terça-feira, 3 de setembro de 2019

109 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 20)


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109
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 20)


HOMILIA 20 - Lc 2.49-51
Sobre o que está escrito: “Por que me procuráveis?” até aquela passagem que diz: “Maria conservava todas essas palavras em seu coração”.

Jesus reencontrado
Maria e José procuravam Jesus “entre os parentes” e não o encontravam, procuravam “entre os companheiros de viagem” e não puderam encontrá-lo.
Fizeram uma busca “no templo” e não simplesmente “no templo”, mas “junto dos mestres”; de fato, é “no meio dos mestres” que eles o encontram.
Onde quer que os mestres estiverem, aí, “no meio dos mestres”, Jesus é encontrado, a menos que o mestre se assente “no templo” e nunca saia dele.
Jesus prestou serviço a seus mestres, e ensinou aqueles que ele parecia interrogar, falando “no meio deles” e, de certo modo, os estimulava a buscar o que eles ignoravam e a descobrir o que, até essa passagem, eram incapazes de saber se conheciam ou se ignoravam.
Jesus é, pois, encontrado “no meio dos mestres” e, uma vez encontrado, ele diz àqueles que o procuravam: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar na casa de meu Pai?”.
Atendo-nos primeiramente ao sentido mais simples, armemo-nos contra os ímpios hereges que afirmam que nem o Criador, nem o Deus da Lei e dos profetas é o Pai do Cristo.
Eis que é uma asserção que o Pai de Cristo é o Deus do templo. Que se envergonhem de confusão os valentinianos ouvindo Jesus, que diz: “eu devo estar na casa de meu Pai”.
Que se envergonhem todos os hereges que admitem o Evangelho segundo Lucas e desprezam o que nele se acha escrito. Que estas palavras sejam compreendidas do modo mais simples, como eu disse.

A casa do Pai
Mas, visto que o texto traz: “Eles não entenderam, porém, o discurso”, escrutemos com mais cuidado o sentido da Escritura. Eles eram desprovidos de inteligência e sabedoria a ponto de não saber o que Jesus queria dizer – porque estas palavras, “devo estar na casa de meu Pai”, significavam “estar no templo”?
Ou então essas palavras têm um sentido mais profundo e que edificaria mais os ouvintes?
Cada um de nós, se é bom e perfeito, pertence a Deus Pai. E assim, de modo geral e a respeito de todos os homens, o Salvador nos ensinou que ele não deve estar em outra parte senão entre aqueles que pertencem ao Pai.
Se algum de vós pertence a Deus Pai, possui Jesus em seu meio. Tenhamos, pois, fé na palavra de Jesus: “Eu devo estar na casa de meu Pai”. Eu imagino que há este templo de Deus mais espiritual, mais vivo e mais verdadeiro que o templo construído a título de símbolo, pela mão dos homens.
Assim, como naquele templo Jesus esteve presente simbolicamente, sua saída também foi simbólica. “Ele saiu do templo” terrestre dizendo: “Eis vossa casa abandonada e deserta”, e, deixando aquela casa, ele se foi para o domínio de Deus Pai, as igrejas dispersas sobre toda a superfície da terra, e diz: “Eu devo estar na casa de meu Pai”.
Portanto, “não entenderam a palavra que lhes foi dirigida”.
Prestai atenção, ao mesmo tempo, [também] nisto: enquanto esteve no domínio de seu Pai, ele estava nas alturas.
E porque José e Maria ainda não tinham uma fé inteira, por esta razão não podiam permanecer com ele nas alturas, mas é dito que “ele desceu com eles”.
Frequentemente Jesus desce com seus discípulos, e não vive sempre na montanha e não ocupa indefinidamente os cumes.
Na montanha, está com Pedro, com Tiago e com João, e novamente em outro lugar com outros discípulos. E como aqueles que sofriam de várias enfermidades não tinham a força de subir a montanha, por esta razão “ele desceu e veio” até eles, que moravam embaixo.
Agora também está escrito: “Ele desceu com eles, veio a Nazaré e lhes era submisso”.

A submissão de Jesus
Aprendamos, filhos, a ser sujeitos a nossos pais: o maior se submete ao menor, que, porque via que José tinha idade maior que a dele, o honrou, por isso, com o respeito de pai, dando a todos os filhos o exemplo para que se submetessem aos pais e, se não houvesse pais, se submetessem àqueles que têm a honra de pais.
Por que falar de pais e filhos? Se Jesus, Filho de Deus, se submete a José e a Maria, eu não me submeteria ao bispo, que foi constituído pai para mim por Deus? Não me submeteria ao presbítero, que para mim foi preposto pela eleição do Senhor?
Penso que José compreendia que Jesus lhe era superior sendo-lhe submisso e, conhecendo a superioridade de seu inferior, José lhe ordenava com receio e medida.
Que cada um, então, reflita sobre isto: frequentemente um homem de menor valor é colocado acima de pessoas melhores que ele, e acontece algumas vezes que o inferior tem mais valor que aquele que parece lhe ser preposto.
Quando o mais elevado em dignidade tiver compreendido isso, ele não se inchará de soberba, por ser superior, mas saberá, assim, que o submisso pode ser melhor que ele, como Jesus também foi sujeito a José.

