terça-feira, 23 de outubro de 2018

69 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 39-46)


69
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 39-46)

Cristo, Primogênito de toda a criação
39. Assim, se não é nascido, também não é morto; e se não é morto, não é ressuscitado dos mortos;[99] e se não é ressuscitado dos mortos, não triunfou sobre a morte, nem destruiu o seu reino; e se a morte não foi vencida, como subiremos até a vida, nós que desde o início fomos caídos sob o império da morte? Quem nega a redenção do homem e não crê que Deus o ressuscitará dos mortos despreza também o nascimento de Nosso Senhor, pelo qual o Verbo de Deus se sujeitou por nós, para se tornar homem a fim de manifestar a ressurreição da carne e obter o primado sobre tudo nos céus: como primogênito do pensamento do Pai, o Verbo perfeito dirige pessoalmente cada coisa e legisla na terra; como primogênito da Virgem, homem justo e santo, servo de Deus, bom, aceito por Deus, perfeito em tudo, livra dos infernos todos os que o seguem; como “primogênito dos mortos”, é origem e sinal da vida de Deus.

De Moisés aos apóstolos
40. Assim, pois, o Verbo de Deus ostenta o primado sobre todas as coisas, porque é o verdadeiro homem e “Conselheiro-Maravilhoso, Deus-forte”, que chama novamente, com a ressurreição, o homem à comunhão com Deus, para que, por meio da comunhão, com ele participemos da incorruptibilidade. Ele, que foi anunciado por Moisés e pelos profetas do Deus altíssimo e onipotente, Pai do universo, origem de tudo, que conversou com Moisés, veio à Judeia, gerado por Maria, que era da estirpe de Davi e de Abraão, Jesus, o Ungido de Deus, que revelou a si mesmo como o que foi predito pelos profetas.
41. João Batista, o precursor, quando preparava e dispunha o povo para receber o Verbo da vida, fez saber que esse era o Cristo sobre quem o Espírito de Deus havia deitado e unido à sua carne. Os discípulos e testemunhas de suas boas obras, de seu ensinamento, de sua paixão, de sua morte, de sua ressurreição, da ascensão ao céu depois da ressurreição corporal, ou seja, os apóstolos, com o poder do Espírito Santo enviados por ele por toda a terra, convocaram os gentios, ensinando aos homens o caminho da vida, para afastá-los dos ídolos, da fornicação e da avareza, purificando as suas almas e seus corpos com o batismo na água e no Espírito Santo, distribuindo e subministrando aos crentes esse Espírito Santo que haviam recebido do Senhor. Assim, instituíram e fundaram a Igreja. Com a fé, a caridade e a esperança, [os apóstolos] confirmaram o chamado aos gentios que, preanunciado pelos profetas, lhes foi dirigido segundo a misericórdia de Deus manifestada com o seu ministério, acolhendo-os na promessa feita aos patriarcas, ou seja, àqueles que creram e amaram a Deus; e aos que vivem na santidade, na justiça e na paciência, o Deus de todos outorgará, por meio da ressurreição dos mortos, a vida eterna. Graças àquele que morreu e ressuscitou, Jesus Cristo, a quem confiou a realeza sobre todos os seres da terra, a autoridade sobre os vivos e os mortos, e o juízo. Os apóstolos, com a palavra da verdade, exortaram os gentios a guardar o seu corpo sem mancha para a ressurreição, e a alma ao abrigo da corrupção.

II – A Demonstração Profética (cc. 42-97)

A obra do Espírito Santo
42. Com efeito, assim devem comportar-se os crentes, pelo fato de que neles habita permanentemente o Espírito Santo, doado pelo Senhor no batismo e custodiado por aquele que [o] recebe, se é que vive na verdade e na santidade, na justiça e na paciência. De fato, a ressurreição dos crentes é também obra do Espírito quando o corpo acolhe novamente a alma, e com ela ressuscita pela força do Espírito Santo e é introduzido no Reino de Deus. O fruto da bênção de Jafé se manifestou na Igreja no chamado aos gentios que vivem em contínua obediência para poder habitar na casa de Sem, segundo a promessa de Deus. Que essas coisas deveriam ocorrer, o Espírito Santo predisse pelos profetas, a fim de que aqueles que servem a Deus na verdade tenham fé firme sobre elas. Na verdade, todos esses fatos impossíveis à natureza humana e, portanto, pouco credíveis aos homens, Deus, por meio dos profetas, os predisse muito tempo antes – e se realizaram a seu tempo, como se anunciou – para que, pelo fato de terem sido profetizados muito tempo antes, conhecêssemos que era Deus que, desde o princípio, havia preanunciado a nossa salvação.

A identidade entre o Verbo e o Filho de Deus
43. Deve-se crer em tudo de Deus, porque é veraz em tudo. Ora, que existe um Filho em Deus e que esse Filho existia não apenas antes de sua aparição no mundo, mas também antes da criação do mundo, Moisés foi o primeiro a profetizar, quando escreveu em hebraico: “Beresith bara elovim basan benowam samenthares”, que se traduz: “Um filho, no princípio, Deus estabeleceu; em seguida, Deus criou o céu e a terra”. O profeta Jeremias o testemunhou quando disse: “Antes da estrela da manhã eu te gerei e antes do sol é o teu nome”, isto é, antes da criação do mundo e antes das estrelas criadas com o mundo. Diz ainda: “Bem-aventurado aquele que era antes de se tornar homem”. Por Deus, de fato, o Filho existe desde o início, antes da criação do mundo; porém, para nós não existe mais que desde agora, ou seja, desde quando se manifestou. Antes, então, não existia para nós porque não o conhecíamos. Por isso, o seu discípulo João, explicando quem é o Filho de Deus que era junto do Pai antes que o mundo fosse formado, e que por obra dele foram criadas todas as coisas, disse: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. No princípio, ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito”. Demonstra, assim, de modo claro, que todas as coisas foram criadas por meio do Verbo, o qual, desde o início, era com o Pai, isto é, seu Filho.

Colóquio do Filho com Abraão
44. Disse ainda Moisés que o Filho de Deus se aproximou de Abraão para entreter-se com ele: “Iahweh lhe apareceu no carvalho de Mambré [...] no maior calor do dia. Tendo levantado os olhos, eis que viu três homens de pé, perto dele; logo que os viu, correu da entrada da tenda ao seu encontro, e se prostrou por terra. E disse: Meu Senhor, eu te peço, se encontrei graça aos teus olhos...”. Em seguida, ele falava com o Senhor, e o Senhor com ele. Ora, dois dos três eram anjos; o terceiro, ao invés, o Filho de Deus. Com Ele, Abraão falou ainda suplicando pelos habitantes de Sodoma, para que não fossem exterminados se fossem encontrados ao menos dez justos. Enquanto conversavam, os dois anjos que desceram a Sodoma foram recebidos por Ló. A Escritura diz então: “Iahweh fez chover, sobre Sodoma e Gomorra, enxofre e fogo vindos de Iahweh”. Isso quer dizer que o Filho, o mesmo que conversava com Abraão, sendo “Senhor”, recebeu o poder de punir os habitantes de Sodoma “pelo Senhor, do alto do céu”, pelo Pai, que é o Senhor do universo. Abraão, então, era profeta e viu o que aconteceria no futuro; isto é, viu o Filho de Deus sob a aparência humana conversar com os homens, comer com eles, e depois exercer o ofício de julgar pelo fato de ter recebido do Pai, Senhor do Universo, a autoridade de punir os habitantes de Sodoma.



