segunda-feira, 15 de julho de 2019

103 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 14)


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103
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 14)


HOMILIA 14 - Lc 2.21-24
Sobre o que está escrito: “Quando, porém, estivessem completos os dias de sua circuncisão”, até aquela passagem que diz: “Um par de rolas ou dois filhotes de pombas”.

A circuncisão espiritual
O Cristo, “em sua morte, morreu ao pecado”; não que ele próprio tenha pecado – “pois não cometeu pecado, e não foi encontrado engano em sua boca” – mas morreu, para que, graças à sua morte pelos pecados, nós que morremos, não vivêssemos mais absolutamente no pecado e nos vícios.
Donde está escrito: “Se nós morremos com ele, nós viveremos também com ele”. Como, portanto, “morremos com ele” então, quando ele morria, e ressuscitamos para aquele que ressuscita, assim com ele fomos circuncidados e, depois da circuncisão, fomos purificados com uma purificação solene.
Daí que já não carecemos de circuncisão carnal. E, a fim de que saibas que, por nossa causa, ele foi circuncidado, ouve o que Paulo muito claramente proclama: “Nele”, diz [Paulo], “habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e sois cumulados naquele que é a cabeça de todo principado e todo poder; nele também fostes circuncidados com uma circuncisão que não é de mão de homens, pelo despojamento de vosso corpo carnal, na circuncisão do Cristo; sepultados com ele no batismo, nesse batismo também fomos ressuscitados com ele pela fé no poder de Deus que o ressuscitou dos mortos”.
Sua morte, sua ressurreição e sua circuncisão se fizeram por nós.

O nome de Jesus
“Quando os dias da circuncisão do menino tinham sido completados”, diz [a Escritura], “chamaram-no pelo seu nome, Jesus, porque havia sido assim nomeado pelo anjo, antes de sua concepção”.
Não seria conveniente que este nome, Jesus, glorioso e eminentemente digno de receber todas as homenagens, adoração e culto, “nome que está acima de todo nome”, fosse mencionado em primeiro lugar por homens, nem que fosse introduzido por eles no mundo, mas por determinada natureza mais excelente e mais perfeita.
Por isso o evangelista acrescentou, dizendo expressamente que “chamaram-no pelo seu nome, Jesus, porque havia sido assim nomeado pelo anjo, antes de sua concepção no ventre [da Virgem]”.

A purificação de Jesus
Depois prosseguiu [dizendo]: “como haviam-se completado os dias da purificação deles, segundo a lei de Moisés, conduziram o menino a Jerusalém”. Por causa, diz [o evangelista], da purificação “deles”.
O que quer dizer esse “deles”? Se estivesse escrito: por causa da purificação dela, isto é, de Maria, que havia dado à luz, nenhuma questão se levantaria, e diríamos com certa audácia que Maria, que pertencia ao gênero humano, tinha necessidade de purificação depois do parto.
Mas agora, sobre aquilo que se diz: “os dias da purificação deles” não parece tratar-se de uma só pessoa, mas de duas ou mesmo de várias outras. Jesus, então, necessitou de purificação e foi impuro ou sujo de alguma impureza?
Talvez pareça que eu fale temerariamente, mas sou levado pela autoridade das Escrituras. Vê o que está escrito em Jó: “ninguém é isento de impureza, nem se de um único dia tiver sido sua vida”.
Não disse: “ninguém está isento de pecado”, mas: “ninguém está isento de impureza”. Pois “impurezas” não significam o mesmo que “pecado”; e para que saibas que “impureza” significa uma coisa e “pecado” significa outra, Isaías muito claramente ensina, dizendo: “o Senhor lavará a impureza dos filhos e das filhas de Sião, e limpará o sangue espalhado no meio deles, lavará a impureza no sopro do julgamento e o sangue no sopro da destruição”.
Toda alma, revestida de um corpo humano, tem suas impurezas. Para que saibas, porém, que Jesus também foi sujado, por sua própria vontade – porque, em favor de nossa salvação, havia assumido um corpo humano –, escuta o profeta Zacarias dizendo: “Jesus estava vestido com vestes sujas”.
Essa frase é dirigida contra os que afirmam que o corpo do Senhor não era um corpo humano, mas que tinha sido formado de elementos celestes e espirituais. Se, com efeito, seu corpo foi formado de elementos celestes e, segundo os partidários dessa afirmação errônea, de matéria astral e de uma outra natureza mais sublime e mais espiritual, respondam: como um corpo espiritual poderia ser impuro, e como interpretam isto que temos [na Escritura]: “Jesus estava vestido com vestes sujas”?
Se, porém, tiverem sido compelidos pela necessidade de aceitar que é entendido “corpo espiritual” como “vestes sujas”, devem consequentemente dizer que aquilo que é dito nas promessas deve cumprir-se, isto é: “é semeado um corpo animal, e ressuscita um corpo espiritual”, e que devemos ressuscitar impuros e sujos, o que é até abominável pensar, sobretudo quando se sabe que está escrito: “semeado na corrupção, o corpo ressuscitará na incorrupção; semeado na ignomínia, ressuscitará na glória; semeado na fraqueza, ressuscitará na força; semeado corpo animal, ressuscitará corpo espiritual”.
Foi necessário, pois, para nosso Senhor e Salvador, que “estava vestido com vestes sujas” e tinha assumido um corpo terrestre, que fossem oferecidas as coisas que, segundo a lei e o costume, purificava as impurezas.
Movido pela ocasião da passagem, volto a tratar uma questão sobre a qual [nossos] irmãos frequentemente se interrogam entre si. As crianças são batizadas “para a remissão dos pecados”; de quais pecados? Ou, em qual tempo pecaram? Ou, como pode subsistir um motivo para o lavacro (banho) dos pequeninos, se não segundo aquela interpretação da qual falamos há pouco: “ninguém é isento de impureza, nem se de um único dia absolutamente for a sua vida sobre a terra?”
E porque, pelo mistério do batismo, as impurezas do nascimento são tiradas, por esse motivo são batizados também os pequeninos, porque “se alguém não tiver renascido da água e do espírito, não poderá entrar no reino dos céus”.