Os progressos de Jesus
Novamente, o texto prossegue: “Maria, porém, conservava todas essas palavras em seu coração”.
Ela suspeitava de que havia aí algo além do meramente humano.
Assim também “conservava em seu coração todas as palavras de Jesus”, não como de um menino que tivesse doze anos, mas daquele que fora concebido do Espírito Santo, daquele que ela via “progredir em sabedoria e em graça aos olhos de Deus e dos homens”.
Jesus “progredia em sabedoria” e, de idade em idade, ele parecia mais sábio.
Então ele não era sábio, para progredir em sabedoria? Ou então “porque ele se aniquilara, tomando a forma de escravo”, retomava o que havia perdido e se enchia de virtudes que parecera abandonar anteriormente, tendo assumido um corpo humano?
“Ele progredia”, pois, não somente em “sabedoria”, mas “em idade”. Pois existe também um progresso em idade.
A Escritura nos fala de duas espécies de idade, uma do corpo, que não depende de nós, mas de uma lei da natureza; outra da alma, que propriamente está em nosso poder e segundo a qual, se quisermos, crescemos quotidianamente.
Crescemos até chegarmos à perfeição, “ao ponto de não sermos mais pequeninos e flutuantes, rodando em círculo a todo vento de doutrina”.
Cessando de ser “pequeninos”, comecemos a ser homens adultos e possamos dizer: “quando me tornei um homem, fiz desaparecer as coisas que eram de criança”.
O progresso dessa idade, que redunda em crescimento da alma, está em nosso alcance. Se esse primeiro testemunho não basta, tomemos outro exemplo de [São] Paulo, que diz: “Até que tenhamos todos chegado ao estado de homem perfeito, na força da idade que realiza a plenitude do corpo de Cristo”.
Está, portanto, em nosso poder que cheguemos à medida do corpo de Cristo.
E, se está em nosso poder, esforcemo-nos com todo afinco em despojar a criança e destruí-la e ter acesso às demais idades, para que possamos, nós também, ouvir: “Tu irás em paz, junto a teus pais, tendo vivido uma feliz velhice”, velhice espiritual certamente, que verdadeiramente é a boa velhice, encanecendo e chegando até o fim em Cristo Jesus: “a quem pertencem o poder e a glória nos séculos dos séculos. Amém”.

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terça-feira, 27 de agosto de 2019

108 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 19)


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108
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 19)


HOMILIA 19 - Lc 2.40-46
Novamente sobre o que está escrito: “O menino crescia e fortalecia-se” até aquela passagem em que ele interroga os anciãos no templo.

A divindade de Jesus
Porque alguns, que parecem crer na Santa Escritura, negam a divindade do Salvador com relação, dizem esses alguns, à glória do Deus onipotente, parece-me justo que recebam, pela autoridade das próprias Escrituras, o ensinamento de que algo divino veio para um corpo humano; e não somente para um corpo humano, mas para uma alma também humana.
Aliás, se consideramos com cuidado o sentido das Escrituras, aquela alma teve algo a mais que as outras almas dos homens, pois toda alma humana, antes de chegar à virtude, encontra-se manchada pelos vícios.
Ora, a alma de Jesus nunca foi maculada pela impureza do pecado.
Porquanto, antes que tenha chegado ao décimo segundo ano de idade, o Espírito Santo escreve sobre ele no Evangelho de [São] Lucas: “O menino crescia, porém, e fortificava-se e estava cheio de sabedoria”.
A natureza dos homens não recebe isto, que antes dos doze anos esteja repleto de sabedoria.
Uma coisa é ter uma parte de sabedoria, outra coisa é estar repleto de sabedoria.
Logo, não duvidemos de que algo divino tenha aparecido na carne de Jesus que ultrapassava não somente o homem, mas também toda criatura racional.
“Ele crescia”, diz [o Evangelho]. “Ele tinha se humilhado, com efeito, tomando a forma do escravo” e, pela mesma virtude, com a qual “tinha se humilhado”, cresce.
Ele tinha aparecido fraco, porque tinha tomado um corpo fraco e, por isso, recobrava a força. O Filho de Deus “tinha se aniquilado” e, por isso, ele está de novo repleto de sabedoria.
“E a graça de Deus estava sobre ele.” Não estava sobre [só] quando chegou à adolescência, não [só] quando ensinava publicamente; mas já desde que era ainda pequenino tinha a graça de Deus; e, como todas as coisas nele tinham sido admiráveis, sua infância foi também admirável, a tal ponto que possuía em plenitude a sabedoria de Deus.

Jesus fica no templo
“Seus pais iam, portanto, segundo o costume, a Jerusalém para a solenidade do dia da Páscoa. Quando o menino completou doze anos.”
Observa bem que, antes do seu décimo segundo ano, ele já possuía em plenitude a sabedoria de Deus e os outros dons que lhe são atribuídos na Escritura.
Portanto, conforme dissemos, como fosse o seu décimo segundo ano e, segundo o costume, os dias da solenidade tivessem expirado e os pais voltassem, “o menino ficou em Jerusalém, sem que seus pais soubessem”.
Há aí, compreende-o, algo mais sublime do que a natureza humana é capaz de apreender.
Não basta, pois, simplesmente dizer “ele ficou” e seus pais ignoravam onde estava.
Mas conforme está escrito no Evangelho de [São] João, quando escapou do meio deles e não apareceu, no momento em que os judeus lhe punham em armadilha, também agora acredito que o menino ficou em Jerusalém assim e que seus pais ignoravam onde ele tinha ficado.
Não nos admiremos que tenham sido chamados pais os que mereceram o título de pai e mãe, um por sua maternidade e outro pelos serviços prestados.