Aparição a Jacó
45. Jacó, durante a viagem à Mesopotâmia, viu o Verbo em sonho, de pé, em cima da escada, ou seja, no lenho fixado do céu à terra. Por isso, o lenho dos que creem nele sobe ao céu, porque a sua paixão é a nossa ascensão. Todas as visões desse tipo apontam o Filho de Deus que conversa com os homens e entre eles. Não é o Pai do universo, invisível ao mundo e criador de tudo que diz: “O céu é o meu trono, a terra o escabelo dos meus pés. Que casa me haveis de fazer, que lugar para meu repouso?” e “Quem pode medir as águas do mar na concha da mão? Quem conseguiu avaliar a extensão dos céus a palmos, medir o pó da terra com o alqueire e pesar os montes na balança e os outeiros nos seus pratos?” Não é certo que Ele (o Pai) estava de pé sobre um pequeno espaço e conversava com Abraão, mas o Verbo de Deus que sempre esteve presente no gênero humano, antecipava o conhecimento das coisas futuras e instruía os homens sobre as coisas de Deus.

O Filho de Deus conversa com Moisés
46. Foi Ele (o Verbo) que, na sarça ardente, conversou com Moisés e disse: “Eu vi, eu vi a miséria de meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci, a fim de libertá-lo da mão dos egípcios”. Ele subia e descia para libertar os oprimidos, arrancando-os do poder dos egípcios, ou seja, de toda sorte de idolatria e impiedade; salvando-os do mar Vermelho, isto é, liberando-os das turbulências homicidas dos gentios, e das águas amargas de suas blasfêmias. Esses acontecimentos eram contínua repetição do que a nós se refere, no sentido de que o Verbo de Deus mostrava antecipadamente as coisas futuras, mas liberando realmente da servidão cruel dos gentios. No deserto fez brotar com abundância um rio de água, uma rocha. Essa rocha é ele mesmo. Produziu doze fontes, ou seja, a doutrina dos doze apóstolos. E aos recalcitrantes e incrédulos, os fez morrer e desaparecer no deserto, e aos que creram nele, feitos crianças pela maldição, os introduziu na herança dos pais que recebeu e distribuiu, não a Moisés, mas a Jesus; os liberou de Amalec estendendo as suas mãos, e nos conduz e nos faz subir ao Reino do Pai.

1.       O que você deseja destacar neste texto?
2.       Como ele serviu para sua espiritualidade?








domingo, 7 de outubro de 2018

68 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 29-38)



68
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 29-38)


A distribuição da terra
29. Quando Moisés estava a ponto de terminar o curso de seus dias, Deus lhe disse: “Sobe a esta montanha dos Abarim, sobre o monte Nebo, na terra de Moab, diante de Jericó, e contempla a terra de Canaã, que eu dou como propriedade aos israelitas. Morrerás no monte em que tiveres subido e irás reunir-te aos teus, assim como o teu irmão Aarão, que foi reunido ao seu povo no monte Hor, pois fostes infiéis a mim no meio dos israelitas, junto às águas de Meribacades, no deserto de Sin, não reconhecendo a minha santidade no meio dos israelitas. Por isso contemplarás a terra à tua frente, mas não poderás entrar nela, na terra que estou dando aos israelitas”. Conforme a palavra do Senhor, Moisés morreu e lhe sucedeu Jesus (Josué), filho de Num. Esse atravessou o Jordão, conduziu o Povo à Terra Prometida e, vencidos e aniquilados os sete povos que a habitavam, a distribuiu entre o Povo. Lá existia Jerusalém, onde reinou Davi e o seu filho Salomão, que construiu o Templo em nome de Deus à imagem do tabernáculo feito por Moisés como tipo (modelo) das realidades celestes e espirituais.

O envio dos profetas
30. Lá em Jerusalém foram enviados por Deus, por meio do Espírito Santo, os profetas, que aconselhavam o povo e o convertia ao Deus Onipotente de seus pais; como arautos da revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, anunciavam que à estirpe de Davi havia de florescer o seu corpo, a fim de que fosse, segundo a carne, filho de Davi – que era filho de Abraão – em virtude de uma longa cadeia de gerações, e, segundo o Espírito, Filho de Deus, preexistente com o Pai, gerado antes da fundação do mundo e aparecido como homem ao mundo inteiro nos últimos tempos. Ele é o Verbo de Deus [enviado] “para levar o tempo à sua plenitude: a de em Cristo encabeçar todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra”.

A desobediência e a Encarnação
31. [O Verbo] Uniu, assim, o homem a Deus, e realizou a comunhão entre Deus e o homem, porque não teríamos podido absolutamente obter participação alguma na incorruptibilidade se ele, o Verbo, não tivesse vindo habitar entre nós. Pois, se a incorruptibilidade tivesse permanecido invisível e oculta, não nos teria sido de utilidade alguma, mas se fez visível a fim de que entrássemos em comunhão com ele. E porque, envolvidos todos na criação originária de Adão, fomos vinculados à morte por causa de sua desobediência, era conveniente e justo que, pela obediência de quem se fez homem por nós, fossem rompidas as cadeias da morte. E porque a morte reinava sobre a carne, era preciso que ela fosse abolida por meio da carne, para que o homem fosse libertado de sua opressão. O Verbo, então, se fez carne para destruir, por meio da carne, o pecado que, por obra da carne, adquiriu poder, o direito de propriedade e domínio; e para que [o pecado] não existisse mais entre nós. Por essa razão, Nosso Senhor tomou uma corporeidade idêntica à da primeira criatura para lutar em favor dos progenitores e vencer em Adão aquele que em Adão nos feriu.

Adão e Cristo
32. Ora, de onde provém a substância do primeiro homem? Da vontade e da sabedoria de Deus e da terra virgem. “Porque Iahweh Deus não tinha feito chover sobre a terra – diz a Escritura – e não havia homem para cultivar o solo”. Dessa terra, então, todavia virgem, Deus tomou o barro e plasmou o homem, princípio do gênero humano. [O Senhor,] recapitulando em si esse homem, princípio do gênero humano, nascendo de uma virgem por vontade e sabedoria de Deus, reproduziu o mesmo esquema de corporeidade para demonstrar a identidade da sua corporeidade com a de Adão, e para refazer, como foi feito no início, o homem à imagem e semelhança de Deus.