O mistério do batismo
“Quando”, diz [o evangelista], “haviam sido completados os dias da purificação deles”, o cumprimento dos dias tem também uma significação mística. A alma, com efeito, não é purificada assim que nasce, e no próprio nascimento ela não pode atingir a pureza perfeita. Mas, como está escrito na Lei: “Se uma mãe deu à luz uma criança do sexo masculino, por sete dias se sentará no sangue impuro, e, em seguida, por trinta e três dias, no sangue puro, e, por fim, a criança e a mãe se sentarão em um sangue puríssimo”, e porque a “Lei é espiritual” e “sombra dos bens futuros”, podemos compreender assim: que nossa verdadeira purificação acontece depois de certo tempo.
Eu penso que, mesmo depois da ressurreição dos mortos, necessitaremos de um mistério para nos lavar e nos purificar – ninguém, com efeito, poderá ressuscitar sem impurezas –, e que não se pode encontrar nenhuma alma que esteja isenta instantaneamente de todos os vícios.
Assim, na regeneração do batismo cumpre-se um mistério: que, como Jesus foi purificado por uma oferenda, segundo a economia da Encarnação, assim nós também devemos igualmente ser purificados por uma regeneração espiritual.

Jesus oferecido no templo
“Eles conduziram o menino a Jerusalém, segundo a Lei de Moisés, para oferecê-lo à presença do Senhor.” Onde estão aqueles que negam o Deus da Lei, que afirmam que Cristo anunciou no Evangelho não esse, mas outro Deus? “Deus enviou seu filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei”.
Deve-se, então, pensar que o Deus bom teria submetido seu filho à lei do Criador e ao poder de um inimigo, um poder que ele próprio não havia dado? Antes, diz [a Escritura] que ele nasceu sob a Lei “a fim de resgatar aqueles que estavam sob a Lei” e de submetê-los a uma outra lei, que acaba de ser mencionada na leitura do texto: “Estai atentos à minha lei, ó meu povo”, e a sequência. Eles levaram, pois, o menino para colocá-lo diante da presença do Senhor.
Em qual passagem da Escritura se encontra o preceito que eles cumprem? Certamente, a Escritura diz, nesta: “Como está escrito na Lei de Moisés”: “Toda criança do sexo masculino, que é o primeiro a passar pela vulva, será consagrado ao Senhor”, e ainda: “três vezes ao ano, toda a população masculina se apresentará diante do Senhor Deus”.
Os filhos do sexo masculino, que eram os primeiros a passarem pela vulva da mãe, eram oferecidos diante do altar do Senhor. “Todo filho do sexo masculino”, diz [a Escritura], “que passa pela vulva”, [então,] ressoa como algo sagrado. Afinal, dirias: “qualquer [nascido] do sexo masculino que tenha saído de um ventre”; e não assim: “que passa pela vulva da mãe”, como o Senhor Jesus, porque, para todas as mulheres, não é o nascimento de uma criança passando pela vulva que a abre, mas o coito com um varão.
Para a mãe do Senhor, seu seio se abriu no próprio momento do parto, visto que, antes do nascimento do Cristo, nenhum ser do sexo masculino absolutamente tinha se aproximado desse ventre consagrado e digno do maior respeito. Ouso tratar desse assunto porque, quanto ao que está escrito: “O Espírito de Deus virá sobre ti e a virtude do Altíssimo cobrir-te-á com sua sombra”, terá sido o princípio da semente e da concepção, e o novo feto se desenvolveu no ventre de Maria, que não fora aberto.
Por isso também o próprio Salvador diz: “Eu, porém, sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da ralé”. No seio materno, ele via a impureza dos corpos e, cercado como estava pelas entranhas de sua mãe, sofria as estreitezas da “lama” terrestre; é por isso que ele se compara a um verme terrestre: “Eu, porém, sou um verme, e não um homem”.
[Como se dissesse:] “o ser humano nasce normalmente da conjunção de um homem e de uma mulher, mas eu não nasci de tal encontro, segundo a lei da natureza humana; eu nasci como um verme que não encontra sua origem num germe estranho, mas nos próprios corpos em que se desenvolve”.
Porque “toda criança do sexo masculino, que é a primeira a passar pela vulva, será chamada santo para o Senhor”, Jesus foi conduzido “a Jerusalém”, a fim de ser levado à presença do Senhor e igualmente “a fim de oferecer em sacrifício por ele o que é indicado na Lei: um par de rolas ou dois filhotes de pombas”.
Vemos um par de rolas e dois filhotes de pombas oferecidos pelo Salvador. Quanto a mim, considero felizes essas aves oferecidas em sacrifício pelo nascimento do Senhor; e, como admiro a jumenta de Balaão e a ponho no cúmulo da felicidade – porque foi digna não somente de ver o anjo de Deus, mas também de, de uma boca fechada, irromper em uma linguagem humana –, do mesmo modo celebro ainda bem mais e elevo muito alto essas aves, porque foram oferecidas diante do altar para nosso Senhor e Salvador.
“A fim de oferecer por ele um par de rolas ou dois filhotes de pombas”. Pareceria introduzir talvez algo de novo, mas pouco digno da grandeza do assunto. Como a geração do Salvador foi uma novidade, visto que não foi a partir [da união] de um homem e de uma mulher, mas somente de uma única virgem, assim tanto o par de rolas quanto os dois filhotes de pombas não foram tais como os vemos com os olhos da carne, mas representam o Espírito Santo, que “desceu na forma de pomba” e veio sobre o Salvador, quando foi batizado no Jordão.
Tal sucedeu também com o par de rolas: aquelas aves não eram como estas que esvoaçam pelos ares; algo de divino e mais sublime aparecia à contemplação humana sob a forma de uma pomba e de uma rola, de modo que aquele que nascia e devia sofrer pelo mundo inteiro não seria purificado, aos olhos do Senhor, com as mesmas vítimas que todos os homens; mas porque a economia divina renovava tudo, assim também teria novas vítimas, segundo a vontade de Deus onipotente, em Cristo Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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terça-feira, 9 de julho de 2019

102 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 13)


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102
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 13)


HOMILIA 13 - Lc 2.13-16
Sobre o que está escrito: “E se juntou uma multidão do exército celeste” até aquela passagem que diz: “Eles encontraram Maria e Jesus colocado numa manjedoura”.