A procura de Jesus
O texto continua: “Nós te procurávamos dolorosamente”.
Não penso que eles se condoíam por acreditar que o menino vagasse sem rumo ou tivesse morrido.
E não podia suceder que Maria temesse que seu filho se perdesse vagando sem rumo, ela que sabia que concebera pelo Espírito Santo, que ouvira o anjo lhe falar, e os pastores correndo e Simeão profetizando.
Afasta absolutamente essa interpretação também a respeito de José, que recebera do anjo o preceito de tomar o menino e se encaminhar para o Egito, que ouvira estas palavras: “Não temas em tomar Maria por esposa, pois o que nela nasceu é o fruto do Espírito Santo”.
Nunca poderia acontecer que ele temesse que a criança, que ele sabia ser divina, estivesse perdida.
O sofrimento dos pais e as perguntas que se fazem nos sugerem um sentido diferente daquele que o leitor comum concebe.
[Esse sofrimento é] como quando tu, se lês às vezes as Escrituras, buscas nelas um sentido com certa dor e tormento, não porque consideres que as Escrituras tenham se enganado ou contenham asserções falsas, mas porque elas contêm intrinsecamente a linguagem e a razão da verdade, cujo sentido tu não podes descobrir, mas que, entretanto, é o verdadeiro.
Assim Maria e José buscavam a Jesus, temendo que por acaso tivesse se apartado deles, temendo que, deixando-os, tivesse transmigrado a outros lugares e – o que mais creio – que retornasse aos céus para novamente de lá descer quando lhe aprouvesse.
“Dolorosamente”, portanto, buscavam o Filho de Deus. E como buscavam, não o encontraram “entre os parentes”.
E não podia o parentesco humano reter o Filho de Deus. Não o encontraram entre os conhecidos, porque a virtude divina era maior que o conhecimento e a ciência mortal.
Onde, então, o encontram? No templo; aí é encontrado, de fato, o Filho de Deus. Se um dia também tu buscares o Filho de Deus, busca primeiramente o templo, para lá apressa-te; aí encontrarás o Cristo, a Palavra e a Sabedoria, isto é, o Filho de Deus.

Sabedoria de Jesus
Porque ele era um pequenino, é encontrado “no meio dos mestres”, santificando-os e instruindo-os.
Porque era um pequenino, é encontrado “no meio deles”; não lhes ensinava, mas “os interrogava”.
E nisso, segundo as obrigações de sua idade, ele nos ensinava o que convém às crianças: ainda que sejam sábios e instruídos, que escutem seus mestres antes de desejarem ensinar, e não se jactem por uma vã ostentação.
Ele interrogava, digo, os mestres, não para que aprendesse algo, mas para que instruísse, interrogando.
Interrogar e responder com sabedoria emanam de uma só e mesma fonte de doutrina; e é a marca de uma mesma ciência saber o que interrogas ou o que respondes.
Foi necessário que primeiramente o Salvador se tornasse mestre da interrogação instruída, para que posteriormente respondesse às interrogações, segundo a razão e a Palavra de Deus, “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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terça-feira, 13 de agosto de 2019

107 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 18)


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107
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 18)


HOMILIA 18 - Lc 2.40-49
Sobre o que está escrito: “O menino crescia e se fortificava” até aquela passagem que diz: “Não sabeis que eu devo estar na morada de meu pai?”

O crescimento de Jesus
Nasceu meu Senhor Jesus, seus pais subiram a Jerusalém, para cumprir as prescrições da Lei e oferecer para ele um casal de rolas ou dois filhotes de pombas.
Simeão o segurou em seus braços, como se leu há pouco, e pronunciou a seu respeito as profecias que a história narra.
E depois que tudo se cumpriu segundo o costume, os pais voltaram.
Qual era então a idade de Jesus? Ele era ainda pequenino, porém, “crescia, fortificava-se e estava cheio de sabedoria e graça”. Ele não tinha ainda cumprido os quarenta dias de purificação, ele não tinha ainda vindo a Nazaré, e já recebia a sabedoria em plenitude.
A Escritura pôde dizer: “ele crescia e fortificava-se e recebia o Espírito”. Mas porque “ele tinha se aniquilado tomando a forma de escravo”, assim que foi oferecido o sacrifício para sua purificação, recuperou plenamente aquilo de que se tinha esvaziado; não que ele tenha começado a crescer repentinamente, mas que demonstrava alguma maior santidade, segundo estas palavras da Escritura: “o menino crescia, porém, e fortalecia-se, e estava cheio de sabedoria”.
Procuremos, se existe, outra passagem da Escritura em que se tenha escrito sobre o menino que “crescia e se fortalecia”, para que, a partir do cotejo de vários textos, consigamos compreender o que é dito a mais no caso de Nosso Senhor.
obre João [batista], lemos: “o menino, porém, crescia e fortificava-se”, e o texto não acrescenta: “ele estava cheio de sabedoria”, mas “ele se fortificava em espírito”.
Lucas diz aqui sobre o Senhor: “ele crescia, fortificava-se, estava cheio de sabedoria e a graça de Deus estava sobre ele”. Todas essas palavras foram ditas sobre o menino, que não tinha ainda completado doze anos.
Mas, tendo doze anos, ele permanece em Jerusalém. Seus pais, sem saber onde estava, procuram-no com inquietude e não o encontram. Procuram entre seus parentes próximos; procuram entre a comitiva; procuram entre os conhecidos, e entre todos esses não o localizam.
Jesus é buscado, pois, por seus pais, pelo pai, que tinha sido seu pai nutridor e o tinha acompanhado quando descia para o Egito. Entretanto, eles não o encontram imediatamente.
De fato, Jesus não se encontra entre seus parentes e seus próximos segundo a carne; não se encontra entre os de sua família carnal.
Meu Jesus não pode ser encontrado entre a comitiva de muitos.