Eva e Maria
33. Como, por causa de uma virgem desobediente, o homem foi ferido, caiu e morreu, assim também, por causa de uma virgem obediente à Palavra de Deus, [o homem] foi ressuscitado e recobrou a vida. Pois o Senhor veio buscar a ovelha perdida, ou seja, o homem que se perdeu. Por isso, não formou um corpo diverso, mas, por meio daquele que descendia de Adão, conservou a semelhança daquele corpo. Adão, de fato, foi recapitulado por Cristo, a fim de que o que é mortal fosse submerso na imortalidade, e Eva em Maria, a fim de que uma virgem, tornada advogada de uma virgem, dissolvesse e destruísse com a sua obediência de virgem a desobediência de uma virgem. O pecado cometido por causa da árvore foi anulado pela obediência cumprida sobre a árvore, obediência a Deus, pela qual o Filho do homem foi pregado na árvore, abolindo a ciência do mal, e proporcionando e doando a ciência do bem. O mal é desobedecer a Deus. O bem é, ao invés, obedecer.

Obediência reparadora do Verbo
34. O Verbo, preanunciando por meio do profeta Isaías os acontecimentos futuros – os profetas são tais porque anunciam os acontecimentos futuros – assim se exprime: “O Senhor Iahweh abriu-me os ouvidos e eu não fui rebelde, não recuei. Ofereci o dorso aos que me feriam e as faces aos que me arrancavam os fios da barba; não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros”. Então, por força “da obediência”, [o Verbo] anulou a antiga desobediência consumada sobre a árvore. Ele mesmo é o Verbo de Deus onipotente, que, no estado de invisibilidade, se difundiu no universo inteiro, que [o] abraça em comprimento, largura, altura e profundidade. Todas as coisas, de fato, são governadas e administradas pelo Verbo de Deus. Nessas dimensões, foi crucificado o Filho de Deus já impresso sobre o universo em forma de cruz; fazendo-se visível, manifestou a universalidade de sua cruz, demostrando claramente, na forma visível, a sua atividade consistente na iluminação da altura, ou seja, os meandros da terra, na extensão do Oriente ao Ocidente, no governo como um comandante da região do Oeste e da amplitude do Sul, e no chamado ao conhecimento do Pai de todos os homens dispersos.

O cumprimento da promessa de Abraão
35. Realizou-se, assim, a profecia feita por Deus a Abraão, segundo a qual a sua descendência seria como as estrelas do céu. Cristo cumpriu a promessa, nascendo da Virgem, da estirpe de Abraão, e convertendo em luminárias do mundo os que nele acreditam, e justificando os gentios com Abraão por meio da mesma fé. “Abraão creu
em Iahweh, e lhe foi tido em conta de justiça”. Do mesmo modo, nós somos justificados em virtude da fé em Deus, porque “o justo viverá por sua fidelidade”. A promessa de Abraão não foi feita pelo cumprimento da Lei, mas por meio da fé. De fato, Abraão foi justificado pela fé: “sabendo que ela não é destinada ao justo”. Da mesma forma, nós não somos justificados pela Lei, mas pela fé, que recebeu o testemunho da Lei e dos profetas, e que nos apresenta o Verbo de Deus.

Cristo, nascido da Virgem da descendência de Davi
36. Deus manteve as promessas feitas a Davi; havia-lhe prometido fazer surgir do fruto do seu seio um Rei eterno, cujo reino não teria ocaso. Esse Rei é o Cristo, o Filho de Deus tornado filho do homem, isto é, nascido, como fruto, da Virgem da descendência davídica. A promessa, então, ganhou forma de fruto do ventre, isto é, de um descendente da concepção própria de uma mulher – não “do fruto dos homens ou dos rins” – isto é, do nascimento próprio do homem, para manifestar o que de único e de especial havia na produção desse fruto do seio de uma virgem davídica, [fruto] que devia ser o Rei eterno na casa de Davi, e cujo reino não terá ocaso.

A destruição da morte e o dom da vida
37. Em tais condições se realizava magnificamente a nossa salvação, [esse Rei] mantinha as promessas feitas aos patriarcas e abolia a antiga desobediência. O Filho de Deus se fez filho de Davi e filho de Abraão. Para cumprir as promessas e recapitulá-las em si mesmo com a finalidade de nos restituir a vida, o Verbo de Deus se fez carne através da Virgem, a fim de desatar a morte e vivificar o homem, porque nós estávamos presos ao pecado e destinados a viver sob o império da morte.

Nascimento, morte e ressurreição de Cristo
38. Deus Pai, pela sua imensa misericórdia, enviou o seu Verbo criador, que, vindo para nos salvar, esteve nos mesmos lugares, na mesma situação e nos mesmos ambientes onde perdemos a vida, e rompeu as cadeias que nos mantinham prisioneiros. Com a aparição de sua luz desapareceram as trevas da prisão, santificou o nosso nascimento e, destruída a morte, desligou aqueles mesmos laços que nos tinham prendido. Manifestou a ressurreição, tornando-se ele mesmo o primogênito dos mortos, e levantou na sua pessoa o homem caído por terra, ao ser elevado às alturas do céu até a direita da glória do Pai, como Deus havia prometido por meio do profeta, ao dizer: “Naquele dia levantarei a tenda desmoronada de Davi”, isto é, o corpo que provém de Davi. Nosso Senhor Jesus Cristo realmente cumpriu essa empresa, realizando de modo glorioso a nossa salvação, para nos erguer realmente e nos apresentar livres ao Pai. Ora, se alguém não aceita o seu nascimento de uma Virgem, como aceitará a sua ressurreição da morte? Porque não há nada de miraculoso, de estranho, de inesperado, se alguém que não é nascido ressuscite da morte; nem podemos falar de “ressurreição” para aquele que veio à existência sem passar pelo nascimento: na verdade, quem não pode nascer é imortal e quem não foi sujeito ao nascimento não será também sujeito à morte. Então, como pode ter fim o homem que não teve início?

O que você deseja destacar neste texto?
Como ele serviu para sua espiritualidade?



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

67 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 23-28)



67
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 23-28)


Babel: a resistência ao plano de Deus
23. Levantadas as tendas, na sua peregrinação chegaram à planície de Senaar; aqui decidiram edificar uma torre. Procuravam com ela atingir o céu, presumindo deixar a sua obra como monumento às futuras gerações. O edifício foi feito de tijolos cozidos e de betume; a sua audácia e temeridade cresciam; graças ao acordo e à união de intenções e ao uso de uma só língua, o seu desejo ia se realizando. Mas, a fim de que a obra não progredisse, Deus dividiu as suas línguas, de modo que não se entendessem mais. Assim, se dispersaram e ocuparam a terra, agrupando-se segundo a língua. Daqui os diferentes povos e as diversas línguas sobre toda a terra. De fato, três raças humanas se apropriaram da terra. Uma delas estava sobre o pesadelo da maldição, as outras duas eram abençoadas. A bênção desceu primeiro sobre Sem, cujos descendentes habitaram o Oriente e ocuparam o país dos caldeus.

