi batizado, mas aquele que veio ao mundo.
Mas Lucas, expondo a sua genealogia, não faz descer dos mais antigos para os mais novos, mas, como havia dito antes o que foi batizado, chega até o próprio Deus.
Além disso, não há os mesmos personagens na genealogia do Cristo, seja quando se descende seja quando se ascende.
Mateus, que o mostra descendendo dos seres celestiais, introduz também mulheres; não quaisquer mulheres, mas pecadoras, que a Escritura havia repreendido;
Lucas, que fala do Cristo depois de seu batismo, não faz menção a nenhuma mulher.
Em Mateus, portanto, como dissemos, é nomeada Tamar, que, por astúcia, tornou-se concubina de seu sogro; e Rute, a moabita, que não era da raça de Israel; Raab, que não sei de onde tenha sido tirada; e a esposa de Urias, que violou o leito conjugal.
Porque, com efeito, Nosso Senhor e Salvador tinha vindo para isto, tomar sobre si os pecados dos homens – e Deus “tornou pecado para nós aquele que não havia cometido pecado” –; descendo para o mundo, assumiu o papel dos homens pecadores e viciosos, e quis nascer da estirpe de Salomão, cujos pecados foram reportados pela Escritura, e de Roboão, cujos delitos são relatados, e de outros, dentre os quais “muitos praticaram o mal aos olhos do Senhor”.
Mas quando sobe do banho batismal e, em seguida, é descrita sua origem, ele nasce não da linhagem de Salomão, mas da de Natã, que reprovou a seu pai a morte de Urias e o nascimento de Salomão.
Mas em Mateus está sempre presente o verbo “gerar”; já em Lucas é totalmente silenciado.
Em Mateus, com efeito, está escrito: “Abraão gerou Isaque; Isaque gerou Jacó; Jacó gerou Judá e seus irmãos, Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara”; e até o final sempre a palavra “gerou” é colocada.
Mas em Lucas, Jesus, que se eleva do banho batismal, é dito “considerado o filho de José”; e, numa sequência tão longa de nomes, em nenhuma parte, a palavra “geração” é empregada, salvo [que é subentendida] nesta frase: “considerado filho de José”.
Em Mateus não está escrito: “Ele iniciava”; mas em Lucas, porque ele havia de subir a partir do batismo, lê-se “ele começava”, segundo o relato da Escritura: “O próprio Jesus estava no início [de seu ministério]”.
Porque, com efeito, recebeu o batismo e assumiu o mistério do segundo nascimento – para que tu destruas também teu nascimento anterior e nasças de novo numa segunda geração – pode-se,
então, dizer que “Ele iniciava”.
E como o povo judeu, quando estava no Egito, não tinha o hábito de considerar um mês como o primeiro do ano; mas, assim que saiu do Egito, então foi dito a ele: “Este mês será como início da sequência dos meses e será para vós o
primeiro dos meses do ano”.
Assim [também aconteceu] com o Cristo, de quem não é narrado “que ele tenha iniciado” enquanto não tinha sido batizado.
Não é sem razão, acreditemos, que às palavras: “O próprio Jesus estava” é acrescentado “no início”.

José, prefiguração do Cristo
Examinemos agora esta frase: “Com cerca de trinta anos”, “José tinha trinta anos”, quando foi libertado da prisão e, tendo interpretado o sonho do Faraó do Egito – foi nomeado intendente do Egito – armazenou trigo no tempo da abundância, para que tivesse o que distribuir no tempo da fome.
Eu penso que os trinta anos de José tenham
precedido em figura os trinta anos do Salvador.
Pois, o segundo José, que é Jesus, não armazenou o mesmo trigo, tal qual no Egito aquele José, mas o frumento verdadeiro e celestial, para que tivesse, como o trigo armazenado no tempo da abundância, o que distribuir, quando a fome fosse enviada para o Egito, “não a fome de pão nem a sede de água, mas a fome de ouvir a palavra de Deus”.
E assim Jesus recolhe na Lei, nos escritos dos Profetas e nos dos Apóstolos as palavras do tempo da abundância, para que – quando já não se escreverem mais livros, nem se concluir mais alguma nova aliança, nem forem enviados mais apóstolos – se possa distribuir então aquelas palavras que foram levadas por Jesus para os depósitos dos apóstolos, isto é, para as suas almas e as de todos os santos, e assim possa nutrir o Egito ameaçado de fome e, sobretudo, seus irmãos, dos quais está escrito: “Eu narrarei teu nome a meus irmãos; no meio da assembleia, eu te cantarei”.
Outros homens também têm palavras de paciência, e palavras de justiça e palavras das demais virtudes; é esse trigo que José distribuiu aos egípcios.
Mas é outro o frumento que Jesus dá aos irmãos, isto é, a seus discípulos, vindos da terra de Gessen, daquela terra que volta seu olhar para o oriente: é o frumento evangélico, o frumento apostólico.
Desse frumento devemos fazer pães, porém, evitando que não sejam misturados ao “velho fermento” e que tenhamos o pão novo do trigo e da farinha das Escrituras, moído em Cristo Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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domingo, 13 de outubro de 2019