Onde encontrar Jesus?
Aprende, pois, onde o encontraram os que o procuravam, para que também tu, que buscas com José e Maria, o encontres.
E aqueles que buscavam, diz [o evangelista], “encontraram-no no templo”. Não em qualquer outro lugar, mas “no templo”, e não simplesmente “no templo”, mas “no meio dos doutores que ele escutava e que ele interrogava”.
Tu também, então, procura, pois, Jesus “no templo” de Deus; procura na Igreja; procura junto aos mestres que estão “no templo” e que dele não saem.
Se assim, pois, o procurares, encontrá-lo-ás. Além disso, se alguém se diz um mestre e não possui Jesus, só possui o título de mestre, e por isso não se pode encontrar Jesus, Verbo de Deus e Sabedoria, junto a tal mestre.
Jesus foi encontrado, diz [São Lucas], “no meio dos doutores”. Segundo outra passagem da Escritura a respeito dos profetas, assim compreende o que aqui isto, “no meio dos doutores”, quer dizer: “Se aquele que está sentado tem uma revelação, diz o Apóstolo, que o primeiro se cale”.
Eles o encontram “sentado no meio dos doutores”, e não somente “sentado”, mas “interrogando-os e ouvindo-os”.
E agora Jesus está presente: ele nos interroga e escuta-nos falar. “E todos ficavam admirados”, diz [Lucas]. O que “admiravam”? Não suas perguntas, que, entretanto, eram admiráveis em si mesmas, mas “suas respostas”.
Interrogar é uma coisa, responder é outra coisa.
Jesus questionava os mestres e, porque algumas vezes eles não podiam responder, ele próprio respondia às suas próprias perguntas.
“Responder” não quer dizer alternância de turnos em uma conversação, mas significa, na Sagrada Escritura, um ensinamento.
Possa a Lei divina te ensinar isso. “Moisés falava e Deus lhe respondia por uma voz”.
Por esse tipo de resposta, o Senhor ensinava a Moisés o que este ignorava. Algumas vezes Jesus interroga; algumas vezes responde; e, como dissemos acima, ainda que sejam admiráveis suas perguntas, suas respostas, porém, são ainda muito mais admiráveis.
Para que possamos ouvi-lo, e para que nos faça perguntas que ele próprio resolverá, supliquemos-lhe, empreguemos um esforço intenso e doloroso para procurá-lo, e então poderemos encontrar aquele a quem procuramos. Não é em vão, pois, que está escrito: “Eu e teu pai dolorosamente te procurávamos”.
É necessário, com efeito, que aquele que busca Jesus não o faça com negligência e moleza, de maneira intermitente, como o fazem alguns e, por isso, não o encontram. Nós, porém, digamos: “Dolorosamente te procuramos”.
E quando tivermos dito isso, ele responderá e dirá à nossa alma, que se esforça e dolorosamente procura: “Não sabeis que eu devo estar na morada de meu pai?”
Onde estão os hereges, onde estão os ímpios e os insensatos que afirmam que a Lei e os Profetas não dependem do Pai de Jesus Cristo?
É certo que Jesus estava no templo, que foi construído por Salomão, e ele confessa que aquele templo é de seu pai, que ele nos revelou e de quem ele diz ser o Filho. Que nos respondam: como um é o Deus bom e o outro o Deus justo?
Porque o Salvador é o filho do Criador, louvemos em comum o Pai e o Filho de quem dependem a Lei e o templo e “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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Como ele serve para sua espiritualidade?


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

106 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 17)


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106
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 17)


HOMILIA 17 - Lc 2.35-38
Novamente sobre o que está escrito: “Seu pai e sua mãe estavam admirados com as coisas que eram ditas sobre ele”, até aquela passagem onde está escrito acerca de Ana.

A paternidade de José
Lucas, que escreveu: “O Espírito Santo virá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra; é por isso que aquele que tiver nascido será santo, será chamado Filho de Deus” e que claramente nos transmitiu que Jesus foi filho de uma virgem e não foi concebido de semente humana, este [mesmo São] Lucas testemunhou que José era pai de Jesus, dizendo: “Seu pai e sua mãe estavam admirados com as coisas que eram ditas sobre ele”.
Que causa, então, existiu para que ele mencionasse como pai aquele que, na realidade, não foi seu pai? Quem se contenta com uma explicação singela dirá: “o Espírito Santo o honrou com o título de pai porque havia criado o Salvador”.
Quem procura um sentido mais profundo pode dizer: “porque a ordem da genealogia parte de Davi para chegar até José, para que José não parecesse ser nomeado em vão”.
[Sim,] aquele que não fora o pai do Salvador foi chamado “pai” do Senhor, para que a
ordem da genealogia tivesse o seu lugar.
“Seu pai e sua mãe estavam admirados com as coisas que eram ditas sobre ele”, tanto pelo anjo quanto pela “multidão do exército celeste” e pelos pastores. Ouvindo todas essas maravilhas, eles ficavam muitíssimo maravilhados.

A queda e o soerguimento de muitos
A Escritura diz em seguida: “Simeão os abençoou e disse a Maria, sua mãe: ‘Eis que este [menino] foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e como sinal de contradição.
Quanto a ti, uma espada te transpassará a alma, para que sejam revelados os pensamentos de muitos corações’”. Devemos contemplar o modo como o Salvador veio “para a queda e o soerguimento de muitos em Israel”.
Quem explica singelamente pode dizer que ele veio “para a queda” dos infiéis e “para o soerguimento” dos que creem.
Mas quem é um intérprete arguto da Escritura diz que, de modo nenhum, cai aquele que antes não tiver estado de pé. Indica-me, portanto, quem terá sido aquele que terá estado de pé, para cuja “queda” o Salvador veio, e também aquele que possa se soerguer.
Na verdade, com certeza aquele que, anteriormente, havia desabado se soergue. É preciso se dar conta de que o Salvador não veio “para a queda” de uns e “para o soerguimento” dos outros, mas “para a queda e o soerguimento”.
“Eu vim”, diz ele, “para cumprir o julgamento, para que vejam aqueles que não viam e se tornem cegos os que viam”.
Há, com efeito, em nós uma parte que antes gozava da visão espiritual e depois cessou de enxergar, e outra que estava cega e depois passou a enxergar.
Por exemplo, quero enxergar com aqueles olhos com os quais anteriormente não via e que, em seguida, me foram abertos, porque, depois da desobediência, os olhos de Adão e de Eva foram abertos, sobre os quais expusemos na homilia anterior.
Agora, porém, é preciso explicar o que quer dizer este texto: “Eis que este [menino] foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel”. É-me necessário primeiro cair e, uma vez caído, depois me soerguer, para que o Salvador não tenha sido para mim causa de uma queda funesta.
Por essa razão me fez cair, para que me soerga, e essa queda terá sido para mim muito mais útil do que aquele tempo em que parecia estar de pé. Eu me mantinha de pé pelo pecado naquele tempo em que vivia do pecado; e porque estava de pé pelo pecado, foi-me muito útil no início que eu caísse e morresse pelo pecado.
Por fim, também os santos profetas, quando contemplavam algo mais sublime, caíam de rosto no chão; é por isso, porém, que caíam, para que, pela queda, os pecados fossem purificados mais plenamente.
Esta graça o Salvador também te concedeu: que caias. Eras pagão, que o pagão em ti caia; amavas as prostitutas, que morra em ti o devasso; eras pecador, caia em ti o pecador, para que possas em seguida te soergueres e dizeres: “Se nós morremos com ele, com ele viveremos”, e: “Se partilhamos sua morte, nós partilharemos também sua ressurreição”.