Aliança com Abraão
24. Mais tarde, na décima geração depois do dilúvio, se encontra Abraão, que buscava Deus, que lhe corresponde e que lhe pertence pela bênção de seu antepassado (Sem). Quando, seguindo o ardente desejo de seu coração, peregrinava pelo mundo perguntando-se onde estava Deus e começou a fraquejar e estava a ponto de desistir da busca, Deus teve piedade daquele que, sozinho, o buscava em silêncio. E Deus se manifestou a Abraão, dando-se a conhecer por meio do Verbo, como que por um raio de sol; falou-lhe do céu e lhe disse: “Sai de tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei”. Ele (Abraão) confiou na voz celeste e, apesar de ter setenta anos e uma mulher anciã, com ela abandonou a Mesopotâmia e levou consigo Ló, filho de seu irmão defunto. Quando chegou à terra que hoje se denomina Judeia, então habitada por sete povos descendentes de Cam, Deus lhe apareceu em visão, e lhe disse: “É à tua posteridade que eu darei esta terra”. [Acrescentou] que a sua descendência seria peregrina em um país estrangeiro, onde seria maltratada, aflita e reduzida à escravidão por quatrocentos anos; mas a quarta geração retornaria à terra prometida a Abraão, e Deus condenaria o povo que escravizou a sua posteridade. E para que Abraão conhecesse a grandeza e o esplendor de sua descendência, Deus o fez sair de noite e lhe dirigiu estas palavras: “Ergue os olhos para o céu e conta as estrelas, se as podes contar. Assim será a tua posteridade”. E Deus, vendo a fé e a firme decisão de seu espírito, lhe deu testemunho dizendo na Escritura através do Espírito Santo: “Abraão creu em Iahweh, e lhe foi tido em conta de justiça”. [Abraão] era incircunciso quando recebeu esse testemunho e, a fim de que a sua fé fosse reconhecida por um sinal, [Deus] lhe deu a circuncisão “e recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé, que ele tinha quando incircunciso”. Depois disso, segundo a promessa de Deus, da estéril Sara, teve um filho, Isaac, que circuncidou segundo o pacto que Deus havia estipulado com ele. De Isaac nasceu Jacó. Assim, a inicial bênção de Sem atingiu Abraão, e de Abraão passou a Isaac, e de Isaac a Jacó, graças à atribuição da herança feita pelo Espírito. Por isso, ele é chamado o “Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”.

A migração no Egito e a Páscoa
25. Quando uma carestia golpeou toda a terra, apenas o Egito contava com gêneros alimentícios; Jacó imigrou com toda a família àquele país. O número total dos imigrantes chegava a 75 pessoas e em 400 anos chegaram a ser, segundo as predições, 660.000. Dado que sofreram muitas tribulações e opressões em uma cruel escravidão, e gemiam e se lamentavam a Deus, o Deus de seus Pais, Abraão, Isaac e Jacó, os tirou do Egito, valendo-se de Moisés e de Aarão, depois de ter castigado os egípcios com dez pragas, na última das quais mandou um anjo exterminador para matar os primogênitos, tanto dos homens como dos animais. Assim salvou os filhos de Israel, prefigurando de um modo misterioso a paixão de Cristo, na imolação de um cordeiro imaculado e em seu sangue, derramado como garantia de imunidade, para aspergir as casas dos hebreus. O mistério recebeu o nome de “Paixão”, manancial de libertação. Dividido o mar Vermelho, [Deus] conduziu com todas as precauções os filhos de Israel ao deserto, enquanto os egípcios, que se lançaram em sua perseguição no mar, pereceram todos. Esse foi o juízo de Deus contra os que injustamente oprimiram a estirpe de Abraão.

O Decálogo entregue a Moisés
26. Moisés, no deserto, recebeu de Deus a Lei: o Decálogo, gravado em tábuas de pedra pelo dedo de Deus – o dedo de Deus é o que sai do Pai no Espírito Santo – os preceitos e os decretos que transmitiu aos filhos de Israel para que os guardassem. Por ordem de Deus, [Moisés] construiu o tabernáculo do testemunho, construção visível na terra das realidades espirituais e invisíveis do céu, figura da Igreja e representação profética das realidades futuras. Ali colocou os vasos, os altares e a arca, na qual introduziu as Tábuas. [Deus] constituiu sacerdotes Aarão e seus filhos, que descendiam de Levi, conferindo o sacerdócio a toda a sua estirpe. Além disso, chamou, por ordem de Deus, toda essa estirpe para exercer o ministério cultual no Templo de Deus. E lhes deu a Lei levítica, que fixa quais qualidades e qual conduta devem ter aqueles que continuamente se dedicam ao serviço do culto no Templo de Deus.

A exploração da Terra Prometida e a peregrinação no deserto
27. Quando se aproximavam da Terra Prometida por Deus a Abraão e à sua posteridade, Moisés escolheu um homem de cada tribo e os enviou a explorar aquela terra, as cidades e os seus habitantes. Foi então que Deus lhes revelou o único Nome capaz de salvar os que nele crerem. Moisés mudou o nome de Oseias, filho de Num, um dos exploradores, e lhe pôs o nome de Jesus [Josué]. E Moisés os enviou com o poder daquele nome, persuadido de que os acolheriam e voltariam incólumes, por terem sido conduzidos por aquele nome, o que, de fato, aconteceu. Concluída a missão de espionagem e de exploração, regressaram, trazendo um ramo de uvas; porém, um dos doze exploradores amedrontou-se e alarmou o povo ao relatar que as cidades eram imensas e fortificadas, e que os homens, filhos dos Titãs, tinham uma estatura gigantesca e eram capacitados para defender a sua terra. Ao receber tais notícias, o povo chorou, perdendo a fé em Deus, que os fortalecia e submetia todo o mundo. Murmuraram da Terra (prometida), como se não fosse boa, e que por uma terra de tal natureza não valia a pena correr risco algum. Porém, dois dentre os doze, Jesus, filho de Num, e Caleb, filho de Jefoné, rasgaram as vestes pelo mal assim cometido e suplicaram ao povo não abater-se nem perder a coragem, pois Deus lhes deu tudo nas suas mãos e a terra era excelente. Como o povo não se convencia e persistia na incredulidade, Deus desviou e mudou o seu itinerário para que dispersasse, e o afligiu no deserto. E contando um ano por dia por todos os dias empregados na viagem de ida e retorno daqueles que foram explorar e inspecionar a terra, isto é, quarenta dias, Deus os manteve quarenta anos no deserto. Nenhum adulto e na plena posse da razão foi julgado digno de entrar na terra por causa da incredulidade, exceção feita a Jesus (Josué), filho de Num, e Caleb, filho de Jefoné, que falaram bem da herança prometida, e as crianças incapazes de distinguir a direita da esquerda. Pouco a pouco, o povo incrédulo chegou ao final e, lentamente, pereceu no deserto, castigado justamente por sua incredulidade. As crianças nesses quarenta anos cobriram os lugares que haviam sido deixados vazios pelos mortos.