115 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 27)


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115
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 27)



HOMILIA 27 - Lc 3.18-22
Sobre o que está escrito: “E muitas outras exortações ele anunciava”, até aquela passagem que diz: “O Espírito Santo desceu sobre ele”.

O Evangelho anunciado por João
Quem ensina a linguagem do Evangelho não anuncia uma única coisa, mas várias.
Tal é o sentido desta passagem da Escritura: “Em suas exortações, João anunciava, por certo, muitas outras coisas”.
Assim João pregava ao povo também outras coisas que não foram escritas.
Quanto às coisas que foram escritas, considerai quão importantes foram: anunciou o Cristo, mostrou-o com o dedo, pregou o batismo do Espírito Santo, ensinou a salvação aos publicanos; aos soldados, os princípios de uma boa conduta; ele disse que era necessário limpar a eira, ceifar as árvores e o resto de que a história do
Evangelho narra.
Tiradas, portanto, as coisas que foram escritas, anunciou ainda outras coisas que não foram destinadas à Escritura, como mostram estas palavras: “Em suas exortações, ele anunciava, por certo, ao povo muitas outras coisas”.
E como é relatado no Evangelho segundo João, o Cristo disse muitas outras coisas “que não foram escritas neste livro”, a ponto de que, “se estas coisas fossem escritas, nosso próprio mundo, creio, não poderia conter os livros que seria necessário escrever”.
Do mesmo modo, também para nossa passagem, porque João Batista anunciava certas verdades muito elevadas para poder ser confiadas à Escritura, entende que Lucas se recusou a dizê-las expressamente, mas apenas sinalizou que foram ditas, e, por isso, disse: “Em suas exortações, João anunciava ao povo muitas outras
coisas”.
Admiremos João Batista, sobretudo por causa do testemunho seguinte: “Entre os filhos das mulheres, ninguém foi maior que João Batista”, e ele mereceu elevar-se a uma reputação de virtude tal que por muitas pessoas fosse considerado o Cristo.
Mas isto é muito mais admirável ainda: Herodes, o tetrarca, gozava do poder real e podia matá-lo quando quisesse.
Ora, como tivesse cometido uma ação injusta e contrária à lei de Moisés, tomando a esposa de seu irmão, que tinha uma filha de seu primeiro marido, João não o temeu, não fez acepção de pessoa, não pensou no poder real, como eu disse.
Sem se preocupar com a morte – pois sabia que, mesmo se não fosse um profeta, que, uma vez inquietado, [o rei] poderia matá-lo – quando soube, portanto, todas essas coisas, com a liberdade de um profeta, censurou Herodes e lhe reprovou o casamento incestuoso.
Por causa dessa audácia, encerrado na prisão, ele não se preocupava nem com a morte nem com um julgamento com resultado incerto; mas só cogitava, em suas cadeias, no Cristo, a quem havia anunciado.
Não podendo ir encontrá-lo pessoalmente, ele envia seus discípulos com a pergunta: “Tu és aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?”
Nota bem que, mesmo na prisão, João ensinava. Pois donde vem que, mesmo aí, ele tinha discípulos, e por qual razão aí permaneciam, senão porque mesmo na prisão João cumpria seu dever de mestre e os instruía com conversas sobre Deus?
Nessas circunstâncias, o problema de Jesus havia nascido, João lhe envia alguns dos discípulos para perguntar ao Cristo: “Tu és aquele que deve vir, ou é necessário esperar um outro?”
Os discípulos voltam e anunciam ao mestre o que o Salvador havia ordenado que fosse anunciado.
Essa resposta é para João uma arma para enfrentar o combate: ele morre com segurança e com grande coragem se deixa decapitar, assegurado pela palavra do próprio Senhor de que aquele em quem ele cria era verdadeiramente o Filho de Deus.
Tal foi a liberdade de João Batista, tal foi a loucura de Herodes, que a muitos crimes acrescentou também este, primeiramente encerrar João no cárcere e, depois, o degolar.