O sinal de contradição
Ele, portanto, “foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel”,  isto é, daqueles que podem olhar com plena penetração e espiritualidade também para o “sinal de contradição”. Tudo o que é narrado na história do Salvador é sinal de contradição.
Uma virgem é mãe, eis um sinal de contradição; os marcionitas se opõem a esse sinal e afirmam com insistência que o Cristo não nasceu de uma mulher; os ebionitas se opõem a este sinal e dizem que ele nasceu de um homem e de uma mulher, como nós também nascemos.
Teve um corpo humano, e esse sinal é de contradição: uns dizem que esse corpo veio do céu, outros que teve um corpo tal qual o nosso, para que, pela semelhança de corpo, também pudesse redimir nossos corpos do pecado e dar-nos a esperança da ressurreição.
Ressurgiu dos mortos, e esse é um sinal de contradição: Como ressuscitou? Ressuscitou com seu próprio corpo e tal qual morreu, ou, sem dúvida, para um corpo formado de uma substância superior?
E é infinita a discussão, quando uns dizem: “ele mostrou a chaga dos cravos nas suas mãos a Tomé”; outros objetam, ao contrário: “se ele retomou o mesmo corpo, como ‘ele entrou com as portas fechadas e se achou lá de pé [entre eles]’?”
Vês, portanto, pela variedade dos argumentos, como a própria Ressurreição levanta controvérsias e se torna sinal de contradição.
Eu penso que também aquilo que foi  predito pela boca dos profetas é sinal de contradição. Existem, com efeito, vários hereges que afirmam que o Cristo não foi de modo algum anunciado pelos profetas.
Aliás, que necessidade há de prosseguir muito longamente? Tudo o que narra a história sobre o Cristo é sinal de contradição; contradição não para aqueles que creem nele – porque nós sabemos que o que foi escrito é verdadeiro –, mas todas as coisas que sobre ele foram escritas, para os incréus, é sinal de contradição.

O escândalo de Maria
Simeão diz em seguida: “e uma espada transpassará a tua própria alma”. Qual espada é esta que transpassou não somente o coração dos outros, mas também o de Maria?
A Escritura diz claramente que, no tempo da paixão, todos os apóstolos foram escandalizados, quando o próprio Senhor disse: “Todos vós sereis escandalizados nesta noite”. Portanto, todos foram escandalizados, a tal ponto que o próprio Pedro, o chefe dos apóstolos, renegou Jesus três vezes. Por que pensamos que, tendo os apóstolos sido escandalizados, a mãe do Senhor estaria imune ao escândalo?
Se, durante a paixão do Senhor, ela não sofreu o escândalo, Jesus não morreu por seus pecados. Se, porém, “todos pecaram e são privados da glória de Deus, se todos são justificados e redimidos por sua graça”, Maria também, naquele tempo, esteve sujeita ao escândalo.
E isto é o que agora Simeão profetiza, dizendo: “a tua alma”, que sabe teres tu, na condição de virgem, dado à luz, sem a participação de homem; que sabe que ouviste de Gabriel: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”; que sabe que a espada da infidelidade a transpassará e serás ferida pela ponta da incerteza, e teus pensamentos te dilacerarão em todos os sentidos, quando vires aquele que ouviste ser nomeado Filho de Deus e que sabias que tinha sido gerado sem a semente de um homem ser pregado à cruz e morrer e ter sido sujeito aos suplícios humanos e, no momento derradeiro, queixando-se com copiosas lágrimas e dizendo: “Pai, se for possível, que este cálice passe além de mim”. “Uma espada transpassará a tua alma”.
“A fim de que sejam revelados os pensamentos nos corações de muitos”. Os pensamentos dos homens eram maus.
Por isso foram desvelados, para que, postos à clareza do dia, fossem destruídos e terminassem mortos e aniquilados, e os matasse aquele que morreu por nós.
Com efeito, enquanto nossos pensamentos eram ocultos e não postos à clareza do dia, era impossível aniquilá-los por completo.
É por isso que nós, também, se pecamos, devemos dizer: “Eu te dei a conhecer meu pecado, e não escondi a minha iniquidade. Eu disse: confessarei a minha própria injustiça contra mim mesmo”.
Se, com efeito, tivermos feito isso e tivermos revelado nossos pecados não só a Deus, mas também àqueles que podem curar as nossas feridas e nossas faltas, nossos pecados serão destruídos por aquele que diz: “Eis que dispersarei como uma nuvem tuas iniquidades e como uma cerração os teus pecados”.