O Deuteronômio
28. Transcorridos os quarenta anos, o povo chegou às cercanias do rio Jordão e, reagrupando-se, se alinhou para a batalha diante de Jericó. Aqui, diante do povo reunido, Moisés evocou a história passada, recordando os grandes feitos de Deus até o presente, preparando e dispondo aqueles que eram crescidos no deserto a temer a Deus e a observar os mandamentos. Impôs a esses uma nova legislação, acrescentando-a àquela que foi estabelecida anteriormente. Esse novo corpo legislativo foi chamado Deuteronômio, ou seja, a Lei Segunda, nas quais estão escritas muitas profecias referentes a Nosso Senhor Jesus Cristo, ao povo, à vocação dos gentios e ao Reino.


O que você destaca neste texto?
Como ele serviu para sua espiritualidade?


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

66 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 15-22)



66
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 15-22)


A primeira Lei
15. Mas por temor de que o homem cultivasse pensamentos de grandeza e se exaltasse,
como se não houvesse um Senhor, pela autoridade que lhe foi concedida e pela liberdade de acesso a Deus, e ficasse contra Deus, o seu Criador, desconfiando e comprazendo-se consigo mesmo, e assumisse atitudes arrogantes contra Deus, esse lhe impôs uma lei, para que reconhecesse ter por Senhor o Senhor do universo. Deus, então, lhe impôs certos limites, de modo que se observasse o preceito de Deus, e permanecesse sempre como era, ou seja, imortal; mas, se não o observasse, se tornaria mortal, destinado a dissolver-se naquela terra, da qual foi tomado o seu corpo. Eis o preceito: “Podes comer de todas as árvores do Jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque, no dia em que dela comeres, terás que morrer”.

Satanás envolvido na queda do homem
16. O homem não observou esse preceito e desobedeceu a Deus, enganado por aquele anjo, que, ciumento do homem e invejoso dos muitos favores cumulados por Deus, arruinou a si próprio e fez do homem um pecador, induzindo-o a transgredir o preceito de Deus. O anjo, tornado por causa de sua mentira chefe e guia do pecado, foi ele mesmo golpeado por ter ofendido a Deus e provocado a queda do homem do Jardim. E, pois, por causa do seu comportamento, se rebelou e se afastou de Deus, foi chamado em hebraico Satanás, ou seja, rebelde. Mas é também chamado caluniador. Deus, então, amaldiçoou a serpente, que havia sido o disfarce do diabo; maldição que alcançou o próprio animal e o anjo escondido nele, Satanás. E ao homem, [Deus] o expulsou da sua presença, mandando-o habitar então no caminho que conduz ao Jardim, pois o Jardim não admite o pecador.

Primeira experiência da ausência de Deus. Caim e Abel
17. Expulsos do Jardim, Adão e sua mulher, Eva, fizeram experiência de muitas tribulações físicas e espirituais, e viveram neste mundo na tristeza, na fadiga e nos lamentos. Sob os raios do sol, o homem arava a terra e essa lhe produzia, castigado pelo pecado, espinhos e ervas daninhas. Então se cumpriu a Escritura: “O homem conheceu Eva, sua mulher; ela concebeu e deu à luz Caim [...] depois ela deu também à luz Abel, irmão de Caim”. Mas o anjo rebelde, que induziu o homem à desobediência, tornando-o um pecador e causando-lhe a expulsão do Jardim, não satisfeito com a primeira empresa, arquitetou uma outra com relação aos irmãos. Caim, imbuído de seu espírito, se fez um fratricida. Abel morreu assassinado pelo irmão, vindo, assim, a significar que, dali para diante, alguns seriam perseguidos, atormentados e mortos, enquanto os malvados matariam e perseguiriam os justos. Por isso, Deus se encolerizou terrivelmente, amaldiçoou Caim, e, desde então, todos os descendentes na linha de sua sucessão foram semelhantes a seu progenitor. Deus, depois, fez com que Adão tivesse outro filho em substituição ao assassinato de Abel.

A mudança total dos valores humanos. Os gigantes e a arte da sedução
18. A maldade, que se expandiu continuamente, alcançou e inundou todo o gênero humano, a tal ponto que pouquíssimos traços de justiça sobreviveram entre os homens. Por isso, na terra ocorriam uniões ilegítimas: os anjos se uniam com a descendência feminina dos homens e [essas] deram à luz filhos que pelo extraordinário tamanho foram chamados gigantes. Então, esses anjos deram de presente às suas mulheres doutrinas perversas: ensinaram os poderes das plantas e das ervas, a arte das tintas e dos cosméticos, a descoberta das substâncias preciosas, os filtros mágicos, os ódios, os amores, as paixões, as seduções de amor, as cadeias mágicas, todo gênero de adivinhações e de idolatria odiados por Deus. Uma vez que entraram no mundo, o mal se expandiu até transbordar, e a justiça diminuiu até quase desaparecer.

O dilúvio
19. Por fim, quando veio sobre o mundo o justo juízo de Deus, na décima geração, contando desde o primeiro homem, unicamente Noé foi encontrado justo e, graças à sua própria justiça, foi salvo com sua mulher, seus três filhos e suas mulheres, colocados na arca com os animais que Deus havia ordenado a Noé nela introduzir. Quando a destruição se aproximava da terra, sobre os homens e os seres vivos, se salvaram apenas os que estavam na arca. Os três filhos de Noé eram Sem, Cam e Jafé, e sua estirpe voltou a multiplicar-se. Essa é a origem de todos os nascidos depois do dilúvio.