O cântico dos anjos
Nosso Senhor e Salvador nasce em Belém, e “uma multidão do exército celeste louva a Deus e diz: Glória a Deus nas alturas, e sobre a terra paz aos homens, objetos da benevolência divina”.
Assim fala “A multidão do exército celeste”, porque ela já havia falhado em oferecer seu auxílio aos homens, e porque via que não podia cumprir o que lhe havia sido confiado sem aquele que verdadeiramente podia salvar e também ajudar aos próprios guias dos homens, para que os homens fossem salvos.
Como está escrito no Evangelho, que alguns homens estavam já cansados de ter sulcado o mar contra ventos contrários e, tendo penado vinte e cinco ou trinta estádios, não podiam alcançar o porto, e depois o Senhor sobreveio e fez acalmar as ondas tumultuosas e livrou o navio de um perigo iminente, cujos flancos de ambos os lados recebiam golpes das ondas.
Entende assim por que também os anjos queriam evidentemente oferecer aos homens o [seu] auxílio e lhes conceder a saúde, curando-os de suas doenças: porque “todos são espíritos servidores, enviados a serviço por aqueles que haverão de obter sua salvação”; e, quanto estivesse em suas forças, ajudavam aos homens; viam, porém, que seus remédios eram muito inferiores em relação ao que seus cuidados exigiam.
Vamos adiante, para que possas entender a partir de um exemplo o que dizemos.
Imagina uma cidade na qual muitos estejam doentes e se lance mão frequentemente de muitos médicos.
Imagina que haja feridas de todo tipo e que a gangrena penetre espalhando-se quotidianamente pela carne moribunda, enquanto os médicos, porém, empregados para curar essas feridas, não podem encontrar outros medicamentos e triunfar sobre a grandeza desse mal pela ciência da sua profissão.
Enquanto tudo está em tal estado, chega um médico extraordinário, que tenha o sumo conhecimento em sua profissão, e aqueles que anteriormente não haviam podido curar, verificando que, pela mão do mestre, as gangrenas das feridas cessam, não ficam com inveja, não são torturados de ciúme, mas irrompem em louvores ao arquimédico e celebram altamente a Deus, que enviou, a eles e aos doentes, um homem de tamanha ciência.
Assim, é por uma razão semelhante que se ouve uma multidão do exército dos anjos dizer: “Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina”. Pois, depois que o Senhor veio à terra, “pacificou pelo sangue de sua cruz os seres que estavam na terra, bem como os que estavam no céu”.
Assim, os anjos, querendo que os homens se recordassem de seu Criador – uma vez que houvessem feito tudo que estava em suas forças para curá-los, e esses não tivessem querido receber a saúde –, se voltam para aquele que pôde curar e, glorificando-o, dizem “Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina”.

Resposta a uma objeção
Um leitor atento da Escritura perguntar-se-á como o Salvador diz: “Não vim trazer a paz à terra, mas a espada”, e agora os anjos em seu nascimento cantam: “Paz na terra”, assim como, igualmente, em outra passagem, a respeito de sua própria pessoa, é dito: “Eu vos dou a minha paz, vos deixo a paz; eu dou a paz, não como este mundo dá a paz”.
Vejamos, então, se o que trazemos aqui permite resolver a questão. Se estivesse escrito: “Paz na terra” e aí a frase terminasse aí, a objeção surgiria com propriedade.
Mas, na realidade, o que foi acrescentado, isto é, o que é dito depois de “paz”: “aos homens, objetos da benevolência divina”, resolve a questão.
Também a paz que o Senhor não dá “à terra” não é a “paz da benevolência divina”. Ele não diz, pois, tão simplesmente: “não vim trazer a paz”, mas faz um acréscimo: “à terra”; inversamente não diz: “não vim trazer à terra a paz da benevolência divina”.

O anjo das igrejas
Estas palavras os anjos falaram aos pastores, não as falavam apenas naquele tempo, mas até hoje falam. Se os anjos não tivessem falado aos pastores e, assim, não tivessem unido sua obra à deles, seria dito a eles: “Se o Senhor não tiver edificado a casa, em vão trabalham aqueles que a edificam; se o Senhor não tiver guardado a cidade, em vão vigia quem a guarda”.
Se se permite falar com audácia a quem segue o sentido das Escrituras, para cada igreja há dois bispos, um visível, outro invisível; esse, visível de modo claro para a inteligência, aquele visível pela carne.
E como um homem é louvado pelo Senhor, se tiver cumprido bem a incumbência a ele confiada – se a tiver cumprido mal, ele subjazerá à culpa e ao vício –, assim também [acontece] para um anjo.
Está escrito no Apocalipse de [São] João: “Mas tens aí poucos nomes que não tenham máculas”. Ou ainda isto, um pouco antes: “Tens aí quem ensine a doutrina dos nicolaítas”, e novamente: “Tens aí quem comete tal ou tal pecado”, e assim são acusados os anjos a quem foram confiadas as igrejas.
Se os anjos têm, pois, inquietude sobre como governar as igrejas, que necessidade há de falar dos homens, de quanto medo devem ter para que possam obter, com a colaboração dos anjos, a salvação?
Eu acredito que se podem encontrar, ao mesmo tempo, um anjo e um homem como bons bispos para uma igreja e, de certo modo, que podem ser partícipes de uma única obra.
Se é assim, peçamos ao Deus onipotente que os bispos das igrejas, anjos e homens, sejam para nós uma ajuda, e saibamos que uns e outros são julgados pelo Senhor em nosso lugar.
Mas se eles forem julgados, e não forem encontrados nem vício nem pecado que redunde em sua incúria, mas em nossa negligência, nós seremos acusados e castigados.
Ainda que eles façam, pois, todas as coisas e se esforcem por nossa salvação, nós não estaremos livres dos pecados.
Entretanto, frequentemente sucede que, apesar de nosso trabalho, eles não desempenham seu dever e têm culpa.