Ana, a profetisa
Depois da profecia de Simeão, porque era necessário que também as mulheres fossem salvas, veio uma profetisa sobre a qual está escrito: “Havia também Ana, uma profetisa, filha de Fanuel, da tribo de Aser”.
Que ordem magnífica! A mulher não vem antes do homem. Primeiramente vem Simeão, que abraçou a criança e a segurou em seus braços; em seguida, a mulher, cujas palavras, a bem dizer, não são reportadas, mas de um modo geral diz-se que “ela confessou ao Senhor e que ela falou dele a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”.
E justamente essa santa mulher mereceu receber o espírito de profecia, porque, por uma longa castidade e jejuns prolongados, havia ascendido a esse cume.
Vede, ó mulheres, o testemunho de Ana e imitai-o! Se um dia vos suceder que percais vossos maridos, considerai o que está escrito sobre ela: “Após a virgindade, ela viveu sete anos com seu marido”, e o que se segue; por causa disso, foi profetisa; e não foi de improviso e por acaso que o Espírito Santo habitou nela.
É bom, em primeiro lugar, se for possível, conservar a graça da virgindade; se, porém, isso não puder ser, e suceder-lhe de perder seu marido, que persevere na viuvez.
Não só depois da morte de seu marido, mas também, quando em vida, se deve ter este desejo de que também ele seja coroado pelo Senhor; mesmo que essa vontade e esse propósito não se realizem, diga: “Eu faço voto e prometo, se algo humano indesejável me suceder alheio à minha vontade, nada farei de diverso do que perseverar na continência em minha viuvez”.
Mas agora é possível encontrar na Igreja pessoas que se casam duas, três e até quatro vezes, para não dizer mais; e não ignoramos que tais casamentos nos lançarão fora do Reino de Deus.
Pois não somente a fornicação, mas mesmo as segundas núpcias nos afastam das dignidades eclesiásticas – com efeito, nem um bispo, nem um presbítero, nem um diácono, nem uma viúva podem ter-se casado duas vezes –; do mesmo modo, quem se casou duas vezes será talvez rejeitado da assembleia “dos primogênitos e dos imaculados” da Igreja “que não tem nem mancha nem ruga”, não que ele deva ser mandado para o fogo eterno, mas ele não deve ter parte no Reino de Deus.
Lembro-me, quando eu explicava o que está escrito aos Coríntios: “À Igreja de Deus, que está em Corinto, com todos os que o invocam”, de ter falado da diferença que há entre “a Igreja” e “aqueles que invocam o nome do Senhor”.
Penso, com efeito, que aquele que se casou apenas uma vez, que aquele que permaneceu virgem e que aquele que perseverou na castidade fazem parte da Igreja de Deus; mas o que se casou duas vezes, ainda que tenha tido boa conduta e se exceda em outras virtudes, não faz parte, porém, da Igreja e do número que “não tem nem ruga nem mancha nem nenhum defeito desse tipo”, mas ele é colocado na segunda posição e dentre aqueles que “invocam o nome do Senhor”, e que são evidentemente salvos em nome de Jesus Cristo, sem serem, entretanto, coroados por ele, “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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terça-feira, 30 de julho de 2019

105 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 16)


Resultado de imagem para maria e José ficam admirados
105
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 16)


HOMILIA 16 - Lc 2.33-34
Sobre o que está escrito: “Seu pai e sua mãe admiravam-se das coisas que eram ditas sobre ele”, até aquela passagem que diz: “eis que ele foi estabelecido para a queda e soerguimento de um grande número em Israel”.

A admiração de José e de Maria
“Seu pai e sua mãe”, diz [o evangelista], admiravam-se das coisas que eram ditas sobre ele”.
Reunamos o que, no nascimento de Jesus, foi dito e escrito a seu respeito; então poderemos saber o quanto cada coisa é digna de admiração.
Por que se admirava tanto seu pai – assim, com efeito, foi chamado, porque foi seu pai de criação – quanto se admirava sua mãe de todas as coisas que eram ditas sobre ele? Quais são, então, as maravilhas que a boataria havia espalhado sobre o pequenino Jesus?
Naquela região, estavam os pastores que vigiavam e montavam a guarda pelas noites sobre seu rebanho. Na mesma hora do nascimento de Jesus, veio um anjo e lhes disse: “Eu vos anuncio um grande júbilo: ide e encontrareis um recém-nascido envolto em panos e colocado numa manjedoura. Mal o anjo acabara de pronunciar essas palavras, e eis que uma multidão do exército celeste começou a louvar e bendizer a Deus”.
Como os pastores houvessem percebido apavorados essa aparição, e “o anjo tivesse se afastado deles, disseram entre si uns aos outros: Vamos a Belém e vejamos o evento que o Senhor nos fez conhecer”.
Vieram e encontraram o recém-nascido. Eles também se admiravam, tanto quanto seus pais, do que tinha acontecido.
Tudo isso aumentou os comentários, e o que está escrito sobre Simeão foi a maior parte da maravilha. Ele, com efeito, segurou o menino em seus braços e disse: “Agora, Senhor, podes deixar ir teu servo na paz, segundo a tua palavra, porque meus olhos viram tua salvação”.
O discurso de Simeão foi o que houve de mais elevado, o cume, por assim dizer, de todas as coisas de que tanto o seu pai quanto a sua mãe se jactavam e se admiravam acerca de Jesus.
Não bastou, pois, para Simeão segurar o recém-nascido e proclamar o que está escrito a respeito dele, mas bendisse a seu pai e à sua mãe, e sobre o próprio recém-nascido profetizou dizendo: “Eis que este [menino] foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e em sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada te transpassará a alma, para que sejam revelados os pensamentos de muitos corações”.
Que significam estas palavras: “Eis que este [menino] foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel”? Encontrei algo similar a isso no Evangelho segundo [São] João: “Eu vim para o mundo para julgá-lo, a fim de que os cegos vejam e os que veem se tornem cegos”.
Do modo que veio, pois, para cumprir o julgamento, para que “os cegos”, vindos dos gentios, “pudessem ver” e os de Israel, que antes viam, “se tornassem cegos”, assim veio “para a queda e soerguimento de muitos”.
No advento do Senhor Salvador, com efeito, os que se haviam mantido de pé, arruinaram-se e os que haviam caído, se levantaram.
Esta é a única interpretação do que está escrito: “Eis que este [menino] foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel”.