As bênçãos e maldições na família de Noé
20. Dentre os filhos de Noé, um deles caiu em maldição, enquanto os outros dois herdaram a bênção pelas suas obras. O mais jovem deles, de fato, chamado Cam porque riu dos seus pais, tornou-se culpado do pecado de impiedade por afrontar e ofender o pai, e atraiu a maldição que se transmite a toda a sua descendência. Resultou que toda a sua descendência foi amaldiçoada, e nesse pecado cresceu e se multiplicou. Ao contrário, Sem e Jafé, seus irmãos, pela piedade pelo seu genitor, obtiveram a bênção. Eis os termos da maldição lançada por Noé sobre Cam: “Maldito seja Canaã! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos”. Quando alcançou a idade adulta, Cam teve sobre a terra uma posteridade numerosa como uma floresta, desenvolvendo-se por quatorze gerações de descendentes, quando por Deus, em seguida, foi ceifada. De fato, os cananeus, os eteus, os farezeus, os eveus, os amorreus, os jebuzeus, os gergeseus, os sodomitas, os árabes, os habitantes da Fenícia, todos os egípcios e os lídios descendem de Cam, e caíram sobre a maldição, que se estende por longo tempo sobre aqueles ímpios.
21. Tal como a maldição seguiu o seu caminho, também a bênção se estendeu à posteridade dos que a receberam, cada qual segundo a sua ordem. Primeiramente, foi abençoado Sem com estas palavras: “Bendito seja Iahweh, o Deus de Sem, e que Canaã seja seu escravo!”. O efeito da bênção é este: Deus, Senhor do universo, tornou-se, por Sem, objeto privilegiado de sua piedade; a bênção se desenvolveu quando atingiu Abraão, que, na descendência de Sem, chega à décima geração segundo a ordem genealógica descendente. E é esta razão pela qual o Pai, Deus do universo, se compraz em ser chamado “Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó”, porque a bênção de Sem chagou até Abraão. A bênção de Jafé foi formulada da seguinte forma: “Que Deus dilate Jafé, que ele habite nas tendas de Sem, e que Canaã seja seu escravo!”. Essa bênção floresceu ao final desse período, quando o Senhor se manifestou às nações por seu chamado – pois Deus dilatou seu chamado até elas – e “por toda a terra sua linha aparece, e até os confins do mundo a sua linhagem”. Dilatar significa, pois, o chamado dentre as nações, a saber, a Igreja. E “habitar na casa de Sem” indica a herança dos patriarcas, por terem recebido de Jesus Cristo o direito de primogenitura. Desse modo, segundo a ordem da bênção, cada um recebeu, por meio da descendência, o fruto da bênção.

A Aliança universal
22. Depois do dilúvio, Deus estabeleceu um pacto de aliança com o mundo inteiro, em particular com os animais e com os homens, em virtude da qual jamais destruiria com um dilúvio o que refloresceria sobre a terra, e lhes deu um sinal: “Quando eu reunir as nuvens sobre a terra e o arco aparecer na nuvem, eu me lembrarei da aliança que há entre mim e vós e todos os seres vivos: toda carne e as águas não mais se tornarão um dilúvio para destruir toda carne”. [Deus] Mudou a comida dos homens, dando-lhes ordem de comer carne, pois, a partir da primeira criatura, Adão, até o dilúvio, os homens se alimentavam apenas de grãos e frutos das árvores; porém, o alimento da carne não lhes era permitido. Como os três filhos de Noé eram o princípio da raça dos homens, Deus os abençoou para que se multiplicassem e crescessem, dizendo: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra. Sede o medo e o pavor de todos os animais da terra e de todas as aves do céu, comei de tudo que se move pela terra e todos os peixes do mar: eles são entregues nas vossas mãos. Tudo o que se move e possui vida vos servirá de alimento, tudo isso eu vos dou, como vos dei as verduras das plantas. Mas não comereis
a carne com a sua alma, isto é, o sangue. Pedirei contas, porém, do sangue de cada um de vós. Pedirei contas a todos os animais e ao homem, aos homens entre si, eu pedirei contas da alma do homem. Quem derrama o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue derramado. Pois à imagem de Deus o homem foi feito”. E a imagem de Deus
é o Filho, de cuja imagem foi feito o homem. Por essa razão, [o Filho] se manifestou no fim dos tempos, “para demonstrar que imagem era semelhante a ele”. Depois dessa aliança, o gênero humano se multiplicou e se propagou a partir da
posteridade desses três filhos de Noé. E “havia, então, um só lábio na terra”, ou seja, uma só língua.

O que você destaca neste texto?
Como ele serviu para sua espiritualidade?


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

65 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 6-14)



65
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 6-14)


Os três artigos da fé
6. Eis a ordem da nossa fé, o fundamento do edifício e a base da nossa conduta: Deus Pai, incriado, incircunscrito, invisível, único Deus, criador do universo. Tal é o primeiro e principal artigo de nossa fé. O segundo é o Verbo de Deus, Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor, que apareceu aos profetas segundo o desígnio de sua profecia e segundo a economia disposta pelo Pai; por meio dele foi criado o universo. E no fim dos tempos, para recapitular todas as coisas, [o Verbo] se fez homem entre os homens, visível e tangível, para destruir a morte, para manifestar a vida e restabelecer a comunhão entre Deus e o homem. E como terceiro artigo, o Espírito Santo, de cujo poder os profetas profetizaram, e os Padres foram instruídos com relação a Deus, e os justos foram guiados no caminho da justiça, e que no fim dos tempos foi difundido de um modo novo sobre a humanidade, por toda a terra, renovando o homem para Deus.
7. Por isso, o batismo, nosso novo nascimento, tem lugar para estes três artigos, e nos concede renascer a Deus Pai por meio de seu Filho no Espírito Santo, porque os portadores do Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho, que é quem os acolhe e os apresenta ao Pai, e o Pai lhes dá a incorruptibilidade. Sem o Espírito, é, pois, impossível ver o Verbo de Deus, e sem o Filho, nada pode aproximar-se do Pai, porque o Filho é o conhecimento do Pai, e o conhecimento do Filho se obtém por meio do Espírito Santo. Mas o Filho, segundo a bondade do Pai, dispensa como ministro o Espírito Santo a quem quer, e como o Pai quer.
8. Se o Espírito chama o Pai, Altíssimo, Onipotente e Senhor das potências, é para nos ensinar que tal é Deus, isto é, criador do céu e da terra e de todo o universo, criador dos anjos e dos homens e Senhor de todos, por meio do qual tudo existe e é conservado com vida, misericordioso, compassivo, cheio de ternura, bom, justo, Deus de todos, dos judeus, dos gentios e dos crentes; porém, dos crentes é Deus Pai, porque, no fim dos
tempos, abriu o testamento da adoção filial; dos judeus, ao invés, é Senhor e legislador, porque, quando, nos tempos medianos, aqueles homens esqueceram Deus, afastando-se e rebelando-se com ele, os reconduziu à obediência mediante a Lei, a fim de que aprendessem que tinham um Senhor que é autor, criador e que dá o sopro de vida, ao qual devemos prestar culto dia e noite; dos gentios é criador, demiurgo e onipotente. Para
todos, sem exceção, é doador de alimento e comida, rei e juiz, porque nada escapará a seu juízo, nem judeu, nem gentio, nem nenhum crente que pecou, nem mesmo um anjo. Aqueles que no presente se negam a crer em sua bondade experimentarão no juízo o seu poder, como diz o Santo Apóstolo: “[...] desconhecendo que a benignidade de Deus te convida à conversão. Ora, com tua obstinação e com teu coração impenitente, acumulas contra ti um monte de ira, no dia da ira em que se revelará o justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras”. Este é Aquele que na Lei é chamado o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, Deus dos vivos. Desse Deus, é indescritível a sua transcendência e a sua magnitude.