A presença do Espírito Santo
Mas porque o Senhor recebeu o batismo, e os céus se abriram, “O Espírito Santo desceu” sobre ele e uma voz vinda do céu, como um trovão, disse: “Eis meu Filho bem-amado em quem eu pus minha complacência”.
Assim, deve-se dizer que, graças ao batismo de Jesus, o céu se abriu para outorgar a remissão dos pecados – não àquele “que não tinha cometido pecado e em cuja boca não se encontrou nenhuma falsidade”, mas ao mundo inteiro –; os céus se abriram e o Espírito Santo desceu, para que, depois de “ter subido nas alturas, levando prisioneiros”, o Senhor nos concedesse o Espírito que tinha vindo a ele [em seu batismo]; e, de fato, ele no-lo deu, uma vez ressuscitado, pronunciando essas palavras: “Recebei o Espírito Santo.
Aquele a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e aquele a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”.
“O Espírito Santo desceu sobre o Salvador sob a forma de uma pomba”, a ave afável, inocente e simples.
Assim é-nos prescrito imitar “a inocência das pombas”. Tal é o Espírito Santo, puro, alado, elevando-se nos céus.
É por isso que dizemos esta oração: “Quem me dará asas como as das pombas, eu voarei e me repousarei?”, isto é: “Quem me dará as asas do Espírito Santo?”
E em outra passagem, uma profecia contém esta promessa: “Se repousais entre os muros do aprisco, as asas da Pomba se cobrem de prata e as penas de seu dorso com o brilho do ouro verde”.
De fato, “se nós repousamos entre os muros” do Antigo e do Novo Testamento, receberemos “as asas prateadas da pomba”, isto é, a Palavra de Deus e “as penas de seu dorso com o brilho do ouro verde”.
Nosso pensamento encontrará, assim, sua plenitude nos pensamentos do Espírito Santo, isto é, nossa linguagem e nossa inteligência encontrarão sua plenitude em sua vinda.
Não diremos e não pensaremos nada que não nos tenha sido sugerido; e toda santidade, a do coração como a de nossas palavras e de nossos atos, virá do Espírito Santo no Cristo Jesus, “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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terça-feira, 8 de outubro de 2019

114 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 26)

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114
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 26)


HOMILIA 26 - Lc 3.17
Sobre o que está escrito: “A joeira está em sua mão e ele limpará a sua eira”, até a passagem que diz: “E recolherá o trigo em seu celeiro”.

O julgamento de Deus
“Deus é espírito e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade”.
Nosso Deus é também “um fogo devorante”. Deus recebe, portanto, dois nomes: “espírito” e “fogo”; espírito para os justos, fogo para os pecadores.
Mas os anjos são também chamados “espírito” e “fogo”: “Ele que faz de seus anjos espíritos”, diz a Escritura, “e de seus servidores, um fogo ardente”.
Os anjos são “espírito” para todos os santos; mas os que merecem ser supliciados, eles os submetem ao fogo e ao abrasamento.
Nesse sentido, nosso Senhor e Salvador, porque é “espírito”, “veio pôr fogo sobre a terra”. Ele é “espírito”, segundo aquilo que consta na Escritura: “Quando tu te terás convertido ao Senhor, porém, o véu será retirado”, e: “O senhor é o espírito”.
Porém, “ele veio pôr fogo” não sobre o céu, mas “sobre a terra”, como ele próprio demonstra dizendo: “vim pôr fogo sobre a terra, e como eu gostaria que ele já ardesse!”
Pois, “se tu te tiveres convertido ao Senhor”, que é “espírito”, Cristo será “espírito” para ti e, para ti, ele não “veio pôr fogo sobre a terra”.
Mas se, ao contrário, te recusas a te converteres a ele, e se possuis a terra e seus frutos, “ele veio pôr fogo sobre a terra” que está em ti.
A Escritura diz, também de Deus, em termos análogos: “O fogo de minha cólera se acendeu” não até o céu, mas “até o fundo da mansão dos mortos” e “ele consumará” não o céu, mas “a terra e seus produtos”.