Exemplo de exegese contra os pseudognósticos
Mas há também um sentido mais profundo a ser entendido, sobretudo para responder àqueles que ladram contra o Criador e que, reunindo daqui e dali testemunhos do Antigo Testamento que não entendem, “induzem em erro os corações dos homens simples”.Dizem, pois: “eis o Deus da Lei e dos profetas, vejam o que ele é: ‘Eu’, diz ele, ‘matarei e devolverei a vida, golpearei e curarei, e não há quem possa escapar das minhas mãos”.
Eles ouvem: “eu matarei”, mas não ouvem: “eu devolverei a vida”; ouvem: “golpearei”, mas negligenciam ouvir: “e curarei”. Desse modo, caluniam com tais ocasiões o Criador.
Assim, antes que eu interprete qual sentido pode ter a frase: “Eu matarei e devolverei a vida, golpearei e curarei”, lhes oporei o testemunho do Evangelho e direi contra os hereges (pois há grande número de heresias que admitem o Evangelho segundo [São] Lucas): se o Criador é sanguinário e um juiz cruel somente porque diz: “Eu matarei e devolverei a vida, golpearei e curarei”, é evidentíssimo que Jesus é o Filho do Criador.
A mesma coisa, com efeito, foi escrita a seu respeito: “Eis que este [menino] foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel”, não somente “para o soerguimento”, mas também “para a queda”.
Se matar é um mal, seria um mal também vir “para a queda”. O que responderão? Afastar-se-ão de seu culto, ou, então, procurarão alguma outra interpretação e escapatória, apelando ao sentido figurado, para que ter vindo “para a queda” signifique mais bondade do que austeridade?
E como será justo, quando se encontra no Evangelho uma frase desse tipo, recorrer a alegorias e novas interpretações, quando se está no Antigo Testamento, imediatamente acusar e não aceitar nenhuma explicação, ainda que seja verossímil?
Mas e esta passagem que segue: “Eu vim para o mundo, para julgá-lo, a fim de que os cegos vejam e os que veem se tornem cegos”, ainda que busquem explicá-la, não poderão lhe dar o sentido.
[Mas] eu opto por pertencer à Igreja e não ser nomeado por um heresiarca[i] qualquer, mas pelo nome de Cristo e ter esse nome que é bendito sobre a terra, e desejo ser chamado de cristão tanto pelas obras quanto pelos pensamentos; assim busco na antiga e na nova Lei um método igual de interpretação.

Morte ao “homem velho”
Deus diz: “Eu matarei”. Eu aceito de bom grado que Deus mate. E quando há em mim um homem velho, e que vivo ainda como homem terrestre, desejo que Deus mate em mim o homem velho e me ressuscite dentre os mortos.
“O primeiro homem, com efeito, diz o Apóstolo, oriundo da terra, é terrestre; o segundo homem, vindo do céu, é celeste.
Como revestimos a imagem do terrestre, revistamos também a imagem do celeste”. Segundo essa interpretação, compreende-se também aquele versículo: “Eu vim para o mundo para julgá-lo, a fim de que os cegos vejam e os que veem se tornem cegos”.
Todos nós homens, temos a visão e, ao mesmo tempo, somos cegos. Adão gozava da visão e, ao mesmo tempo, estava cego.
Eva também, antes que seus olhos fossem abertos, gozava da visão. Diz a Escritura: “A mulher viu que a árvore era boa para comer e muito agradável de se ver, e, tomando do fruto da árvore, comeu e deu a seu marido, e comeram”.
Eles não eram, pois, cegos, mas eles viam.
Depois, segue-se: “E seus olhos se abriram”.
Eles tinham, pois, sido cegos e não viam, e seus olhos carnais depois se abriram; mas seus olhos espirituais que, antes, viam bem, depois que transgrediram o mandamento do Senhor começaram a ver mal e, insinuando-se o pecado da desobediência, perderam em seguida a visão.
            Eu compreendo assim esta palavra que Deus pronuncia: “Quem fez o mudo e o surdo, aquele que vê e aquele que não vê? Não sou eu, o Senhor Deus?”
Há o olho corporal, com o qual olhamos estas realidades terrestres, olho segundo a inteligência da carne, do qual a Escritura diz: “Em vão avança aquele que está inflado do pensamento carnal”.
[Mas] temos também outro olho, oposto ao primeiro e melhor que ele, capaz de ter o sabor das coisas divinas; olho que, porque era cego em nós, Jesus veio para fazer enxergar; para que aqueles que não enxergavam pudessem enxergar; e para que aqueles, porém, que enxergavam, se tornassem cegos.
É nesse sentido que se deve compreender o texto que temos atualmente entre as mãos: “Eis que este [menino] foi estabelecido para a queda e o soerguimento de muitos em Israel”.
Tenho algo em mim que mal se mantém de pé e se eleva pelo orgulho do pecado: que isto caia, que isto desmorone, porque, se tiver caído, aquilo que antes havia desabado, levantando-se, por-se-á de pé. O meu “homem interior” jazia outrora por terra, esmagado, e o “homem exterior” se erguia bem ereto.
Antes que eu tivesse a fé em Jesus, o que havia de bom em mim jazia por terra; o que havia de mal, se mantinha ereto. Depois que Jesus veio, o mal em mim deixou de existir, desmoronou e cumpriu-se aquele texto: “Trazendo sempre em nosso corpo a morte de Jesus”, e aquele outro: “Fazei morrer, pois, em vossos membros terrestres, a fornicação, a impureza, a luxúria, a idolatria, a cobiça” e todo o resto.
A queda de todos esses vícios se tornou útil. E dessa queda é dito: “Onde quer que estiver o cadáver, para lá se reunirão as águias”. Com efeito, a palavra cadáver tomou o nome a partir de “queda”.
Boa é essa queda, para a qual primeiramente veio Jesus, e não pode fazer o soerguimento, se a queda não o tiver precedido.
Venha antes destruir o que em mim foi um mal para que, por essa destruição e essa mortificação, o que há de bom em mim se reerga e tome vida, e que assim possamos atingir o Reino dos céus, naquele “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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[i] fundador, chefe ou defensor de uma seita herética.