A terra envolvida por sete céus
9. A terra é circundada por sete céus, nos quais residem inumeráveis potências, anjos e arcanjos, que rendem culto ao Deus onipotente, não como a qualquer um que tenha necessidade de culto, mas para não ficarem ociosos, inúteis e ingratos. Por isso, a presença do Espírito Santo é pluriforme, e é pelo profeta Isaías enumerada nos sete carismas recebidos pelo Filho de Deus, isto é, pelo Verbo, em sua vinda como homem. Com efeito, disse: “Sobre ele repousará o espírito de Iahweh, espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e fortaleza, [espírito de ciência], espírito de conhecimento e de temor de Iahweh”. O primeiro céu, então, a partir do alto, que compreende todos os outros, é a sabedoria; o segundo é a inteligência; o terceiro é o conselho; o quarto, em linha descendente, é a fortaleza; o quinto é a ciência; o sexto é a piedade; o sétimo, o nosso firmamento, é cheio do temor deste Espírito, que ilumina os céus. Segundo esse esquema, Moisés recebeu o candelabro de sete braços continuamente aceso no Santuário. De fato, ordenou a liturgia segundo esse esquema celeste, como lhe disse o Verbo: “Vê, pois, e faze tudo conforme o modelo que te foi mostrado sobre a montanha”.

O papel dos seres do cosmo
10. Esse Deus, então, é glorificado pelo seu Verbo, que é o Filho eterno, e pelo Espírito Santo, que é a Sabedoria do Pai do universo. As suas potências, isto é, desse Verbo e dessa Sabedoria, chamadas também Querubins e Serafins, glorificam a Deus com cantos incessantes, e todo o aparato celeste tributa glória a Deus, Pai do universo. Ele, com o Verbo, fez existir o mundo inteiro e, desse modo, são incluídos os anjos; ao mundo inteiro foram fixadas leis, para que cada qual fique no seu lugar e não saia do limite estabelecido por Deus, cada qual cumprindo a obra que lhe foi confiada.

A criação do homem
11. Deus criou o homem com as suas mãos, tomando da terra o que existia de mais puro e mais fino, e misturando na medida certa a sua potência. De fato, traçou sobre esse composto o seu próprio perfil, de modo que o que seria visível levasse a imagem divina, porque, como imagem de Deus, o homem foi plasmado e colocado na terra. E a fim de que se tornasse ser vivo, lhe soprou sobre o rosto o hálito vital, de modo que, no espírito e no físico, o homem fosse semelhante a ele. [O homem] foi criado por Deus livre e autônomo para dominar todos os seres da terra. Este mundo criado, preparado por Deus antes de plasmar o homem, foi dado ao homem como seu território com todos os bens que continha. Em tal território agiam, cada qual segundo as próprias tarefas, os servos daquele Deus que criou todas as coisas; nisso dominava o regente e cabeça que foi constituído chefe dos servos seus iguais; os servos eram os anjos, enquanto o regente e cabeça era um arcanjo.

O Paraíso de luz
12. O homem feito o dono da terra e de quanto nela se encontra, secretamente [Deus] o fez dono dos servos que existiam. Estes estavam em pleno desenvolvimento, enquanto o dono, isto é, o homem, era pequeno, porque menino, e devia crescer para atingir o estado adulto. A fim de se nutrir e se desenvolver com gozo e alegria, lhe foi preparado um lugar, o melhor deste mundo, privilegiado pelo ar, pela beleza, pela luz, pela comida, pelas plantas, pelos frutos, pelas águas, e por todas as outras coisas necessárias à vida. Esse lugar se chamava Jardim. Assim, tão belo e agradável era o Jardim, que o Verbo de Deus ia lá habitualmente, passeava e se entretinha com o homem, prefigurando o que aconteceria no futuro, isto é, que seria seu concidadão e conversaria com ele, e habitaria com os homens, ensinando a sua justiça. Mas o homem era menino e o seu senso de
razão não estava ainda desenvolvido. Assim, foi facilmente enganado pelo sedutor.

Eva, a imagem perfeita de Adão
13. Então, Deus conduziu diante de Adão, que estava passeando no Jardim, todos os animais, e lhe ordenou dar um nome a cada qual, embora ele se chamasse Adão, um ser vivo, tal era o seu nome. Deus decidiu também criar uma auxiliar para o homem, dizendo: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda”. Entre todos os viventes, não foi encontrado um ajudante igual, comparável e similar a Adão. Deus, então, fez descer sobre Adão um êxtase e o adormeceu e, para realizar uma obra que derivasse de outra obra, foi induzido sobre Adão, por vontade de Deus, aquele sono que não existia no Paraíso. [Deus] tomou, então, uma costela de Adão, preencheu de carne o vazio criado e, com a costela extraída, fez a mulher, que conduziu a Adão. Esse, vendo-a, exclamou: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada ‘mulher’, porque foi tirada do homem”.

O casal ideal
14. Adão e Eva – esse é o nome da mulher – estavam nus e sem vergonha, porque os seus pensamentos eram inocentes e infantis, e não tinham ideia ou imagem que são gerados na alma pelo mal, cúmplice da concupiscência, e pelas paixões. Viviam, de fato, na integridade, conservando o seu estado natural, porque o que foi insuflado no seu plasma era hálito vital. Ora, até quando durou e perseverou aquele sopro, com sua ordem e seu vigor, não imaginavam ou pensavam coisas ignóbeis. Por tal motivo, não se envergonhavam de beijar-se e abraçar-se com infantil inocência.

O que você destaca neste texto?
Como ele serviu para sua espiritualidade?

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

64 - Irineu de Lyon (130-202) Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 1-5)


64
Estudo sobre os Pais da Igreja: Vida e Obra
Irineu de Lyon (130-202)
Demonstração da Pregação Apostólica (Cap. 1-5)



Introdução a Demonstração da Pregação Apostólica
A Demonstração foi escrita em 180 e é dirigida a tal Marciano e, assim, aparentemente epistolar, é uma equilibrada composição entre catequese e apologia, um “catecismo superior”.
Está organizada em duas partes. Depois de um breve endereço e de uma introdução (cc. 1-3), a Primeira Parte (cc. 4-41) é dedicada à História da salvação: Deus e a criação, o pecado do homem e a misericórdia de Deus, e a realização da salvação através de Jesus Cristo.
A Segunda Parte (cc. 42-97) é a demonstração propriamente dita, ou seja, Irineu demonstra, através dos textos do Antigo Testamento, a realização da História da salvação. Nessa Parte, são abordadas: a preexistência e a encarnação do Logos, o Filho de Deus, as profecias sobre Jesus e o seu cumprimento, e a Igreja como cumprimento das profecias messiânicas.
Há uma conclusão (cc. 97-100) que contém advertências de como se vive a fé, em oposição às heresias e aos incrédulos.
Percebe-se, na Demonstração, portanto, que Irineu quer, de fato, “demonstrar” a pregação recebida da geração apostólica, especialmente através da releitura cristã do Antigo Testamento, visando formar o cristão adulto. Temos nas mãos, verdadeiramente, um “catecismo superior”. Nele, exara a segurança da fé em Cristo na perspectiva da história da salvação, a consciência de pertença à Igreja e o entusiasmo catequético – apologético e evangelizador – do santo bispo de Lyon.