O mistério do presépio
E aconteceu, diz a Escritura, que os pastores disseram uns aos outros, quando os anjos os deixaram para voltar ao céu: “Passemos até Belém, e vejamos a realização desta palavra que o Senhor nos fez conhecer. E eles vieram depressa e encontraram Maria, José e o menino”.
Porque haviam vindo depressa, e não devagar, nem com passo cansado, eles encontraram José, que havia preparado tudo para o nascimento do Senhor e Maria, que deu à luz Jesus, e o próprio Salvador “deitado numa manjedoura”.
A manjedoura era aquela da qual o profeta anunciou o oráculo, dizendo: “O boi conheceu seu proprietário, e o asno a manjedoura de seu senhor”.
O boi é um animal puro, o asno é um animal impuro. “Conheceu o asno a manjedoura de seu senhor”. Não foi o povo de Israel que conheceu a manjedoura de seu senhor, mas um animal impuro vindo dos pagãos: “Ora, diz a Escritura, Israel não me conheceu, e meu povo não me compreendeu”.
Compreendamos o sentido deste presépio, esforcemo-nos por descobrir o Senhor, mereçamos conhecê-lo e assumi-lo, não somente sua natividade e sua ressurreição da carne, mas também o segundo advento glorioso da majestade daquele “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos”.

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terça-feira, 2 de julho de 2019

101 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 12)


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101
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 12)


HOMILIA 12 - Lc 2,8-12
Sobre o que está escrito: “Que um anjo veio do céu e anunciou o nascimento do Senhor aos pastores”.

O apelo dos pastores
Meu Senhor Jesus nasceu e um anjo desceu do céu anunciando seu nascimento.
Vejamos então a quem o anjo foi buscar para anunciar a sua vinda. Ele não veio a Jerusalém, não buscou a escribas e fariseus, não entrou na sinagoga dos judeus, mas foi encontrar “pastores que passavam a noite a guardar seus rebanhos” e a eles diz: “nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor”.

O Bom Pastor
Pensas que a palavra da Escritura não signifique outra coisa mais divina, mas diz apenas isto: que um anjo veio aos pastores e a eles falou? Ouvi, pastores das igrejas, pastores de Deus!
Que sempre o seu anjo desça do céu e vos anuncie, porque “nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor”. Porque, se aquele pastor não vem, os pastores das Igrejas não poderão, por si mesmos, proteger bem seus rebanhos: falha é sua guarda, se Cristo não guardar o rebanho e não o apascentar.
Recentemente no Apóstolo [Paulo] se leu: “somos colaboradores de Deus”.
Um bom pastor, que imita o Bom Pastor, é colaborador de Deus e de Cristo; e, por isso, um bom pastor é aquele que tem consigo o melhor pastor que apascenta juntamente consigo. “Deus, com efeito, colocou na Igreja apóstolos, profetas, evangelistas, pastores, doutores, tudo isso para o aperfeiçoamento dos santos”.
E [só] isso seja dito como explicação mais imediata.

O ministério dos anjos
Mas, se devemos nos elevar a um entendimento mais misterioso, direi que é preciso ver, em alguns pastores, anjos que governariam as coisas humanas.
Cada um desses mantinha a guarda e vigiava durante dias e noites. Mas quando já não podia suportar e desempenhar com zelo a tarefa de governar as nações que a ele haviam sido confiadas, um anjo, nascido o Senhor, veio e anunciou aos pastores que o verdadeiro Pastor havia nascido.
Assim, para dar um exemplo, havia certo pastor na Macedônia que precisava do auxílio do Senhor; por isso que um macedônio apareceu em sonhos a Paulo, dizendo: “Ao passar pela Macedônia, ajuda-nos”.
Por que falarei de Paulo, quando essas coisas ele disse não a Paulo, mas a Jesus, que estava em Paulo?
Os pastores carecem, portanto, da presença de Cristo. É por essa razão que um anjo desceu do céu e disse: “Não temais, eis que vos anuncio, pois, um grande júbilo”.
Grande alegria certamente, para estes a quem estava confiado o encargo dos homens e das províncias, que o Cristo tenha vindo ao mundo. Grande vantagem obteve o anjo que governava os negócios do Egito, depois que o Senhor desceu do céu, para que os egípcios se tornassem cristãos. Foi útil a todos os anjos que governavam diversas províncias, por exemplo, para o guardião da Macedônia, o guardião da Acaia e das demais regiões.
Não é justo, com efeito, acreditar que só maus anjos presidem a cada província e que os bons anjos não tenham as mesmas províncias e regiões sob seu comando. Mas o que se diz de cada província, acredito também que se deva acreditar igualmente de todos os homens.
A cada um assistem dois anjos, um da justiça, outro da iniquidade. Se houver bons pensamentos em nosso coração e a justiça for abundante em nossa alma, sem dúvida que em nós estará falando o anjo do Senhor.
Mas se houver maus pensamentos agitando em nosso coração, falará em nós o anjo do diabo.
Como, portanto, para cada homem há um par de anjos, do mesmo modo, a meu ver, há em cada província anjos diferentes, tanto há os bons quanto há os maus.
Por exemplo, anjos péssimos eram os guardiães de Éfeso, por causa daqueles que, naquela cidade, eram pecadores. Mas, porque lá se encontravam muitos crentes, havia também o anjo, verdadeiramente bom, da igreja dos efésios. E é preciso aplicar a todas as províncias o que dissemos a respeito de Éfeso.
Antes da vinda do Senhor Salvador, os anjos tinham um poder bem restrito para ajudar aqueles que lhes eram confiados, seus esforços não eram seguidos de resultados muito significativos.
Que sinal dar desse poder limitado dos anjos que possa ser útil àqueles que lhes são submetidos? Escuta o que dizemos: Quando o anjo dos egípcios ajudava os egípcios, a duras penas um prosélito acreditava em Deus; e isso acontecia com um anjo ocupando-se dos egípcios.
Enfim, muitos dos egípcios e dos idumeus acolhiam a fé em Deus. Por isso a Escritura diz: “Tu não abominarás o egípcio, e o idumeu, porque é teu irmão. Se seus filhos nascerem, até a terceira geração entrarão na igreja de Deus”.
E assim acontecia que de todas as nações apenas alguns se tornavam prosélitos e isso mesmo graças aos esforços dos anjos, que tinham submissas as nações.
Agora, porém, os povos dos que creem acedem à fé em Jesus, e os anjos, a quem  haviam sido confiadas as igrejas, revigorados pela presença do Salvador, conduzem numerosos prosélitos para que sejam congregadas em toda a terra as pequenas comunidades dos cristãos.
Por isso, levantando-nos,louvemos ao Senhor, e, no lugar do Israel carnal, tornemo-nos o Israel espiritual. Bendigamos ao Deus onipotente por obra, pensamento, palavra, em Cristo Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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segunda-feira, 24 de junho de 2019

100 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 11)


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Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 11)


HOMILIA 11 - Lc 1.80-2.2
Sobre o que está escrito: “O menino crescia e se fortificava em espírito”, até aquela passagem que diz: “Esse é o primeiro recenseamento que houve, sendo governador da Síria Quirino”.