terça-feira, 23 de julho de 2019

104 - Orígenes de Alexandria (185-253) As Homilias sobre São Lucas (Homilia 15)


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104
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Orígenes de Alexandria (185-253)
As Homilias sobre São Lucas (Homilia 15)


HOMILIA 15 - Lc 2.25-29
A respeito de Simeão e de sua vinda ao templo, impelido pelo Espírito, até aquela passagem, em que diz: “Agora, Senhor, podes deixar ir em paz o teu servo”.

O Nunc dimittis
Deve-se buscar uma razão conveniente para explicar como a graça de Deus para com Simeão, “varão santo e agradável a Deus”, como está escrito no Evangelho, “esperando a consolação de Israel, recebeu uma garantia do Espírito Santo de que não haveria de morrer antes que visse o Cristo Senhor”.
Em que lhe foi útil ver o Cristo? Foi-lhe prometido somente o ver Cristo, sem que nada dessa visão lhe redundasse de útil, ou se oculta na promessa algum dom digno de Deus que o bem-aventurado Simeão tanto mereceu quanto recebeu?
“Uma mulher tocou a orla da veste de Jesus e foi curada”. Se essa mulher obteve tanta vantagem com a extremidade da veste, o que se deve pensar de Simeão, que, em seus braços recebeu e segurou a criança, se alegrava e se rejubilava, vendo o pequenino que ele trazia nos braços e que viera libertar aos cativos – e também ele próprio haveria de ser liberto dos nós do corpo –, sabendo que ninguém podia fazer alguém sair da prisão do corpo com esperança da vida futura senão aquele que segurava nos braços?
Por isso também é a ele que [Simeão] se dirige: “Agora, Senhor, podes deixar ir o teu servo em paz”. Com efeito, [era como se Simeão dissesse]: “por tanto tempo não segurei o Cristo; por tanto tempo não o apertava em meus braços; eu estava preso e não podia sair de meus laços”. Mas se deve entender isso aplicado não só a Simeão, mas a toda a raça humana. Se alguém sai do mundo, se alguém é libertado tanto do cárcere quanto da casa dos cativos, que vá viver como rei, que tome Jesus em suas mãos, e o cerque com seus braços, tenha-o todo em seu colo, e então poderá exultante ir-se para onde desejar.
Considerai quanta organização foi preparada para que Simeão tenha merecido segurar o Filho de Deus: primeiro havia recebido a garantia do Espírito Santo de que não veria a morte, se não que antes tivesse visto o Cristo.
Depois, não entrou no templo fortuita e simplesmente, mas “veio ao templo conduzido pelo Espírito de Deus”; pois “todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus”.
O Espírito Santo, portanto, o conduziu ao templo. Tu também, se queres segurar Jesus e abraçá-lo com as mãos e tornar-te digno de sair do cárcere, esforça-te com todo afinco para que tenhas como condutor o Espírito de Deus e venhas ao templo de Deus. E eis que estás de pé no templo do Senhor Jesus, isto é, em sua igreja. Esse templo é construído “de pedras vivas”.
Estás de pé, porém, no templo do Senhor, quando tua vida e tua conduta forem bastante dignas do nome que designa a Igreja.

Morrer na paz
Se vieres “ao templo conduzido pelo Espírito”, encontrarás o pequenino Jesus, o elevarás em teus braços e dirás: “Agora, Senhor, podes deixar ir teu servo em paz, segundo a tua palavra”.
E presta atenção, ao mesmo tempo, que a paz se acrescenta à soltura e ao livramento. Pois Simeão não diz [simplesmente]: “quero que me deixes ir”; mas “podes deixar ir”, com o acréscimo: “em paz”.
Na verdade, foi prometida esta mesma coisa ao bem-aventurado Abraão: “Tu, porém, irás em paz a teus pais, depois de ter vivido em uma feliz velhice”.
Quem é que poderia morrer na paz, senão aquele que tem a paz de Deus, “que supera toda inteligência e guarda o coração” de quem a possui? Quem é que pode deixar este mundo na paz, senão aquele que compreende “que em Cristo Deus reconciliava consigo o mundo”; aquele que nenhuma inimizade e oposição fez a Deus, mas que, depois de ter atingido, por suas boas obras, a plenitude da paz e da concórdia, vai-se na paz reencontrar os santos patriarcas, para junto dos quais também Abraão partiu?
Mas por que falar dos patriarcas? Vai-se para junto do próprio Jesus, príncipe e senhor dos patriarcas, do qual se diz: “é melhor libertar-se pela morte e estar com o Cristo”.
Tem Jesus aquele que ousa dizer: “Não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.
A fim de que nós também, de pé no templo, segurando o Filho de Deus e abraçando-o com nossos braços, sejamos dignos de ser libertos e de partir para realidades melhores, oremos ao Deus onipotente, oremos também ao pequenino Jesus, com quem desejamos conversar e a quem queremos segurar nos braços, “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém”.

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