Demonstração da Pregação Apostólica

O Caminho da vida
1. Conheço, caro Marciano, a tua diligência a caminhar no caminho da piedade, que só conduz o homem à vida eterna; me alegro e rezo para que, conservando pura a fé, tu sejas agradecido a Deus, teu Criador. Podíamos estar sempre juntos para nos ajudarmos mutuamente a aliviar as preocupações da vida terrena como uma troca contínua de pensamentos sobre temas úteis. Como estamos fisicamente longe um do outro, decidimos, nos limites do possível, nos entreter por escrito, e te expor brevemente a pregação da verdade, para que te consolides na fé. O que te enviamos é uma série de anotações sobre pontos fundamentais do corpo da verdade; e que, com este compêndio, tenhas à mão as provas das realidades divinas. Assim, o resultado servirá não apenas à tua salvação, mas também à confutação daqueles que cultivam falsas opiniões, e a quem o quer conhecer, tu exporás com segurança o nosso ensinamento na sua integridade e pureza. De fato, para aqueles que veem, não existe senão uma estrada em ascensão, iluminada pela luz celeste; mas para aqueles que não veem, as estradas são muitas, sem iluminação e descendentes. A primeira estrada conduz ao Reino dos Céus e une o homem a Deus; as outras estradas conduzem à morte e se afastam de Deus. Portanto, para ti e para quem tem no coração a sua salvação, é necessário caminhar na fé, sem desviar, com coragem e determinação, para evitar que, faltando tenacidade e perseverança, não se entreguem aos prazeres materiais ou que, errando a estrada, se
afastem do reto caminho.

Fé e obras
2. Como o homem é um ser vivente, composto de alma e corpo, necessita agir segundo esses dois componentes. E porque as ocasiões de queda provêm de ambas as partes, existe uma santidade do corpo, que é a continência de todas as coisas descaradas e de toda ação iníqua, e uma santidade da alma, que conserva intacta a fé em Deus, sem acrescentar ou tirar nada. Por isso, a piedade é manchada e perde a sua candura quando é contaminada pela impureza do corpo; se rompe, se macula e se desintegra quando o erro entra na alma; [mas] se manterá a beleza e a justa medida se a verdade permanece constantemente na alma e na santidade do corpo. Mas a que serve conhecer a verdade através das palavras, se se profana o corpo e se se realizam ações degradantes? Qual vantagem haverá ao conservar realmente a santidade do corpo se a verdade não está na alma? Ambas, de fato, devem estar juntas, são aliadas, e combatem lado a lado para conduzir o homem à presença de Deus. Por esse motivo, o Espírito Santo, através de Davi, diz: “Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios, não para no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores”. “Conselho dos ímpios” significa o conselho dos povos que não conhecem a Deus; de fato, “ímpios” são aqueles que não veneram aquele que é Deus por natureza. Por isso, o Verbo disse a Moisés: “Eu sou aquele que é”. Dessa forma, aqueles que não veneram aquele que verdadeiramente é, são ímpios. “[Aquele que] não anda pelo caminho dos pecadores”. “Pecadores” são aqueles que, mesmo que conheçam a Deus, não observam os mandamentos, as pessoas que vilipendiam a Deus. “Nem toma parte [na cátedra] nas reuniões dos zombadores [cínicos]”. Cínicos são aqueles que, com doutrinas falsas e perversas, corrompem não somente a si próprios, mas também outros. A “cátedra” é, de fato, símbolo da escola. Tais são os hereges, “tomam parte na cátedra dos cínicos” e levam à corrupção aqueles
que tomam o veneno de suas doutrinas.

A regra da fé e as consequências para o crente
3. Ora, pelo temor de qualquer coisa de similar, nós devemos manter inalterada a Regra da Fé e cumprir os mandamentos de Deus crescendo nele, temendo-o como Senhor, e amando-o como Pai. Tal comportamento, então, é uma conquista da fé, pois, como diz Isaías: “Se não crerdes, não vos mantereis firmes”.
 A fé é dada pela verdade, pois a fé se funda sobre a verdade. De fato, nós cremos no que realmente é, e como é; e, crendo no que realmente é, como sempre é, manteremos a nossa firme adesão. Ora, como a fé sustenta nossa salvação, é necessário dar muita atenção para obter uma verdadeira inteligência da verdade. É a fé que nos mostra tudo isto como nos comunicaram os presbíteros, discípulos dos apóstolos. Antes de tudo, a fé nos convida com insistência a recordar que recebemos o batismo para a remissão dos pecados em nome de Deus Pai e em nome de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado, e no Espírito Santo de Deus; que o batismo é o selo da vida eterna, o novo nascimento em Deus, de modo que já não somos mais filhos de homens mortais, mas de Deus eterno e indefectível; que o Eterno e o Indefectível é Deus, acima de todas as criaturas, e que cada coisa, de qualquer espécie, está sujeita a ele, e o que está sujeito a ele foi por ele criado. Deus, por isso, não exercita o seu poder e a sua soberania sobre o que pertence a outros, mas sobre o que é seu. E tudo é de Deus. De fato, Deus é onipotente, e tudo provém dele.

I – A Catequese dos Apóstolos (cc. 4-41)

Deus na origem do mundo
4. Por isso, é necessário que as coisas criadas tenham por princípio uma qualquer grande causa, e o princípio de tudo é Deus. Ele não deriva de algo, enquanto por ele foi criado cada ser. Por isso, é necessário, antes de tudo, admitir que existe um só Deus Pai, que criou e pôs em ordem o conjunto dos seres, e fez existir o que não existia e que, circunscrevendo o universo, é o único a não ser circunscrito. No complexo das coisas criadas, existe este nosso mundo e, no mundo, o homem. Então, também este mundo foi criado por Deus.

A ação do Verbo e do Espírito Santo no cosmo
5. Assim, então, se demonstra um só Deus, Pai, incriado, invisível, criador do universo, acima do qual não existe Deus, como não existe depois dele. Deus é racional e, por isso, todos os seres foram criados pelo seu Verbo; Deus é Espírito e, assim, ordenou todas as coisas, como diz o profeta: “O céu foi feito com a palavra de Iahweh, e seu exército com o sopro de sua boca”. Ora, como o Verbo “estabelece”, é aquele que cria e consolida tudo o que existe, e o Espírito ordena e dá forma às diversas “potências” justamente com propriedade de linguagem, o Verbo é chamado Filho e o Espírito Sabedoria de Deus. Paulo diz a esse propósito: “Há um só Deus Pai de todos, que está acima de todos, por meio de todos e em todos”. Então, o Espírito mostra o Verbo; os profetas, por sua vez, anunciaram o Filho de Deus, mas o Verbo liga a si o Espírito, e por isso é ele que comunica aos profetas a mensagem, e eleva o homem ao Pai.

O que você deseja destacar no texto?
Como ele foi útil para sua espiritualidade?