Batismo e julgamento
Com qual propósito lembrei todas essas coisas? Porque o batismo de Jesus é também um batismo “no Espírito Santo e no fogo”.
Lembro-me das coisas que há pouco falei e não me esqueci da explicação dada acima, mas quero trazer uma nova interpretação.
Se fores santo, serás batizado no Espírito Santo; se fores pecador, serás lançado no fogo.
O único e mesmo batismo se tornará condenação e fogo para os pecadores indignos; mas para aqueles que são santos e com toda fé se converterem ao Senhor, receberão a graça do Espírito Santo e a salvação.
“Aquele que batiza no Espírito Santo e no fogo”, como diz a Escritura, tem “em sua mão a joeira e vai limpar a sua eira; e recolherá o seu trigo no celeiro, e queimará a palha no fogo que não se apaga”.
Eu quero descobrir quais motivos tem nosso Senhor para segurar “a joeira”, e por qual sopro a palha leve é levada para cá e para lá, enquanto o trigo mais pesado cai no mesmo lugar, pois, na ausência do vento, não se pode separar o trigo e a palha.
O vento, eu creio, designa aqui as tentações, que, no monte confuso dos que creem, revela que uns são palha, os outros, trigo.
Pois, quando vossa alma deixou-se dominar por alguma tentação, não é a tentação que te transformou em palha, mas porque tu eras palha, isto é, leve e sem fé, a tentação te desvelou tua natureza oculta.
Ao contrário, porém, quando enfrentas corajosamente a tentação, não é a tentação que te faz fiel e paciente, mas ela revela à luz do dia as virtudes de paciência e de força presentes em ti, mas que estavam ocultas.
“Pois, diz o Senhor, tu pensas que eu tinha um outro fim, falando-te assim, senão que te fazer parecer justo?”
E em outra parte: “Eu te afligi e te atingi com a penúria, para que se tornassem manifestas as coisas que havia em teu coração”.
Desse modo, também a tempestade não permite que um edifício construído sobre a areia resista, mas, se queres edificar, construa “sobre a rocha”.
A tempestade, uma vez começada, não poderá derrubar o que foi alicerçado “sobre a rocha”, mas ela faz ver a fragilidade dos alicerces da casa que vacila “sobre a areia”.
Assim, antes que a tempestade surja, antes que o soprar dos ventos se eleve, antes que se encham até as bordas os rios, enquanto até agora todas as coisas estão calmas, vamos trazer todo o nosso esforço para as fundações das edificações; edifiquemos a nossa casa com as pedras sólidas e variadas que são os mandamentos de Deus; e, quando a perseguição enfurecer-se contra os cristãos e o terrível turbilhão se levantar, mostremos que nós temos um edifício “sobre a rocha” que é o Cristo Jesus.
Mas se alguém o renegar então – longe de nós essa desgraça –, que esse alguém o saiba bem, não é no instante de sua renegação que renegou o Cristo, mas trazia em si sementes e raízes de renegação já antigas; o que estava nele se revelou naquele momento e manifestou-se em pleno dia.
Assim, peçamos ao Senhor para que sejamos um edifício sólido que nenhuma tempestade possa derrubar, “alicerçado sobre a rocha”, sobre nosso Senhor Jesus Cristo, “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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terça-feira, 1 de outubro de 2019

113 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 24, 25)


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113
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 24, 25)


HOMILIA 24 - Lc 3.16
Sobre o que está escrito: “Quanto a mim, evidentemente vos batizo na água” até aquela passagem que diz: “Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”.

O mistério do batismo
O povo acolheu João, que era menor que o Cristo, pensando e imaginando que ele talvez fosse o Cristo.
Mas não recebeu aquele que tinha vindo e que era maior que João. Queres saber a causa? Ei-la: o povo via o batismo de João, [mas] o batismo de Cristo era invisível.
“Pois eu, dizia João, vos batizo na água; quem vem, porém, depois de mim, é maior que eu, esse vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
Quando Jesus batiza “no Espírito Santo”, e quando, por outro lado, batiza “no fogo”? É num só e mesmo instante que ele batiza “no Espírito Santo e no fogo”, ou é em momentos distintos e diferentes?
“Vós sereis batizados no Espírito Santo não daqui a muitos dias”. Os apóstolos foram batizados “no Espírito Santo” depois da sua ascensão aos céus, mas a Escritura não menciona que eles tenham sido batizados “no fogo”.
Mas do mesmo modo que João, às margens do Jordão, esperava os que vinham receber o batismo e enxotava os outros com estas palavras: “Raça de víboras”, e o que se segue, enquanto admitia os que confessavam seus vícios e seus pecados, assim o Senhor Jesus estará de pé no rio de fogo.
Aí ele estará com a “espada flamejante”, de modo que quem quer que seja que, saindo desta vida, deseje passar para o paraíso e tenha necessidade de purificação, ele o batiza neste rio e o faz chegar ao lugar de seu desejo.
Mas aquele que não traz o signo dos batismos anteriores, ele não o batizará no banho de fogo. Pois é necessário ser primeiramente batizado “na água e no Espírito”, para poder, chegando ao rio de fogo, mostrar que se conservaram as purificações “da água e do Espírito” e, desde então, merecer receber também o batismo do fogo no Cristo Jesus “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

HOMILIA 25 - Lc 3.15
Sobre a dúvida que o povo tinha a respeito de João, “se não era ele próprio o Cristo?”