O crescimento espiritual
Nas Sagradas Escrituras, há dois tipos de crescimento: um é corporal, quando a vontade humana em nada é útil; o outro é espiritual, quando a causa do crescimento consiste no esforço humano.
O evangelista, então, fala agora desse crescimento, que citamos como segundo, isto é, o espiritual: “O menino, porém, crescia e se fortalecia em espírito”.
É bem o que ele diz: “crescia em espírito”, não ficava na mesma medida em que havia se iniciado, mas sempre crescia nele o espírito e, a cada hora e momento, com o espírito em crescimento, sua alma também recebia incrementos.
E não apenas a alma, mas também o pensamento e a inteligência acompanhavam os progressos do espírito. Não sei como podem explicar o que Deus recomenda, isto é, “crescei e multiplicai-vos”, aqueles que tomam isso no sentido físico e ao pé da letra.
Admitamos, pois, que “multiplicai-vos” se refira ao número, de modo que, quando, em números, se tem mais do que se tinha antes, há multiplicação.
Mas isto que se segue: “crescei”, não está ao nosso alcance. Qual dos homens, com efeito, não quereria “acrescentar à sua estatura” [alguma medida] para se tornar mais alto?
Se, portanto, algo nos é ordenado que se faça – é tolice ordenar aquilo que aquele a quem se ordene não possa cumprir – e nos é ordenado que cresçamos, seguramente nos é ordenado aquilo que podemos cumprir.
Queres saber como se deve entender “crescei”? Escuta o que Isaque fez, do qual se diz: “Isaque progredia e se tornava maior até se tornar grande, e grande em demasia”.
Sempre, pois, a sua vontade, que tendia para as melhores coisas, fazia seus progressos; sua inteligência contemplava algo mais divino e exercitava a memória, para que acumulasse mais riquezas no seu tesouro e as conservasse ali mais fielmente.
E desse modo sucedeu que Isaque, que cultivou todas as suas virtudes no campo da alma, cumpriu o mandamento que consiste em “crescei”.
É por essa razão que também João, ainda pequenino, crescia e se multiplicava; muito difícil, porém, e, entre os mortais, algo muito raro, é um pequenino crescer em espírito.
“O menino, porém, crescia e se fortificava em espírito”. Uma coisa é “crescia” e outra é “fortificava-se”.
A natureza humana é fraca e, para se tornar mais forte, precisa do auxílio divino. Nós lemos: “a carne é fraca”. Com qual auxílio, portanto, deve ser fortificada? Sem dúvida alguma, com o espírito; “pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
Quem quer se tornar mais forte não deve ser fortalecido senão no espírito.
Muitos se fortalecem pela carne, se tornam mais robustos de corpo; porém, o atleta de Deus deve se robustecer pelo espírito e, quando assim estiver fortalecido, ele esmagará a sabedoria da carne e, tendo-se tornado espiritual, submeterá o corpo ao domínio da alma.
Não consideremos que isso que foi escrito sobre João, “crescia e se fortificava em espírito”, seja uma simples história e que não nos diga respeito em nada; mas, sim, que [isso foi escrito] para ser imitado por nós, para que, multiplicados espiritualmente, no sentido que dissemos, realizemos progressos.

João no deserto
“E ele estava no deserto até o dia de sua manifestação diante de Israel”.
Eu disse recentemente o quanto a concepção de João foi extraordinária, visto que “a criança exultou de alegria no ventre de sua mãe” e, antes de ter nascido, reconheceu o seu Senhor; eu mostrei também o milagre não menos grande que foi seu nascimento, quando Zacarias profetiza e dirige a palavra à criança, como se essa estivesse ouvindo, dizendo: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo”.
Depois de tal concepção e tal nascimento, era, pois, normal que João não esperasse ser criado por seu pai e sua mãe “até o dia de sua manifestação diante de Israel”, mas era necessário também que, fugindo do tumulto das cidades, da afluência do povo, dos vícios das cidades, se retirasse nos desertos, onde o ar é mais puro e o céu mais descoberto e Deus mais familiar; para que, como nem o mistério do batismo nem o tempo da pregação haviam chegado, tivesse tempo para as orações e conversasse com os anjos, chamasse pelo Senhor e o ouvisse respondendo e dizendo: “Eis que aqui estou”.
Como “Moisés falava e Deus respondia a ele”, assim creio que João tenha falado no deserto e o Senhor lhe tenha respondido.
Considero, porém, esse pensamento sugerido por uma razão certa, a partir da Escritura. Se, pois, “ninguém dentre os nascidos das mulheres foi maior que João Batista”, e se Deus, porém, respondeu a Moisés, consequentemente respondeu também a João, que foi maior que Moisés, que foi criado no deserto, cujo nascimento foi anunciado por um arcanjo – o mesmo arcanjo que anunciou o do Senhor –, cujo pai se tornou mudo por não acreditar que ele nasceria.
João estava, pois, “no deserto” e se alimentava de uma maneira nova e segundo um costume extra-humano, segundo o que nos lembra  próprio [São] Mateus: “seu alimento, porém, eram gafanhotos e mel silvestre”.
Porque João foi, pois, o ministro da primeira vinda do Salvador, e porque ele falava unicamente da economia da Encarnação do Senhor, porque sua profecia celebrava aquele que havia nascido de uma virgem, ele não tomou um mel que vinha de abelhas e purificado pelo cuidado dos homens, mas um mel silvestre.
E o inseto voador, do qual ele fazia seu alimento, não era um inseto grande, que não se elevava ao alto, mas um inseto pequeno e que a custo se levantava do chão e saltava mais do que voava. O que dizer a mais?
É dito muito claramente que os gafanhotos, animais pequeninos e limpos, foram sua comida. Considerai, pois, irmãos caríssimos, que, de uma maneira nova havia nascido, também de uma maneira nova foi alimentado.