Caridade ordenada
Mesmo o amor oferece um perigo, se ultrapassa a medida. Aquele que ama alguém deve, com efeito, considerar a natureza e os motivos do amor e não amar alguém mais do que ele merece.
Pois se transcender a medida e a conveniência na caridade, tanto aquele que ama quanto aquele que é amado estarão em pecado.
Para que isso se torne mais claro, citemos como exemplo João.
O povo o admirava e o amava; e certamente ele – que havia vivido de modo tão diferente de todos os mortais – era digno de admiração e de que se lhe fosse concedida mais admiração do que a outros homens.
Nós todos não nos contentamos com uma comida simples, sem tempero, mas buscamos o prazer de uma alimentação variada; um único vinho para beber não nos basta, mas compramos vinhos de diferentes gostos.
Mas João se alimentava sempre “de gafanhotos”, sempre “de mel silvestre”; e contentava-se com uma simples e frugal comida, para que não engordasse seu corpo com iguarias muito gordurosas nem se tornasse pesado com refeições muito refinadas.
Porque nossos corpos são de uma natureza tal que se tornam pesados com uma alimentação supérflua; e, quando o corpo tiver sido tornado pesado, a alma também – difusa pelo corpo inteiro e sujeita aos seus achaques – sofrerá esse ônus.
Por isso, com razão é preceituado àqueles que o podem observar: “É bom não comer carne nem beber vinho e nada fazer que possa escandalizar teu irmão”.
Portanto, a vida de João era admirável e muito diferente do modo de vida dos outros homens. Ele não possuía nem bolsa, nem servo, nem mesmo uma miserável choupana.
Ele morava no deserto, não apenas “até o dia de sua manifestação a Israel”, mas também naquele tempo em que pregava a conversão ao povo, estava ainda no deserto da Judeia e desalterava-se com água clara, para que fosse diferente dos outros até na escolha de sua bebida.
Nós que vivemos nas cidades, que estamos no meio das multidões, buscamos a elegância no vestuário, na alimentação e na moradia. Mas aquele que morava no deserto, vede com qual vestimenta se vestiu: tinha feito para si uma túnica “com pelos de camelos”, e estava cingido “com um cinto de couro”.
Todas as coisas, portanto, nele eram inéditas, e por causa de sua extraordinária vida, todos os que o viam se admiravam dele e, admirando-o, cultuavam-no com muita paixão em todas as coisas, porque batizava “para a remissão dos pecados” os que se arrependiam.