O recenseamento do mundo inteiro
Depois disso, a Escritura continua: “Aconteceu que, naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto, que se fizesse o recenseamento do mundo inteiro. Esse foi o primeiro recenseamento, sendo Quirino o governador da Síria”.
Alguém diria ao evangelista: “que proveito há para mim nessa narrativa, que o primeiro recenseamento de todo o universo, no tempo de César Augusto aconteceu, e que, entre todos, também José, com a sua esposa grávida, Maria, inscrevia seu nome no censo e, antes que o recenseamento termine, Jesus tenha nascido”?
Para quem olha de mais perto, esses acontecimentos parecem significar certo mistério, porque Cristo também deveria ser contado na enumeração do universo inteiro, pois queria ser inscrito com todos para santificar a todos, e ser mencionado no registro com o mundo inteiro, para oferecer ao universo viver em comunhão com ele; ele queria, depois desse recenseamento, recensear também todos os homens consigo “no livro dos viventes”, e todos os que tiverem acreditado nele, “inscrevê-los nos céus”, com os santos daquele “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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segunda-feira, 10 de junho de 2019

99 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 9,10)


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99
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 9,10)


HOMILIA 9
Lc 1,56-64- Sobre o que está escrito: “Permaneceu junto a ela por três meses”, até aquela passagem que diz: “E falava, bendizendo a Deus”.

Transformação operada nas almas pela presença de Jesus
A razão, tanto dos ditos quanto dos fatos reportados [nas Escrituras], deve ser digna do Espírito Santo e da fé no Cristo, para a qual fomos chamados como crentes.
Assim, devemos, agora, investigar a razão pela qual Maria, depois de haver concebido, veio para junto de Isabel e “permaneceu junto a ela por três meses”; ou qual foi a causa para que Lucas, que escrevia a história do Evangelho, inserisse nesse este versículo: “permaneceu por três meses, e depois regressou à sua casa”.
Seguramente deve haver  alguma razão, a qual, se o Senhor abrir nosso coração, a homilia que se segue mostrará.
Se, de fato, bastou que Maria viesse até Isabel e a saudasse, para que a criança exultasse de júbilo, e Isabel, cheia do Espírito Santo, profetizasse o que está escrito no Evangelho, e se, em uma hora apenas, tantas transformações ocorressem, resta, para a nossa reflexão, [verificar] quais progressos fez João em três meses, estando Maria junto de Isabel.
É verdadeiramente inconcebível que por três meses nem João nem Isabel tenham feito progressos com a proximidade da mãe do Senhor e com a presença do próprio Salvador, quando, em um segundo, instantaneamente, a criança exultou e, por assim dizer, pulou de alegria, e Isabel foi repleta do Espírito Santo.
Durante esses três meses, João era, pois, treinado e recebia, por assim dizer, a unção na arena dos atletas, e era preparado no ventre da mãe, para que, maravilhosamente nascido, fosse educado mais maravilhosamente ainda.
Porque foi educado de um modo inabitual, a Escritura não relata como ele foi amamentado pelos seios de sua mãe, [nem] como ele foi sustentado nos braços de uma criada, mas imediatamente [diz o que] se segue: “Ele viveu no deserto, até o tempo de sua apresentação a Israel”.

O nascimento de um justo
Depois, lemos: “Para Isabel, porém, o tempo de dar à luz completou-se, e ela deu à luz um filho”. Muitos consideram supérfluo dizer: “Para Isabel, porém, o tempo de dar à luz completou-se, e ela deu à luz um filho”.
Qual mulher, com efeito, pode dar à luz, se não tiver completado o tempo do parto? Mas aquele que medita com muito cuidado a Escritura e ouve [São] Paulo, que diz: “Presta atenção na leitura”, pode procurar, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, se em alguma parte encontra escrito sobre o nascimento de um pecador; nunca absolutamente encontrará que “completou-se o tempo para que desse à luz”.
Mas onde quer que nasça um justo, aí os dias se completam, lá sua vinda para o mundo se completa.
O nascimento de um justo tem sua plenitude, mas o nascimento do pecador é, por assim dizer, vazio e nulo. Isso é o que se refere ao que está escrito: “completou-se o tempo, para que desse à luz”.

Zacarias recobra a voz
Em seguida, depois do nascimento de João, “vizinhos e parentes alegravam-se” com a mãe dele e, em honra do pai, queriam dar o nome dele ao menino e chamá-lo de Zacarias.
Ora, Isabel, sob inspiração do Espírito Santo, dizia: “João é seu nome”. Em seguida, quando eles buscavam os justos motivos pelos quais seria melhor que ele fosse chamado de João, quando ninguém em sua família tinha esse nome, interrogaram ao pai, que, sendo incapaz de responder, o fez com um gesto com a mão e por escrito.
“Ele escreveu”, com efeito, numa tabuinha: “João é seu nome”. Assim que o estilete imprimiu a palavra sobre a cera, “sua língua”, que antes fora acorrentada, “soltou-se” e recebeu uma elocução que não era humana.
Enquanto sua língua esteve presa, era humana; a incredulidade, com efeito, a havia prendido. Assim que se soltou, cessou de ser humana, e “falava bendizendo a Deus” e profetizou o que está escrito no Evangelho, sobre o qual, quando for o tempo, discorreremos, oferecendo-nos a ocasião o Senhor Jesus Cristo: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

HOMILIA 10
Lc 1,67-76 - Sobre o que está escrito: “Cheio do Espírito Santo, ele profetizou”, até aquela passagem que diz: “Pois tu irás adiante do Senhor, para preparar seus caminhos”.