Os excessos do amor
Por tudo isso, evidentemente, eles o amavam com muito bons motivos. Mas em sua caridade, não guardavam uma justa medida: cogitavam, com efeito, “se por acaso ele não era o Cristo”.
Precavendo-se contra esse amor desordenado e não espiritual, o apóstolo Paulo dizia a respeito de si mesmo: “Temo, porém, que alguém faça de mim uma ideia superior ao que se vê ou se ouve de mim; e que a grandeza das revelações não me encha de orgulho”, e o que se segue.
Temendo incorrer também ele próprio nesse defeito, Paulo não queria revelar de si mesmo tudo o que sabia, para que alguém não tivesse dele um julgamento superior ao que pudesse observar e que, excedendo a medida da honra, dissesse o que fora dito sobre João: “Que ele fosse o Cristo”.
É o que, evidentemente, vários disseram também de Dositeu, heresiarca dos samaritanos; mas outros também o disseram de Judas, o galileu.
 Finalmente, alguns prorromperam, em tamanho excesso no amor que imaginaram a respeito de Paulo, extravagâncias inauditas e sem precedentes.
Alguns dizem, com efeito, que o que está escrito, “sentar-se à direita e à esquerda do Salvador”, se aplica a Paulo e a Marcião: Paulo se assentaria à direita, Marcião se assentaria à esquerda.
Em seguida, outros que leem: “Eu vos enviarei um intercessor, o Espírito da verdade”, não querem ver nisso a terceira pessoa, distinta do Pai e do Filho, e a sublimidade da natureza divina, mas o Apóstolo Paulo.
Acaso todos não te parecem ter amado mais do que convém e, enquanto admiram a virtude de um e de outro, ter perdido a medida do amor?
Por certo, nós sofremos desse excesso em nossa Igreja: enquanto muitos amam-nos mais do que merecemos, proferem a torto e a direito essas coisas, louvando nossos discursos e nossa doutrina, julgamentos que nossa consciência não aceita.
Seguramente outros caluniam nossas homilias e nos incriminam de professar opiniões que nunca soubemos ter professado.
Mas nem aqueles que nos amam nos amam em excesso, nem aqueles que nos odeiam guardam a regra da verdade; e, uns através do amor, outros através do ódio, mentem.
Por isso, é necessário pôr um freio também ao amor, tanto para não lhe permitir a liberdade de vagar errante quanto para que não se arruíne no despenhadeiro. Está escrito no Eclesiastes: “Não sejas excessivamente justo, não cogites pensamentos assaz vastos, para que não fiques talvez de boca aberta”.
Seguindo esse exemplo, posso dizer algo similar: não ames um homem “de todo o teu coração e com toda a tua alma e com todas as tuas forças”; não ames um anjo “de todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”; mas, segundo a palavra do Senhor, reserva este preceito para Deus unicamente: “Tu amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças”.

O preceito do Senhor
Alguém me responderia e diria: “O Salvador preceituou: ‘Tu amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças, e a teu próximo como a ti mesmo’. Quero amar também o Cristo; ensina-me, portanto, como amá-lo, pois, se o amo ‘de todo o meu coração, de toda a minha alma, com todas as minhas forças’, ajo contra o mandamento, amando assim outro diferente do único Deus. Se, ao contrário, amo o Cristo menos que o Pai todo-poderoso, temo ser identificado como ímpio e irreligioso contra ‘o primogênito de toda a criação’. Ensina-me e mostra-me a maneira como devo amar o Cristo, andando em meio aos dois extremos”.

Queres saber com qual amor Cristo deve ser amado?
Escuta brevemente! “Ama o Senhor teu Deus” em Cristo, e não penses que tu podes ter um amor diferente, um para com o Pai, outro para com o Filho.
Ama ao mesmo tempo Deus e o Cristo. Ama o Pai no Filho e o Filho no Pai, “de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todas as tuas forças”.
Pois se alguém te interroga e diz: “prova isso que asseveras por meio da Escritura”, que ele ouça o apóstolo Paulo, que tinha um amor espiritual, dizendo: “Eu estou certo, com efeito, que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem as potestades, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem o poder, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura poderá me separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador”: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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terça-feira, 24 de setembro de 2019

112 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 23)


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112
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 23)


HOMILIA 23 - Lc 3.9-12
Sobre o que está escrito: “Eis que o machado foi posto na raiz das árvores”, até aquela passagem que diz: “Publicanos vieram, porém, para receber dele o batismo”.