O Benedictus
Cheio do Espírito Santo, Zacarias anuncia duas profecias de modo geral, a primeira sobre o Cristo, a outra sobre João. Isso claramente se confirma por suas palavras, nas quais fala de um Salvador como já presente e que viveria no mundo e, em seguida, de João.
 “Cheio do Espírito Santo, ele profetizou dizendo: ‘Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e concedeu redenção a seu povo’”.
Estando Deus visitando e querendo redimir seu povo, Maria permaneceu com Isabel por três meses, depois que lhe falou o anjo, para que, por um poder especialmente inefável, o Salvador presente preparasse não somente João, como dissemos da última vez, mas também Zacarias, como o Evangelho de hoje nos mostra.
Paulatinamente, de fato, também ele progredia durante esses três meses sob a influência do Espírito Santo e, sem o sentir, recebia a instrução de Deus e fez essa profecia acerca do Cristo, dizendo: “Que concedeu a redenção a seu povo, e suscitou o cume de salvação para nós na casa de Davi”, porque “da raça de Davi segundo a carne” nasceu o Cristo. Em verdade foi “o cume da salvação na casa de Davi”, porque esta profecia já se encontra cantada: “A vinha foi plantada em um cume”.
Em qual cume? Em Cristo Jesus, sobre o qual agora está escrito: “Ele suscitou o cume da salvação para nós na casa de Davi, seu servidor, como foi falado pela boca dos seus santos profetas”.

A libertação
“Para a libertação de nossos inimigos”. Não pensemos que se trata agora de inimigos  no sentido físico, mas dos inimigos espirituais. Veio, com efeito, o Senhor Jesus, “forte no combate”, destruir todos os nossos inimigos, para nos libertar de suas armadilhas; [para nos libertar] da mão de todos os nossos inimigos, “da mão de todos os que nos odeiam”.
“Usar de misericórdia com nossos pais”. Eu considero que, com o advento do Senhor Salvador, Abraão, Isaque e Jacó tenham usufruído da misericórdia de Deus.
É inacreditável que esses homens, que previamente viram o seu dia e se alegraram, posteriormente, na sua vinda e com o [seu] nascimento de uma virgem, não tenham recebido nada de útil.
E o que direi dos patriarcas? Seguindo a autoridade das Escrituras, audaciosamente subirei ao ponto ainda mais alto, porque a presença do Senhor Jesus e a sua Encarnação tiveram proveito não só para as coisas terrenas, mas também para as celestes.
Por isso diz o Apóstolo [Paulo]: “Estabelecendo a paz, pelo sangue de sua cruz, sobre a terra e nos céus”.
Se a presença do Senhor, porém, foi útil, seja na terra, seja nos céus, por que temes em dizer que seu advento também foi útil aos Patriarcas, a fim de que fosse cumprida esta palavra: “Para usar de misericórdia com nossos pais, e recordar-se de sua santa aliança, do juramento feito a Abraão nosso pai”, de nos conceder sermos libertados “sem medo da mão de nossos inimigos”?
Frequentemente homens são liberados da mão de [seus] inimigos, mas não “sem medo”. Pois, quando primeiramente houve medo e perigo, e, assim, alguém tiver sido libertado da mão de seus inimigos, certamente foi libertado, mas não sem temor.
Assim, a vinda do Senhor Jesus nos libertou, “sem medo da mão de nossos inimigos”. Com efeito, não conhecemos nossos inimigos e não os vimos nos atacar, mas, sem o saber, de repente, fomos arrancados de suas armadilhas e de suas ciladas.
“Em um segundo e instantaneamente”, introduziu-nos na “herança e partilha dos justos” e fomos libertados “sem medo da mão dos inimigos, para servir a Deus na santidade e justiça perante ele todos os dias de nossa vida”.

A grandeza do precursor
“E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo”. Em minha mente indago [sobre] a razão por que Zacarias profetiza não como se falasse de João, mas ao próprio João: “e tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo”, e a sequência.
De fato, era supérfluo dirigir-se a quem não ouvia e fazer uma apóstrofe a um pequenino e
em lactação.
[Mas] penso que posso ter encontrado esta razão: porque tudo o que foi escrito a seu respeito relata feitos maravilhosos: João maravilhosamente nasceu e, com o anúncio de um anjo, veio ao mundo; depois de Maria ter estado morando na casa de Isabel por três meses, foi posto no mundo.
Porque, se duvidas que aquele imediatamente posto no mundo possa ouvir as palavras do pai e saber o que elas sejam – porque a ele é dito: “e tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo” –, considera que foram muito mais maravilhosos os acontecimentos anteriores: “eis que a voz da tua saudação mal chegou aos meus ouvidos e a criança exultou em júbilo em meu ventre”.
Se, com efeito, até aqui encerrado no ventre da mãe, ouviu Jesus e, ouvindo-o, exultou e alegrou-se, por que não crer que ele, uma vez nascido, tenha podido ouvir e compreender a profecia do pai que lhe diz: “e tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo; pois irás adiante do Senhor para preparar seus caminhos?”.
Eu penso que Zacarias se apressou para falar com o pequenino, porque sabia que, pouquíssimo tempo depois, iria viver no deserto, e que não poderia mais ter a presença dele. “Com efeito, a criança vivia no deserto até o dia de sua manifestação para Israel”.
Também Moisés morou no deserto, mas depois de completar quarenta anos de idade; fugiu do Egito e, durante outros quarenta anos, guardou os rebanhos de Jetro.
João, pelo contrário, assim que nasceu, passou a viver no deserto e aquele que “foi o maior entre os nascidos das mulheres”, pareceu digno de uma educação mais elevada. É dele que fala o profeta: “eis que envio meu anjo diante de tua face”.
Com razão, é chamado anjo aquele que fora enviado adiante do Senhor e pôde ouvir e compreender, assim que nasceu, o pai que profetizava. Por isso, nós que acreditamos em tantas coisas maravilhosas, creiamos igualmente na ressurreição, creiamos também nas promessas do reino dos céus, que devem se cumprir e que o Espírito Santo nos garante quotidianamente.
Receberemos tudo isso, que está escrito de modo maravilhoso, mais do que podemos perceber, em Cristo Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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segunda-feira, 3 de junho de 2019

98 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 8)


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98
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 8)


HOMILIA 8
Lc 1,46-51 - Sobre o que está escrito: “Minha alma engrandece o Senhor”, até aquela passagem, onde se lê: “Para aqueles que o temem estendeu seu poder”.