A recusa de Israel
João já dizia naquele tempo: “Eis que o machado foi posto na raiz das árvores”.
Se a consumação dos séculos já estava iminente e o fim dos tempos, próximo, nenhuma questão para mim surgiria.
Eu diria, com efeito, que essas palavras: “eis que o machado foi posto na raiz das árvores”, e aquelas: “toda árvore, portanto, que não produz bom fruto será cortada e jogada ao fogo” são profecias do que se cumpria naquele tempo.
Mas depois que tantos séculos se escoaram e tão inumeráveis anos, desde aquele tempo até o dia presente se passaram, devemos nos perguntar como o Espírito Santo pode dizer por seu profeta: “eis que o machado foi posto na raiz das árvores”.
Eu penso que é profetizado ao povo de Israel que o seu corte está próximo.
Com efeito, “àqueles que saíam para receber o batismo”, entre outras coisas, dizia: “Produzi frutos que sejam dignos da conversão”, e, dirigindo-se a eles como a judeus: “Não comeceis a dizer em vós mesmos: nós temos por pai a Abraão; pois vos digo que Deus pode suscitar filhos de Abraão destas pedras”.
Isto, portanto, que é dito: “eis que o machado foi posto na raiz das árvores”, é dito aos judeus.
Esse versículo se juntou a este pensamento do Apóstolo [Paulo]: são ramos infiéis que esse machado quebrou e cortou para amputar da árvore não a raiz, mas aquilo que da raiz deitava renovos, para que na raiz da primitiva árvore pudessem ser
inseridos ramos de oleastro.
“Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e jogada ao fogo.” É assim que deve acabar, queimando em chamas.
Em seguida são introduzidas três categorias de pessoas das que vêm indagar a João sobre a sua salvação: uma que a Escritura chamou de “multidões que saem para receber o batismo”, outra que ela nomeia como “publicanos”, e a terceira que ela designa com o nome de “soldados”.
“As multidões o interrogavam dizendo: O que faremos? Ele, respondendo, diz-lhes: ‘Quem tem duas túnicas, dê uma àquele que não tem, e quem tem víveres, faça o mesmo’”.
O que, evidentemente, não sei se convém preceituar à multidão.
Com efeito, foi mais conveniente aos apóstolos do que ao povo, dizer “que aquele que tem duas túnicas dê uma a quem não tem”. E para que saibas que isso convém mais aos apóstolos que às multidões, ouve o que lhes é dito pelo Salvador: “Não leveis duas túnicas pela estrada”.
E assim essas duas vestimentas, das quais cada um está revestido, e é preceituado que uma seja dada a quem não a tem, deve ter outro entendimento.
Como não devemos “servir a dois senhores”, assim o Salvador não quer, de fato, nos ver possuir duas túnicas, nem sermos envolvidos por uma dupla veste, para que não seja uma vestimenta a do velho homem e outra a do novo.
Ao contrário, deseja ardentemente, porém, que “nós nos despojemos do velho homem e nos revistamos do novo”.  Até aí a explicação é fácil.
Mas uma pergunta surge: como, segundo essa interpretação, nos é ordenado dar uma veste a quem não tem?
Qual é o homem que não tem sequer uma vestimenta sobre sua carne, que é nu, que não está coberto absolutamente por nenhuma veste?
Mas não digo isso para que não seja preceituada a liberalidade e a misericórdia para com os pobres e a clemência levada às últimas consequências, isto é, que também protejamos os nus com uma de nossas túnicas.
Mas afirmo isto: essa passagem pode suscitar também um entendimento mais profundo e pode ser necessário que demos uma túnica àquele que absolutamente seja desmunido (desprovido).
Quem é esse, então, que não tem uma túnica? Seguramente é aquele que é profundamente privado de Deus.
Devemos, portanto, nos despojar e dar àquele que está nu. Um possui Deus, o outro, isto é, o poder adverso, é absolutamente privado.
E como está escrito: “Precipitemos nossos delitos no fundo do mar”, assim é necessário que sejam banidos por nós os vícios e os pecados, e que os lancemos sobre aquele que existiu por causa deles para nós.
“E que aquele que tem víveres”, diz a Escritura, “faça o mesmo”. Quem tem víveres, dê a quem não tem, para que lhe seja liberalizado não apenas a vestimenta, mas também o que possa comer.

O mistério dos publicanos
“Também vieram, porém, publicanos receber o batismo de João”.
Aqui a interpretação é imediata: os publicanos não deveriam demandar nada além do que na Lei está prescrito.
Pois quem tivesse exigido mais, transgrediu não o que foi estabelecido por João, mas o que foi estabelecido pelo Espírito Santo, que falou pela boca de João.
Porém, ignoro se essas palavras têm, segundo o sentido anagógico (em que há anagogia, passagem do sentido literal ao místico), uma significação mais rica, e se devemos, diante de um auditório como este, propor coisas tão místicas, sobretudo entre aqueles que não têm uma introspecção do cerne das Escrituras, mas se deleitam apenas pela superfície.
Sem dúvida é arriscado, mas deve-se tocar tal sentido, porém, ainda que seja sucinta e brevemente.
Quando tivermos deixado este mundo e esta nossa vida tiver sido mudada, alguns estarão sentados nas fronteiras do mundo, como no ofício de publicanos, perscrutando com o maior cuidado se acaso não encontram em nós algo que lhes pertença.
Parece-me que “o príncipe deste mundo” seja como um publicano. Por isso está escrito sobre ele: “O príncipe deste mundo vem, mas ele não possui nada em mim”.
Aquilo também que lemos no Apóstolo: “Devolvei a todos o que lhes é devido; a quem se deve o imposto, o imposto; a quem se deve o tributo, o tributo; a quem se deve a honra, a honra; não devais a ninguém nada senão o amor mutuamente”, essas palavras devem ser entendidas no sentido espiritual.
É por isso que se deve considerar a quantos perigos estamos expostos, para que não sejamos, por acaso, arrastados presos por causa de dívida, quando não tivermos tido o que devamos devolver ou o que devemos como tributo, como costuma suceder aos contribuintes do mundo, quando alguém é encarcerado por dívidas e condenado a ser escravo a serviço do Estado para
compensá-las.
Muitos entre nós devem ser pegos por publicanos dessa espécie, entre os quais Jacó, aquele homem santo, não temia muito, nem receava que algo nele fosse encontrado dos tributos devidos aos publicanos.
Por isso, Jacó dizia audaciosamente a Labão, o publicano: “Vem ver se algo das tuas coisas está em meu poder”.
Sobre isso, a Escritura dá seu testemunho, dizendo: “Labão não encontrou nada em poder de Jacó”.
Nosso Salvador e o Espírito Santo, que falou pela boca dos profetas, instruem não somente os homens, mas também os anjos e as potências invisíveis.
Por que falarei do Salvador? Os próprios profetas também e os apóstolos pregam tudo o que anunciam, não somente os homens, mas também aos anjos.
Para que saibas que isso é verdadeiro, diz a Escritura: “Fica atento, ó céu, e eu falarei”; e: “Na presença dos anjos, cantarei para ti”; e ainda: “Louvai o Senhor, céus dos céus, e as águas que estão acima dos céus louvem o nome do Senhor”; e: “Louvem-no os anjos”; e: “Em todo lugar em que se exerça seu poder, bendiz, ó minha alma, ao Senhor”.
Encontrarás em muitas passagens, e mormente nos Salmos, casos em que essas palavras são dirigidas aos próprios anjos, tendo sido dado ao homem, a ele que, todavia, possui o Espírito Santo, o poder de falar também aos anjos.
Citarei um único exemplo de tais passagens, para que saibamos que também os anjos podem ser instruídos por vozes humanas.
Está escrito no Apocalipse de João: “Escreve ao anjo da Igreja de Éfeso: eu tenho alguns agravos contra ti”. E novamente: “Escreve ao anjo da Igreja de Pérgamo: tenho alguns agravos contra ti”. Certamente é um homem que escreve aos anjos e prescreve alguma coisa.

Presença dos anjos
Eu não hesito em pensar que em nossa assembleia também os anjos estão presentes, não somente para toda a Igreja, tomada em seu conjunto, mas também para cada um de nós, dos quais fala o Salvador: “Seus anjos veem sempre a face de meu Pai que está nos céus”.
Aqui está presente uma dupla Igreja: uma dos homens, a outra dos anjos.
Se o que dizemos é conforme o pensamento divino e a intenção das Escrituras, os anjos se alegram e oram conosco. Porque os anjos estão presentes na Igreja, naquela pelo menos que o merece e pertence ao Cristo, é prescrito às mulheres que oram que tenham “sobre a cabeça um véu por causa dos anjos”.
Quais anjos, pois? Sem nenhuma dúvida, aqueles que assistem os santos e se rejubilam na Igreja, os quais, evidentemente, nós não vemos, porque nossos olhos foram cobertos pelas impurezas dos pecados, mas veem os apóstolos de Jesus, aos quais é dito: “Em verdade, em verdade eu vos digo, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem”.
Se eu tivesse essa graça, [isto é,] de vê-los, assim como os apóstolos, e de contemplá-los, como Paulo os contemplou, veria claramente agora a multidão dos anjos que Eliseu via e que Giezi, que estivera de pé a seu lado, não via. Giezi estava com medo de ser preso pelos inimigos, vendo Eliseu sozinho.
Mas Eliseu, como profeta do Senhor, se põe em oração e diz: “Ó Senhor, abre os olhos deste servidor e que ele veja que há muito mais seres conosco do que com eles”. E imediatamente, às preces do varão santo, Giezi contemplou os anjos que anteriormente não via.
Por esta razão dissemos estas coisas, para mostrar que os publicanos eram instruídos por João, não apenas aqueles que servem aos impostos do Estado, mas também aqueles que vinham para se converter, dos quais uns eram mesmo publicanos e outros eram soldados, e saíam para receber o batismo da conversão.
Vieram, com efeito, não somente João e os profetas, mas também o próprio Salvador, para pregar a conversão e a salvação aos homens, aos anjos e às outras potências celestes, para que “em nome de Jesus todo joelho se dobre no céu, na terra e nos infernos, e que toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, na glória de Deus Pai”; “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

O que você destaca no texto?
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