O Magnificat
Antes de João, Isabel profetiza; antes do nascimento do Senhor Salvador, Maria profetiza. E como o pecado começou com o erro de uma mulher, para desembocar depois em um homem, assim também o princípio da salvação teve seu começo com as mulheres, a fim de que outras mulheres também, superada a fragilidade de seu sexo, imitem a vida e a conduta daquelas santas mulheres, sobretudo daquelas que agora são descritas no Evangelho.
Vejamos, pois, a profecia da Virgem. Ela diz: “A minha alma engrandece o Senhor, exultou de alegria o meu espírito em Deus, meu Salvador”. Duas realidades, a alma e o espírito, se unem em um duplo louvor.
A alma celebra o Senhor, o espírito, a Deus: não que um seja o louvor do Senhor e outro o louvor de Deus, mas porque aquele que é Deus é o mesmo que também é o Senhor, e aquele que é o Senhor é o mesmo que também é Deus.

A imagem de Deus
Pergunta-se como a alma engrandece o Senhor. Com efeito, se o Senhor não pode receber nem acréscimo nem diminuição, e se ele é o que é, em que medida pode Maria dizer: “Minha alma engrandece o Senhor”?
Se considero que o Senhor Salvador é a “imagem do Deus invisível” e vejo que minha alma foi feita “à imagem do Criador”, de modo que seja imagem da imagem – minha alma, com efeito, não é expressamente a imagem de Deus, mas foi criada à semelhança da primeira imagem – então compreenderei isto: a exemplo daqueles que costumam pintar imagens e utilizar o exercício de sua arte para reproduzir um modelo único, por exemplo, o rosto de um rei, cada um de nós transforma sua alma à imagem do Cristo, e traça dele uma imagem maior ou menor, ou deteriorada ou sórdida, ou clara e reluzente, correspondendo à efígie da imagem principal.
Quando, pois, tiver ampliado a imagem da imagem, isto é, minha alma, e a tiver “engrandecido” por minhas obras, meus pensamentos e minhas palavras, então a imagem de Deus se tornará grande e o próprio Senhor, de quem é a imagem, será engrandecido em nossa alma. Do mesmo modo que o Senhor cresce em nossa imagem, igualmente se formos pecadores, ela diminui e decresce.
Mas certamente o Senhor nem diminui nem decresce; mas nós, no lugar de imagem do Senhor, nos revestimos de outras imagens; no lugar de imagem do verbo, da sabedoria, da justiça e de outras virtudes, tomamos a forma do diabo, a ponto de que se possa dizer de nós: “serpentes, raça de víboras”.
Mas revestimos a máscara do leão, do dragão e das raposas, quando somos venenosos, cruéis, astutos; e também revestimos a do bode, quando somos mais inclinados à luxúria.
Eu me lembro de um dia estar explicando uma passagem do Deuteronômio, em que está escrito: “Não façais nenhuma imagem de homem ou de mulher, a imagem de nenhum animal”, que eu disse, porque a “Lei é espiritual”, que uns se fazem imagem de um homem, outros de uma mulher; que um se parece com os pássaros, que outro com os répteis e serpentes e um outro se torna semelhante a Deus. Aquele que as ler, saberá como estas palavras devem ser entendidas.

A humildade da Virgem
Assim a alma de Maria primeiramente “engrandece o Senhor” e depois “o espírito exulta em Deus”; se nós não tivermos crescido antes, não podemos exultar.
Ela diz: “Ele voltou os olhos para a humildade de sua serva”. Para qual humildade de Maria o Senhor voltou os olhos?
O que tinha a mãe do Salvador de humilde e de abjeto, que gerava o Filho de Deus no ventre? O que, portanto, disse: “voltou os olhos para a humildade de sua serva”, é tal como se dissesse: “voltou os olhos para a justiça de sua serva”, “voltou os olhos para a sua temperança”, “voltou os olhos para a sua fortaleza e a sua sabedoria”.
De fato, é normal que Deus volte seus olhos para as virtudes. Alguém objetará e dirá: “entendo como Deus volte seus olhos para a justiça e sabedoria de sua serva. Como, porém, ele pode prestar atenção na humildade, não me é claro o suficiente”.
Quem se faz tais perguntas, considere que precisamente nas Escrituras a humildade é considerada como uma das virtudes.
O Salvador, com efeito, diz: “Aprendei de mim porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis o repouso para vossas almas”.
Porque, se queres ouvir o nome dessa virtude, como também é chamada pelos filósofos, escuta que a humildade, para a qual Deus volta os olhos, é a mesma que é chamada por eles de “atyphía” ou de “metriótes”.
Mas nós podemos defini-la em uma perífrase: é o estado de um homem que não se enche de orgulho, mas se abaixa ele próprio. Quem, pois, se enche de orgulho, segundo o Apóstolo, cai “na condenação do diabo” – que, precisamente, começou pelo inchaço do orgulho e da soberba –; ele diz: “a fim de que não caia inchado de orgulho na condenação do diabo”.
“Ele voltou os olhos sobre a humildade de sua serva”. Deus me olhou, disse ela, porque eu sou humilde e busco a mansidão e a sujeição.

Grandeza de Maria
“Eis que doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. Se compreendo a expressão “todas as gerações” segundo o sentido mais simples, a interpreto a respeito dos que creem. Mas se eu a perscrutar mais profundamente, perceberei que é preferível acrescentar “porque quem é poderoso fez por mim grandes coisas”; porque “todo aquele que se humilha será exaltado”.
Mas “Deus voltou os olhos para a humildade” da bem-aventurada Maria, por isso o “Todo-poderoso, cujo nome é santo, realizou grandes coisas” para ela.
“E sua misericórdia se estende de geração em geração”. E não é sobre uma, duas, três nem mesmo cinco gerações que se estende “a misericórdia” de Deus, mas eternamente, “de geração em geração. Para os que o temem, ele estendeu o poder de seu braço”.
Se mesmo como enfermo te aproximares do Senhor, se o temeres, poderás ouvir sua promessa, que o Senhor te faz por causa de teu temor.
Que promessa é essa? “Para os que o temem, ele estendeu o poder”. O poder ou o império é um domínio real. De fato, “krátos”, que nós podemos traduzir por “poder”, se aplica àquele que governa ou àquele que tem tudo sob seu domínio.
Se, pois, temeres ao Senhor, ele te dará a fortaleza ou o poder, te dará o Reino, de modo que, submetido ao “Rei dos reis”, possuas o “reino dos céus” em Cristo Jesus: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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